laety-p Letícia Paiva

Nas entranhas de uma antiga floresta, uma pequena aldeia prosperava. Durante três estações do ano, a floresta dava aos aldeões todo o seu sustento; Durante o inverno, no entanto, a floresta tomava sua parte de volta.


Fanfiction Desenhos animados Para maiores de 18 apenas.

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Nas entranhas de uma antiga, majestosa e lúgubre floresta, os habitantes de uma pequena aldeia preparavam-se para a maior celebração do ano. Havia menos pessoas a cada ano, desde que a igreja fora construída e uma nova religião foi propagada. As famílias mais abastadas, que declaravam-se tementes a esse novo e único Deus, não só juraram não aparecer como não pouparam palavras ao condenar os festejos e a todos que participassem daquela heresia. Com medo de perder clientes, alguns mercadores e outros que temiam a represália dos mesmos os apoiaram. Ainda assim, as tradições da aldeia estavam lá há gerações, desde que a primeira casa fora construída e a primeira vida florescera naquele solo. Não havia como pouco mais de uma década de religião cristã apagar o que estava tão enraizado quanto as árvores daquela floresta.

O solstício de inverno marcava o dia do festival, que reunia todos ao redor de grandes fogueiras, onde compartilhavam histórias sombrias e queimavam seus medos nas chamas. Músicas que cantavam suas lendas mais antigas eram tocadas e o povo dançaria até o amanhecer, quando o inverno os tocaria oficialmente e o período mais difícil do ano começaria. Era como mantinham as esperanças de que estariam vivos para celebrar mais um Festival de inverno.

Com a aproximação da noite, as pessoas adiantavam-se em direção a clareira onde as festividades aconteceriam. Cada um traria o que pudesse de comida e bebida, os que tocavam trariam seus instrumentos e os contadores de histórias trariam seus contos mais sombrios na ponta da língua. A clareira foi ficando cada vez mais cheia, as fogueiras foram montadas e muitos já se preparavam para acendê-las e se sentar ao redor delas.

Em um canto afastado da fogueira central e próximo as árvores da floresta, um grupo de amigos se reunia pela primeira vez em meses.

Hunk foi o primeira a chegar. Filho do padeiro mais famoso da aldeia, ele e seus pais fizeram questão de trazer as melhores e mais deliciosas comidas. A gentileza e benevolência daquela família os fazia tão famosos quanto o gosto dos alimentos que produziam. Alto, moreno e robusto, Hunk arrancava suspiros de muitas moças da vila com seus sorrisos gentis.

Pidge chegou pouco depois de Hunk. Os longos cabelos de um belo castanho aruivado, que herdara da mãe, estavam presos para trás de forma displicente. As roupas velhas e gastas eram de seu irmão, mas ela sempre preferiu usar calças a ter de se enfiar em saias que a atrapalhariam nos afazeres diários e a impedia de escalar árvores com destreza. Suas botas gastas, ao menos, eram dela mesmo, assim como a capa marrom e remendada sob seus ombros. Não tinha muito com o que contribuir, já que sua família mal se sustentava desde que sua mãe adoeceu e, consequentemente, veio a falecer, mas queria tanto ver seus amigos que fez questão de vender uma galinha por duas garrafas de vinho e isso teria que servir.

Em seguida, Lance e Allura chegaram praticamente juntos. Lance era filho de comerciantes, que já tiveram uma parceria com os pais de Pidge antes da mãe da mesma adoecer. Suas roupas tinham boa qualidade e estavam limpas. Ele era bonito, com a pele e os cabelos castanhos e de sorriso fácil. Havia trazido cinco garrafas de cerveja e pães, que já estavam nas mãos dos aldeões.

Allura foi uma presença inesperada, mas que, como sempre, alegrou a todos. Ela era dotada de uma beleza incomum que causava tanta admiração quanto inveja; Os longos cabelos brancos estavam soltos e cobriam parte da capa de seda roxa. O vestido bege com detalhes verdes era o mais bonito e mais caro de todos, já que ela é filha da família mais rica da aldeia. Havia fugido pela janela para estar ali e havia trazido um dos itens mais importantes da noite: suas histórias. A maioria dos aldeões não sabia ler e Allura devorava livros com voracidade, sempre trazendo novas lendas de lugares distantes, outras lendas tão antigas sobre a floresta que seu povo já as havia esquecido.

Após o cair da noite, Keith e Shiro chegaram juntos, já que ambos moram na igreja. O padre acolheu Shiro quando este fez dezesseis anos, já que o órfão não tinha lugar para ficar. O pequeno orfanato da aldeia é mórbido e decrépito e foi onde Shiro cresceu, até o padre o conhecer e o chamar para ser seu aprendiz. Keith passou anos no mesmo orfanato, desde que seu pai morreu e Shiro pediu para que o acolhesse também, já que o menor ficaria sozinho naquele lugar sem ele. Keith apenas os ajudava a manter o local limpo e em ordem em troca da moradia, o que já era o suficiente.

-Não tinhamos certeza de que os homens mais devotos da aldeia iriam comparecer a este evento profano. -debochou Pidge, com a chegada dos dois.

-Eu tinha certeza de que viriam. -Allura sorriu a Shiro. -Mesmo que sua presença aqui seja mesmo questionável, sabia que viria por nós.

-Na verdade, nós viemos pela bebida e comida de graça mesmo. -cortou Keith, não gostando nem um pouco dos olhares que Allura direcionava a Shiro.

Um silêncio desconfortável permaneceu enquanto os dois se sentavam ao redor da fogueira recém-acessa. Aqueles meses separados haviam certamente criado um distanciamento e estranheza entre eles, por mais que não quisessem admitir.

-Pidge, como está seu pai? Ele conseguiu algum trabalho recentemente? -perguntou Hunk, tentando mudar o clima. A garota deu de ombros e tomou um gole de vinho.

-Continua sem conseguir desenhar nada. Não que fossem querer contratá-lo depois de ganhar a fama de “marido da louca”, “esposo da bruxa” ou seja lá o que mais esses miseráveis digam sobre ela. Desde que ela disse ter sido pega pela besta da floresta, todos já a viam como insana. Era só uma questão de tempo até terminarmos num casebre, desempregados e mortos de fome… Exatamente como estamos agora.

-E ela realmente foi? -Lance a interrompeu, ao que Allura lhe socou o braço com força. -Ai! Desculpa, mas acho que seria melhor ouvir isso de você do que acreditar nas fofocas do povo.

O silêncio voltou a recair sobre eles, dessa vez ainda mais pesado, hesitante.

A Besta da floresta. De longe a mais famosa das lendas da aldeia e que, até a chegada da igreja, era tratada como verdadeira. Durante três estações do ano, a floresta dava aos aldeões todo o seu sustento; As frutas eram robustas e suculentas, os animais davam boa carne e algumas áreas eram boas para o plantio. Durante as estações da primavera, verão e outono, a floresta os provia de vida; Durante o inverno, no entanto, a floresta tomava sua parte de volta.

Uma Besta cruel, cujo a face eles podiam apenas imaginar rastejava da floresta até suas casas e os levava para as árvores, de onde jamais retornariam. Para impedir tais mortes cruéis, era preciso um sacrifício de sangue em nome da floresta e um ritual de sangue em nome da Besta; Um animal deveria ser sacrificado por cada família e seu sangue utilizado para que pintassem ao redor de cada porta e janela de sua casa, saciando assim a fome de vida da floresta e mantendo a besta longe de suas famílias. Ninguém poderia andar pelas ruas depois do anoitecer, pois sabiam que a Besta era astuta e estava sempre a espreita, esperando por um único momento de descuido para atacar. Ninguém nunca havia retornado da floresta após ser levado por ela. Os sortudos tinham seu corpo encontrado posteriormente, completamente dilacerado e podre.

-Ela desapareceu durante uma noite de inverno, logo depois do meu pai tê-la convencido a abdicar do sacrifício de sangue… -Pidge sussurrava, fazendo uma pausa para tomar mais um gole do vinho. Todos ao redor a observavam fixamente, curiosos. -Ela não queria ter deixado de fazer, eu nunca tinha visto uma discussão tão feia entre os dois. Ele disse que perderiam o sustento se ela continuasse com aquela tolice, que ninguém da nossa classe ainda acreditava naquelas baboseiras… E ela cedeu, quando ele disse que morreríamos de fome por causa das maluquices dela. No dia seguinte, ela tinha sumido.

“Minha mãe simplesmente desapareceu. Nenhum dos criados a viu sair ou sequer notou que ela havia desaparecido até de manhã. A procuramos por toda aldeia, mas não havia nenhum sinal dela. A noite caiu novamente e, ainda assim, ela não tinha voltado. Os criados já sussuravam sobre a besta tê-la levado, mas meu pai insistia que ele deveria ter saído para caminhar e se perdido. Nada mais do que um tolo, tentando afastar o medo e a culpa de ter causado a possível morte de sua mulher. Na manhã seguinte então, tão subitamente quanto havia desaparecido, minha mãe voltou para casa.

Suas roupas estavam rasgadas em várias partes, sujas de sangue, terra e folhas. Haviam marcas e cortes em seu corpo impossíveis de se descrever, mas que se assemelhavam com garras e dentes. Havia um ferimento enorme em sua perna esquerda que me da nauseas só de lembrar… Mas seu rosto é a parte mais assustadora. Se o pânico tivesse um rosto, seria aquela exata expressão no rosto de minha mãe. A total ausência de vida, como se nem mesmo conseguisse conceber a ideia de ainda estar viva. Ela ficou em estado catatônico até o entardecer, quando simplesmente se levantou da cama, matou nosso gato com um castiçal e começou a passar o sangue dele em todos os portais e janelas da casa. Os criados se assustaram tanto que alguns foram embora de imediato, ainda que fosse noite. A única coisa que minha mãe disse sobre o assunto foi que precisava nos proteger da Besta, ou ela voltaria e levaria todos nós dessa vez. Ela nunca contou o que viveu durante aquele dia na floresta, mas eu sei que ela escreveu tudo em um diário, que guardava sempre para si… Pouco depois disso, ela adoeceu. A ferida na perna infeccionou e estava cada vez mais perturbada, alucinada. Meu pai gastou cada moeda que tínhamos tentando curá-la, chegou a até mesmo bancar um médico de fora da floresta, mas ninguém conseguiu salvá-la. Ela voltou da floresta condenada, com apenas meses cruéis de vida até definhar e morrer.”

Pidge precisou fazer mais uma pausa, onde tomou três longos goles do vinho. O fogo crepitando parecia ser o único som a volta deles, como se a própria floresta houvesse parado para escutar. A garota então pigarreou e continuou a história.

-Em seu leito de morte, foi a única vez em que ela mencionou a noite na floresta. Disse que só conseguiu fugir da Besta porque achou um lugar para se esconder, onde vivia um ser tão cruel que até mesmo a Besta da floresta não ousaria entrar ali… Mas que as coisas que viu ali levaram sua sanidade. Que mesmo que a infecção não a levasse, ela já estava morta quando cruzou o caminho daquela criatura. Meu pai então mandou que eu e meu irmão, Matt, saíssemos do quarto e ficou ao lado dela até que morresse. Ninguém nunca teve coragem de ler o diário dela e, sinceramente, não sei porque não o trouxe hoje para deixar que queimasse na fogueira.

-Eu sinto muito mesmo, Pidge. -Shiro segurou a mão da amiga, em reconforto. -Me desculpe por você ter tido que passar por isso sozinha. Eu sei que todos aqui tivemos meses de dificuldades, mas nada justifica não termos estado ao seu lado. Mas eu prometo que isso nunca mais irá acontecer. De agora em diante, nós sempre estaremos um ao lado do outro.

-É, nós nunca mais vamos nos separar! -concordou Hunk.

-Eu só acredito se fizermos o pacto de fogo. -Allura cruzou os braços, desafiando a todos.

-Eu topo. -Keith deu de ombros. -Uma queimadura de leve nem vai incomodar tanto.

-Então vamos fazer. Todos topam? -o olhar de Allura era tão firme quanto suas palavras e, assim, mesmo que hesitantes, ela convenceu a todos de lhe seguir.

Um por um, eles posicionaram seu dedo indicador ao redor da fogueira, próximo as chamas.

-Juntos para sempre. -as palavras de Shiro jogaram a promessa a fogueira, ao que todos repetiram a sua volta.

“Juntos para sempre”

E então queimaram a ponta do dedo no fogo, selando o juramento para sempre.

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-Nas entranhas mais profundas da floresta, existe uma caverna tão antiga que foi esquecida pelos Deuses. -a voz de Allura era baixa, mas todos podiam ouví-la. Não havia um aldeão que não fizesse silêncio para escutar as história da moça, mais sombrias e arrepiantes a cada festival. -Há muitos milênios, essa criatura foi selada na caverna por seres poderosos que não andam mais entre nós. Tentaram de tudo para matá-la, depois que ela havia devorado e aterrorizado seu povo, mas nada parecia conseguir destruí-la. Eles então utilizaram a magia mais forte que conheciam, uma magia de selamento que nem mesmo tão odiosa criatura conseguiria destruir. Foi assim que conseguiram montar uma armadilha para ela e a trancafiaram na caverna, onde a tal criatura permanece até hoje. Poucos conseguiram achá-la, já que está escondida no canto mais obscuro da floresta, mas, os que a encontraram e conseguiram sobreviver, saíram de lá completamente loucos e cometeram suicídio pouco depois.

-Minha nossa senhora de todos os santos, que Deus nos livre. -balbuciou uma senhora, ao que todos gargalharam. A tensão estava alta, todos os presentes estavam arrepiados até nos cabelos das áreas baixas.

-Que todos os Deuses nos protejam, Lucrécia, não só aqueles que pregam para nós. -a voz de Allura endureceu na resposta e o fogo da grande fogueira pareceu dançar em resposta.

-Que se dane toda essa baboseira, é hora da música! -gritou Lance, ao que os aldeões se juntaram a ele.

Logo música preenchia a floresta e os ouvidos de todos, que dançavam ao redor das fogueiras, queimando seus medos e preocupações. Era uma purificação e libertação. Era a esperança de não morrerem de fome ou frio, nem mesmo levados pela besta. Era uma prece para todos os Deuses.

Um homem se juntou aos instrumentistas, dando voz a Dança da morte, uma das músicas mais tradicionais da aldeia. Começava lenta, como se sussurrasse a história do homem que, após algumas doses em uma taverna percebeu que era observado por algo que se escondia entre as árvores da floresta. Antes que pudesse se dar conta da armadilha, ele já havia sido seduzido pelas criaturas da floresta a adentrá-la, acabando em uma clareira onde criaturas de todos os tipos dançavam em volta de uma grande fogueira. Junto dos seres da floresta, ele reconheceu o espectro de aldeões e foi assim que percebeu que os que dançavam ao redor dele estavam todos sumariamente mortos. Era então que a melodia crescia e queimava incandescente, como as chamas da enorme fogueira no centro da clareira

As pessoas formaram seus pares para dança; Hunk convidou Pidge, que aceitou a mão do amigo com um sorriso. Allura estava a meio caminho de convidar Shiro quando o viu estender a mão para Keith, que parecia encabulado mais aceitou. Logo Lance lhe convidou em seguida e ela aceitou, fingindo um sorriso alegre para que o garoto não percebesse que ela preferia estar dançando com outro.

Os corpos do aldeões moviam-se como se fossem as próprias chamas, os casais dando voltas ao redor da fogueira, em uma dança que era tanto elegante quanto brutal. Uma música acabava e outra entrava em seu lugar, sendo assim até o amanhecer. E, junto com o Sol, o inverno finalmente chegara.

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A igreja estava cheia. Era manhã de missa, o dia em que todos os devotos da cidade iam para invalidar os diversos pecados que haviam cometido durante a semana. A voz do padre ecoava pela pequena construção, pregando as palavras de um Deus estranho aquelas terras, mas que havia chegado para enterrar todos os outros Deuses.

E então a porta da igreja foi escancarada e uma garota pequena e ofegante assustou a todos os presentes. Pidge tremia da cabeça aos pés e tentava reprimir as lágrimas a todo custo.

-Matt… A Besta levou meu irmão! Ela levou meu irmão! Precisamos encontrá-lo!

Silêncio sepulcral tomou o lugar. Olhares raivosos encaravam a garota com desprezo, enquanto outros, desconfiados, procuravam desviar o olhar dela.

-Vocês não vão me ajudar?! Vão deixá-lo morrer como fizeram com a minha mãe?!

-Aquela bruxa teve o que mereceu! -gritou alguém e logo foi seguido por outras manifestações infelizes.

“É, a bruxa mereceu!”

“Ninguém sobrevive a Besta, era uma mentirosa degenerada!”

“A filha da bruxa deve ter matado o irmão…”

Antes que as coisas pudesse piorar, Shiro atravessou a Igreja e segurou o pulso da amiga firmemente, levando-a para fora da igreja. Pidge tentou se soltar, mas ele continuou arrastando-a para o terreno atrás da igreja, onde Keith repousava de forma displicente.

-Keith, vá chamar Hunk na padaria, depressa.

-Aconteceu alguma coisa? Pidge, o que houve com você?

Antes que a menina pudesse responder, Allura e Lance chegaram correndo, ofegantes. Assistiram tudo de dentro da igreja, mas foram impedidos pelos pais de reagir de alguma forma.

-Pidge, me desculpe! Os meus pais… Você conhece os meus pais… -Allura tinha lágrimas nos olhos, mas os punhos estavam cerrados de raiva. -Você não merecia isso! Me desculpe!

-...-Pidge tremia tanto que era difícil encontrar as palavras. - Meu irmão… Eu não posso perder ele também… Precisamos encontrá-lo

-E vamos. - a afirmação de Shiro não dava espaço para dúvidas. -Keith vai buscar Hunk na padaria e vamos todos para a floresta procurar seu irmão. Fizemos uma promessa no Festival de inverno e eu não pretendo voltar atrás com a minha palavra. Juntos para sempre.

-Juntos para sempre. -Allura confirmou e encarou Lance com firmeza, até o garoto bufar e repetir as palavras dela.

-Juntos para sempre. E agora eu vou buscar o Hunk. Encontramos vocês na sua casa, Pidge? -perguntou Keith, ao que a menina assentiu.

-Sim… Obrigada pessoal. Juntos para sempre.

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Os seis amigos passaram o resto do dia na floresta e não encontraram nada, para a tristeza de Pidge. A casa não tinha sinal de arrombamento e, exatamente como havia acontecido com sua mãe, Matt simplesmente sumiu sem deixar rastros. A neve que caiu a noite havia apagado suas pegadas e a possibilidade de o encontrarem era cada vez menor. Ainda assim, a garota se recusava a desistir.

-Pidge, nós precisamos voltar. O Sol vai se pôr daqui a pouco e ficaremos presos no escuro da floresta.

-Ele tem que estar aqui… Se voltarmos amanhã pode ser tarde demais!

-Se não voltarmos agora, amanhã pode ser tarde de mais para nós! -gruniu Lance.

Ninguém retrucou as palavras dele, o que apenas irritou Pidge.

-Se estão preocupados com suas próprias bundas, podem dar meia volta e ir embora. Não é a primeira vez que fico sozinha, vou sobreviver.

-Pidge…

-Não, Hunk, eu não quero que você…

-Pidge! -repetiu Hunk, com firmeza. -Eu… Acho que encontrei seu irmão.

Choque atravessou o corpo de todos eles, mas Pidge correu mais rápido que o vento na direção de Hunk e caiu de joelhos com o que viu.

Era Matt. O gelo do inverno havia mantido a parte de seu rosto que não estava desfigurada intacta. Havia pedaços de Matt para todos os lados, em uma bagunça de órgãos, pedaços de carne e sangue… Muito sangue. Eram os restos da refeição da Besta.

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Com a notícia de que o corpo de Matt havia sido encontrado de forma desfigurada, as pessoas passaram a se tornar até mesmo hostis com Pidge. Os que não a evitam por achar que ela era uma mentirosa degenerada como a mãe a chamavam de bruxa e a culpavam pela morte de ambos.

Os seis amigos não sabiam o que dizer um ao outro e assim uma semana havia se passado sem que sequer se reunissem novamente.

Shiro e Keith estavam arrumando a igreja para fechá-la. As portas eram trancadas sempre ao anoitecer e eles já haviam se acostumado a aquela rotina. Conversavam trivialidades, as vezes trabalhavam lado a lado em um silêncio confortável, mas estavam juntos.

Keith achava que conhecia Shiro completamente, assim como este o conhecia. Shiro havia sido a única pessoa que o acolheu quando seu pai morreu. Ele nem mesmo conhecia a mãe e a única pessoa que tinha como família morreu em um incêndio quando ele tinha doze anos. Keith era um garoto problema, do tipo que todos evitavam… Exceto Shiro, que o acolheu, acreditou nele e nunca havia deixado de estar ao seu lado. Keith o amava… Talvez mais do que deveria, ao menos mais do que as pessoas daquela aldeia infeliz achariam adequado. Ele odiava aquela igreja maldita, que pregava as palavras de um Deus que condenava o amor que sentia por Shiro. Tudo ali cheirava a hipocrisia; Era um antro de ódio travestido como um lugar de salvação. Ainda assim, sabia que Shiro somente o via como um irmão mais novo e nada mais. Ele acreditava que conhecia todas as nuances do mais velho e, no entanto, não percebia a forma como Shiro olhava para sua bunda, ou como parecia devorá-lo com os olhos sempre que o via sem camisa.

-Keith, já está bom. Pode ir se deitar, eu fecho as portas.

-Tudo bem. -o menor deu de ombros. -Boa noite, Shiro.

-Boa noite, Keith. -Shiro sorriu para ele, ao que o garoto tentou não corar e saiu da capela, subindo as escadas que o levariam aos aposentos.

Shiro suspirou com a saída do menor, perdido em pensamentos conflitantes. Sabia que era errado desejar outro homem, já havia tido um amante antes e não acabará nada bem. Adam o trocou por uma bela moça e ele não pode deixar de entender. Na verdade, havia ficado apenas chateado, mas o que sentia por ele era um misto de curiosidade e desejo.

Agora Keith, ele sabia que amava, ardentemente. Daria sua vida por aquele garoto e não havia algo que ele não fizesse para vê-lo sorrir. Na maioria das vezes, ele apenas se contentava em observá-lo e isso já o saciava. Mas em outros dias, ele precisava se controlar desesperadamente para não encostá-lo em uma das paredes da igreja e tomar aquele corpo como seu.

Shiro estava prestes a trancar a porta, ainda perdido em pensamentos, quando viu um vulto do lado de fora. Tamanho foi seu susto quando percebeu que o vulto era Keith… Completamente nu.

Então ele sentiu o corpo queimar e os olhos de Keith pareciam ser as chamas. Sem que pudesse se controlar, ele havia deixado as chaves caírem no chão. Uma voz, a voz de Keith parecia lhe sussurrar as maiores perversões e chamá-lo para consumar todas as suas vontades. Shiro sabia que seguiria aquela voz até ao Inferno e foi exatamente o que fez ao dar passos firmes em direção a Keith… Em direção a floresta. Estava tão hipnotizado que não conseguia ouvir a voz que lhe gritava em desespero enquanto desaparecia entre as árvores da floresta e a escuridão da noite.

Então tudo aconteceu muito rápido e Shiro jamais se lembraria com exatidão dos minutos seguintes. Keith havia lhe atacado e, de repente, não era mais Keith. Era uma criatura de pele tão escura que mesclava-se a escuridão da floresta. Shiro apenas sentiu quando ela o atacou e fincou seus dentes em seu braço direito. Ele gritou ao sentir a pele se rasgando sob os dentes afiados e então Keith, o verdadeiro Keith apareceu, com um machado em mãos e, sem hesitar, acertou a cabeça da Besta. Ainda assim a criatura apenas fincou mais os dentes nos braços de Shiro, que gritou de dor e sentia sua consciência se esvaindo. Ele somente teve tempo de ouvir um lamúrio de Keith que lhe pedia desculpas, o machado cortando o ar e uma dor tão forte em seu braço direito que o apagou de vez.

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Shiro só acordou uma semana depois do ocorrido. Nos dias em que dormiu, seis pessoas foram dadas como desaparecidas. Nenhum corpo foi encontrado, porque ninguém se atrevia a adentrar a floresta. Os cristãos afirmavam que lobos famintos deveriam estar morando na floresta e atacando os aldeões. Muitos preferiram se agarrar a essa possibilidade do que pensar que poderia ser a Besta que tantos temiam. Ainda assim, todos pareciam estar segurando o fôlego até Shiro acordar e contar o que aconteceu. Mal o jovem abrira os olhos e meia dúzia de membros do conselho e o padre já o cercavam, como abutres procurando carniça.

-Eu… Eu estava trancado as portas como sempre. Keith…- ele travou com o nome do mais jovem, que não havia deixado seu lado um segundo desde a fatídica noite. - Ele havia ido deitar. E então eu vi algo do lado de fora e…

-O que era? Era um lobo?

-O que?! Não! Não era um lobo…

-Era uma besta?

-Não! Quer dizer, era, mas… Não parecia como uma. Parecia como… Alguém que eu amo.

Silêncio tomou o quarto. Um dos membros do conselho então se aproximou, encarando Shiro com ternura.

-Você quer dizer então que a tal Besta o seduziu? Não há problema em confessar seus pecados na casa de Deus, eu tenho certeza que ele irá lhe perdoar por ter caído em um feitiço.

-... Sim. Eu… Eu fui seduzido.

Os membros do conselho se entreolharam, ato que revirou o estômago de Shiro.

-Muito obrigado, meu jovem. Seu relato foi de muita ajuda. Não permitiremos que está Besta continue levando nossos irmãos. Isso acaba hoje.

Shiro não acreditava que aqueles velhos decrépitos tivessem alguma chance contra a Besta, mas apenas agradeceu e os deixou ir embora. Com toda essa confusão, ele demorou a perceber que seu braço direito não estava mais lá.

-Me desculpe, Shiro…- Keith parecia prestes a chorar. -Eu… Precisei fazer isso. Ou você seria levado pela Besta.

-Você fez o que precisou. Obrigado… Você salvou minha vida. -Shiro tentou sorrir, mas estava cansado. Seu corpo doia, sua mente parecia gelatina e ele queria dormir. Rezaria para que aquele Inferno acabasse e ele e os amigos pudessem ter um pouco de paz.

Na manhã seguinte ao relato de Shiro, Pidge foi presa em sua casa e declarada culpada pelos assassinatos recentes. Em três dias, pagaria sua sentença e seria queimada em uma fogueira no centro da aldeia. Queimaria como uma bruxa.

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A aldeia se tornou um caos. O medo e o ódio se tornaram homogêneos e logo todos tinham certeza de que Pidge era uma bruxa, alguns até tinham relatos a fornecer sobre ela e seus atos profanos.

Lance, Shiro, Keith e Hunk fizeram todo o possível para tentar mudar a opinião do povo, mas nada adiantou. Allura implorou aos pais que ajudassem Pidge, mas eles queriam que ela queimasse. Então a garota trancou-se no quarto e impediu qualquer um de entrar.

Agora todos estavam reunidos na praça central, onde a grande fogueira já estava preparada. Hunk, Shiro e Keith queriam tentar libertá-la, mas sabiam que não conseguiriam. No máximo, seriam queimados junto com ela. Terminaram todos ali, em frente a fogueira, aguardando pelo pior momento de suas vidas. E Allura... Não havia nenhum sinal da garota.



Quando a hora chegou, nenhum deles estava preparado para o que viria a seguir. Arrastaram Pidge, maltrapilha e ensanguentada e com os cabelos agora curtos, até a fogueira, onde a amarraram a madeira central. A menina não disse uma palavra, não iria dar a aquele povo maldito suas lágrimas ou suas lamúrias. Se tivesse um último desejo, pediria que toda aquela maldita aldeia queimasse com ela.



Fogo foi ateado a garota e os gritos dos amigos de Pidge foram a coisa mais horrível que ela já ouvira, pior que os seus próprios. Ela sentia o fogo lamber sua pele e gritava, gritava e gritava... E então o fogo parou. Ela já não gritava mais. No lugar de seus gritos e de quem amava, as pessoas ao seu redor queimavam. Ela então viu Allura, no meio de todas aquelas pessoas, movimentando os braços como se guiasse o fogo. Allura era a visão do ódio, da morte e da vingança. E ela queimava a todos ao seu redor.



Após o choque inicial, Shiro percebeu que aquela era sua chance de salvar Pidge e não perdeu tempo questionando desde quando Allura tinha poderes. Hunk e Keith o ajudaram a desamarrar a garota e Hunk a colocou em seu colo com delicadeza. As pernas de Pidge foram lambidas pelo fogo e parte de seus braços também. Ela provavelmente não sobreviveria, não com aquelas queimaduras sérias.



-Se vocês quiserem salvar a vida dela, vão me seguir sem questionar. Eu direi tudo no caminho. -a voz de Allura era sombria e autoritária. Os amigos se entreolharam, mas nenhum deles se moveu.



-Allura, o que você... -Lance começou, mas a moça apenas levantou ou dedo e ele se calou.



-Eu disse sem questionamentos. Me sigam. -ditou, antes de se virar e caminhar em direção as árvores. Eles iriam para a floresta.

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Depois de algumas horas de caminhada floresta a dentro, Allura começou a falar, como se estivesse narrando mais um de seus contos.



-Quando a Pidge foi levada, eu sabia que não conseguiria convencer meus pais de ajudá-la. Ainda assim, eu implorei, me ajoelhei diante deles e pedi para que a salvassem. Até mesmo prometi que me casaria com Lotor, aquele idiota rico, filho de idiotas mais ricos ainda com quem eles queriam que eu desposasse. E eles me ignoraram e escolheram uma fé incerta a própria filha e a uma pessoa inocente. Foi quando eu soube que precisaria fazer alguma coisa.



"Quando Pidge contou o relato da mãe, eu soube que havia uma possibilidade de ela ter encontrado algo que nós nunca imaginaríamos. Mas eu precisava ter certeza, então Lance me ajudou a procurar pelo diário da mãe dela e lá eu tive toda a confirmação de que precisava. A criatura maligna da caverna foi o que a mãe de Pidge encontrou, nas entranhas mais profundas da floresta. De acordo com os livros e manuscritos que encontrei, alguns afirmavam que a tal criatura é um demônio mais antigo que a própria vida e feito de pura crueldade. Mas, acima de tudo, é um demônio que foi procurado por muitos guerreiros ao longo dos milênios para pactos onde se trocava a alma por algo de profundo desejo.



Eu sabia que seria perigoso e arriscado, mas era a minha última chance de salvar Pidge e eu não podia, eu não iria desistir disso. E então eu adentrei a floresta com o diário em mãos e refiz os passos da mãe de Pidge até encontrar a caverna. Não foi fácil, porque o caminho não foi precisamente anotado, mas é o tipo de lugar que só se acha quando se perde. Talvez seja parte do feitiço de selamento que cobre a caverna,eu não sei. Mas eu achei a caverna, escondida entre raízes de árvore e a escuridão ali dentro parecia não ter fim. Era como se aquele lugar fosse tão sombrio que a luz era incapaz de adentrá-lo. E então eu entrei.



No começo, parecia ser apenas uma caverna comum, mas logo uma risada que pareceu ecoar em cada centímetro daquele lugar e ela definitivamente não era humana. Eu não... Não tenho como descrever tal criatura. Talvez ela seja um pouco como a Besta, que aparece de uma forma diferente para cada um, mas eu sei que a mera visão dela me fez sentir como se todos os meus pesadelos fossem reais. E então ela falou comigo.



"Allura" a criatura odiosa saboreou meu nome, como se o possuísse "O que a trás aqui, com tanta determinação? Poucas vezes conheci um humano que tão tolamente rumou em direção a própria morte."



-Eu vim fazer um pacto com você, em troca da vida da minha amiga. Eu quero salvá-la. Eu... Preciso salvá-la.



O demônio gargalhou, sua risada estremecendo a caverna como um trovoado.



"Não seja mentirosa! Salvar sua amiga?! Tolice!" a criatura tornou a rir "Sabe porque as pessoas que sobrevivem a mim saem loucas, querida Allura?" eu senti algo roçando meus ombros, minha cintura, como se ele me provocasse "Muitos vem até mim com desejo de vingança, poder, alguns até já me pediram para torná-los mais bonitos! Todos tolos, criaturas ridículas e indignas de meu tempo. Mas você?! Ah, Allura, você não quer simplesmente ter poder, você quer ser o poder! Quer deixar essa casca frágil de seios e buceta que faz com que todos a sua volta a vejam como um mero rostinho bonito e um corpo a ser tomado. Você leu todos aqueles livros sobre Deuses, bruxas e criaturas, a procura de algo como eu. Essa sua amiga, a pequena e miserável Pidge é só um pretexto para que você venha buscar o que sempre quis. Você quer que eu a refaça, talvez até queira um pau entre as pernas para que assim talvez o homem que deseja a queira também. Vocês humanos hipócritas sempre enlouquecem quando ouvem a verdade."



-Isso não é verdade! Eu amo meus amigos e iria até o fim do mundo por eles! Eu vim até aqui, até você e só quero que você salve minha amiga! -gritei, indignada em me ver exposta para aquele demônio. Em resposta, ele apenas riu.



"Então deixe-me mostrá-la o que você realmente quer e pode ter de mim"



E ele me mostrou. Mostrou a mim, mas eu era outra pessoa. Meu corpo parecia o mesmo, mas era mais forte, a pele quase indestrutível. Eu podia controlar as chamas, podia matar seres poderosos como se matasse um inseto. E eu... Tinha todos os homens aos meus pés. Eu era puro poder, pura chama e fúria. Eu era tudo o que sempre quis ter. E, principalmente, eu era forte o suficiente para salvar Pidge e proteger todos vocês.


-Você... Você pode me fazer assim?



"Eu posso te fazer mais do que isso com meio pensamento, minha cara. Você tem muito potencial, Allura. Você deseja o poder como uma igual, não como uma tola que apenas o quer para fins arbitrários. Ele te atrai porque são parte da mesma coisa. Uma alma tão pura, com tanto potencial..."



-É isso o que você quer em troca? A minha alma?



"Você fala como se fosse uma coisa boba, no entanto. Como se não fosse se importar em perdê-la."



-Eu não me importo. Contanto que meus amigos estejam salvos, ela é sua para o que quiser.



"E qual seria a graça de lhe tirar algo que me oferece do bom grado?" ele riu, malicioso "Eu farei um pacto com você, minha doce Allura. Mas, para cada desejo que irei atender, vou lhe tirar algo de igual importância. A sua alma será apenas um mero detalhe, uma relíquia da qual não sentirá falta. Eu lhe concederei força, poder e imortalidade e, em troca, tomarei o teu futuro. Você será grande, Allura... Eternizada em lendas como as quais adora recitar. Mas você nunca será capaz de ser feliz. O homem que deseja nunca irá desejá-la de volta. E sua amiga... Eu salvarei a ela e seus amigos se os trouxer até mim."



-Você aceitou... -Lance simplesmente não conseguia acreditar. -Você trocou sua felicidade, sua alma, Allura!



-Meras trivialidades. -Allura nem mesmo se dignou a olhar para ele. -Eu fiz o que deveria ter feito.



-Você deveria ter confiado em mim! -gritou Lance. Todos pararam de caminhar, ao que Allura o encarou, o rosto sem expressão. -Deveria ter confiado de que eu daria um jeito, de que nós, juntos, conseguiríamos salvá-la! Mas você precisava ir procurar um maldito demônio nessa porcaria de floresta e vender a droga da sua alma, ao invés de confiar em nós.



-Ainda bem que não confiei. Se tivesse confiado, Pidge estaria morta.



As palavras de Allura foram como um soco para todos os presentes. Nenhum deles queria pensar que Pidge quase morrera e estava desmaiada nos braços de Shiro, dando seus últimos suspiros.



-A caverna está logo a frente. -Allura virou-se novamente e voltou a caminhar. Todos a seguiram, agora em silêncio sepulcral. Lance ficou mais atrás, o mais distante possível dela.



Mais alguns minutos de caminhada foram o suficiente para que avistassem a caverna.



As árvores ao redor da caverna pareciam se curvar em direção a entrada, como se a escondesse. Embora a neve cobrisse tudo ao redor, aquele buraco ao redor das raízes e galhos de árvores permanecia intacto. Não havia som ao redor, algo que era relativamente comum no inverno, mas ali parecia diferente. Como se a própria floresta emudecesse próxima aquele demônio.



-Se você entrar com a Pidge, ela vai ficar como você? -Hunk reuniu toda a coragem que tinha ao perguntar.



-... Eu não sei. Não sei o que o demônio tem em mente. Mas, em nosso acordo, eu exigi que ele jamais machucasse vocês. Ele me prometeu que, se eu trouxesse vocês até aqui e vocês decidissem entrar, ele nos protegeria. Nós vamos poder ficar juntos, longe dos miseráveis daquela cidade.



-Mas e os meus pais, Allura?! Eles não são como o resto daquela gente, eles são pessoas boas!



-Pessoas tão boas que deixaram que Pidge queimasse em uma fogueira como se sua vida não valesse nada. A Pidge por quem você é apaixonado desde sempre. O quanto você implorou para que eles a salvassem, Hunk? Você se ajoelhou como eu me ajoelhei aos meus pais? Ou foi covarde o bastante para apenas assistir a garota que ama queimar sem fazer nada?



-Não foi culpa dele! Não foi culpa de nenhum de nós! -Keith não estava nem aí se Allura era uma bruxa ou o próprio Satanás, ela estava passando dos limites. -Nós tentamos salvá-la, tentamos fazer algum plano, mas de nada adiantaria que fossemos todos juntos para a fogueira. Pidge não iria querer isso. Enquanto você vinha brincar de bruxa no meio da floresta, nós tentamos de tudo para salvá-la, então não diga o que não sabe.



-Tentativas tolas e infantis que resultaram nela quase morta. Vocês não entendem que, enquanto estiverem nesse corpo flácido e frágil vão continuar tendo tudo quilo que ama tomado de vocês?! Keith conseguiu salvar Shiro da Besta, mas precisou lhe arrancar um braço para isso. Quanto mais seremos obrigados a perder pela nossa humanidade? Deixemos de ser efêmeros e passemos a vagar por esse mundo, juntos, sem nunca mais temer a nada ou a ninguém. Poderemos amar a quem quisermos, tomar a tudo e não perder nada. Tudo o que precisam fazer é entrar na caverna e falar com o demônio.



-Eu estou oficialmente indo embora daqui. -Keith deu as costas a ela, mas parou ao sentir a mão de Shiro em seu braço.



-Seria tão ruim assim passar a eternidade com eles? Comigo?



-Shiro...



-Eu nunca quis dizer nada, porque achei que isso só faria de nós dois eternamente infelizes. Se eu lhe contasse o quanto o amo, o quanto o desejo, só haveriam duas hipóteses: ou você não corresponderia e se afastaria de mim ou você sentiria o mesmo e nós dois estariamos condenados a uma vida oculta e infeliz, regada de ódio e preconceito. Mas isso? Poder estar com você, te proteger e viver ao seu lado é tudo o que eu mais desejo. Eu não me importo se o preço disso for a minha alma, que o demônio a leve! Não existe uma vida para mim longe de você e podemos ter isso agora... Se você quiser.



-...Shiro, eu não... Eu não sabia que você se sentia assim. Eu...



Ignorando todos ao redor, Shiro segurou a mão de Keith e se aproximou dele, olhando-o nos olhos ao sorrir e dizer:



-Você gostaria de passar a eternidade ao meu lado Keith?



E, com aquelas palavras, Shiro falou todo o mundo ao redor de Keith. Não havia mais pensamentos conflitantes, dúvidas ou hesitação. Havia sim medo, de estarem se apegando a um sentimento falso e rumando direto a uma armadilha. Mas o que é o amor se não uma grande incógnita que prometia tanta felicidade quanto inúmeras desgraças? Que o mundo queimasse, ele não se importava! Shiro estava ali e o amava, da mesma forma como ele amava o mais velho. Todo o resto é apenas resto.


-Não existe nada no mundo que eu gostaria mais do que isso. -ele sorriu e, num ímpeto, tomou os lábios de Shiro para si. Não foi nada além de um mero encostar de lábios, mas, foi como um pacto entre eles. Permaneceriam juntos, como amigos e amantes, não importa o que aconteça.


-Eu vou entrar… Pela Pidge. Ela merece viver, merece mais do que essa aldeia deu para ela. -Hunk murmurou, puxando o corpo da garota para seu peito, como se a abraçasse.


-Se eu entrar nessa caverna, você vai me dar a chance de mostrar o quanto eu gosto de você? Você vai ao menos tentar olhar para mim como olha para Shiro? -Lance encarou Allura, que sustentou o olhar e lhe sorriu de leve. O tipo de sorriso que deixa-lhe as pernas bambas.


-Eu sei o quanto você gosta de mim, Lance. Entraremos juntos nessa caverna e sairemos dela juntos.


-Então eu estou pronto.


Lado a lado, os seis amigos andaram em direção a caverna, onde um demônio os aguardava com um enorme sorriso. Keith e Shiro de mãos entrelaçadas, Lance e Allura ao lado um do outro e Hunk com a pequena Pidge nos braços.


-Juntos para sempre? -perguntou Allura, estendendo a mão para Lance. O moreno segurou sua mão com força e ditou com firmeza, juntamente com Hunk, Keith e Shiro


-Juntos para sempre.


E assim, os seis adentraram a caverna.

3 de Setembro de 2018 às 14:58 3 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Meu Deus do céu que eu tô afundada no chão gritando, essa história é fantástica, tudo nela, a atmosfera sombria, a narrativa ritmada nos momentos certo, a ambientação e aquela sensação de quero mais. O jeito que você abordou a fantasia sombria foi tão impecável, tão aterrorizante no início, que meus pelos arrepiaram na nuca. Essas coisas de bestas que ganham várias formas está tão presente na literatura fantástica, como por exemplo os dragões, que são abordados em duas formas a humanóide e a de lagartos gigantes, simplesmente amei, o tema escolhido da história casou direitinho com o subgênero. Só estava aberta a ver mais sangue, sabe comé? Tem alguns erros ao longo da narrativa, como no caso de “O que a trás aqui com tanta determinação”, no caso do trás, o certo é traz, que vem do verbo trazer. Uma revisão ajudará. Parabéns pela participação, espero que tenha se divertido com o desafio e lido muita história boa! Beijinhos 😘
October 04, 2018, 19:13
Luray Armstrong Luray Armstrong
ME DA MAIS EU EXIJO como assim já acabou? Puta que pariu que foda que lindo mas que caralhos me da mais eu preciso! Como q eu vou viver minha vida sem isso aqui minha gente? Essa Allura dual, q n sei se amo ou odeio, esse Hunk bolinho e minha Pidge precisa ser protegida EU AMEI EU SIMPLESMENTE AMEI E NÃO TENHO ESTRUTURA PRA LIDAR COM MEUS SENTIMENTOS POR ISSO AQUI AAAAAA ME DA MAIS EU PRECISO
September 08, 2018, 22:09
Yuui C. Nowill Yuui C. Nowill
Eu vim TÃO SECA ler essa história que sequer me toquei que era de Voltron. Eu só percebi por conta do Shiro e do Keith. Do resto, entendi como uma original. O que de fato foi bom, porque consegui mergulhar no clima da história. Inclusive, confesso que não é necessário conhecer as personagens para mergulhar no clima. As descrições das mortes e, principalmente, do ódio das pessoas da aldeia foram tão reais que criaram todo o clima da história. Temi mais a eles do que a Caverna; nela, percebi uma libertação. Era de alguma forma, eu acho. Tirando algumas cenas que ficaram meio alheias, como o beijo do Shiro e do Keith (não que eu tenha desgostado, só achei bem inesperado), a parte dos desejos deles e tal... Mas de resto, foi uma excelente história. Gostei principalmente da ambientação, achei genial! E os contos foram os mais tenebrosos. Entendi porque ficou sem dormir ontem, fez jus de fato!
September 04, 2018, 04:56
~

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