Refúgio Seguir história

vanychan734 Vany-chan 734

Shisui estava morto há anos, mas Itachi havia encontrado um modo de fazê-lo presente em sua vida ao implantar o Mangekyou do primo no olho de seu corvo preferido. No entanto, quando a ave o levou para um vilarejo qualquer, o nukenin jamais esperaria encontrar o antigo amante vivo ali.


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#naruto #shiita #Universo-Natural #Canon-Divergence #un #querobiscoitofns #gincanafns #representatividade #Cegueira
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Capítulo Único - Refúgio

Segunda fanfic participando do desafio do Biscoito do FNS. O critério é conter representatividade.... quem melhor que meu caolhinho² Uchiha? Espero que gostem!

P.S: Fanfic como uma possível continuação de O Crocitar Melancólico, porém não exige leitura prévia. O corvo naquela era macho, mas aqui será uma fêmea que chama Hachiko, seu significado é lealdade (segundo um site duvidoso hahha).

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A captura do jinchuuriki de Nove Caudas havia tido a interferência do sennin lendário Jiraiya e por isso Itachi corria ao lado de Kisame pela Floresta da Morte que cercava a Vila. Saltavam pelos troncos da mata densa há mais de cinco horas e, embora soubessem que já haviam ultrapassado os limites de Konoha, também sabiam que os anbus atrás deles continuavam com as ordens de abatê-los. Assim, o plano de fuga foi se infiltrarem na Floresta e depois seguirem para o esconderijo da Akatsuki.

Hachiko voava entre eles, sondando a região e descobrindo as rotas pelas quais os anbus lhes perseguiam. Ela era uma ave preciosa e sensorial, por isso o nukenin a mantinha invocada durante missões como aquela. Itachi só não esperava que ela grasnasse desesperada de súbito assim que o crepúsculo começou.

- Aquele animalzinho vai nos delatar, Itachi-san! – Kisame falou, saltando para o galho seguinte.

O Uchiha semicerrou o olhar e fitou com desconfiança a mata escura à esquerda. Hachiko era silenciosa, só grasnava daquela forma quando algo a incomodava diretamente, como no caso de Deidara¹ dias atrás.

- Acha que ela foi ferida? – Kisame questionou, acompanhando seu olhar.

- Não. Ela é uma invocação – respondeu e se impulsionou para o próximo galho, ignorando o fato.

Outro grasnado foi ouvido e o espadachim rosnou em resposta a ele. Estavam há horas correndo dos anbus para ela os delatar no fim...

- Espero que ela esteja distraindo eles, seria uma pena se a assássemos ao final da noite – falou sério.

Itachi ignorou a ameaça e seguiu pulando os galhos adiante. Precisavam cruzar a fronteira ainda naquela noite, do contrário entrariam em um combate desnecessário. Então, de repente, Hachiko surgiu à esquerda veloz e o rodeou enquanto grasnava ruidosamente, como se lhe contasse algo.

Irritou-se com o comportamento dela e então pousou no galho seguinte. A ave continuou a rodeá-lo, mas assim que ativou seu Mangekyou, ela paralisou e caiu aos seus pés crocitando melancólica.

- Pronta para a fogueira – Kisame sorriu sádico, aterrissando ao seu lado.

Itachi sequer o olhou, apenas retirou uma kunai e cortou Hachiko, a fazendo desaparecer. Endireitou a postura e manteve o olhar desconfiado em direção à mata.

- Itachi-san? – Kisame perguntou, desejando saber o quê fariam a seguir.

- Vamos.

Eles retomaram o caminho e com alguns genjutsus de sua parte, foram despistados. A noite chegou rápida, contudo ainda estavam a horas de cruzarem definitivamente a fronteira entre o País do Fogo e Ame.

- Acamparemos aqui.

- É uma área aberta, seremos alvos fáceis – Kisame refutou.

- Por isso mesmo não irão nos procurar aqui – falou monótono – Veja os vales à direita, seria muito mais seguro irmos para lá, provavelmente será onde irão focar suas pesquisas.

- Você é muito confiante – o outro nukenin sorriu, retirando a Samehada das costas.

- Isso não impede que usemos genjutsu e henges – Itachi continuou, sem ânimo.

Com um sinal de mãos, ele se transformou em uma mulher franzina de cabelo curto e castanho; ao passo que Kisame escolheu a figura de um homem robusto, calvo e com a barba cheia, e samehada se tornou um saco de tralhas.

- Faremos turnos de vigília? – Kisame perguntou, já se deitando no chão batido.

- Não será preciso.

O diálogo se encerrou e Itachi fechou os olhos para dormir um pouco. Acordou no meio da madrugada e decidiu que era um momento oportuno para verificar o que havia deixado Hachiko tão transtornada.

- Saindo sem se despedir? – o Hoshigaki falou quando lhe deu às costas.

Itachi ponderou por instantes.

- Meu corvo não grasna daquela forma.

- Eu diria que é só um bichinho barulhento, mas ela não tem aquele olho à toa. Vá, eu te espero retornar.

- Não – respondeu, o olhando por sobre o ombro – Volte para Ame. Nossa missão não obteve sucesso e o líder precisa ser avisado.

- E se ele perguntar sobre você?

Itachi sorriu discreto.

- Estarei com meu anel, se ele desejar saber meu paradeiro, irá perguntar diretamente a mim.

- Você é muito arrogante, Itachi-san.

O moreno não respondeu mais, apenas seguiu o caminho que haviam feito durante a tarde. Há quilômetros de distância do parceiro, invocou Hachiko que grasnou revoltada e bicou sua cabeça algumas vezes.

- Quieta! – mandou irritado, a afastando de si.

O corvo voou para longe, mas retornou instantes depois pairando sobre seu ombro e crocitando baixo. Itachi a olhou apologético enquanto acariciava a plumagem negra.

- Desculpe, garota, você chamou muita atenção – disse suave, vendo o animal se esfregar contra sua mão – Agora me mostre o que tinha encontrado.

Hachiko grasnou e depois alçou voo, contornou seu corpo e em seguida obedeceu à ordem. Itachi a seguiu atento, estava cansado pela noite mal dormida, mas se sentia instigado a buscar uma resposta para o comportamento incomum da ave.

Após horas vagando pela mata fechada, o shinobi ouviu o barulho de água corrente, próximo ao local onde estava. Assobiou chamando Hachiko de volta para si e pousou em um galho ressabiado, afinal se havia água próxima àquele lugar, então também haveriam grupos de ninjas e até vilarejos ao redor.

- Sonde o perímetro – mandou.

O corvo obedeceu e voltou minutos depois, crocitando baixo. Aquela era sua forma de dizer que não havia nenhum sinal de perigo e então continuaram o caminho. O Sol já começava a nascer e Itachi sentia a umidade no ar aumentando conforme se aproximavam daquele rio. Sorriu ao considerar que poderia comer algum pescado e também matar sua sede.

Entretanto, quando atingiu o rio que cortava a floresta, Itachi estagnou na margem ao reconhecer aquele cabelo cacheado, a boca e nariz cheios, a estatura mediana e o corpo definido... não seriam reles faixas brancas entorno dos olhos repuxados que o enganariam.

Aquele era Shisui. Seu Shisui.

Ele estava pescando.

Tranquilo.

Sorrindo.

Vivo.

Hachiko grasnou alto e voou em direção a ele.

- Um corvo? – o mais velho questionou a ninguém em particular, virando-se para a ave.

Hachiko continuava a grasnar desesperada, rodeava-o e depois ia até Itachi, contornando a si também, e em seguida voltava a Shisui. Era um padrão incessante. Ela estava desesperada para aproximá-los, mas Itachi estava catatônico em seu lugar. Sentia a garganta se fechando e os olhos ardendo pelo choro que já escorria por suas bochechas.

- HEY, PARE COM ISSO! – Shisui tentava às cegas espantar Hachiko de si, ao ponto de tropeçar sozinho e cair.

Hachiko voltou para si e Itachi a recebeu com uma kunai, desfazendo a invocação. Agora entendia o porquê dela ter ficado tão transtornada antes. O chakra de Shisui que ela possuía por causa do Mangekyou deveria agir como uma ligação entre ambos, a fazendo manter uma certa lealdade para com ele.

- Há alguém aí? – Shisui questionou ao vazio, se apoiando nas mãos para levantar.

Itachi tencionou a mandíbula, ainda muito chocado para respondê-lo com propriedade.

Sua mente estava um caos.

Vê-lo à frente era desesperador. Lembrava-se de tê-lo empurrado em direção ao abismo, de ver seu corpo caindo, da dor que sentiu quando ele afundou e não emergiu, da busca pelo primo quando se jogou nas águas gélidas do Nakano. Lembrava-se de seus olhos ardendo como nunca antes e do sangue espesso escorrendo por suas bochechas como um prenúncio da dolorosa perda e da consequência desta para si. A morte do primo, melhor amigo e amante fora tão traumática que Itachi desejou alcançar o reino dos mortos assim como ele, e por não poder – uma vez que ainda havia Sasuke para proteger – simplesmente colocou a voz e a dor de seu coração na escuridão.

Chorou como um garotinho assustado naquele fatídico dia, mas ainda assim voltou para o distrito vestindo sua máscara de indiferença. Dali em diante, só infortúnios aconteceram.

- Quem está ai?! – Shisui perguntou mais uma vez.

Itachi cerrou o olhar com força. Aquilo poderia ser um genjutsu, era a única explicação racional para encontrá-lo vivo. Ele era uma de suas fraquezas afinal, seu passado escondido. Contudo, ao sussurrar “Kai” a figura do maior permaneceu diante de si.

É real. Você está vivo. Como?

Itachi concentrou chakra nos pés e caminhou sobre o rio até a outra margem. Percebeu quando o mais velho retesou o corpo ao sentir uma vibração sutil em seu entorno, mesmo que não fosse capaz de identificar sua assinatura de chakra já que estava encoberta.

- Shisui...

No entanto, o primo reconheceria aquela voz em qualquer lugar e a qualquer momento.

O tom de nukenin era suave, embora melancólico. Ainda não tinha digerido a informação de que o amante estava vivo, naquele lugar tão longe e ao mesmo tempo tão perto de Konoha.

- Itachi! – Shisui disse exasperado, jogou a vara de pesca em que se apoiava para longe e deu um passo adiante enquanto elevava as mãos para procurá-lo no ar.

As lágrimas do menor continuaram a escorrer ao analisar que o parceiro estava de fato cego. A cena à frente trouxe à tona a lembrança dele lhe entregando seu olho antes de se jogar... então Shisui estava cego desde aquele momento? Por sua culpa?

Tocou as mãos do primo com delicadeza e observou o sorriso estonteante característico iluminar o rosto conhecido. Antes que se desse conta, Shisui o puxou para um abraço saudoso, e nesse instante percebeu a falta que o maior fazia. Ele acariciou seu couro cabeludo, enterrou a cabeça em seu ombro e o apertou com desespero contra si, e Itachi o imitou com perfeição.

Há muito tempo ninguém o abraçava, sequer tinham permissão para tocá-lo, mas o companheiro de anos nunca precisou dessa autorização, ele tinha livre acesso ao seu corpo, a sua vida e ao seu coração.

- Você está aqui, você realmente está aqui! – Shisui disse animado.

- Está vivo.

Itachi sentia que mesmo que repetisse o fato mil vezes, ainda não acreditaria nele. Como poderia? Havia procurado o corpo dele, se frustrado quando não o encontrou e chorado sua morte! No fim, se viu mais uma vez sozinho e com uma difícil missão de deter o clã em prol da Vila.

- Quanto tempo, Itachi! Eu senti tanto a sua falta... – Shisui falou rente ao seu ouvido, desfazendo o abraço.

O mais novo engoliu a seco, indeciso sobre como se portar. E antes que tomasse qualquer atitude, as mãos de Shisui rodearam sua face a fim de enxugar suas lágrimas com cuidado.

- Pensei que ficaria feliz ao me encontrar – Shisui zombou.

- Você tinha morrido – respondeu mortificado.

- É... bem, sobrevivi – Shisui retrucou evasivo – Soube que você está na Akatsuki, estão ganhando fama, como é estar lá?

- Isso não importa – interrompeu – Esteve aqui desde aquele dia?

- Sim... – Shisui se afastou, e a resposta chocou o outro.

- Sim?! – repetiu de certo modo incrédulo.

- Itachi...

- Nunca pensou na falta que fez ao clã? Ao seu pai? A mim?!

- Itachi...

- Não diga Itachi desse jeito! – elevou a voz. A razão o deixara desde que havia posto os olhos nele e agora sentia-se uma bomba prestes a explodir – Você esteve aqui, enquanto eu fui acusado de assassiná-lo! Ouvi indagações sobre seu suicídio por dias e eu não pude fazer nada sobre isso!

- Sinto muito...

- Eu procurei você! Por horas! Por que não voltou? Por que me deixou sozinho? – a última pergunta saiu num fio de voz.

Itachi não o fitava mais. Sentia-se fatigado pelo caos em que sua mente e sentimentos se encontravam. Além disso, se sentia traído e, pior, pela pessoa que havia lhe prometido nunca fazer tal coisa.

Shisui não conseguia vê-lo à frente – e constatar isso fazia seu coração doer – mas sentia sua tristeza e revolta. Entendeu todos os questionamentos e a mágoa acumulada... e sequer tinha planos de justiçar seu comportamento omisso. Ao invés disso, aproximou-se dele e o envolveu mais uma vez num abraço apertado.

- Me desculpe. Eu falhei com você...

- Shisui...

- Quando eu recobrei minha consciência já era tarde... pensei que estivesse sob a maldição do ódio... fui eu quem lhe deu o poder capaz de parar o clã.... fui eu quem o abandonou... Itachi, eu sinto muito – Shisui falava rápido, mal conseguindo manter a coerência entre as palavras.

Itachi se permitiu chorar em seus braços. O desespero de quando pensou que ele havia morrido de fato nublou sua mente e poucas semanas depois, massacrou o clã. Era verdade que precisa impedir uma nova guerra ninja, mas em partes queria se vingar de cada um que apoiou o golpe, o qual fora o motor para a morte do amado. Então, estar ali, envolto nos braços dele, sentindo seu coração pulsar no mesmo ritmo que o seu próprio e sentindo o cheiro de alecrim conhecido era exigir demais de sua estabilidade emocional.

Tudo se tornava mais intenso quando tinha Shisui ao seu lado e por isso se permitiu desabar. E ficou aliviado ao sentir o corpo do companheiro tremer contra o seu, Shisui provavelmente não chorava, mas isso não o impedia de sentir.

- Prometo nunca mais te abandonar, Itachi.

O nukenin não lhe respondeu, mas sentia que deveria dizer o quão traído estava por vê-lo ali. Vivo e sorridente, como se nada pudesse atingi-lo, como se a sua falsa morte não fosse um detalhe importante para àqueles que lhe eram próximos.

- Como sobreviveu? – questionou, tentando focar-se em algum detalhe que perdeu naquela noite.

- É uma longa história...

- Shisui! – reclamou.

Estava tão esgotado que elevou a voz mais uma vez. Agora que havia encontrado o primo, queria saber suas respostas e queria que ele estivesse sem aquelas faixas que o vendavam para que olhasse sua expressão enraivecida.

- Calma! – Shisui elevou as mãos num ato de paz – Eu irei contar enquanto pesco alguns peixes.

- De quantos precisa? – interrompeu ríspido.

Shisui entortou a boca.

- Vinte.

- Pesco vinte e cinco para você – falou ácido – Agora. Me. Diga. Como. Sobreviveu!

O mais velho arrastou os passos até a margem do rio, ajoelhou-se e tocou a água corrente. Itachi acompanhou a movimentação atento, embora permanecesse silencioso.

- Assim que atingi o Nakano fui levado pela correnteza forte. Esbarrei em algumas pedras no caminho, estava fraco e envenenado, mas cheguei a ver o amanhecer antes de desmaiar... acordei uma semana depois num vilarejo a dois quilômetros daqui.

- E por que permaneceu nesse lugar? – Itachi se mantinha de pé e viu quando Shisui recolheu sua mão.

- Eu fiquei a primeira semana em coma e quando acordei não me lembrava de quem era. Sequer lembrava do meu nome – Shisui se ergueu e se manteve de costas – Uma família camponesa cuidou de mim, me abrigaram e me ensinaram como viver no vilarejo em que moram. Permaneci os meses seguintes com eles porque me ajudavam a viver no escuro, todos foram muito gentis comigo naquele tempo.

- Por que abrigariam um desconhecido?

Shisui riu baixo.

- Você é sempre tão desconfiado... isso faz de você um shinobi incrível...

- Shisui, foco!

Itachi estava impaciente pela explicação dele, mas esperou quieto, mesmo sabendo que Shisui enrolaria para lhe contar os fatos.

- Lembra-se da missão solo que fiz no país do rio?

Itachi semicerrou o olhar.

- Sim. Você demorou quase o dobro do tempo estipulado para completá-la.

- Essa mesmo.

- Nunca me disse o que houve naquela missão... – o nukenin acusou.

- Você nunca me perguntou – Shisui o respondeu com diversão, se virando de frente.

- Não havia segredos entre nós, pensei que me diria se houvesse algo importante a ser reportado – resmungou a contragosto, se aproximando do mais velho.

- A verdade é que eu não havia feito nada relevante na época. Mas no fim aquela missão foi minha salvação anos mais tarde. Eu havia seguido o caminho traçado com precisão, segui o grupo de traficantes, cruzei a fronteira do país, coletei os dados e me mantive em segredo até um campo florido a cerca de dezessete quilômetros daqui. Minha missão era apenas coletar informações e não deveria entrar em conflito. Mas, quando cruzamos esse campo, o grupo implicou com duas garotas que estavam lá. Intervi, fui descoberto e por fim coloquei o vilarejo delas em perigo. Me mantive no vilarejo por alguns dias e depois os liquidei.

- Por que estavam atrás delas?

- Eram garotas, Itachi. Iriam estuprá-las – respondeu o óbvio.

- Então você pôs sua missão em risco para salvar a honra de duas garotas – concluiu.

- E a vida delas, não é possível afirmar se as deixariam vivas no fim – ele completou – Aya estava com uma amiga, ambas eram pequenas. Quando tive contato com os pais, soube que eram figuras líderes desse vilarejo. Fui ovacionado na época, e no futuro quando me acharam à margem desse rio, cego e quase morto, cuidaram de mim.

Itachi se manteve pensativo por alguns minutos. Devia a vida do amado àquelas pessoas, então.

- Eles lhe contaram sobre o massacre? – perguntou receoso.

- Somente quando recobrei minha memória. Disseram que não iriam espalhar a notícia de que eu estava vivo para que você não me encontrasse... quem poderia imaginar que você me encontraria de qualquer modo? Estamos realmente conectados... – Shisui sorriu tristonho.

- Acreditou que eu o machucaria? – Itachi ignorou a última parte e o questionou incomodado.

Shisui suspirou e ponderou antes de respondê-lo. Só a espera angustiante daqueles segundos foi capaz de fazer seu peito doer, como se uma kunai afiada estivesse lhe atravessando. No fim, Itachi não tinha certeza se gostaria de ouvir a resposta do primo.

- Meu coração dizia que a ideia de você me machucar era absurda, mas minha mente ponderava que muito tempo havia se passado. Somos Uchihas e a maldição do ódio cerca nosso clã...

- Eu jamais o machucaria.

- Eu sei.

- Você duvidou de mim!

- Não totalmente!

- Pesque seus peixes sozinhos! – disse com raiva, desaparecendo da frente de Shisui logo em seguida.

Itachi sentia um gosto amargo na boca. As lágrimas retornaram, mas impediu a si mesmo de chorar. Queria bater em Shisui, mas não faria aquilo com um aleijado que não sabia se defender... só a postura evasiva e desordenada dele era um indício de que não treinava há tempos, por isso duvidava que ele tinha sequer tentado retomar atividades após acordar no tal vilarejo.

Passou a noite na floresta. A princípio meditou para se acalmar e conter as emoções, mas depois a exaustão emocional daquele encontro intenso acabou consigo. Dormiu encostado num tronco de árvore qualquer e acordou somente no dia seguinte com o canto dos pássaros.

Abateu um deles para se alimentar e em seguida decidiu averiguar o vilarejo dito por Shisui. A história que ele havia lhe contado era bastante típica de seu comportamento heroico do passado, por isso queria ver se aquela população realmente valia a pena. Invocou Hachiko, que grasnou revoltada, e depois seguiram para o local.

Percebeu que eram aparentemente quarenta famílias unidas no meio da floresta e que viviam de agricultura familiar. Shisui estava numa suposta feira de troca, coordenando a barraca de pescado. Minutos depois, uma mulher loura se aproximou e começaram a negociar um peixe mediano por uma cesta de pêssegos.

Hachiko ao seu lado grasnou.

- Quieta – Itachi repreendeu.

Não queria que o mais velho o notasse espionando.

O corvo crocitou baixo e se empoleirou em seu ombro, esperando as ordens. Acompanharam Shisui durante todo o dia, a feira foi bem sucedida, mas percebeu que ele não havia conseguido pescar os vinte peixes que precisava, e sua consciência pesou um pouco. Poderia tê-lo ajudado no dia anterior, mas sentiu-se tão ferido por ele ter cogitado aquele disparate que precisou desaparecer. Contudo, aquilo já não era mais importante, mas o primo ainda era.

Com a feira encerrada, uma garota morena e sorridente aproximou-se de Shisui. Ela segurava uma cesta de legumes e Itachi a viu enlaçar o braço do primo para levá-lo ao que reconheceu ser a morada deles.

Posicionou-se no telhado de uma das casas vizinhas e observou a movimentação na casa por uma das janelas. A jovem e Shisui conversavam bastante, ela sorria muitas vezes para ele, mas o Uchiha parecia alheio à conversa e aos toques. Itachi semicerrou o olhar quando um homem gordo também apareceu, ele ria e falava animado com Shisui, que o respondia aéreo também.

Itachi estava interessado. Shisui sempre era educado, duvidava que ele havia perdido os bons costumes após ficar cego... assim, tal comportamento evasivo deveria ser por causa de sua aparição mais cedo.

Continuou o observando por mais algum tempo e quando a jovem e o homem se distanciaram dele, Shisui se dirigiu aos fundos da casa. Itachi saltou os telhados próximos e pousou no da casa em que ele residia. Viu como Shisui andava tranquilamente naquele lugar, como se de fato enxergasse o pequeno canteiro com a horta que desviou para não cair.

Ele assobiou uma melodia que há muito tempo Itachi não ouvia. Era um código secreto entre eles e, por consequência, um chamado de Shisui. Hachiko foi mais rápida que Itachi, voou em direção ao mais velho crocitando satisfeita e pousando em seu ombro a fim de se esfregar contra ele.

- Sei que está ai, Itachi.

- Consegue me sentir? – questionou, aterrissando ao seu lado.

- Você está camuflando seu chakra, mas era a mesma vibração de mais cedo.

Itachi perscrutou-o com o olhar e por fim decidiu não lhe dizer nada.

- Esse corvo é seu? – ele perguntou, acariciando a ave.

- Sim, ela se chama Hachiko.

- É um nome bonito – Shisui falou enquanto um sorriso pequeno emoldurava seus lábios.

- Ela está com seu Mangekyou, por isso gosta de você – Itachi acariciou a plumagem negra, e ouviu um crocitar melodioso como resposta.

- De todos os lugares que poderia colocar meu olho, justo numa ave? – Shisui zombou – Ela tem só um olho então?

- Não seja ridículo – Itachi o respondeu ríspido – O outro olho de Hachiko é normal, negro e brilhante.

- Entendo – Shisui mantinha a carícia com um sorriso pequeno que logo se findou – Itachi, eu gostaria de me desculpar... eu vivi aqui, mas sempre pensei em você, em como estaria, em como se sentia...

Itachi sentiu sua garganta se fechar, mas não o respondeu de imediato.

- SHISUI-SAN! – uma voz feminina soou, interrompendo o momento a dois.

O nukenin olhou por sobre o ombro para a jovem, que os fitava assustada.

- É ele... ele está aqui! – falou amedrontada.

Tanto Itachi quanto o primo permaneceram quietos. Shisui moveu a cabeça num gesto afirmativo e sorriu.

- Aya, não precisa se preocupar – Shisui disse apaziguador.

- Mas...

- Não vou machucá-lo – Itachi garantiu e viu o olhar temeroso dela se alternar entre eles.

- Pode confiar nele, Aya – Shisui concordou.

- Mas...

- Estamos apenas conversando. Estou seguro, Aya – ele disse calmo.

- Ele assassinou a própria família! Shisui-san...

O mais velho entortou a boca, mas não a corrigiu.

- Se eu quisesse matá-lo, acredite, Shisui já estaria morto, assim como sua família e seu vilarejo estariam em chamas – Itachi falou com tranquilidade e ignorou o olhar arregalado dela.

- Aya, por favor, nos deixe a sós.

Ela respirava audivelmente, mas aceitou se distanciar, sem retirar os olhos de Itachi. O Uchiha esperou que ela se distanciasse e então virou-se para o primo.

- Ela dirá à alguém que estou aqui?

- Não, ela não irá colocar minha vida em risco.

- Ela gosta de você – Itachi analisou.

- É... eu gosto dela também – Shisui respondeu com um sorriso pequeno, que logo se findou ao completar sua confissão – Mas ela não é você, Tachi.

O mais novo arregalou o olhar. Desde que haviam se encontrado no rio, Shisui o tratara formalmente. O apelido carinhoso de outrora fazia seu coração disparar e trazia memórias de um passado apaixonado à tona.

- Vocês estão juntos? - Itachi perguntou sério, cortando seu discurso.

- Algo assim, os habitantes daqui nos veem como um casal...– o mais velho deu de ombros – Ela tem me ajudado... a ser cego, entende?

Itachi o fitou com pesar. Queria olhar para o rosto jovial e encontrar os olhos repuxados, os longos cílios que emolduravam as íris cinzentas² e o olhar acolhedor que Shisui sempre lhe dirigia no passado, mesmo quando lhe dava um esporro.

No fundo, queria-o de volta para si, por inteiro.

- Eu ainda estou com seu olho... Poderíamos implantá-lo de volta...

- Não. Não quero ferir seu corvo, além disso não tenho mais ligações e vasos, já tentamos uma vez aqui... – Shisui interrompeu com a expressão frustrada –– Eu não posso mais ser um shinobi, Tachi – terminou melancólico.

- Isso não é verdade.

- E o que você sabe sobre ser cego, gênio?!

- Eu estou morrendo, Shisui – respondeu com seriedade, e o parceiro escancarou a boca incrédulo.

- O QUÊ?!

- Estou doente. Um dos sintomas é uma cegueira temporária quando uso o sharingan em excesso. Por isso sei que você ainda pode ser um shinobi.

- Itachi... – Shisui sussurrou, aproximando-se dele preocupado – Eu não sabia...

- Eu posso treiná-lo. Você me ensinou muitas coisas no passado, deixe-me ensiná-lo agora.

Shisui sorriu.

- Você continua o mesmo...

Itachi também queria que aquele fosse o Shisui que se lembrava, mas tinha certas dúvidas. Contudo, sua reflexão foi cortada por um gesto positivo de Shisui ao aceitar sua ajuda.

- Ensinar um cego. Veremos como será isso.

Após aquilo, Itachi retornou ao vilarejo todos os dias. Os moradores o olhavam com medo e repulsa, mas não tinham coragem de enfrentá-lo, por isso seguia visitando e treinando Shisui nos dias decorrentes.

No começo, deu preferência por atividades que reestabelecessem seu fôlego e preparo físico, depois focou em combates corpo a corpo, mas Shisui tinha dificuldades de se guiar no espaço e muitas vezes caía sozinho.

- Chega! – ele reclamou, limpando a bochecha sangrenta com as costas das mãos – Que tipo de shinobi não consegue desviar de uma simples kunai?! Isso é patético, Itachi!

- Você está evoluindo aos poucos, Shisui – rebateu, recolhendo suas kunais espalhadas pela floresta.

- Eu não sou idiota! Nem você acredita nisso! Como vou sobreviver num campo de batalha se mal consigo ficar de pé?!

- Você ficou anos sem treino, se assemelha a um garoto que acabou de ingressar na Academia Ninja – respondeu ríspido.

- Um garoto não é cego, Itachi! – Shisui exasperou-se.

O nukenin retesou seu corpo diante da explosão do outro. Lhe doía o peito saber que Shisui jamais enxergaria de volta. Contudo, ele era formidável, foi um dos shinobis mais incríveis que teve contato e sabia que ele podia retomar a glória que possuía no passado com alguns anos de treino.

- Você tem limitações, sim, mas isso não é um fator determinante. Já está mais resistente e faz mais séries de exercícios.

- Do que isso adiante se tropeço em meus próprios pés? – o outro sussurrou melancólico.

- Talvez seja hora de tentarmos uma técnica diferente – ponderou – Você, como qualquer Uchiha, foi ensinado a ser dependente de seus olhos... iremos melhorar habilidades adormecidas agora.

- No que está pensando?

- Treino de sensoriamento. Seus genjutsus eram perfeitos e atingiam uma grande área, penso que seja tempo de aprender jutsus para além deles.

- Tem algum em mente?

- Ainda sabe o Katon?

- É claro. Sou cego, não burro.

- Sim, é estúpido e impulsivo.

Shisui virou-se em sua direção e sua boca se curvou para baixo em óbvio sinal de desagrado. Itachi sorriu ao pensar que ele o olharia furioso se estivesse com ambos os olhos.

- Desfaça essa sua cara dissimulada! – gritou – Não te vejo, mas te conheço!

O sorriso de Itachi aumentou.

- Certo. Tentaremos jutsus doton’s então.

- Não tenho afinidade com essa natureza...

- Novas circunstâncias, novos jutsus.

- Itachi...

- Prometi ajudá-lo, mas você precisa se esforçar – interrompeu a queixa – Eu conheci combatentes cegos e desde que minha doença vem se alastrando evito o uso do Sharingan. Portanto, se concentre e siga minhas ordens: dragão, javali, coelho, rato, dragão e cavalo*.

Shisui demorou alguns instantes para se recordar dos símbolos, mas fez os sinais com perfeição. De início nada aconteceu, mas Itachi o forçou por dias a tentar criar um muro de pedra ao entorno deles. Após muitas tentativas, o primo dominou aquele jutsu e Itachi, por sua vez, aumentou o critério do treino e as combinações de jutsus e golpes durante batalhas.

O nukenin já estava há um mês residindo no vilarejo e por isso estranhou que Pain não houvesse se comunicado consigo até então, porém decidiu ignorar aquilo, uma vez que Kisame deveria tê-lo acobertado. Além disso, o líder ainda possuía uma equipe inteira de renegados para coordenar, e certamente Itachi não era o mais problemático deles.

Quando Shisui dominou os jutsus estilo doton, Itachi tentou fazê-lo aprender futon, já que era um completo desastre com suiton. Um mês foi necessário para que ele aprendesse a usar uma lâmina bumerangue feita pelo vento³ e quando se mostrou dominador daquela técnica, Itachi decidiu trabalhar outros pontos do mais velho, como seus sentidos.

Começou pela audição. Já havia lutado com ninjas cujas habilidades de sensoriamento eram sonoras, assim, deu início a treinos com guizos. O segundo sentido a ser estimulado foi o tato, Shisui já havia aperfeiçoado sua postura com poses de combate e por consequência era derrubado com menor facilidade, além de criar terrenos para se equilibrar com doton. O terceiro sentido foi o olfato, Itachi já havia trabalhado com Kakashi na infância e conhecia o poder de uma matilha de rastreamento.

Dentro de seis meses, Shisui havia mostrado um avanço excepcional e um ótimo desempenho como ninja sensorial. Itachi o elogiava de vez em quando, procurando enaltecer suas boas performances ainda que fosse um shinobi nível gennin.

A partir de então, o mais novo pensou em ensiná-lo alguma invocação. Animais eram artifícios uteis em batalhas, mas para o primo, um animal poderia agir como seus olhos, ajudá-lo em rastreamento e ainda defendê-lo de inimigos. Conversou com o maior sobre tal pensamento e, apesar de surpreso, Shisui se mostrou animado para tentar encontrar um animal guia.

Sapos não eram o estilo de Shisui. Cães eram leais, mas andavam em matilha e poderiam confundi-lo. Gatos ninjas eram muito independentes. Aves eram complicados por serem um reino deveras recluso. Cobras eram a especificidade de Orochimaru, então poderiam se tornar uma fraqueza. Por fim, Shisui e ele concordaram em tentar tigres. Os Uchihas tinham certo apreço por felinos e um tigre atendia a todos os pré-requisitos que Itachi e ele haviam discutido.

O nukenin saiu do vilarejo por algumas semanas, reapareceu no esconderijo da Akatsuki, despistou qualquer pergunta inconveniente e leu alguns pergaminhos sobre tal invocação. Voltou semanas depois com o ritual necessário para selar aquele acordo e quando estavam nos fundos da casa em que Shisui residia com Aya e seu sogro, o mais velho conseguiu invocar um tigre mediano.

Não era um filhote e talvez isso fosse um problema para domesticá-lo, mas a pelugem cinzenta, o olhar âmbar e as unhas negras haviam cativado Itachi desde o primeiro momento. Shisui tentou uma aproximação por outras vias... pediu permissão para se aproximar, ofertando um veado e após o tigre matar sua fome, ele concedeu a Shisui a permissão de tocá-lo.

Itachi acompanhou de perto a construção do laço entre o primo e o animal. Ele via como o sorriso aberto de Shisui era um sinal de todo seu esforço e dedicação, e no fim realmente estava apto para ao menos conseguir defender o vilarejo.

- Hey, Kimi, o que acha de pescar um pouco? – ele falou à tigresa enquanto caminhavam pela floresta.

Ela abanou o rabo e disparou em direção ao rio. Kimi gostava de caçar peixes, passava mais tempo brincando com eles do que de fato os trazendo para Shisui, mas era um momento que ele e Itachi podiam desfrutar sem grandes preocupações.

- Você está quieto hoje... – o mais velho falou.

Itachi franziu o cenho e olhou para Shisui. Ele sempre era quieto, o outro que não calava a boca um minuto.

- Sabe? Você estava certo, como sempre – Shisui riu com diversão – Consigo invocar um animal agora, sei me locomover sem a necessidade de tomar cuidado a cada novo passo e até consigo atirar kuanis em alvos que sequer enxergo.

- Eu sabia que era capaz.

- Sou incrível, eu sei – ele zombou, fazendo Itachi revirar os olhos – E quer saber? Nunca fiquei tão satisfeito por você estar certo.

Itachi perscrutou seu rosto atrás de algum sinal de zombaria, mas o que encontrou foi uma expressão de agradecimento genuíno.

- Você costumava me chamar de excepcional, mas na verdade eu sempre me espelhei em você. Cego ou não, ainda é o melhor ninja que já conheci.

Shisui sorriu e depois se manteve em silêncio por algum tempo, o que atraiu a atenção de Itachi.

- Terminei com Aya ontem – falou simplista.

A princípio entranhou o fato de Shisui tê-lo dito aquilo. Tinha acompanhado a relação saudável que ele mantinha com a jovem e o suposto sogro, embora não conversassem sobre seu caso amoroso.

Aliás, não conversavam sobre nenhum tópico que fosse incômodo aos dois, fosse o massacre, a falsa morte de Shisui, Sasuke, a doença de Itachi ou até a Akatsuki em si.

- Por que? – perguntou franzindo o cenho.

- Reencontrá-lo foi ter uma segunda chance... Sem você eu não teria essa percepção novamente... mas não é só isso. Kami está dando uma segunda chance para nós.

- Eu sou procurado internacionalmente.

- Quando descobrirem minha identidade também serei – Shisui deu de ombros.

- Danzou irá matá-lo se isso acontecer.

- E você pode morrer a qualquer momento – rebateu – Eu notei que tosse com frequência. Quer mesmo passar nossos possíveis últimos momentos discutindo?

Itachi o fitou pensativo por longos segundos.

- Você está cego por minha causa.

- Eu o obriguei a ficar com meu olho, a culpa não é sua.

- A cada vez que olho para você, essas faixas me lembram daquela noite.

Shisui retorceu a boca e em seguida levou as mãos à cabeça a fim de desenfaixar seus olhos. Após a terceira volta, ele estava livre para Itachi olhá-lo. E o nukenin lastimou com pesar ver as pálpebras à frente costuradas.

- Mesmo sem meus olhos consigo ver sua expressão triste.**

- Foi você quem as costurou?

- Não, foi Aya, enquanto eu estava em coma. Se ficassem abertas poderiam infeccionar.

Itachi assentiu com languidez, embora soubesse que o primo não via sua reação.

- Nunca senti tanta falta dos meus olhos quanto agora.

- Hm?

- Queria vê-lo... deve estar ainda mais bonito.

Itachi ponderou por instantes e então tocou as mãos de Shisui, as direcionando ao seu rosto.

- Você pode me ver...

Shisui sorriu estonteante e em seguida passou a perscrutar o rosto do companheiro. As mãos eram calejadas pelos anos de batalha, mas ainda assim tocavam-no com uma sutileza que fazia Itachi prender a respiração. O primo traçou seu rosto por completo, começou pelas bochechas e subiu em direção aos olhos, os contornou com os polegares, e depois tocou as sobrancelhas finas. O menor ainda sentiu o dedilhado do outro em sua testa, como se lhe fizesse uma massagem para desestressar.

- Você está tenso – ele disse sério.

Realmente estava, aquela proximidade e contato lhe deixavam desnorteado. Engoliu a seco quando as mãos desceram por suas marcas de expressão.

- Estão maiores...

Assentiu languido, permanecendo atento à expressão satisfeita de Shisui ao mapeá-lo tão precisamente. Os polegares convergiram sobre sua boca, ele tocou seus lábios rachados com cuidado e umedeceu a própria boca como se lembrasse de que ela também estava rachada.

Itachi mantinha-se imóvel, observando os detalhes mais adultos do primo com a mesma devoção que era tocado. As faces estavam tão próximas que o nukenin conseguia sentir a respiração quente em sua bochecha, estendendo a tensão entre ambos de modo a deixá-lo com vontade de pedir mais.

Mais contato.

Desejava avidamente beijá-lo, relembrar o sabor de sua boca cheia, morder o lábio inferior ao se afastar e descer os beijos pelo pescoço para depois seguir descobrindo o corpo alheio nunca antes conhecido.

Quando eram adolescentes tinham tantas responsabilidades e vergonha que nunca haviam de fato se tocado, agora tinham uma secunda chance para aproveitarem um momento a sós como aquele, longe de qualquer preocupação e problema.

Estavam juntos numa bolha à parte do mundo, preciosa e reclusa.

Shisui curvou-se sobre ele e naturalmente tomou sua boca. As mãos escorregaram por sua face e se infiltraram em seu cabelo liso, puxando-o mais para si, como se o mais velho reivindicasse a posse de sua boca.

Como se fosse preciso...

No fundo, Itachi tinha medo de que tudo não passasse de um genjutsu poderoso para mantê-lo prisioneiro de uma fantasia enquanto vivia um interrogatório real. Mesmo sendo habilidoso, tendo meses de contato com o mais velho, ele sentia um pavor constante de que mais uma vez estivesse sozinho no mundo.

- Lembra-se do nosso primeiro beijo? – Shisui questionou ao se afastar, acariciando seu nariz com o dele.

Itachi sorriu pacífico. Ainda poderia ser uma fantasia, mas certamente a preferia ao mundo real.

- Me disse que eu não poderia fugir de você, que estaria sempre comigo¹... mas já me deixou uma vez – falou sério e abriu os olhos para fitá-lo – Nunca. Mais. Faça. Isso.

Shisui sorriu-lhe aberto e Itachi sentiu seu peito quente.

- Prometo nunca mais te abandonar, Tachi. Estarei ao seu lado até que a sua doença ou algum anbu filho da puta mate a nós dois.

- A cegueira te deixou mórbido.

O mais velho riu divertido.

- E então? Aceita um companheiro mórbido, cego e com um humor duvidoso para acompanhá-lo na doença, assim como na fuga internacional até que a morte nos separe?

- Esse é, com certeza, o pior discurso romântico da história do mundo shinobi, Shisui.

O mais velho deu de ombros e depois entrelaçou suas mãos.

- Vou interpretar sua resposta como um “sim”.

- O que fazemos agora? – Itachi questionou após um minuto de silêncio contemplativo.

- Não sei... posso pentear seu cabelo? Ele continua macio.

Itachi riu de verdade com o pedido de Shisui. Depois de tudo, ele continuava sendo o mesmo Shisui que conheceu em Konoha aos cinco anos. Era o mesmo garoto extrovertido e animado que fazia seu coração pulsar forte.

E mesmo sabendo todo o caos no qual estavam imersos – como um vilarejo desprotegido, anbus lhe caçando, uma doença que se espalhava cada vez mais por seu corpo, uma cegueira incurável e um irmão mais novo discípulo de um sennin lendário que desejava sua morte – Shisui ainda era seu refúgio e vice-versa. 

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Notas:

¹ Referências de O Crocitar Melancólico.

² Nunca postei isso, mas como o Shisui é um nenê esquecido, tenho o headcanon que seus olhos são negros, porem com tonalidade convergindo pro cinza, uma herança da sua mãe. A falecida tinha que passar algo já que o menino é a cópia do Kagami.

³ Jutsu: Juuha Shou (Estrondo Ondular da Besta). Descrição: O shinobi move seu braço e dele sai uma lâmina bumerangue feita de vento. [segundo site duvidoso]

*Inventei essa combinação, sei lá que jutsu isso cria UHSAUHSAU

** Legenda da fanart do cap. Crédito ao tumblr mmm-okaay

Sublinhado foi trecho adaptado da novel do Itachi.

Kimi, o nome da tigresa, significa único/sem igual [segundo um site duvidoso].

Espero que tenham gostado <3

31 de Agosto de 2018 às 02:17 4 Denunciar Insira 5
Fim

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Vany-chan 734 Fada do Fluffy e maluca dos angst. Luto pelo fim dos leitores fantasmas, por SasuSaku e por ShiIta, meus OTPs! "KakaSaku - Uma Chance para Nós" não será repostada aqui até ter sido devidamente betada, assim como "O Caminho que Trilhamos".

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Políbio Manieri Políbio Manieri
Pera um pouco aí O ITACHI TEM UMA CORVA! Lembro de Nana dizendo que Hachiko é um nome japonês comumente dado a cachorrinhos de estimação eu to mto soft, ela ficou puta hiauhsiudah Shisui você é um pequeno pedaço de amor porém o Itachi tem mais que soltar os cachorros em cima de você sim, onde já se viu... eu adoro que mesmo com o passar dos anos e após toda a dor que o itachi resolveu guardar pra si após o massacre ele ainda perde completamente a pose na frente do shisui e vira um menininho birrento às provocações do primo, a gracinha do “não pesco mais pra voce” eu pude até imaginar ele fazendo um bico em referência. É um pouco triste essa impressão de que o tempo passou e eles ficaram separados passando por tantas experiências diferentes, conheceram novas pessoas e formaram novos laços, com esse reencontro eu fiquei um pouco com essa impressão que a vontade de voltar no tempo e recuperar todos os anos que perderam é muita, porém não tem como voltar o tempo e fica um tanto difícil lidar com a realidade de como as coisas são agora. As vidas são diferentes, as circunstancias são diferentes e eles apenas tentam. É bom perceber que apesar de tudo eles continuam as mesmas crianças que já foram um dia contanto que estejam juntos, a parte das pálpebras costuradas realmente partiu meu coração, mas fui salva pela futilidade bonitinha a qual eles sempre tentavam voltar. Mais uma história espetacular, mulher, e é sempre bom ter uns tons de humor e leveza em meio a tanta tragédia que remete o clã uchiha.
5 de Setembro de 2018 às 23:35

  • Vany-chan 734 Vany-chan 734
    OLAAAR, Mama! HAHAHAHA SIM, o Itachi tem um corvo fêmea, eu tive que procurar no google como se referia a esse animal no feminino e vi que era o artigo msmo que diferenciava ou o termo "fêmea" HASUHSAUSHA Bom, não sei quem é Nana, mas ela é sabida. Pra escolher o nome, eu joguei no google "nomes de animais em japones", entrei no site que tinha "nomes japoneses de cães e gatos" e falei "ah, serve pra dog , vai servir prum corvo tbm" HAHAHAHAHAHAH Bom, Hachiko é lindo e a minha corvinha é linda também <3 O Shisui errou muito em se manter omisso, mas ele tbm teve suas razão, eu queria ter explorado muitas coisas nesse plot, mas não deu pq eu tava enrolada. No entanto, muitas cenas complementares foram cortadas, como cenas importantes da Aya com eles :( Enfim, Shisui, um princeso bobo, apaixonado, e inconsequente. Acho que o Itachi é uma pessoa muito centrada, porém ele ainda é humano e com certeza ver o antigo amante falecido VIVO BEM NA SUA FRENTE, deve ter mexido um pouquinho com ele sim hhahaha Ai o garotinho assustado retorna e faz dele uma criança birrenta que nao ajuda a pescar peixes HAUHSUAHSUH Vc tem toda razão com essa coisa de querer reviver o tempo que passaram separados, embor seja algo impossível........... eu realmente queria ter explorado mais desse plot, na verdade, ele dava uma long fácil, mas eu super imagino eles tretando por isso em algum momento da convivência quanod o Ita fosse realizar missões da Akatsuki. Bem, nao deu, mas eu quero dizer que vc está certa, porque no meu coração aconteceu HSAHSHASUAH Shisui é um palhaço Uchiha, é consenso do fandon que ele nao deixa as brincadeiras de lado nunca, e já que iam morrer mesmo, aproveitou para realizar o desejo antigo de pentear o cabelo do mozão HAUSHAUHSAH Enfim, obrigada por esse coment lindo, Terê! Eu to realmente emocionada com o "espetacular". Obrigada <3 <3 <3 7 de Setembro de 2018 às 14:06
Raylanny Alves Raylanny Alves
NINGUÉM MORREU AAAAAAAA QUE EMOÇÃO! TO MUITO ORGULHOSA DE VC BISCOITINHO, FICOU LINDÍSSIMA A FIC <3 Essa ShiIta salvou a minha noite, eu tava péssima e ela aqueceu meu coração, TO MUITO SOFT AGORA! Enfim, achei injusto o Shisui ficar cego forever, Obito passou metade da vida sem um olho e quando saiu roubando Rinnegan e Sharingan por ai não deu erro em nada. Rolou até compartilhamento por bluetooth com o Kakashi direto do além, mas eu entendo que isso era importante para o plot, então ta de boa. O reencontro deles foi muito feelings AAAAAAAA e eu fiquei o tempo todo esperando alguma desgraça. Pensei que o Shisui não ia lembrar de nada e que ia ser o maior BO, mas nem foi. Você ta muito caridosa ultimamente #TenhoMedo. O Itachi falando que poderia ter matado a família e a vila da Aya se quisesse me fez rir muito kkkkkkkk ele podia só ter ficado calado ou ter mandado ela ficar quietinha pra Jesus amar ela, mas não! Ele foi lá e deixou a menina mais desconfiada ainda, porque ele é um monstrinho dissimulado. Esse finalzinho é a minha parte preferida. Itachi vendo os olhos do Shisui costurados e deixando ele tocar o rosto dele me matou, o beijo que eu esperei a fic toda finalmente aconteceu e no fim eles voltaram! A declaração do Shisui foi maravilhosa apesar de trágica kkkkkk um doente que pode morrer a qualquer momento, outro cego com habilidades de um genin e os dois sendo cassados internacionalmente abizbsisbsdish, mas o importante é ta junto né? (no ditado diz saúde, mas aqui eles estão fudidos nesse quesito). Eu esperava um lemon depois do beijo - fui tapeada - mas fiquei muito satisfeita com eles terminando juntos, rindo da própria desgraça e seguindo até que a morte os separasse - vc fez questão de dizer que talvez isso acontecesse logo - contudo foi muito fofo! Sem falar do Shisui pedindo pra pentear o cabelo do Itachi AAAAAAAAA Eu amei como sempre, ficou muito linda essa continuação, amo suas ShiIta e ainda bem que você não matou o Itachi. É PRA GLORIFICAR DE PÉ! Ta abençoado em nome de Hashirama, Tobirama, Madara e Izuna, AMÉM. TE AMO BISCOITERA, ATÉ A PRÓXIMA 💕
2 de Setembro de 2018 às 11:35

  • Vany-chan 734 Vany-chan 734
    AI QUE COMENT LINDO, TE AMO <3 CONTINUA ME CHAMANDO DE BISCOITINHO QUE EU ACHO FOFO <3 Fico muito feliz que ela 'salvou' a sua noite, ao menos assim minha insatisfação com ela diminui um pouco.... eu ainda vou matar o Itachi, não vai ter jeito ahahahaha Bom, Shisuizinho era um menino especial e diferente de Naruto (obra), eu sou coerente SHASHAUHS Mano, não tinha como o Obito fazer tudo aquilo caralho, lembro da cena do Madara roubando o olho dele e colocando como se fosse uma lente.... tipo "QUE PORR@ É ESSA?" Relaxa que o Shisui não lembrar do Itachi nunca fez parte do plot, mas daria um plot incrível sim. ME DÁ ESSA FIC RAYLANNY. VC NUNCA ME DÁ NADA. Eu to na fase do fluffy, te disse. To há meses, mas eu sinto que meu angst está voltando aos poucos, veremos como serão as ones futuras hihihihi Eu amo fazer o Itachi sem nenhum tato social e também como um assassino intrinseco. Vc leu a novel, sabe como ele é esquisito AHAHAHHAHA Em Prisioners eu pontuei isso fazendo o Shisui repreender ele por essa sina com assassinatos HAHAHAHAH No fim, a Aya ficou quietinha na dela............ mas na ideia original, eles conversavam depois e a coisa era mais complicada ainda. Provavelmente ue farei uma antologia com esses momentos. ai ai O que eu tinha imaginado dava uma long :( Eu amo beijos em momentos especiais, mas confesso que ele tocar o Itachi, senti-lo com os dedos foi minha parte preferida. Nem precisava de beijo, aquele momento era bem mais que isso. Eu tenho q admitir q nao gosto de escrever lemon. Vc tem q parar de achar q vao vir lemons, a nao ser q eu esteja descontrolada. HAHAHAHAH eu amei muito a declaração do Shisui, ele é tão aberto e expressivo, quando vi a coisa já tava todinha declarada HAHAHAHAHAHA Mas sim, eles estão fodidos, e nem vai ter como sobreviverem muito, eu sei como seria a morte do Ita, mas nao sei como seria o Shisui vivendo depois HAHAHAHAH Falei q nao gosto de lemon mas tem umas cenas na cabeça, quem sabe num futuro role algo. Eu tive q cortar muita cena daqui :( SHISUI PEDINDO PRA PENTEAR O CABELO DELE FOI QUANDO MORRI DE AMOR <3 Te amo, princesinha, beijos. 5 de Setembro de 2018 às 20:59
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