(2018) Inside Seguir história

alicealamo Alice Alamo

A voz de Izuku soou baixa, distante e cansada, como havia se repetindo por todo aquele mês. Katsuki não respondeu. Sentado no sofá, trocou propositalmente o canal a que assistia, Deku não precisava saber que o estava acompanhando pelos noticiários, não podia deixar muito exposto sua preocupação porque tinha certeza que que Deku começaria a esconder seu cansaço e suas preocupações se desconfiasse que o estava preocupando demais. Mas não havia como não se preocupar. Eram heróis profissionais há alguns anos já e, justo agora que o mundo parecia enfim estar em paz e livre das ameaças do passado, Deku entrara em conflito com o One for All. As vozes dos antigos portadores começaram a se manifestar na cabeça dele, tirando não só o sono, mas ameaçando também a sanidade de Deku, e Bakugou faria o possível para chutá-las para fora ou dar um jeito de calá-las.


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas.

#midoriya #bakugou #katsudeku #bakudeku #lemon #yaoi #bnha #bokunohero
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Capítulo Único


— Cheguei.

A voz de Izuku soou baixa, distante e cansada, como havia se repetindo por todo aquele mês. Katsuki não respondeu. Sentado no sofá, trocou propositalmente o canal a que assistia, Deku não precisava saber que o estava acompanhando pelos noticiários, não podia deixar muito exposto sua preocupação porque tinha certeza que que Deku começaria a esconder seu cansaço e suas preocupações se desconfiasse que o estava preocupando demais.

Mas não havia como não se preocupar. Eram heróis profissionais há alguns anos já e, justo agora que o mundo parecia enfim estar em paz e livre das ameaças do passado, Izuku entrara em conflito com o One for All. A primeira vez que o problema ocorreu tinha sido durante um treinamento, dentro dos campos da UA e sob os olhares de All Might e Aizawa. Lembrava-se perfeitamente do pânico nos olhos de Deku quando ele parou o soco no meio do caminho e recuou, assustado, segurando a cabeça entre as mãos. A atitude chamou a atenção dos antigos professores, mas foi Katsuki o mais rápido a se aproximar de Izuku.

— Que merda foi essa? Ta me subestimando, nerd? Por que não atacou?!

Normalmente, Deku sorriria sem graça e se desculparia, voltariam ao treino sem perder mais tempo e aquilo seria logo esquecido. Mas não daquela vez. Deku segurava a própria cabeça, trêmulo, os olhos arregalados antes de encará-lo. Katsuki franziu o cenho, notando que havia algo errado, e por isso amenizou o tom ao perguntar desconfiado:

— Que foi? O que aconteceu?

— As vozes…

— Midoriya-shounen! — All Might chamou, parando ao lado deles e analisando Izuku com atenção.

— As vozes… elas estão falando comigo…

— Vozes? — Bakugou franziu o cenho e olhou para All Might, impaciente pela explicação.

— Dos outros portadores do One for All — Aizawa explicou. — All Might, leve o Midoriya daqui para conversarem melhor sobre isso. Bakugou, terá de aparecer comigo na entrevista de hoje.

— O quê? Eu vou junto com esse nerd, quero saber que merda que aconteceu ali.

— Vocês moram juntos, Bakugou, terão tempo para conversar.

— Escuta aqui, eu-

— Kacchan — Midoriya chamou, e Bakugou cerrou a mandíbula ao olhá-lo, a postura rígida pedindo em vão que Deku não o afastasse, que não mentisse como fez em seguida. — Ta tudo bem. Te encontro depois da entrevista para voltarmos juntos.

No dia, a vontade de responder não foi grande, queria ir junto e entender o que tinha acontecido. Nunca havia visto tanto pânico nos olhos de Deku antes, as mãos dele ainda tremiam mesmo enquanto se afastava e “ta tudo bem” era o inferno! A expressão séria de Aizawa deixava claro que “bem” era a única coisa que não estava.

Havia se passado quatro meses desde a primeira vez que as vozes dos antigos portadores se manifestaram. All Might não soube como ajudar, nunca tinha passado por algo semelhante, e Gran Torino também não tinha ideia do que aquilo podia significar. As vozes incomodavam Deku, falavam todas juntas, tentavam aconselhá-lo ao mesmo tempo em que davam suas próprias opiniões, não lhe deixavam dormir direito e agora tentavam influenciar nos julgamentos dele.

Tinha medo de que ele enlouquecesse. Era como ter várias pessoas dentro da própria mente sem poder mandá-las se calar. E, ah, como Katsuki queria mandá-las calar a porra da boca! Acabava por acompanhar mais os noticiários e até mesmo pedir para ser enviado aos mesmos chamados que Deku, assim sempre estaria perto para protegê-lo. Não que ele precisasse de proteção! Mas, se ele hesitasse como no treino, se as vozes o confundissem, se ele não conseguisse lutar devido à exaustão… eram tantas possibilidades!

Ouviu os passos leves pela cozinha, a porta da geladeira sendo aberta e depois fechada, o suspiro de Deku enquanto se aproximava da sala. Não se virou, mas sentiu o sofá afundar e não estranhou quando Deku deitou de bruços nele, apoiou a cabeça em suas coxas e buscou sua mão para colocá-la sobre os próprios cabelos. Ele cheirava a sabonete, trazia uma sensação fresca ao ambiente, e a pele gelada denunciava o hábito recente de tomar o banho frio após o trabalho.

— Dia ruim? — perguntou, sem resistir a afundar os dedos nas mechas esverdeadas ainda úmidas.

Izuku suspirou, balançou a cabeça em afirmativa e relaxou aos poucos conforme Katsuki acariciava seus cabelos e arrastava as unhas curtas em sua nuca. Aquilo era bom e contraditório. Era estranho achar paz em alguém tão explosivo quanto Bakugou, mas era o que acontecia. Deitar no colo dele enquanto sentia o carinho em seu cabelo o fazia relaxar, como se seus sentidos todos se acalmassem, como se somente ali com o outro se sentisse seguro para baixar a guarda. Nas últimas semanas, havia viajado com All Might em busca de respostas e, por consequência, não conseguia dormir, era uma luta para que a mente se calasse por completo e o deixasse descansar.

— Deku, desembucha logo.

— Teve um resgate.

— E?

— As vozes incomodaram.

— Incomodaram como?

Deku apertou sua coxa, escondendo o rosto de forma inconsciente, os músculos enrijecendo e trazendo um péssimo pressentimento ao outro.

— Deku, desembucha de uma vez, caralho!

— Elas estão começando a querer mandar em mim — sussurrou, a voz hesitante e tão fraca que Katsuki estreitou o olhar e desligou a televisão.

— Mandar em você? Como assim?

— Ficam gritando ordens, competindo entre si, falando qual a melhor solução, julgando as minhas escolhas, apontando meus erros, lembrando todos que não consegui salvar… todos… um por um...

— Contou para All Might?

— Sim… — sussurrou.

— Salvar todos é utopia, você sabe disso.

— Sim…

— Eles também eram heróis, eles também falharam, não têm direito de falar de você.

— Eu sei…

Katsuki respirou fundo, não era alguém paciente nem com muito tato, e aquilo o irritava profundamente, mas sabia que não adiantava cobrar algo de Deku naquele momento, sentia a exaustão dele e odiava com todas as forças aquela expressão de derrota que ele tentava esconder.

Levou as mãos ao rosto e arregalou os olhos em surpresa quando Izuku reagiu gritando no mesmo momento:

— Não!

A voz saiu alta, desesperada, e Katsuki não escondeu a confusão ao ver Deku de repente sentado de frente para ele, as mãos segurando as suas, os olhos arregalados enquanto engolia em seco.

— Não… Continua… por favor.

— Deku…

— Elas param… quando estou com você e você me toca, elas param.

— O quê?

— Eu não sei… elas só param — ele explicou, cansado, e soltou as mãos de Katsuki. — Sem encostar em você, elas ainda falam, baixo, mas falam, eu ignoro boa parte do tempo, mas é como um zumbido que nunca vai embora. Mas eu percebi que, quando dormimos juntos, toda vez que você me abraçava ou me puxava para deitar em cima de você, elas só se calavam e aí eu conseguia dormir. — Balançou a cabeça de um lado para o outro e começou a verbalizar depressa as teorias e possibilidades como sempre fazia quando precisava achar uma estratégia. — Eu tentei achar um padrão, pensei em todas as variáveis, já falei pro All Might e foi por isso que você começou a ir mais comigo nas missões. Isso funcionou um pouco, mas é ficar te expondo ao perigo sempre, então eu tentei achar algo que imitasse esse efeito, pensei que talvez não fosse o toque e sim a presença e tentei levar comigo coisas que lembrassem você, mas isso só amenizou, só diminuiu o volume. Estão pesquisando se você tem alguma influência sobre mim, se tem a ver com o fato de nos conhecermos desde antes ou se-

— Desacelera, Deku! — interrompeu ao tapar a boca dele com a mão, olhá-lo nos olhos e então falar mais calmo e devagar. — Respira fundo, seu nerd maldito, e se acalma. Ok? Se acalma...

Os olhos verdes estavam úmidos, Katsuki via o cansaço e a frustração deles e por isso esperou que Deku se acalmasse antes de puxá-lo para seu colo. O corpo veio fácil, sem resistência, e Katsuki o acomodou melhor, deitando a cabeça de Izuku em seu ombro enquanto afundava de novo os dedos no cabelo dele até que sentisse a respiração ficar mais leve.

— Elas estão falando alguma porra agora?

— Não.

— Elas escolhem se calar ou são obrigadas a isso?

— Não sabemos. Aizawa acredita que são obrigadas. Que elas tentam me influenciar, mas que sua presença as cala porque minha mente se ocupa só com você. Ele disse que elas não conseguem competir porque você sempre foi alguém que me influenciou, desde sempre, seja por admiração, medo ou agora que estamos juntos — explicou, e Katsuki estalou a língua no céu da boca.

— Elas já falaram de mim ou sobre os momentos quando ficamos juntos e elas não podem falar?

— Não. Nunca — sussurrou contra o pescoço de Katsuki, o corpo relaxando de tal forma nos braços do outro que quase o fazia acreditar que o problema todo havia desaparecido.

— Vamos achar um jeito. Irá folgar amanhã, não é?

— Sim.

— Então, descanse.

— Queria passar um tempo com você hoje...

— Você está no meu colo se não percebeu, nerd, e, até onde sei, dormimos na mesma cama.

— Você me entendeu, Kacchan…

Katsuki sorriu e segurou o queixo de Deku entre o indicador e o polegar antes de erguê-lo para poder encostar os lábios. Sentiu o toque da mão quente de Deku em seu rosto, gostava do carinho que o polegar dele fazia em sua face enquanto os lábios se abriam e lhe permitiam aprofundar um pouco o beijo.

Deku era teimoso, sempre tinha sido, e isso o irritava. Já haviam passado por uma situação similar, sabia no que resultaria se continuasse. Não adiantava o quão delicado se forçasse a ser, a exaustão de Deku não era apenas física, era muito mais psicológica e não seria sexo que o faria se sentir melhor. Pelo contrário, ele choraria assim que percebesse que prazer algum era capaz de levar embora todas as suas preocupações; ele era bom demais, herói demais, nerd demais para conseguir deixar de lado suas responsabilidades. E Katsuki aprendia rápido, não era de repetir os erros, e, por isso, apenas o beijou, devagar, as mãos nas costas e na nuca de Deku de forma a deixar claro que não o deixaria escapar, que estava seguro ali. Como esperado, sentiu o salgado das lágrimas em meio ao beijo, o tremer das mãos em seus cabelos, o apertar do abraço como se ele fosse uma âncora a que Deku precisasse se agarrar com urgência.

Doía… ver Deku daquela forma lhe doía como ele nunca imaginou que pudesse ser possível, trazia a sensação amarga da impotência que ele tentava afastar a cada beijo que correspondia, a cada lágrima que secava.

— Hey, nerd — sussurrou, contra os lábios dele.

— O quê?

Katsuki segurou o rosto dele entre as duas mãos e selou os lábios mais uma vez tentando ser delicado, embora tivesse que contar mais com o quanto Deku o conhecia para que essa delicadeza fosse notada.

— Está tudo bem. Sabe por quê?

Izuku piscou lentamente, afastou-se para poder olhar nos olhos de Katsuki e sorriu fraco enquanto voltava a sentir as lágrimas escorrerem.

— Por quê, Kacchan? — sussurrou, ainda que soubesse de cor a resposta e ela lhe tirasse um sorriso nostálgico.

— Porque eu estou aqui — falou, firme. — E vou continuar aqui. Se sou a merda de um escudo para essas porras que não calam a boca, só preciso ficar perto de você.

— Mas Kacchan…

— Mas nada. Já te disse isso, nerd, eu vou ser o herói número um, e não tem como ser o número um sem conseguir manter quem amo a salvo. Vou te manter seguro, até acharmos um jeito definitivo de calar essas merdas na sua cabeça, vou servir de bloqueio e garantir que você volte para casa inteiro e são.

Izuku fechou os olhos e encostou a testa na de Katsuki enquanto permitia enfim que o choro se extravasasse. Não demorou para que adormecesse, e Katsuki já estava esperando por isso depois de todo o choro. Pegou-o no colo depois de verificar as mensagens no celular e contatar All Might. Tinha uma ideia, mas precisava da equipe de suporte para ver se havia como botá-la em prática, mas, enquanto isso, precisava que Best Jeanist o liberasse para fazer missões sempre ao lado de Deku.

Caminhou até o quarto que dividiam, reparando o quanto Deku havia crescido nos últimos anos, em nada lembrava mais o garoto franzino de quem tirava sarro na infância. Eles haviam crescido, haviam mudado. Deku trabalhara o físico para lidar com o One for All enquanto que ele… bem, ele havia crescido em outro quesito. Tinha largado a vaidade e parte da arrogância, aprendera o peso de suas palavras e o quanto elas às vezes feriam mais que suas explosões, e Best Jeanist havia sim conseguido, a muito custo, enfiar um pouco de educação e respeito em sua cabeça.

Colocou Deku na cama e teve medo de que, quando o soltasse, as vozes voltassem e o fizessem acordar. Aquilo seria complicado... Puxou o computador para perto, a atenção voltada a Deku para saber se ele de fato acordaria ou mostraria algum sinal de desconforto agora que não o tocava. Sentou-se com as costas na cabeceira e manteve Deku à sua esquerda, a mão sobre o cabelo dele enquanto digitava o que precisava pesquisar com a direita. Talvez, Todoroki pudesse ajudá-los, o maldito meio a meio tinha acesso aos recursos de Endeavor, da equipe de suporte dele, e duvidava que ele se recusasse a ajudar Deku se pedisse. Mas odiava ter que pedir algo, ainda mais a ele…

Espiou pelo canto do olho Deku dormir tranquilo, e a possibilidade de que aquilo se tornasse uma cena cada vez mais rara o fez pegar o telefone e digitar uma mensagem rápida e simples para Todoroki: “Deku precisa de ajuda. Amanhã, meio dia, UA”. Enviou e revirou os olhos quando a resposta veio quase que instantânea: “Ok”.

Tinha que raciocinar agora, precisava pesquisar alguns detalhes sobre alguns heróis de que se lembrava para poder rascunhar sua ideia com a equipe de suporte e ver se era mesmo algo viável. Agradeceu mentalmente a Momo pela ideia de digitalizar os cadernos de anotações de Deku e criar uma pasta com a lista de heróis, vilões e suas individualidades. Sorriu de canto, em parte triste por lembrar que um dia já desfizera daqueles rascunhos, em parte orgulhoso e admirado por Deku persistir e nunca ter desistido.

Demorou para ler tudo, e isso considerando que era inteligente o bastante para excluir boa parte dos nomes que sabia que não lhe ajudariam em nada. Ainda assim, era muita coisa para pesquisar, analisar, anotar, e o medo do fracasso criava uma pressão esmagadora ao seu redor.

Não podia falhar, não com Deku, nunca com ele.

Os malditos pássaros com um ninho bem em frente à janela do quarto anunciaram a manhã que, para ele, podia ter feito o favor de se atrasar mais um pouco. Agradeceu ao fato de ter se lembrado de fechar as cortinas e não ter a luminosidade entrando no ambiente quando fechou o notebook e se levantou para pegar água na cozinha. Quando voltou, engoliu em seco, o peito apertado em agonia enquanto Deku se remexia nos lençóis em um aparente pesadelo.

Dois minutos e trinta e dois segundos. Katsuki havia feito questão de cronometrar o tempo. Em menos de três minutos, as vozes já tinham voltado a se manifestar na mente de Deku a ponto de fazê-lo abrir os olhos sonolento e resmungar um suplicante “calem a boca” ao puxar o travesseiro sobre a cabeça.

Deitou-se ao lado dele e o puxou para seus braços. Recebeu um suspiro aliviado de volta e deixou os lábios fazerem uma pressão gentil no topo da cabeça de Deku enquanto o assistia adormecer novamente.

Precisava fazer algo, de fato precisava…

* * *

Izuku acordou com uma felicidade genuína por reconhecer o calor dos braços que o envolviam, o cheiro quente da pele de Katsuki, o conforto que acalentava seu coração e, principalmente, o silêncio em sua cabeça. A respiração de Katsuki era calma, serena, como pouco se via em dias normais. Gostava de ouvi-la, de senti-la contra o topo de sua cabeça bagunçando-lhe os cabelos.

Levantou-se resignado, queria tomar um banho, e o fez depressa, ignorando as vozes que agora zombavam de sua atitude. Eram heróis, não eram pensamentos ruins ou perigosos, mas, ainda assim, eram vozes em sua mente que conversavam entre si, brigavam, traziam memórias, emoções, ressentimentos e mágoas que não lhe pertenciam.

Voltou ao quarto e reparou que Katsuki já não estava lá, provavelmente deveria ter ido ao outro banheiro. Sentou-se na cama, havia uma música infantil que ele repetia como forma de distrair as vozes, uma música que se lembrava de cantar com Katsuki na escola quando menores, antes das individualidades de todos, exceto a sua, começarem a aparecer.

— Que sorriso é esse?

Izuku ergueu a cabeça e viu Katsuki caminhar até com um pouco mais depressa que o usual, a mão dele logo tocou seu pescoço enquanto ficava à sua frente na cama, e ele sorriu ao perceber no silêncio de sua mente a preocupação do outro.

Amava-o. Muitos podiam rir ou chamá-lo de louco por escolher permanecer com alguém tão explosivo quanto o famoso Bakugou, mas era impossível evitar. Diferente de si, ele não demonstrava sua preocupação e seu afeto aos quatro ventos, estava tudo sempre nos detalhes, no toque quente da mão para livrá-lo das vozes, na expressão insatisfeita que entregava o quanto estava preocupado com a situação, no deslizar do polegar sobre sua pele num carinho discreto. Queria-o… Sentia falta dos toques brutos, dos beijos exigentes, da tempestade que era rolar nos lençóis com Katsuki.

Viu-o arquear a sobrancelha e então sorrir de canto ao inclinar a cabeça para o lado.

— Está ficando vermelho, nerd. Que tipo de merda essas vozes estão sussurrando nessa sua cabeça?

— Já disse que elas não falam quando está me tocando — Deku rebateu, ainda mais vermelho e sem graça por ser pego.

— Ah… então é você mesmo que está pensando besteira? Quem diria… e ainda acham que você é inocente — Katsuki provocou, vendo Deku arregalar os olhos e abrir a boca afoito para negar. Segurou o rosto dele entre as mãos e inclinou-se para beijá-lo antes que ele começasse, mais uma vez, a gaguejar uma explicação sem sentido.

Irritou-se, mas não desgostou do modo desesperado com o qual Deku se agarrou a ele enquanto o beijava. A irritação vinha do fato de saber que não era somente desejo que o fazia buscá-lo com tanta vontade, era impossível ficar bem ciente de que Deku estava mal àquele ponto. Ainda assim, não tinha como desgostar da atitude, o pouco de arrogância que ainda cultivava se deliciava por saber que o outro o amava tanto e que se sentia seguro consigo.

Suspirou, a boca de Deku era quente, e ele amava isso, combinava com a sua, trazia um calor novo ao seu corpo que ele nunca esperaria vir de outra pessoa. As mãos dele, tão calejadas já dos treinos e das lutas, pareciam perdidas, como sempre. Deku tinha uma afobação característica… Enquanto ele tocava o outro com pressa, mas ciente de cada passo que dava, Deku parecia não saber o que fazer; pelo menos, havia sido isso que tinha pensado no começo… Arfou, afastando-se para encarar o rosto ofegante de Deku enquanto as mãos dele arrastavam-se por suas costas, nuca, braços e então costas de novo, inquietas. Os olhos verdes tinham desejo ao buscar de novo sua boca e o puxar para a cama, ficando então de quatro sobre Deku.

Não era que o nerd não soubesse o que estava fazendo, era só a maldita mania dele de querer abraçar o mundo com as mãos, de querer tocar, sentir e provar tudo ao mesmo tempo, como se o mundo fosse acabar em pouquíssimo tempo. Aprendera a gostar daquilo. A intensidade com que Deku parecia requisitá-lo fazia seu coração bater de um jeito alucinado, como nenhuma luta antes havia feito, como nunca tinha imaginado que pudesse sentir. Deixava-se levar, era facilmente influenciado por ele e, quando via, já o tocava da mesma forma, contagiado por aquele desespero e arrancando-lhe as roupas como se fossem de papel.

— Kacchan! — Deku gemeu quando sua língua se arrastou pelo pescoço dele antes que o mordesse com uma força que sabia que o outro gostava.

Sentiu o ar mudar, quase podia sentir a eletricidade que percorria os músculos de Deku quando sua individualidade se manifestava, e xingou-o entre o beijo quando sua camisa foi rasgada sem querer pelo descontrole da força com que Deku a puxava. Empurrou-o de vez contra a cama, sentando-se sobre a ereção já marcada no moletom, e livrou-se da camisa estragada. Rebolou ao se inclinar novamente, a mão segurando com força o queixo de Deku enquanto mantinha uma boca sobre a outra sem tocá-las.

— O que você quer hoje? — perguntou, apesar de conhecer Deku bem o bastante para saber como a mente dele funcionava.

— Você. — Ouviu-o sussurrar, o rosto corado ao segurar sua mão e levar dois de seus dedos à boca, a língua serpenteando entre eles e deixando a saliva escorrer.

— Saudades de me sentir te fodendo, nerd? — Sorriu de forma perigosa, os dedos brincando com a língua dele de modo insinuante.

Um arrepio desceu até sua ereção, que endureceu ainda mais quando Deku resolveu chupar seus dedos antes de responder baixo e sem graça:

— Sim…

Retirou os dedos da boca de Deku e voltou a segurar-lhe o rosto com força antes de o beijar. Os dentes arranharam de leve os lábios inchados, e Katsuki se aproveitou para arrastar a boca até o ouvido do outro enquanto a mão se agarrava aos fios esverdeados.

— Sim? — Riu, maldoso, e chupou o lóbulo da orelha dele quando viu a pele se arrepiar e o corpo de Deku tremer excitado. — Por que não me mostra então o quanto quer meu pau em você? Hum? De quatro, Deku, mostra pra mim.

Havia certo prazer em ver o corpo de Deku se contrair sob o seu, em ver-lhe o rosto tingido de vermelho mesmo que o corpo dele mostrasse por inteiro o quanto apreciava toda aquela situação. Não existia hesitação em lhe obedecer, e era isso que lhe dava a certeza de que estava tudo bem, que Deku queria tanto aquilo quanto ele; não havia medo ou insegurança, apenas uma vergonha fruto da mente sempre simplória, educada e puritana demais do outro.

Não se afastou, apenas ergueu o quadril para que Deku pudesse girar e ficar de bruços na cama. Sentou-se sobre o quadril dele e se inclinou sobre o corpo, mordeu-lhe a nuca e os ombros gemendo satisfeito enquanto esfregava a ereção no vale entre as nádegas fartas que suas mãos faziam questão de revelar à medida que abaixavam as calças.

— Ah, porra… — Deixou escapar baixo quando as mãos apertaram a pele macia antes de estapeá-la enquanto os chupões se acumulavam no pescoço de Deku.

— Kacchan…

— Me mostra, nerd — mandou, a língua queimando o caminho até o ouvido do outro. — Abre para mim e me mostra o quanto você precisa disso.

A voz soava áspera, rouca, a pele inteira se arrepiava com o tom que transitava entre um pedido e uma ordem. Izuku fechava os olhos quando isso acontecia, o prazer e a vergonha se misturando e lhe cobrando uma atitude, mas ele não sabia o que fazer a não ser ceder aos próprios desejos. Quando era ele sobre o outro, quando era Katsuki a permitir que o corpo o recebesse, a dinâmica era outra, apesar de se basear na mesma lógica. O sexo era sempre uma entrega, sabiam bem o que fazer, como tirar um ao outro da zona de conforto sem cruzar qualquer limite.

Inclinou o quadril à medida que sentia a boca quente de Katsuki descer por sua coluna, as mãos firmes em sua cintura e então em suas pernas quando o corpo se afastou para lhe assistir fazer o que tinha dito. Segurou suas nádegas e as abriu, expondo-se, e quase podia visualizar o sorriso depravado e vitorioso que o outro exibia...

Katsuki manteve a mão na coxa de Izuku ao se esticar para abrir a gaveta do criado mudo e jogar o lubrificante e os preservativos sobre a cama. Lambeu os lábios excitado, fazia tempo que não era ele a entrar no corpo do noivo, e a expectativa parecia fazer seu corpo ferver de ansiedade. Apertou a própria ereção em um suspiro irritado enquanto se livrava da calça de uma vez e se ajoelhava atrás de Deku.

Correu o indicador pelo ânus exposto, as mãos de Deku apertavam as nádegas com força, como se ele estivesse se concentrando muito para não as soltar. Desceu o dedo até a mão envolver com cuidado os testículos e então se fechar no pênis endurecido.

— Você está pingando — provocou ao sentir a glande umedecida e ouviu Deku choramingar enquanto apertava ainda mais a própria carne para se impedir de arremeter contra sua mão. — Se eu soubesse que você queria tanto dar o cu, já tinha te comido faz tempo, porra.

— Kacchan, você pode não… não…

— Não? — incentivou antes de arrastar a língua pela pele em direção ao vale.

— Enrolar…

— Não é você quem dá as ordens nessa posição, nerd! — reclamou e sua mão fez questão de subir e descer pela ereção de Deku apenas para ouvi-lo gemer e se encolher em resposta. — Tente não gozar ainda, ouviu? — Sorriu e acelerou os movimentos. — Hey, eu fiz uma pergunta, Deku...

Izuku arfou esfregando o rosto contra os lençóis, as mãos tremendo enquanto segurava as nádegas abertas. Acenou com a cabeça, o vai e vem em seu membro não permitia que abrisse a boca para outra coisa a não ser para deixar os gemidos saírem, e ele não queria ainda dar esse prazer ao outro. Contudo, toda essa convicção morreu quando a língua de Katsuki tocou sua entrada e a boca dele o chupou.

Havia algo de único na forma como Katsuki o tocava, sentia-se desejado ao extremo nas mãos dele, como se seu corpo fosse a única coisa para satisfazer a fome com que era tocado, exigido, tomado. A boca alternava mordidas e chupões, as mãos trabalhavam em seu corpo, uma o masturbando sem piedade e a outra batendo contra sua nádega sempre que Katsuki precisava de ar e parava para xingá-lo de forma obscena.

Perdeu a força nas mãos, deixou-as cair sobre os lençóis e agarrou-se a eles enquanto gemia pelo gelado do lubrificante que Katsuki introduzia junto dos dedos em seu interior. A mão em suas costas, forçando-o a inclinar o quadril, demonstrava a impaciência que Katsuki tentava omitir ao prepará-lo corretamente, e era tão bobo sorrir diante daquele cuidado que apenas continuava a gemer e observar o outro por sobre o ombro enquanto ele xingava lhe perguntando qual a graça.

— Vem… — pediu, impaciente, o membro ereto dolorido já pela falta de atenção. — Kacchan, vem logo…

— Não me apressa, merda! Vai doer pra caralho depois e sabe disso.

— Eu aguento, vem logo, eu quero… quero gozar… vem.

— Merda, vou te foder tanto que não vai precisar se esforçar para pensar em mim para calar essas merdas na sua cabeça.

— Kacchan...

Katsuki estalou a língua no céu da boca e retirou os dedos do interior de Deku para abrir de forma afoita o preservativo. Segurou Deku pela nuca contra o colchão e se inclinou sobre o corpo dele. Posicionou o membro contra a entrada de Deku e respirou fundo antes de correr a mão livre pelo corpo dele para lhe dar apoio.

Izuku gritou alto quando o corpo foi invadido. Doía, como o outro tinha lhe avisado e como ele próprio sabia que doeria, mas queria tanto aquilo… O ar faltava, sequestrado a cada estocada bruta que recebia, o corpo tremia de prazer e o desespero com que Katsuki arremetia contra o seu corpo o fazia escorregar nos lençóis. Apertou o travesseiro na busca vã de um ponto de apoio, as mãos de Katsuki queimavam sua pele, e ele se lembrava como da primeira vez tinha chegado a temer que o outro fosse liberar alguma de suas explosões durante o sexo. Fechou os olhos, o toque de Katsuki subia por sua coluna e terminava em seu cabelo, puxando-o para trás para que parasse de abafar os gemidos contra a própria mão. Revirou os olhos, perdido no cheiro de sexo que tomava o quarto, rebolando e forçando o quadril contra a pélvis do outro.

Amava aquele caos que compartilhavam na cama, amava sentir que sua mente não conseguia raciocinar e que seu corpo apenas queimava em luxúria de forma que o fazia duvidar se conseguiria mesmo se saciar por completo. Sentiu Katsuki o empurrar para longe e não precisou de uma palavra para entender o que significava. Os corpos eram como ímãs, afastavam-se contra à vontade apenas para voltarem a buscar um pelo outro com maior intensidade, e Izuku não esperou que Katsuki terminasse de se sentar na cama para subir em seu colo e beijá-lo.

O modo como Katsuki jogava a cabeça para trás e gemia rouco quando descia de uma vez por seu membro fazia-o morder o lábio e se inclinar para cobrar-lhe atenção. O que sempre se mostrava uma boa ideia visto que as mãos do noivo agarravam-se ao seu quadril com força ao mesmo tempo em que as suas se apoiavam nos ombros dele para que dessem vazão à insanidade que corria pelas veias.

Arqueou as costas quando as unhas curtas de Katsuki o arranharam de propósito e choramingou alguma coisa que nem ele mesmo entendeu, mas que fez o outro sorrir malicioso antes de levar a mão ao seu membro e voltar a masturbá-lo.

Katsuki respirou fundo, buscando controle que não sabia que possuía enquanto Deku cavalgava mais rápido e com mais força em si. A pele suada não lhe dava mais firmeza para ajudá-lo a subir e descer, mas aquele maldito nerd não parecia precisar de qualquer auxílio enquanto rebolava e o apertava em seu interior. Sentia vontade de explodir, literalmente, as mãos queimavam com o calor das explosões que ele segurava e descontava então nos tapas pelas coxas e nádegas de Deku como tinha descoberto que aquele pervertido gostava.

Grunhiu, não conseguiria mais aguentar por muito tempo com Deku o cavalgando daquela forma alucinada ou chamando por seu nome como se precisasse dele para respirar. Céus, e isso por que era apenas um sexo matinal, nem tinham tanto tempo assim! O que aquele nerd tinha na cabeça?

— Kacchan… eu… — ele tentou chamar, as mãos apertando com força os ombros de Katsuki enquanto sentia os quadris se arremeterem sozinhos contra o outro deixando um barulho alto e seco pelo quarto.

— Tá se segurando por que, nerd? — Mordeu-lhe o pescoço, fechando os olhos e respirando fundo o cheiro da pele de Deku antes de marcá-la ainda mais. — Goza logo, porra — Segurou o cabelo dele, puxando-lhe o rosto na direção do seu e arrastando os lábios uns sobre os outros. — Goza comigo, Deku. Vem, nerd, vem…

O arrepio provocado pela voz sussurrada contra sua boca fez Izuku passar os braços pelo pescoço de Katsuki e o abraçar com força, o rosto ainda contra o dele enquanto se beijavam de forma afoita e desordenada. O calor subia por sua virilha, chegava ao peito, crescia, se expandia, empurrando as costelas e tudo o que tivesse no caminho para, no fim, em meio ao frenesi dos corpos e ao desespero dos beijos rudes, explodir.

Katsuki apertou Deku e gemeu junto dele, as bocas tão próximas que não soube identificar qual das vozes era a responsável pela vibração que podia sentir no mínimo espaço que os separava. Sentiu o gozo dele em seu abdômen e permaneceu aéreo enquanto as últimas movimentações de Deku lhe arrancavam o seu como se cobrassem uma dívida da qual não abriria mão.

Sem nem abrir os olhos, arrastou-se até a cabeceira e deixou o corpo se apoiar nela enquanto tentava normalizar a respiração e desfrutava do pós orgasmo. Deku sorriu fraco e pendeu o corpo para frente, repousando a cabeça em seu ombro.

— Precisamos de outro banho, Kacchan…

— Culpa de quem, não é mesmo?

Izuku não respondeu, suspirou e fechou os olhos enquanto ouvia com prazer a respiração acelerada do outro e sentia o coração dele bater fora de ritmo.

— Vamos, temos que ir para a UA hoje — Katsuki falou enfim, e Deku apenas se ergueu um pouco para olhá-lo curioso. — Anda logo, nerd. — Sorriu, animado, do tipo que deixava Deku um pouco apreensivo. — Tá na hora de calar essas porras na sua cabeça.

* * *

Izuku mantinha os olhos arregalados e não conseguia disfarçar ou conter o rubor na face nem o nervosismo enquanto andavam pelos corredores da UA, e isso se devia ao fato de que Katsuki mantinha a mão entrelaçada à sua enquanto andavam, sem a soltar nenhuma vez, mesmo que todos ao redor olhassem e cochichassem.

O relacionamento que mantinham não era segredo para ninguém, haviam se revelado há alguns anos sem querer após uma batalha em que tinham respondido a um chamado da polícia junto de vários outros heróis. A cidade estava um caos na luta, eram poucos vilões, mas o poder que possuíam era devastador. A equipe de resgate não conseguia ser ágil o suficiente, e foi naquele momento que se separaram. Deku sabia que tinha que ajudar no resgate, e Katsuki prometera que ganharia tempo para que todos os civis fossem retirados em segurança. Eles trabalhavam em equipe, era bonito de se ver, mas todos, inclusive os vilões, não só sabiam, como esperavam por isso. Katsuki reconheceu a armadilha assim que Deku havia terminado de tirar o último civil e, por mais rápido que tenha tentado alcançar o outro, não foi o bastante para impedir que parte do prédio desmoronasse sobre Deku. As câmeras ao redor registraram bem o desespero em seu olhar, o ódio que se seguiu quando ele encarou e arremessou para longe cada um dos vilões que o impediam de chegar até Deku, a pressa e o cuidado com que ajudava Uraraka a remover os destroços enquanto o coração batia medroso no peito, elas acompanharam o momento em que sua expressão suavizou ao ver Deku vivo, registraram o sorriso cúmplice que eles trocaram e transmitiram ao vivo para todos os telões do país quando a emoção o fez puxar Deku para si e beijá-lo antes de carregá-lo nas costas para a equipe médica. Na época, a repercussão foi enorme por parte da população que não sabia falar de outra coisa além do romance entre os dois heróis em ascensão. E as agências de heróis acharam conveniente mandá-los juntos em missões para um marketing básico.

Mas, ainda que o relacionamento não fosse mais um segredo, ambos eram reservados, não era comum andarem de mãos dadas dentro da UA por exemplo, onde sabiam que isso causaria um alvoroço entre os alunos que os admiravam e que ficariam tentando uma foto ou outra.

Por um momento, Izuku sentiu-se culpado. Conhecia Katsuki muito bem para saber que agora ele odiava ser o centro das atenções desnecessariamente, e aquele bando de alunos com seus sussurros e flashes deviam estar fazendo com que o outro quisesse mandar a escola pelos ares.

— Kacchan… sabe… a gente não precisa… é…. — embolou-se ao tentar dizer, a mão tentando se soltar do aperto firme que recebia.

— Está ouvindo as vozes? — Katsuki parou para o encarar, sério, atento.

— Ah? Não, não é isso… é só que…

— Então pronto.

— Mas é que-

— O que te incomoda mais? As vozes deles — Apontou com a cabeça para os alunos espiando nas salas. — ou as na sua cabeça?

Izuku mordeu o lábio, e a resposta veio no apertar temeroso na mão de Katsuki por puro reflexo. Caminharam até a sala que reconheceu fácil, lembrava-se da primeira vez que tinha ido ali para aperfeiçoar seu uniforme de herói e de todas as vezes seguintes quando a equipe de suporte resolvia presenteá-lo com uma melhoria ou outra. Viu Katsuki abrir a porta sem cerimônias e não escondeu a surpresa quando viu All Might, Todoroki e algumas pessoas que ele deduziu logo serem da agência de Endeavor.

— O que…?

— Você chegou a ver o que eu mandei hoje meio a meio? — Katsuki perguntou sem rodeios, e Izuku viu Hatsume surgir de trás de Todoroki com a típica expressão entusiasmada.

— Sim. Repassei para Hatsume todas as ideias e o rascunho. Você está bem, Midoriya? O que aconteceu?

Izuku ergueu as mãos agitando-as no ar.

— Na-nada! Eu só…

— Midoriya!! Os ajustes do seu uniforme vão ficar incríveis! — Hatsume o interrompeu, as mãos já trazendo a fita que ela usava para medi-lo sem pedir licença. — E as suas ideias são incríveis, Bakugou! Os meus bebês ficarão maravilhosos! Você vai testar todos, Midoriya! Vamos dar um jeito de criar uma pele sintética com a tecnologia do Endeavor para aderir sob o seu uniforme! Vai ficar incrível!

Izuku piscou, sem entender, e Todoroki se aproximou enquanto All Might ria de Hatsume que tentava tocar Bakugou e convencê-lo a deixar fazer alguns testes nele.

— Esse é o projeto. — Todoroki passou o tablet para Midoriya. — A ideia é usar a tecnologia do Endeavor para criar uma pele sintética que transmita para o seu corpo a sensação de estar em contato com a do Bakugou. Eu não vou perguntar o motivo disso, achei que era alguma pegadinha de Bakugou, mas All Might me ligou logo em seguida como se soubesse que eu não acreditaria nos rascunhos. Como a agência de Endeavor tem experiência com pesquisas de regeneração de tecidos e fabricação de pele sintética para queimaduras, trouxe parte da equipe para tentarem fazer o que Bakugou sugeriu, mas a Hatsume…

— Se animou como sempre. — Izuku riu sem graça.

— Sim. Você não estava sabendo disso, não é? — Todoroki o olhou, confuso, e Izuku apenas negou com a cabeça enquanto não sabia o que pensar.

Aliás, para que pensar se as vozes em sua cabeça já voltavam a cochichar sorrateiras? Elas estavam ali, baixinho, sussurrando a respeito de Katsuki. Se havia falado com ele ontem à noite sobre as vozes se calarem ao toque, então o noivo havia pesquisado e contatado Todoroki enquanto dormia. Talvez isso justificasse as olheiras discretas em que havia reparado pela manhã ou o cochilo durante o caminho até a UA.

Ele te ama…, uma das vozes riu.

Amor? Um herói não pode ter outro compromisso senão com a paz, outra resmungou irritada.

Eles ainda são jovens… eu não tive essa chance.

E daí? Eles vão apenas botar um ao outro em perigo, uma terceira voz lamentou ao fundo.

Seria bom se afastar enquanto dá tempo… Ele vai se machucar, sabe disso, Izuku.

Sabe e ignora.

É isso que chama de amor? Colocar quem ama em perigo?

Não sejam tão duros, basta aconselhá-lo.

— Mas eu não quero seus conselhos — Izuku falou irritado entredentes, esquecendo-se, por um momento, de que Todoroki estava ao seu lado.

— Midoriya?

Izuku piscou desconcertado e suspirou enquanto mexia nervoso nas mangas da roupa. Não podia explicar para seu melhor amigo o que acontecia, Todoroki não tinha ideia do que estava por trás do One for All, e ele sabia do peso do segredo que carregava.

Não estrague tudo!

Você é um perigo para o segredo do One for All! Ele contou para o outro garoto também! Lembram? Se All Might não tivesse interrompido…

Ele vai conseguir, é só manter segredo, não é difícil, estão pondo pressão nele.

Pressão? Estamos ajudando! Ele não sab-...

— Ei, nerd, por que não foi manter aquela doida longe de mim?

Silêncio… Izuku chegou a fechar os olhos em alívio ao receber o doce silêncio que o toque de Katsuki em sua mão trazia.

Por mais que Todoroki não soubesse o que estava acontecendo, era inteligente para notar como Midoriya simplesmente relaxou quando Bakugou apareceu ao seu lado e entrelaçou os dedos aos dele. Um suspiro aliviado foi ouvido, e Bakugou franziu o cenho, da forma como só fazia quando algo no outro o preocupava, e puxou-o pela sala até a mesa em que os rascunhos e os protótipos de Hatsume estavam espalhados.

Observou-os. Midoriya tinha uma postura cansada, e Bakugou o mantinha perto, como evitava sempre fazer em público. E ainda tinha a questão da pele sintética… por que Midoriya precisaria de algo assim?

— Todoroki-shounen! Não se preocupe, cuidamos a partir daqui! — All Might lhe sorriu, confiante como sempre.

— Mais uma coisa para a lista do que ainda não posso saber, não é? — perguntou indiferente, mais acostumado do que incomodado de fato. Ajudaria Midoriya, então tudo bem, não se importava com a explicação para aquilo desde que a ideia de Bakugou realmente desse certo.

— Desculpe, Todoroki-shounen, mas não se preocupe, vamos dar um jeito.

Todoroki assentiu e saiu da sala ao perceber que não era mais necessário ali. Só esperava que All Might estivesse certo e que Midoriya pudesse resolver o que quer que estivesse o atormentando.

* * *

Aquele era o quarto modelo que Hatsume produzia que Katsuki havia incinerado com as próprias mãos. No começo, Izuku achou graça e tentou acalmar o outro, sabia que Katsuki não lidava bem com fracassos e vê-lo frustrado com algo que não era seu problema lhe deixava um peso a mais sobre os ombros e um gosto amargo na boca. Entretanto, não adiantava… ele não ouvia.

E nem tinha como ouvir, Katsuki estava em pânico. Quatro modelos falhos, três semanas jogadas no lixo, vinte e um dias que deixaram mais que evidente o quanto as vozes atrapalhavam Deku, principalmente nos combates.

— Não está tão ruim quanto parece — Deku falou, vendo Katsuki parado ainda em frente ao leito segurando o que sobrara do modelo número quatro. — E esse durou mais que os últimos.

Mas não o bastante… Katsuki encarou com raiva a maca do hospital, tinha visto pela televisão quando Deku lutou de forma diferente, como se outra pessoa conduzisse seus movimentos, e entendeu que aquele não era seu Deku quando ele parou o golpe de repente e então foi atingido em sequência pelo vilão sem conseguir se defender.

— Que merda foi aquela? — perguntou, o tom baixo e calmo que Deku sabia ser mais perigoso que os demais, mais perigoso até mesmo do que quando gritava.

Não conseguiria mentir para ele, não para Katsuki. Ele o olhava como se já soubesse, como se apenas quisesse entender ou esperasse uma confirmação para suas suspeitas, mas a verdade é que estava com vergonha de falar, com vergonha do que tinha feito. Sua cabeça doía, as vozes cochichavam, e Katsuki ainda parecia longe demais para calá-las.

Eu posso lidar com ele, se quiser, ele não precisa saber.

Você não fez nada de errado, fizemos um trato. E eu honraria o meu se não tivesse voltado pra trás.

Você não precisa contar, eu dou um jeito. Me deixe falar, ele não precisa saber… Só me deixe controlar seu corpo um pouquinho e depois não darei um pio aqui. Você ficará em silêncio, prometo.

E ali estava… o mesmo trato de antes… Queria tanto paz, tanto ficar sozinho com os próprios pensamentos que aquilo era tão tentador…

— Deku! — Katsuki explodiu e marchou até sua cama, as mãos rudes seguraram seu rosto, obrigando-o a encará-lo. — O que aconteceu ali?

Katsuki o julgaria fraco, o olharia com raiva, xingaria alto com certeza e levariam broncas da enfermagem. Foi impossível impedir o choro de vir. Céus, estava cansado! Tinha abdicado o controle do próprio corpo somente por alguns minutos de paz! Não aguentava mais aquilo, não queria mais viver daquele jeito e já tinha até mesmo cogitado passar o One for All adiante porque aquele se mostrava um fardo pesado demais para alguém como ele.

Os braços de Katsuki o envolveram, ainda podia ouvi-lo praguejar enquanto o permitia chorar aos soluços e, se pudesse enxergar a face do noivo, perceberia que não era o único desesperado naquele quarto pequeno. O celular tocando os obrigou a se separarem. Katsuki olhou o visor antes de respirar fundo e atender Best Jeanist.

— Ele está bem — respondeu de imediato e olhou feio para Deku. — Quebrado, mas vivo.

— Traga-o para cá como combinamos. All Might já está aqui.

— Certo. — Desligou, sem se importar com o sermão que receberia depois pela falta de educação. — Vamos, Best Jeanist está nos esperando. Gran Torino parece que encontrou um modo de acabar com tudo isso.

Deku suspirou, a frase “encontrou um modo de acabar com tudo isso” era a que mais ouvia recentemente e já havia perdido a fé nela. Manteve o olhar baixo e as mãos presas à regata de Katsuki, queria falar para ele que estava perto de desistir, mas parte de si não conseguia, parte de si não aceitava que teria que abrir mão do seu mais querido sonho em prol de sua sanidade.

— O que foi, Deku? Que cara é essa? Desembucha logo, nerd, não temos o dia todo — Katsuki falou exasperado, o silêncio de Deku o deixava nervoso e inseguro, como se algo de ruim fosse acontecer, e ele não sabia lidar com isso.

Secou as lágrimas dele com a típica falta de delicadeza e com uma careta, sentia as mãos em sua camiseta tremendo e quase se podia dizer capaz de ouvir o choro ou o grito que Deku prendia à força na garganta. Avançou, encostou a testa na dele, esperou que os olhos se abrissem para ficarem frente à frente e, quando Deku cedeu e o encarou, tentou soar firme, dessa vez sem ser agressivo:

— Confia em mim, vou chutar elas da sua cabeça, eu prometo.

Talvez tenha sido o cansaço, talvez Izuku só queria deixar aquele hospital logo, mas, quando viu, já estava no banco de trás do táxi com Katsuki, agarrado ao peito dele enquanto o sentia acariciar seus cabelos. Reconhecia o caminho para a casa de Gran Torino, mas não queria pensar naquilo, não queria dar asas à esperança para vê-la desaparecer ao vento no segundo seguinte. As vozes não riam de suas tentativas, não debochavam, mas questionavam o porquê, tentavam convencê-lo a deixá-las ficar, e ele ria de desespero toda vez.

Segurou Katsuki quando o carro parou em frente à residência, sentiu os dedos dele escorregarem por sua mão até se entrelaçarem aos seus e respirou fundo ao saírem. Reconheceu a voz de All Might mesmo do lado de fora do prédio e Katsuki não teve educação para bater antes de ir entrando. Best Jeanist estava sentado tomando o chá oferecido por Gran Torino enquanto All Might ria com uma estranha que o fez franzir o cenho.

— Finalmente, Midoriya-shounen! — All Might sorriu e foi logo se aproximando. — Preciso te apresentar uma pessoa, esta aqui é MindChanger, trabalha na agência do Endeavor. Todoroki-shounen e ela são parceiros atualmente. Aizawa ficou sabendo disso e tivemos uma ideia sobre o seu problema.

Katsuki não respondeu, analisava com muita atenção a garota que sorria para Deku e apertava a mão dele com entusiasmo. MindChanger, não precisava ser um gênio para supor qual a individualidade dela, mas não entendia como exatamente planejavam aplicá-la em Deku. Chegou a abrir a boca, mas um fio fino ao redor de seu braço livre o fez olhar para o lado e ver Best Jeanist acenando para as cadeiras.

— All Might me explicou que você tem pensamentos de outras pessoas — ela comentou, animada, e Izuku olhou para All Might se perguntando até onde ela sabia sobre o One for All. — Posso sentir?

— Sentir? — Katsuki interrompeu, e o puxão em seu braço o fez soltar Deku. Antes que reclamasse, as mãos da garota pousaram com calma sobre a cabeça de Deku, e ela deixou uma exclamação surpresa escapar.

— Eu consigo sentir as mentes, como eletricidade, cada uma de forma e intensidade diferente. E… sim, é como se você tivesse outras seis dentro de você, Deku, mas elas não estão livres como eu esperava, elas parecem… presas, como em uma bateria, bem no fundo da sua mente — comentou com estranhamento. — Você as ouve?

— Sim, demais até — Izuku respondeu com os olhos arregalados em surpresa e expectativa.

— Como? Como se fossem seus próprios pensamentos ou como vozes distantes sussurrando? — Os dedos dela se moviam para as têmporas dele, e Izuku percebeu a ausência de Katsuki se fazendo mais evidente conforme as vozes voltavam a se manifestar.

— Sussurros.

— Sim, eu posso sentir. Isso é ruim... Digo — Ela o olhou, sem graça, piscando os olhos claros. — é mais complicado do que eu estava pensando.

— E o que estava pensando? — Katsuki perguntou alto.

— Se acalme, Bakugou-shounen. — All Might tossiu em seguida. — MindChanger, pode explicar?

— Claro. — Ela sorriu, as mãos ainda sobre a cabeça de Izuku. — Como eu disse, eu consigo sentir as mentes das pessoas e consigo manipulá-las, mas não como manipular dando ordens ou fazendo com que me obedeçam — ela foi rápida ao adicionar quando viu Bakugou arregalar os olhos e Izuku dar um passo para trás. — Eu manipulo como se fosse mesmo eletricidade, e isso me permiti algumas coisas, eu posso desligar e ligar a mente de alguém, posso livrar as pessoas de controle mental imposto por outra individualidade, sentir suas emoções e captar algumas memórias, posso remover parte da mente de alguém e armazená-la em algum objeto, mas isso é extremamente perigoso tanto para mim quanto para a pessoa, e também posso fazer conexões temporárias entre pessoas, de modo que elas transitem pela cabeça uma da outra.

— Você consegue… remover parte da mente? — Izuku repetiu, o tom esperançoso fazendo Katsuki se levantar e estreitar o olhar para a garota.

— Quando All Might me contou o seu caso, pensei que teria que tentar isso, mesmo sendo arriscado — ela explicou. — Mas… as mentes na sua cabeça já estão presas, eu não consigo acessá-las porque estão como a bateria reserva, não a principal, elas não pulsam livres pela sua cabeça.

Katsuki bufou, irritado, e se livrou das linhas de Best Jeanist para se aproximar de Deku. Se soubesse que aquele era o plano, que estavam indo para mais uma ideia falha, não teria arrastado Deku tão confiante consigo. Passou o braço pelos ombros dele e estava para afastá-lo das mãos da garota quando a percebeu piscando confusa e olhando para ele.

— Como faz isso? — ela perguntou, admirada. — Como você consegue selar as outras mentes?

— É o que estamos pesquisando há um tempo se não percebeu — respondeu impaciente, e Deku saiu das mãos dela com um sorriso fraco.

— Obrigado pela tentativa, de verdade.

— Não, pera! Talvez eu consiga fazer algo ainda — ela falou, e Deku percebeu que ela ainda olhava para Katsuki. — Um momento, por favor — pediu, voltando a tocar a cabeça de Deku, os olhos fixos agora nos dele.

Em certo momento, uma vertigem o acometeu, não o suficiente para desequilibrá-lo, mas o bastante para fazê-lo sentir-se mal. Sentia a invasão, conseguia entender bem a comparação anterior com eletricidade porque, da ponta dos dedos de MindChanger, sentia uma corrente fria e vibrante invadir sua cabeça.

— Você… — ela começou a falar e então sorriu. — Ah, sim, entendi…

— O que você entendeu? — Katsuki perguntou e então sentiu a mão dela sobre sua testa mesmo sem ter autorizado. — Mas que merda é essa?

A garota não se intimidou, nem mesmo se afastou, e Katsuki sentiu a mesma vibração gelada entrando em sua cabeça.

— Ora, mas você é realmente esquentadinho, não é? — ela debochou e os soltou. — Eu sei como te ajudar, Deku, mas não sei se vocês vão aceitar a ideia...

* * *

— Não — Izuku respondeu vermelho e agora de pé, já que haviam se sentado apenas ele, Katsuki e MindChanger para ouvir a ideia dela. — Definitivamente, não. Você nem sabe se está certa!

— Eu olhei a sua mente e entendi bem que você só consegue forças para calar os outros pensamentos quando Bakugou está junto porque você vê nele um porto seguro. Não é ele que tem algum poder para bloquear os outros dentro de você, é você que só se sente completo para encará-los quando ele está junto. O laço de vocês deve ser muito forte, e as outras mentes sabem disso, por isso é fácil calá-las quando Bakugou está por perto.

— Isso não faz sentido algum!

— Sabe aquelas pessoas que vão saltar de um avião ou fazer qualquer outro esporte radical? Quando sozinhas, elas param, muitas desistem, mas, se tiver alguém do lado, elas se encorajam. E se essa pessoa então der a mão para elas, é aí que elas pulam de uma vez, sem nem ao menos olhar para trás. É um elo de confiança e intimidade, um forte que nos ajuda a vencer os obstáculos à frente.

Izuku parou com os punhos cerrados, desconcertado para saber o que dizer. Olhou de canto para Katsuki, o noivo estava quieto desde que MindChanger dera sua ideia, e isso não combinava com seu gênio explosivo. Achou-o concentrado, soube que ele fazia seu próprio raciocínio, tentando achar falhas ou erros na explicação que recebiam. Ele não aceitaria, não tinha como ele aceitar… não é?

— Kacchan? — chamou, receoso, e viu os olhos se erguerem, decididos e inflexíveis.

— Eu topo.

— Mas…. mas... o quê? — gaguejou. — Não! Isso é perigoso, você ouviu!

— É menos perigoso do que ela extrair parte da mente de alguém, não ouviu essa parte? — ironizou. — E você estava prestes a aceitar isso, por que não tentar algo com menos riscos?

— Porque é para sempre! Para sempre, Kacchan! Você vai ter que conviver com isso de hoje em diante! E se não der certo?

— Vai dar certo — MindChanger garantiu.

Katsuki se levantou com as mãos no bolso e caminhou até Deku. Ele estava assustado, e entendia bem o motivo. Na verdade, também estava… MindChanger tinha sugerido conectar as mentes deles, ligá-las como em um circuito fechado, como eletricidade a correr por uma via de mão dupla. Não era tão perigoso, mas, como Deku frisara, era para sempre. Teria acesso à mente de Deku para o resto de sua vida, assim como ele a sua. Se fosse bem feito, eles não teriam acesso às lembranças e emoções, apenas poderiam se comunicar mentalmente porque a mente de um seria como uma extensão da do outro. Ele estaria cem por cento do tempo do tempo presente na mente de Deku, as vozes não teriam espaço, o problema seria resolvido.

— Escuta aqui, nerd — Parou à frente dele, e o medo de antes se transformou em determinação, Deku o encarava com aquela petulância que tinha adquirido após a aquisição da individualidade. Mas Katsuki sabia bem como quebrá-lo. — Eu amo você, seu idiota, e não vou ficar sentado enquanto você enlouquece por conta dessas porras na sua cabeça.

— Kacchan…

Segurou o rosto dele entre as mãos e repetiu mais baixo, apenas para Deku ouvir:

— Amo você e não quero te perder ou te ver na merda. Caralho, Deku, me deixa explodir esses filhos da puta da sua cabeça… você não confia em mim?

Izuku engoliu em seco. Era claro que confiava! Mas…. era “para sempre”, e o medo de Katsuki se arrepender de sua decisão e ficar remoendo isso pelo resto da vida o deixava inseguro demais para tentar. Contudo, era como MindChanger havia dito… sozinho, sua resposta era não; com Katsuki à sua frente, seu coração hesitava, o desejo de tentar o fazendo repassar a ideia várias e várias vezes para se decidir; mas, agora, com ele segurando seu rosto, com o olhar preocupado tão próximo, com as palavras e as declarações envolvendo o coração… a vontade que tinha era de arriscar, pular de vez sem olhar para trás… E fez.

Tempo é algo relativo. Deku podia apostar que havia dormido por meses, mas reconhecer o teto da casa de Gran Torino lhe indicava que não. Havia deitado ao lado de Katsuki enquanto MindChanger conectava suas mentes e não sabia quando tinha adormecido, lembrava-se vagamente da sensação fria em sua cabeça e do calor da mão de Katsuki a segurar a sua, mas, depois disso, nada. Piscou, desconfortável com a luz, mas a mão de Katsuki o impedia de levar o braço ao rosto para bloqueá-la. Corou e olhou ao redor, mas felizmente os demais pareciam estar em outro cômodo.

Virou-se de lado, ficando de frente para Katsuki que ainda parecia dormir. Soltou a mão dele com cuidado e fechou os olhos esperando as vozes se manifestarem em sua mente, mas tudo o que conseguiu foi ouvir nítida e claramente o noivo à sua frente:

— Eu já testei… — Katsuki respondeu sonolento e puxou Deku para si, abraçando-o e suspirando aliviado ao afundar o rosto nos cabelos dele. — Você nem se mexeu quando me afastei, continuou dormindo. Funcionou, seu maldito nerd.

Deku abriu a boca, sem saber o que falar, as mãos seguraram a camisa de Katsuki e a única coisa que conseguiu fazer foi corresponder ao abraço com todas as forças enquanto o coração não conseguia acertar o ritmo com que deveria bater. Ergueu o rosto, num misto de emoções que não sabia descrever, mas que queria que Katsuki visse antes de tomar a iniciativa de beijá-lo.

Pelos céus, como amava Katsuki! Como queria que ele pudesse sentir todo o amor e a gratidão que sentia naquele momento! Katsuki havia se arriscado, tinha sacrificado parte da sua própria mente para manter a sua a salvo! Beijou-o, na tentativa de tatuar nos lábios rudes a intensidade do seu amor. Ele só havia esquecido de uma coisa…

— Deku, seu maldito, para de pensar nessas coisas! Que piegas! É nisso que você pensa enquanto a gente se beija?

Abriu os olhos, envergonhado, e gaguejou enquanto via Katsuki cobrir o rosto rubro e resmungar:

— Eu te odeio.

Só que dessa vez, a frase perdeu o efeito; dessa vez, Deku foi capaz de ouvir o que os lábios tinham omitido, e foi mais do que doce fechar os olhos nos braços do outro enquanto na sua mente ecoava a única voz que ele desejava ouvir pelo resto da vida a repetir que o amava...



Notas finais: 

Olá! Espero que tenham gostado da história! 

Essa fic surgiu enquanto eu tava lendo a maravilhosa fic da Clarinha, então vou deixar o link aqui para vocês. Recomendo muito! A história é maravilhosa: Do fundo do Abismo

Reviews? Comentários? Críticas? Sugestões?

Até a próxima ;)


14 de Setembro de 2018 às 20:42 6 Denunciar Insira 24
Fim

Conheça o autor

Alice Alamo 23 anos, escritora de tudo aquilo em que puder me arriscar <3

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Publique!
Key Seung Key Seung
Aaaaaaaaaaa tá muito incrível, fiquei com um gosto de QUERO MUITO MAIS. Ameii
15 de Setembro de 2018 às 08:05

  • Alice Alamo Alice Alamo
    Olá!! Que bom que gostou <3 Muito obrigada pelo comentário! Beijoss 29 de Setembro de 2018 às 20:53
Isis Isis
Olha só o que temos aqui! Alice, eu adorei esse plot! Deku enlouquecendo por causa das vozes, meu deus do céu, chega dá um medo disso se tornar real. É sempre interessante imaginar o Bakugou mais maduro, ainda mais em relação ao Deku. A gente está vendo ele crescer no mangá, mas ao contrário do que muita gente pensa isso não significa que ele vai deixar de ser bruto, né. O jeito ríspido de falar mas as atitudes demonstrando a verdade do que ele sente casou muito bem. Que coisa mais linda isso de o Kacchan precisar estar conectado ao Deku pra calar as vozes! Um pouco desesperador, mas também tão bonito, rs. Ah essa boca suja na hora do sexo...Bakugou é um perigo. Deku meiga e abusada é o melhor conceito kkkk. Adorei saber que na maioria das vezes o Deku que é ativo. Adoraria ver tbm, fica a dica. Achei bem interessantes as ideias de solução para o problema deles. Gostei também das falhas, de não ter dado certo logo. Ah, não posso deixar de falar que eu vi esse ciúme do Bakugou com o Todoroki, eu vi rsrsrs. E essa individualidade de MindChanger? Ela mexe com as sinapses nervosas, por isso a eletricidade? Ou é algo mais abstrato da mente? De qualquer maneira, chocada que eles ficaram com as mentes conectadas. Me fez lembrar a marca do ABO, rs. Ah, e como você estava meio encucada com isso: eu super achei que nessa história cabia bem o uso dos primeiros nomes. Não senti tanta estranheza. Só no final, nos últimos parágrafos, quando eles fazem o procedimento lá, que eu achei que repetiu muito o "Katsuki". Enfim, adorei! Bjs!
14 de Setembro de 2018 às 20:02

  • Alice Alamo Alice Alamo
    Olá, amada Isis! Mano, aquela cena dos outros portadores ajudando ele no festival só me fez pensar nele enlouquecendo com isso depois hhahahaha Eu amo o Bakugou mais maduro porque eu amo o desenvolvimento de personagens. O Bakugou foi uma criança cruel, mas crianças são cruéis e precisam de apoio e aconselhamento, elas precisam ser ensinadas do certo e errado. Eu acho cruel crucificar uma criança, ainda mais quando você consegue ver que ele está aos poucos entrando nos trilhos. É muito cruel negar uma segunda chance para uma pessoa baseado no que ela fez quando criança. Eu amo um flex hahahahha. Não curto muito quando tudo da certo logo de cara, não consigo aceitar porque, na vida, a gente sabe que só conseguimos algo depois de muito tombos. Acho o Bakugou um personagem ciumento, e você? Sim!! Ela mexe nas sinapses e por isso a eletricidade, ela consegue acessar as sinapses e ler a info nessa eletricidade. Ah que bom que os nomes não ficaram muito pesados na fic, eu realmente tava muito preocupada com isso porque nesse anime e em Haikyuu usam-se muito o sobrenome deles. Enfim! Muito obrigada pelo comentário e pela ajuda <3 Beijoss! Você é maravilhosa <3 29 de Setembro de 2018 às 21:02
Daniel Martins Daniel Martins
AMIGA ESSA HISTÓRIA TA MUITO BOA MEU DEUS AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA eu nem assisto boku no hero não sei o nome dos personagens, eu diria que essa fic foi uma oportunidade pra mim conhecer todos e me apegar por eles (ao menos na sua história) e, sem nem ter assistido, consegui entender tudo completamente. O One For All me confundiu no começo, não sabia se era um poder, uma pessoa, mas depois fui me localizando e me entendendo, e eu acho que isso foi a mágica da sua fic: Colocar elementos do anime de modo que TODOS entendessem, tendo assistido ou não. O Lemon menina ficou demais, sem usar palavras muito repetidas (que normalmente é um problema de lemon) ou broxantes, tudo fluiu tão bem que caralho eu quase gozei Menina, tu tem muito potencial mesmo, parabéns pela fic <3
14 de Setembro de 2018 às 18:13

  • Alice Alamo Alice Alamo
    Olá!! Desculpa pela demora em responder, eu tava meio corrida aqui <3 Opa! Eu gosto de Boku no Hero, é um anime que ainda está se desenvolvendo ainda, mas acredito que vai melhor bastante. Eu gosto muito desses personagens, não sou muito apegada a casais especificamente, mas adoro trabalhar com os personagens de diferentes formas nas histórias. O One for All é um poder. Ah, nossa, que bom que deu para entender mesmo sem conhecer a obra! Fico muito feliz que tenha gostado da história! Muito obrigada pelo comentário <3 Beijoss 29 de Setembro de 2018 às 20:53
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