Entre mundos Seguir história

himenotsohime Hime

Eren Jaeger nunca teve uma vida normal. Através de espelhos, havia um outro mundo jamais visitado por ele, o mundo dos sonhos. Mas o que deveria ser perfeito acaba por ser uma aventura onde acaba por conhecer mais sobre si próprio e o que sente pelo melhor amigo: Levi Ackerman.


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#fantasiasombria #fantasticoink #yaoi #snk #riren
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Nem tudo é como imaginamos que é, nem você mesmo é completamente único.
Há uma lenda, uma teoria, de que há duas dimensões paralelas: o mundo real e a dimensão dos sonhos. A dimensão dos sonhos é basicamente um retrato de seu eu interior mais aprofundado. O que separa ambas as dimensões é o espelho. Quando você o toca, seu subconsciente tenta atravessá-lo sem você mesmo perceber, e a sua cópia fantasiosa o impede, do outro lado.
Quando eu, Eren Jaeger, nasci, era noite de lua cheia. Às três da manhã, quando os espíritos malignos e maldições estranhas estão a solta é quando dei meu primeiro suspiro. É raro, mas um importante laço que te mantém preso à qualquer custo ao mundo real foi cortado.
Desde quando me entendia por gente, eu via minha cópia através do espelho de maneiras diferentes, e só então eu percebi como eu era por dentro: escuro. O Eren dos sonhos era carregado de roupas negras e haviam fortes olheiras sob meus próprios olhos verdes. Ele não seguia meus movimentos, ele apenas me observava com olhos cansados e lábios paralisados em uma linha solitária. Eu nunca tentei ir para o outro lado, eu tinha certo receio do que ele poderia fazer contra mim.

Então, espelhos se tornou algo que eu evito à qualquer custo. Mas ele me fez perceber como eu sou por dentro e tenho medo disso. O que é ridículo.

Quem tem medo de si mesmo?

— Eren, como foi a prova de matemática hoje?

— Boa.

Meu pai sorriu gentilmente para mim. Ele tinha rugas de antigos sorrisos em sua face e olhos de alguém exausto da vida em um todo. Minha mãe aproximou-se da mesa do jantar e acariciou os fios castanhos de meu pai.

— Quer um pouco de suco?

— Café seria melhor, querida. — Ele respondeu, levando mais uma garfada de salada à boca.

Minha mãe esboçou a careta preocupada da qual já aprendi a me acostumar e foi preparar o café. Ela tinha medo que a exaustão e excesso de cafeína acabasse matando meu pai. Ela tinha todo o direito de sentir isso.

Eu já aprendi a lidar com o dia a dia repetitivo que tenho que suportar, mas no fim me pego querendo quebrar a rotina que me massacra de tantas maneiras diferentes. Observei o aroma de café saindo do filtro e em seguida observei o prato recheado de salada e frutas de meu pai. Médico nutricionista deve ter essas paranóias, eu não conseguiria substituir a maior parte das coisas que como por mato.

Fiz uma careta para a cenoura que sobrou em meu prato e levantei-me, deixando o prato na pia. Minha mãe abriu a boca para repreender-me, mas calou-se ao pensar melhor. Ela sorriu para mim.

Voltei para meu quarto e o espelho de corpo inteiro pareceu vibrar. Eu o havia virado contra a parede e fixado alguns post-its em suas costas com lembretes e trechos de poemas que, apesar de não gostar muito, me pego lendo de vez em quando. Pensei em virar o espelho e encará-lo mais uma vez, mas meu celular foi mais rápido.

Atendi. Era Levi Ackerman.

— Descobri que psicologia é uma merda — Disse. Sua voz estava mais arranhada que o normal, ele havia fumado.

— Então sua mãe te convenceu a ver um psicólogo.

— Não me convenceu, eu porventura imaginei que pudesse ser útil.

— Viu o assassinato que aconteceu aqui perto? O jornal não sabe falar de outra coisa — Sentei-me na cama, mudando completamente o assunto.

— O cara foi tentar ajudar a mulher que estava sendo agredida e acabou morto — Disse, emendando com um suspiro entediado. — Você precisa ser muito frio para sobreviver nesse mundo.

— Está sendo pessimista — Comentei, rindo de canto.

— Otimista ou pessimista, não importa. Os fatos não são mudados só pelo modo de como você pensa.

Eu gostava de Levi, apesar de seu tom de voz não ter nenhum traço de emoção e seu modo de pensar ser realista demais. Ele desabafava comigo sobre como a sociedade é uma merda e as pessoas são mais nojentas que imaginamos. Levi não conversava com muitas pessoas e não ligava para quase nada, diz que relacionamentos amorosos dependem do amor e o amor não dura para sempre.

Uma vez, em um domingo sombrio quando ele perdeu o irmão mais velho para o câncer, ele disse, com a voz embargada pelo choro contido, que somos esquecidos na vida e somente lembrados na morte. Levi odiou a quantidade de gente que apareceu em seu enterro enquanto somente ele o visitava no hospital.

Ele não tinha pai e sua mãe parecia não gostar da ideia de ter filhos, pois sempre estava em bares e afundada com álcool.

— Você vai para a faculdade amanhã? — Indaguei.

— Não sei, eu já faltei bastante. Talvez eu vá.

Levi é mais velho que eu, ele faz engenharia enquanto eu continuo no terceiro ano.

— Hm — Soltei, fechando os olhos em cansaço.

— Eu vou desligar — Avisou.

— Beleza. Seja um bom samaritano, apesar dos pesares.

— Farei o possível.

Larguei o celular na cama e assisti o brilho escurecer até apagar completamente. Uma vontade avassaladora de fugir de casa e viver uma noite de aventuras surgiu e eu lutei para manter minha sanidade. No fim das contas, liguei meu computador e fiquei horas jogando até que eu enjoasse. Peguei meu celular e Levi havia mandado mensagens:

“Você está online de novo, vai perder essa maravilhosa vida se continuar jogando toda noite ao invés de sair com umas garotas.”

“Ah é.”

“Você não gosta de garotas.”

O sarcasmo de Levi era iminente até mesmo nas suas palavras. Eu o respondi com um xingamento do qual somos acostumados a trocar.

Levantei-me da cadeira e soltei o celular em cima da cabeceira. Fui até o espelho e observei os post-its coloridos. Não os reli como costumava fazer quando sentia vontade de virar o espelho, então simplesmente sorri gentilmente para eles, como se tivessem vida, e virei-o.

Lá estava eu.

Ele ergueu a mão, mas não tocou o espelho. Eu não conseguia dizer nada diante do brilho que esvazia de seus olhos.

— Me pergunto como é o mundo em meus sonhos.

Ele sorriu com o veneno escorrendo de seus lábios.

Acredite, você não tem bons sonhos.

Torci o nariz, não gostava de conversar com ele.

Você está com um ar diferente, vai violar seus princípios? — Disse, olhava para o lado direito em profunda contemplação para a cama.

— Estive pensando… — Ergui a mão e toquei a superfície fria do espelho. Senti o calor me puxando para dentro. — … Se seria muito ruim eu visitar seu mundo.

Os olhos vazios voltaram-se para mim e fiquei alguns segundos observando suas olheiras profundas.

Talvez se surpreenda um pouco e não aguente.

— Como é sua realidade?

Porque não vê com seus próprios olhos? — Estendeu-me a mão pálida. Encarei-o por alguns segundos, cogitando se era uma boa ideia.

Talvez só por uma noite, pois no fundo não sei qual é a minha maior ambição e tenho receio em descobrir. Olhando para mim através do espelho, me pergunto se o que eu quero é minha autodestruição.

Eu aceito sua mão estendida e rompo o portal com velocidade. Sinto o chão bater em minhas costas e uma pressão sobre meu rosto. Demorou para mim entender o que estava acontecendo, mas minha cópia estava me enchendo de porrada.

— Por que você é tão hipócrita?! — Acertou-me um soco no estômago. — Quem em sã consciência gostaria de ter uma vida tão horrível?! Você sabe o quanto que eu sofri vivendo o desejo de alguém tão masoquista?!

Com dificuldade parei seu punho que vinha em minha direção, inverti nossas posições e imobilizei suas mãos. Ele era fraco, a camisa subiu um pouco e pude ver o quão saltadas estão suas costelas.

— Pode me explicar o que está acontecendo?!

— Me solta! — Exigiu.

— Para me espancar de novo?

Ele estava com a respiração acelerada e pareceu tentar se acalmar um pouco antes de parar de tentar sair de meu aperto.

— Por favor.

Com hesitação, soltei suas mãos e levantei-me.

— É estranho eu me dirigir à você como Eren Jaeger, porém você simplesmente ser o “ele” de meus pensamentos é mais estranho ainda.

— Me chame de Zack. Por pouco que não nos chamamos assim mesmo — Deu de ombros. Seu tom era uma mistura de tédio com tristeza.

Entretanto, ele tinha razão. Meu pai queria Eren, minha mãe achava Zack mais agradável. No fim, é óbvio quem ganhou.

Desperto de meus devaneios com o som estridente do vidro quebrando. Zack havia quebrado o espelho. O desespero possuiu-me à medida que a ideia de não poder voltar mais ficava mais clara. Senti meus olhos umedecerem e segurei sua mão que tinha um pedaço do vidro em mãos.

— Relaxa — Disse, simplista. Sentou-se contra a parede enquanto girava o caco pontiagudo entre as mãos. — Você pode voltar, eu não sou tão maldito à ponto de mantê-lo aqui. Mas eu gostaria que você visse como o seu desejo funciona.

Eu suspirei e sentei-me de frente para ele.

— Você vai tomar meu lugar por umas horas — Concluiu e levou o espelho cortado contra sua barriga.

— Você é louco?! — Gritei, arrancando aquilo de suas mãos e arremessando para longe. Tentei parar o sangramento contente por ao menos não ter sido profundo.

— Você realmente não sabe como funciona essa maldição. Era de se esperar, nunca procurou saber — Revirou os olhos, apontando para a gaveta onde eu costumava guardar alguns remédios. — Podemos viver em realidades diferentes, mas eu ainda sou você. Tenho o mesmo padrão de organização que o seu.

Lembrei do esparadrapo que eu guardava na gaveta desde que entrei em uma briga feia e tive de esconder os ferimentos dos meus pais. Alcancei-o e tratei de seu corte.

— Tem sorte de ter sido superficial, Zack — Pronunciei seu “apelido” com certo humor. — Mas porque fez isso?

Eu estava irritado sim. Eu só atravessei pela aventura de descobrir uma dimensão completamente nova e aqui estou eu, cuidando do corte da minha cópia suicida.

— Eu não sabia que eu sou tão ignorante assim — Suspirou, virando o rosto para o chão. — Eu me furei com o espelho pelo qual você atravessou. Agora você é oficialmente eu, não que isso faça sentido.

— Entendi — Finalizei o curativo. — Você se tornou astral para que só eu possa ser visto mesmo que esteja do meu lado.

— Olha só — Ergueu as sobrancelhas e achei curioso como sua expressão cansada não mudou em nada até com isso. — Você pensa.

— Eu tenho só uma noite, vou dar uma volta. Quem sabe não chova pão de queijo do céu? Eu sempre quis que isso acontecesse.

— Eu vou com você, não gosto da ideia de ficar no quarto enquanto minha cópia masoquista sai fazendo o que quiser com minha imagem. Não que eu tenha uma.

Bufei e saí do quarto, assim que pus meus pés para fora estanquei na mesma hora. Havia uma mulher completamente desconhecida jantando junto com meu pai. Eu pensei em perguntar à Zack, mas ele já estava perto da porta de saída, como se dissesse: “lide com eles rápido e vamos”.

— Eren, onde pensa que vai?

— D-dar uma volta — Não pude evitar de gaguejar, ainda era uma surpresa.

Ela ocupava o lugar da mamãe e usava a caneca preferida dela. Meu pai estava com cabelos mais brancos que o normal e tinha um rosto bem mais enrugado, não dirigiu-me o olhar. Ele estava comendo batatas fritas.

— A essa hora? Nem pensar — Cuspiu as palavras e levantou-se brutalmente da cadeira. — Volte para o quarto, moleque mimado, e estude para ser alguém, seu inútil!

Meu pai encolheu os ombros diante a intensidade da voz daquela mulher, mas ele não me defendeu como faria. Apenas continuou comendo. Voltei meu olhar para Zack que parecia fuzilar a mulher com os olhos.

Suspirei, não seria problema meu mesmo.

— Sinto muito, eu vou sair — Pus firmeza em meu tom e abri a porta o mais rápido que pude.

Ela gritou muitas vezes e até tentou me alcançar, mas aproveitei de minha altura e pulei o muro antes que me alcançasse. Corri para longe, o coração parecia sair pela boca, e na esquina me permiti respirar aliviado. O céu estava limpo e a noite estava quente, é um bom clima.

— Quem é ela? — Questionei quando Zack me alcançou. Eu não consegui controlar a fúria em minha voz.

— Minha madrasta.

— Quê?! — Olhei-o, surpreso. — E a minha… sua, droga, nossa mãe?

— Esse é um dos motivos de você encarar minhas olheiras com curiosidade. Ela morreu.

A informação foi demais para aguentar e acabei perdendo o equilíbrio. Zack não se moveu para me amparar e no fim tive de depender do muro para não cair duro no chão.

Não, nem fodendo eu gostaria que minha mãe morresse, esse não é meu sonho! Algo está muito errado aqui e tentei dizer isso à ele. Tudo o que ele fez foi balançar os ombros.

— Ela se chama Rosie e é uma vadia que meu pai casou por não aguentar a solidão, esse é o resumo. Agora conforme-se, você tem pouco tempo para ficar se lamentando. Eu já fiz isso por você, relaxa.

Engoli o nó que se formou em minha garganta e tentei me acostumar ao gosto amargo que surgiu em minha boca. Olhei fundo nos olhos foscos de Zack e, novamente, não consegui adivinhar o que se passava em sua cabeça.

— Para onde? — Questionou-me.

— Minha rua parece estar intacta — Comentei, ainda meio atordoado. — Eu quero me encontrar com algumas pessoas que convivo.

— Interessante. Eu não convivo com ninguém aqui.

Fitei minha cópia sadboy de cima à baixo e suspirei.

— Você conhece Mikasa? Ou talvez Armin ou Jean.

— São da minha sala, e daí?

Desisti de tentar convencê-lo, ele nem deve falar com eles como eu falo. Então resolvi deixar a ideia de encontrá-los para lá. Até que me lembrei de uma pessoa em especial e comecei a descer a rua. Zack seguiu-me em silêncio. Passamos por uma placa eletrônica que mostrava 22:02 da noite. Estranhei.

— A gente voltou no tempo? Me lembro bem de ter passado boas horas jogando.

— Dimensões não tem a linha temporal exatamente correta.

— Você sabe bastante — Olhei-o. — Onde encontrou tantas informações sobre isso tudo?

— Não somos os únicos a nascer com o laço desfeito.

Parei de fazer-lhe perguntas. Eu sempre achei minha imagem dos sonhos assustadora demais, além de que sempre tive essa vontade de ser normal. De olhar para o espelho e ver meu reflexo exato. Deve ser por isso que adotei essa atitude ignorante e vivi minha vida como se nada estivesse acontecendo.

Mas não é hora de pensar nisso.

Parecia uma noite de filme de terror. Estava frio, por volta de 11°C, e o céu estava limpo com apenas algumas nuvens escondendo as estrelas. Um medo estranho apertava meu estômago e Zack tomou minha dianteira, como se soubesse para onde eu queria ir.

— Chegamos — Disse ao levantar o rosto para a casa de Levi.

— Você o conhece?

Zack não respondeu, apenas contornou a casa, seguindo para o terreno baldio ao lado. Eu o segui.

— Onde está indo?

— Não posso simplesmente aparecer na casa dele assim, de repente.

— Mas sou eu quem está aparecendo, não você.

— Que diferença faz? — Indagou, escalando uma árvore com uma copa baixa. — Suba, dá para ver o quarto dele daqui.

— Isso é espionagem! — Argumentei, mas eu já estava subindo.

Zack havia se apossado de um galho onde parecia já estar acostumado. Não havia espaço para mim, então acabei pendurado no tronco.

— Lá — Indicou com a cabeça.

Segui seus olhos e encontrei a janela em questão. Levi estava lá dentro, escrevendo algo em um caderno e ao seu lado estava…

— Ah, meu Deus… — Pisquei freneticamente tentando descobrir se eu estava enxergando bem.

— O que foi? — Zack indagou, olhando-me de canto.

— Quem é aquele do lado dele?

— O irmão dele, Farlan.

Levi estava sorrindo enquanto Farlan falava algo e eu tentava ligar os pontos para tentar entender o por que dele estar vivo. Sem sucesso algum.

— Eren — Chamou-me e, pelo tom sério, olhei-o imediatamente. — O que está acontecendo?

Ah, eu gostaria de saber.

— Levi é meu melhor amigo e ele não era feliz assim, ele era… — Tentei procurar um adjetivo que o descrevesse bem, mas não encontrei. — Ele era como você.

Seu rosto contraiu-se em choque.

— Sem chance, Levi sempre foi um exemplo de pessoa, ele é gentil, estudioso e alegre.

Eu quis rir, mas o choque com a situação atual não me deixou. Levi gentil e alegre? Isso era algo que não se encaixava nele. Não no meu Levi.

— Farlan está vivo.

— Como assim?

— Ele morreu de câncer há dois anos, desde então Levi virou… você.

O rosto de Zack pareceu iluminar-se gradativamente. Pulou do galho e, ao pousar no chão, enfiou a mão no bolso da calça e sinalizou para mim descer.

— Vamos embora, ouvi uma bruxa.

— Existem bruxas aqui? — Questionei, surpreso.

— No seu mundo não? — Devolveu-me a pergunta para logo após suspirar. — Tá tudo bem, elas são inofensivas, embora causem um estrago no teu psicológico.

Saímos do terreno baldio e Zack atravessou a rua sem nem olhar pra mim. Eu estanquei na calçada, fitando a casa muito mais bem-cuidada que normalmente era. Senti o olhar dele queimar em minhas costas e decidi que já era hora de voltar.

— Vou voltar — Avisei.

— Já?

— Eu sabia que isso não era pra mim.

— Posso só fazer uma pergunta?

Assenti, amargurado com as sensações ruins que preenchia meu coração.

— Você gosta do Levi?

Passei alguns segundos observando os verdes opacos até absorver a pergunta. Levei as mãos até meus cabelos e respirei fundo.

Eu e Levi nos conhecemos através de um amigo que tínhamos em comum, em uma chamada por voz enquanto jogávamos. Desde então, esse amigo em comum acabou afastando-se da gente ao encontrar uma namorada e nós acabamos ficando próximos ao ponto de nos encontrarmos quase todo fim de semana para jogar ou maratonar alguma série. Eu estive ao lado de Levi quando Farlan faleceu, eu fui em seu enterro e eu que dei meu ombro para ele chorar enquanto sua mãe se trancava no quarto, abalada.

Eu sempre fui o pilar dele, a única pessoa que ele podia contar quando os anjos o abandonaram e seu coração pareceu ser tomado pelo desespero. Eu ouço suas confissões e tento erguê-lo novamente. Para que ele possa mais uma vez alcançar o céu.

Sim, eu gosto dele. Gosto da exclusividade em ser a única pessoa que ele ouve, gosto de nossas madrugadas em chamadas de voz cantando músicas do Freddy Mercury e gosto de quando vamos ao cinema criticar os efeitos especiais dos filmes.

Acabei por sorrir para ele.

— Uhum, eu gosto dele.

Um cachorro cutucou meu pé e acabei levando um leve sobressalto com o susto. Era um cachorro magro, que acabei por agachar-me e acariciar seus pelos.

— Não toque nele.

— Eh? Por quê? — Questionei.

Lembranças que eu não gostaria de lembrar voltaram com força para minha cabeça. Eu vi Levi abraçando Farlan em seu leito, vi as diferentes pessoas em seu enterro comentando coisas clichês como “ah, ele era tão jovem…” ou “ele está em paz agora “.

Lágrimas quentes grudaram em meus cílios enquanto eu fitava, hipnotizado, os olhos incrivelmente semelhantes aos de Levi do cachorro.

De repente, flashes de coisas que nunca vivenciei invadiram minha mente. Coisas como Levi me consolando, abraçando-me e sorrindo para mim. Um belo sorriso. A foto de minha mãe sobre um caixão envolto de tulipas e meu pai caindo no penhasco da solidão enquanto sua carreira era esquecida no meio daquela maré de sentimentos negativos.

Eu vi o modo de como eu expulsei Levi do meu quarto, movido pela raiva e angústia da nova mulher que meu pai trouxe para casa, e dizendo-o para nunca mais voltar. E os olhos tristes dele antes de dizer-me adeus.

— Eren! — Minha própria voz chamou-me.

Zack ameaçou chutar o cachorro, que recuou rosnando. Quando voltei a realidade, minha visão estava turva e senti suor escorrer pelas minhas bochechas. Levantei-me, tonto, e tentei acalmar minha respiração elevada.

— Droga, Eren, era uma bruxa — Repreendeu-me, olhando com asco o cachorro que distanciava-se até desaparecer rua afora. — E eu ainda te avisei…

— Você expulsou Levi — Falei, eu estava assustado com as visões que tive.

— Sim — Respondeu e pude ter o vislumbre de um brilho triste em seus olhos. — Vamos embora.

— Não — Decretei. — Ele estava tentando te ajudar, por que fez isso?!

A raiva consumia-me de uma forma assustadora.

— Eu não queria que ele passasse pelo que você está passando agora! — Elevou o tom de voz. — Só pessoas frias sobrevivem nesse mundo, Eren.

Calei-me diante a frase que Levi me dissera há horas atrás e olhei para o chão. A rua estava silenciosa, assim como a noite vazia que tomava os céus. Mordi meu lábio tão forte que senti o gosto de sangue.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que você é gentil demais. — Aproximou-se de mim e olhou fundo em meus olhos. — Você está do lado de Levi sempre, eu sei disso, e olha como você está agora. Olha como é por dentro — Apontou para si mesmo. — Este é o universo que você desejou. Uma realidade onde Levi fosse feliz. Mas e você? E sua felicidade? Já pensou nisso?

Não aguentei a acusação de seus olhos sobre os meus e abaixei a cabeça.

— Eu me afastei dele para que Levi não fosse assim por dentro. Eu já estou acabado mesmo, então tanto faz. — Deu de ombros, volvendo o olhar para o sobrado dos Ackerman. — Ele está feliz agora, sem um peso morto como eu para consolar o tempo todo.

Senti como se uma onda estivesse quebrando bem em minhas costas. E o baque doeu. Será que Levi pensava isso de mim? Que ele estava me incomodando? Um medo incomum dele se afastar porque está pensando em meu bem estar atingiu-me. Quero que ele seja egoísta à ponto de não pensar nisso.

Segurei o tecido de minha camisa por cima de meu peito e senti meu coração agitado.

— Você quer dizer que pessoas gentis são tristes por dentro e que pessoas insensíveis tem mais chance de se dar bem?

— Olhe para si mesmo e verá que tenho razão. — Começou a andar e eu o segui novamente, sem olhar para a casa de Levi. — Há uma coisa chamada de lei de conservação de massas que é basicamente o que equilibra as duas dimensões. É necessário ter a mesma quantidade de pessoas, sem um a mais e sem um a menos.

Interrompeu os passos e lançou mais um dos olhares de congelar o corpo. Eu mesmo não sabia que possuía tal habilidade.

— Para que Farlan vivesse, outra pessoa teria que deixar de existir, simples assim.

— E essa pessoa foi minha mãe… — Sussurrei, ligando os pontos.

Zack enfiou as mãos no bolso e voltou a andar como se nada tivesse acontecido. Eu o segui, exausto da curta viagem que me fez entender melhor quem eu sou. O que eu quero.

Quem eu quero.

Observei os castanhos de meus próprios cabelos balançando em minha frente. Ele andava de cabeça baixa e passos apressados. Comprimi meus lábios, será que Zack me odiava? Por ser alguém, ao ver dele, bom, ele me amaldiçoava?

Nunca pensei que simplesmente ajudar alguém poderia me fazer ser alguém solitário por dentro. Está certo que não tenho muitos amigos e Levi é a pessoa que mais admiro dentre as pessoas que conheço. Pelo seu modo de pensar e suas críticas sempre bem estruturadas. Ele é inteligente demais e eu, emotivo demais.

Coloquei Levi Ackerman em um pedestal e cuidei de suas feridas enquanto a afiada faca de suas palavras rasgavam minha pele sem eu perceber. E desejei sua felicidade mais que a minha própria. Agora, meu emocional é tão fraco que até caio em truques mentais de bruxas.

De volta à minha casa, Zack comenta que deixou a janela do quarto aberta e acabamos por pular o muro e saltar a janela. A lua brilhante refletia nos pedaços de espelho jogados pelo chão. E então, seguimos para a minha suíte e acabei por fitar o espelho do qual nada mostrava a não ser um banheiro vazio da minha realidade. A temperatura pareceu aumentar enquanto Zack continuava parado em frente ao balcão.

— Quando quiser — Anunciou, indicando o espelho com a cabeça.

— Eu sinto muito por tudo — Falei, encolhendo-me no aconchego de meus próprios braços.

— Pedir desculpas para si mesmo é algo idiota de se fazer — Zack suspirou, coçando um dos olhos. — Só volte e faça seu show.

— Se eu alcançar meu objetivo, as coisas vão melhorar por aqui — Sugeri em tom de pergunta, mas já sabia a resposta.

Ele concordou, mostrando-me o verde fosco contornado pelas olheiras profundas que eram seus - ou meus-, olhos.

— Sonhos deixam de ser sonhos quando se tornam realidade.

E seu mundo vai mudar.

Eu avanço alguns passos e o envolvo em um abraço apertado. Entrar em sintonia consigo mesmo é algo importante quando se almeja a felicidade. Bruxas, gentileza e frieza são coisas do acaso.

Quando se é frio, há poucas chances de ser feliz, mas as chances de ser machucado são quase nulas. No entanto, quando se escolhe o caminho da gentileza, você se coloca em uma estrada complicada. Entre farpas e traições é complicado descobrir sobre o que você vai passar.

E agora, abraçando meu eu de meus sonhos, percebo que peguei o caminho mais perigoso por Levi.

— Obrigado — Sorri ao me afastar.

Zack deu de ombros, mas pude ver uma faísca nascendo em seus olhos.

— Talvez as coisas não mudem muito, mas viva sua vida.

Torci o nariz com seu pessimismo, mas não pensei muito nisso. Eu simplesmente me deixei ser sugado pelo espelho e, quando me vi, eu já estava em meu mundo. Olhei para o reflexo e Zack estava deixando o banheiro.

Ao entrar em meu quarto, notei o espelho de corpo inteiro trincado. Não havia nenhum sinal de vida do outro lado, simplesmente mostrava o vazio em seu melhor tom de cinza. Acariciei o espelho que não emanava o calor característico de sempre. Suspirei e virei-o contra a parede.

Olhei para o relógio de cabeceira que marcava quase 3 da manhã. Se bobear, Levi estava acordado ainda.

Quem sabe poderia marcar de sair com ele no próximo sábado? Tenho um objetivo claro agora.

Eu não me sentia exatamente feliz. Não parecia justo estar, até porque conhecer um lado triste e solitário de si mesmo não é algo agradável de se fazer. Mas agora eu tenho uma luz do que fazer, e de repente senti vontade de pular a janela e ir visitar Levi, de madrugada, para fazermos nada juntos.

O quarto estava solitário e vazio, a lua não brilhava tanto quanto na dimensão paralela a esta. Meu celular com o brilho no mínimo foi desbloqueado para avisar à Levi que estava indo, e minha mensagem foi visualizada quase que instantaneamente.

Ele tentou contrariar, mas eu já havia abandonado o celular e embarcava, mais uma vez, na noite de céu brilhante com um quê de sombrio. Sorri para o gato que, em determinada esquina, começou a me seguir, e nem liguei para o fato de seus olhos dourados estarem me fitando com interesse. Podia ser uma bruxa, mas quem liga?

É necessário ser frio para sobreviver neste mundo, sei disso. Mas eu não tô nem aí para isso. Eu só preciso seguir o caminho que eu acho correto para alcançar minha felicidade e o amor de Levi.

2 de Setembro de 2018 às 12:35 4 Denunciar Insira 8
Fim

Conheça o autor

Hime Escrever na companhia de uma caneca de Nescau é para poucos, e com uma playlist calma e agradável? Quem sabe. Tragédia e humor são minhas categorias favoritas, já que mais se assemelha à realidade dos seres humanos hoje em dia. Ainda com muito a melhorar, mas dando meu melhor, aqui estou eu.

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Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, tudo bem? Gente, que delícia que acabei de ler! A história tem seu próprio ritmo. Conforme a narrativa do Eren vai avançando, cada ponto vai se tornando claro, quando ele entende que na verdade aquela era a realidade em que o crush Levi era feliz como em seus sonhos, deixou clara a proposta da história referente a universos alternativos. Não só isso, como uma realidade um tanto perturbadora, seus desejos podem se tornar o seu próprio pesadelo, e acaba que o Eren do outro universo que sofre as consequências. Eu gostei da forma clara de como ocorreu, no mesmo ritmo, e achei muito original o plot em si. Mas tem alguns pontos a serem destacados... Como o subgênero é fantástico e tudo mais, você tratou sim do sobrenatural, só que faltou um pouco no desenvolvimento da ambientação que acaba perdendo um pouco do subgênero e podendo ser facilmente confundido com contos de fada, que é outro subgênero, que vai além da moral retratada no final da história. De resto, o texto é fantástico, tanto em ortografia, como havia dito, e em originalidade. E, meu Deus, que plot maravilhoso!!! Espero que tenha se divertido com o desafio. Parabéns! Beijinhos 😘
4 de Outubro de 2018 às 14:22
BC Bruno Coutinho
Embora não seja o maior apreciador de fanfics, devo dizer que gostei desta história. Você pegou naquela abordagem "existe vida do outro lado do espelho", mas revestiu-a de uma camada de introspeção que foi interessante ler. Captei ainda que, embora a história tenha uma moral própria, o peso dessa moral não se refletiu numa mudança de comportamentos da personagem principal (ou talvez não a tenha captado). No geral achei bastante impar e, quem sabe, bastante revelador da sua personalidade. Foi interessante!
3 de Setembro de 2018 às 06:32
Nathalia Souza Nathalia Souza
Hello hello! Devo dizer que o conto me surpreendeu, positivamente é claro. Amei a sua escrita, envolveu-me de uma forma tão rápida que logo já estava meio dividida entre o modo de pensar de Zack e Eren (mesmo eles sendo a mesma pessoa, isso é causa um brain bug imenso kkkk). Realmente gostei do desenvolvimento, história perfeita para um conto, parabéns. Beijos!
2 de Setembro de 2018 às 09:06

  • Hime  Hime
    Aaa, eu já achava que pelo atraso iam pisar e dançar em cima da minha one, mas olha só, tem um ser humaninho aqui <3 Muito obrigada pelos elogios e espero te ver mais por aqui, mocinha :3 2 de Setembro de 2018 às 13:08
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