O menino de Bronze Seguir história

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Bruno Coutinho


O filho de um magnata tenta salvar uma marioneta viva de um bando de nómadas


Fantasia Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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O menino de bronze

Fortaleza, dia 23 Época da Queda, 10 DN

Caríssimo Senhor Doutor Irineu Cura

Espero que esta carta o encontre são e na companhia dos seus, desfrutando da devida prosperidade digna de um conhecedor da mais intrigante e bela arte do mundo: a medicina.

O assunto que me levou a elaborar esta longa carta é o mesmo que tem andado pela boca do povo recentemente: as minhas alegações que o senhor, com bastante rigor e destreza, refutou. Tais testemunhos prendem-se com a existência de algo que poderemos considerar como uma “força arcana”.

De facto, foi incrível ler e deliciar-me com cada palavra de análise eloquente com que o Senhor Doutor trespassava as minhas hipóteses científicas. E certo está que após tais perfurantes e construtivamente destrutivas palavras, eu não teria qualquer forma de argumentar o meu caso.

Serve então isto que lhe escrevo como um desabafo e um necessário assentar de ideias. Um assentar também de exaltações provocadas pelas nossas ardentes palavras e um recapitular da minha sentença, desta com uma história. Mas não é esta uma história falsa, como a da menina que via na Lua um castelo habitado por pessoas feitas de vento, mas uma cuja veracidade consigo comprovar inteiramente. E digo que consigo comprovar não por rumores, mas sim porque eu sou a personagem principal nesta história.

Na atualidade facilmente se consegue encontrar registos acerca da minha pessoa: O sítio onde estudei, a matéria estudada, o meu papel na sociedade e até alguns pequenos factos da adolescência… Mas à minha pessoa, tal como a todas as outras, existe um passado inerente, escondido de todo o mundo, que poucos conhecem até agora (após isto todos saberão na verdade).

Eu provenho de uma família rica da cidade livre de Sih. Como sabe, em Sih não existem reis nem príncipes nem duques. Existem apenas famílias ricas que formam um concílio de influência. A minha família era a 4ª mais influente de Sih. Sou o segundo filho dessa família, como tal provavelmente afastado das reuniões do concelho e de todas as dores de cabeça que vêm com esse peso.

Os meus pais sempre tiveram fidalgos e trabalhadores em casa e camponeses nas quintas. E embora eles fossem rígidos e sem coração nem atenção para os camponeses, desde pequeno que eu, motivado pelo fidalgo meu professor, fui moldado de outra forma.

O Senhor Doutor Professor D’houro tinha um coração que fazia inveja até ao nome, de tão coberto nesse metal precioso que ele era. Era um adulto jovem para um professor (com 30 voltas, talvez), mas já com cicatrizes da vida, na forma de uma cicatriz que lhe atravessava o nariz verticalmente, sequela de um golpe enquanto lutava na grande guerra da liberdade. Ensinou-me ele, desde cedo, a respeitar todos os seres vivos, do maior ao mais pequeno; ensinou-me também a respeitar os camponeses.

Graças a ele, passei a considera-los todos como pessoas, contrariamente à visão dos meus pais e irmão que os tinham como números, ou braços para trabalhar. Com esta visão começava também a conhecer quem trabalhava nas terras.

Os meus pais, sem sequer saber, haviam trazido àquele ponto trabalhadores de todos os lugares: do norte do continente, com uma pele mais clara e as linhas do corpo fortes e mais másculas que um rapaz com apenas 5 voltas teria tido a oportunidade de ver; do sul, a quem o Senhor abençoou com uma pele morena quase da cor do cacau que colhiam e um dialeto mais solto e despreocupado, típico do sul, e as cantigas que cantavam e enchiam de alegria todas as colheitas; das cidades livres, que existiam em maioria, e pouco se relacionavam com os outros, tal é o ódio que as cidades livres sempre tiveram aos seus antigos opressores continentais.

A minha atividade de conhecer as pessoas que trabalhavam nas terras da família levava também a conhecer e travar boas amizades com os filhos destes (ainda hoje tenho amigos, agora livres de tais trabalhos). Um grupo em especial, brincava como se fossem a minha mesa de concílio, os meus familiares reais e cavaleiros, e tal como cavaleiros, percorríamos as terras em lutas incessantes contra os perigos que não existiam senão nas nossas férteis cabeças.

Se no início, ao descobrir este meu concílio de petizes, os meus pais ficaram inquietos (afinal eram camponeses… apenas camponeses), o Senhor Professor dissuadia-os com eloquência igualmente atroz à que o Senhor Doutor Cura usou para partir em pedaços os meus achados. Falou-lhes do valor da amizade, do trabalho árduo que estes camponeses tinham e o quanto era importante tê-los como amigos. Depressa brincava de novo com os meus camaradas de armas e cavalos de pau.

Um certo dia chegou à cidade um grupo de nómadas (um acampamento típico das Cidades Livres, de pessoas que mudam de morada quase semanalmente, e que de noite festejam com a população, numa tenda enorme, demonstrando as peculiaridades de cada um destes, que apenas podem ser considerados bobos da corte para todas as gentes). Todo o concílio gostava de ver o espetáculo sempre que ele aparecia, levando as mulheres e os filhos mais velhos. Por sua vez os nómadas espalhavam aos ventos, talvez até para lá do nevoeiro, notícias da maravilhosa hospitalidade da Cidade Livre de Sih.

Este grupo em particular vinha do continente, de uma cidade do Norte, provavelmente Limagão, a mais próxima, de onde foram afugentados a pauladas (“Selvagens” pensei eu, especulando que tivessem perdido um espetáculo incrível).

Como manda a tradição nómada, guardaram um dia apenas para membros do concílio e família, para não se juntarem com os diversos camponeses, pelo o medo de contrair alguma doença que os tornasse camponeses também, tal era a especulação psicótica da população nobre. Também eu lutava para ir ver o espetáculo, mesmo sendo, segundo os meus pais “Ainda jovem, sem maturidade para compreender o que se tratava lá”. Após insistir, tal como um chefe que abdica do trono para lutar na guerra, e talvez pelos nervos queimados pelo fogo expelido da minha boca, os meus pais decidiram aceitar a minha presença.

Todo o espetáculo fora maravilhoso, desde que entrámos na tenda. E digo que não era exagero quando diziam que era grande (teria talvez 35 pés de altura, e outros 20 de diâmetro). No centro do círculo passavam pessoas que praticavam todo o tipo de atividades: desde pessoas que comiam espadas, a pessoas que visualizavam os pensamentos dos outros por vias de qualquer tipo de hipnose estranha ao que parecia. Todas estas atividades eram apresentadas por um homem que se intitulava como o “dono do circo e de todas as raridades aqui presentes”. Um homem com um casaco vermelho, próprio de um fidalgo ou de um infante das Cidades Livres, como eu era. Ostentava uma cabeleira loura, encaracolada, feita, segundo ele “de cabelos naturais”.

Por fim, chegara o momento pelo qual afligia aos meus pais a minha presença naquela tenda. De rompante, ao som de uma música sinistra que a banda tocava, entravam senhoras com barba até aos pés, pessoas com duas cabeças, um senhor com uma cabeça tão pequena que parecia apenas um coto de um braço, e por último, uma marioneta, que aparentava ser feita de bronze.

“Uma marioneta? No meio destas coisas todas, o número da noite é uma marioneta?” gritava o meu pai, que reagia como quando o cozinheiro não apresentava um jantar do seu agrado, com a boca rígida de raiva e os olhos semicerrados perfurando quem o gabava como sua propriedade. “Mas esta marioneta não é uma qualquer! Analise-a com atenção, Vossa Alteza” disse o governante da tenda a este governante da terra que a apoiava, talvez com medo de nessa mesma noite deixar de ser governante até de si próprio.

A marioneta era tudo menos normal de facto, não só pelo material de que era feita, nem pela sua altura exagerada (era maior que eu), mas mais pelas suas feições. Essas que só de olhar me agitavam num choque medular intenso e transmitiam um tipo de medo que raramente sentia: O medo do que era familiar, mas ao mesmo tempo estranho.

A sua cara era de uma criança, representada tão fielmente pelo escultor que uma ideia pior me irrigou o corpo de nervos. Parecia, a meu ver, que alguém forrara o filho a bronze, tal era a espetacularidade da atenção ao detalhe que o mestre demonstrava. Apenas um pormenor tinha escapado ao escultor… Um pormenor que, talvez por descuido ou quem sabe por pressa, lhe custou a sua obra-prima: embora toda a sua cara transparecesse a de um rapaz normal, de olhos fechados, ou quem sabe ausentes, a sua boca fora forjada erradamente, com um sorriso falso que mantinha sempre... Um sorriso que parecia ter sido feito por outra mão, uma mão rude e sem atenção, ou uma espada que marcara este mesmo sorriso, raspando o bronze da boca que outrora talvez tivesse sido perfeita.

Consumia-me tanto na análise desta marioneta que quando ela se mexeu e abriu os olhos pela primeira vez, o meu coração parou, como se estivesse a olhar para um homem cujos órgãos tivessem sido arrancados. Após esse impacto inicial, de novo a marioneta feita de bronze sólido procurou mexer-se. Desses movimentos, como que ganhando balanço, a marioneta começou uma dança. Dançava de forma natural (o que para uma marioneta, um objeto controlado por alguém, é muito complicado), e a cada movimento transbordava de estranheza, na fluidez que a movimentação dos braços e das pernas emanavam.

“Este é o rapaz de bronze. É um rapaz, porque não é de todo uma marioneta. Como podem ver pela sua dança, é impossível algum ser humano controlar tanta articulação ao mesmo tempo.” dizia o apresentador, lambendo os beiços da deliciosa emoção que a plateia neste momento transpirava. Notava-se no ar um desassossego da parte do público e um alívio de missão cumprida da parte da equipa. “Como poderei agora demonstrar, verão que nem existem cordas presas ao seu corpo”, disse ele, agora passando com uma espada em qualquer ângulo possível do menino que não sei se seria real ou marioneta ou o quê. Era quase como se estivesse uma criança lá dentro, dentro de um fato de bronze, sem forma de entrar ou sair.

No final do espetáculo todos voltaram para as suas casas, contentes pelo que tinham visto… Mas eu não iria deixar isto ficar por aqui. Convoquei a minha cruzada de heróis e decidimos na mesma noite invadir o acampamento com o objetivo de procurar o menino, qual anel de Phuba. Quando vi uma aberta, esgueirei-me do palacete da família e encontrámo-nos todos perto de um velho poço que já não tinha água, e existia lá apenas por mera decoração.

Caminhámos silenciosamente até ao covil dos nómadas e, uma vez lá dentro, decidiu-se que cobriríamos mais terreno se nos dispersássemos, e assim fizemos. A Sul da tenda enorme, existia uma porta (ou uma falta de porta) que dava não sei bem para onde, mas decidi entrar por ela adentro. Ajustada a visão ao novo escuro que se encontrava dentro da tenda, teve depois que se readaptar, mal saí desta pela sua saída sul. Nesta, a luz da lua brilhava de prata e iluminava o que eu imaginara ser tendas para os outros artistas dormirem.

Desapontado e sem vontade sequer de seguir aquele labirinto de tendas, preparava para me voltar. Precisamente antes de me virar foi o momento em que uma incandescência me cegou os olhos. Uma luz dourada, mas um dourado velho, como se a luz da lua estivesse a ser refletida diretamente para os meus olhos de um pedaço de… Bronze!

Decidi seguir em frente, sem medo. Por esta altura chamava os meus cavaleiros e descobri-os todos como desertores. Fugiram todos como cobardes, como soldados cujo cavaleiro líder fora atingido. Mas eu não! Eu segui, e após uns passos e muitas respirações de quem caminha para o incerto, descobri onde jazia a marioneta, qual árvore de maçãs douradas no início do arco-íris. Estava numa jaula, preso, a dormir um sono tão leve que mal me aproximei senti a sua voz… Ele falava! Dizia “não bata mais!” enquanto se aninhava. Ele era maltratado…. Era um animal de estimação para estes homens, que agora via como falsos amigos, mas ditadores secretos, aprisionando e torturando assim alguém! Assim me explicou ele que era filho de um senhor muito famoso, um Senhor do Condado de Porto e Limagão, e fora ele raptado por este bando quando fugiram de lá para Sih. Decididos a acabar com esta tragédia, combinámos que na noite seguinte eu voltaria pronto para o salvar.

Tal como combinado, na noite seguinte percorri o mesmo caminho, desta sozinho, sem os falsos corajosos a quem chamava amigos. O caminho que percorrera na noite anterior acompanhado na minha cruzada, desta vez parecia duplicar-se ao longo, digno de um cavaleiro errante, que procura uma donzela para salvar. Só que eu não tinha donzela, tinha um rapaz coberto exteriormente por bronze.

Nenhum caminho é impossível fazer-se quando estamos em missão, e a minha missão não permitia ao meu sentido de justiça virar as costas a um rapaz inocente pelas pedras no caminho. Finalmente, a minha missão trazia-me de novo àquela tenda alegre que escondia a maior barbaridade de todas.

A maior suspeita que tive foi quando, ao chegar à porta a sul da tenda, não senti encadeamento de todo…. Aliás, nem via o reflexo da luz da lua na pele do rapaz. Estranhava por que na noite anterior a luz da lua era bem menor que a luz que brilhava nessa noite, berrando a altos berros transfigurados em raios de prata que cobriam o chão que pisava. Chegado à jaula, encontrei-a vazia, com a porta aberta, escancarada! Será que ele tivesse fugido sem mim?

Os próximos movimentos aconteceram tão depressa que nem tive tempo de os registar a todos ao mesmo tempo. De repente sentia um empurrão para dentro da jaula, o chão da jaula coberto de palha e lixo, a porta da jaula a fechar-se. Ouvia alguém a rir-se…. Três pessoas… Uma voz que eu conhecia… Que registara no meu cérebro recentemente.

“Fizeste bem miúdo, agora fica ele aqui e eu vou livrar-te do fato” dizia uma figura encapuçada. Apenas a sua voz traía o seu sigilo: ele era o chefe dos nómadas! Aquele animal trancou-me na jaula! Ele sorria triunfalmente quando se ausentou de perto de nós, deixando-nos a sós, com os dois guardas que nos vigiavam. O rapaz não olhava para mim. Eu perguntei por quê. Por que é que ele tinha feito o que fez. Ele sem olhar para mim, com a cara desiludida dos seus próprios atos, disse apenas “Eu só me quero livrar deste fato!”

Acabadas estas palavras ouviu-se o chefe do grupo, que se aproximava a dizer “E verás”. Numa análise ao homem descobri que segurava algo… Com ambas as mãos… Com um cabo de madeira…. Era um machado! Gritei ao rapaz para fugir, e ele apenas olhou para mim. As lágrimas caíam da sua cara de bronze. Agora não caíam apenas lágrimas, caía também sangue. O chefe num só golpe de força abriu a cabeça do rapaz. Sangue corria por toda a parte. Toda a sua cara era um misto de lágrimas e sangue e pedaços do seu próprio cérebro enquanto caía ao chão, com os olhos de quem já teria entrado no outro mundo, longe daqui.

As náuseas de ver tal cena corriam-me pela garganta acima, onde tentava acalmá-las, como me tentava acalmar a mim: sem sucesso. Até que no chão onde já jazia lágrimas, sangue, o cérebro do jovem e bronze liquido, também passou a estar o vómito que eu não evitei e as lágrimas dos meus olhos que ainda estavam neste mundo.

“O bronze também não aguentaria muito mais tempo, teríamos que trocar de rapaz quanto antes. As crianças crescem e o metal não os acompanha”, dizia esse bárbaro sem coração a um dos seus acompanhantes cuja identidade ainda se mantinha mistério, tal como as suas feições.

Depois entraram os três na jaula comigo. O objetivo era socar-me até à inconsciência, mas eu não me deixaria cair tão facilmente, afinal o professor D’houro também era um bom professor marcial. Consegui até arrancar um pedaço da orelha de um deles por via de uma dentada. Mas rapidamente caí, sem consciência.

Quando de novo dei por mim, estava numa tenda, preso a uma mesa por tiras de cabedal impossíveis de se soltar para um jovem novo como era. À minha volta estavam, de pé, várias figuras encapuçadas, todas anónimas para mim… Todas excepto uma: o chefe dos nómadas. Apresentava-se agora como profeta de Krrog e cantava glórias e orações a este ser que não conhecia. Do bolso tirou uma bola, de metal, do tamanho de um punho. Um metal dourado sujo…. Era bronze!

Preparava-se para colocar o bronze sobre o meu peito quando alguém clamou “Jaguar, espera!”. Ele parou e olhou para a interruptora do ritual. Por debaixo do capuz dela via-se destapada uma pele sem falhas, branca como a neve, ou pelo menos é o que dizem (eu nunca vi neve).

“Este rapaz é filho de um dos chefes do concílio. Não deveríamos usar outro metal nele?”
“Sim” respondia Jaguar com um sorriso na cara “Deveremos então usar um metal mais… valioso”. O seu sorriso era maléfico, enquanto ele analisava o meu tronco de criança.

“Quem tem algo de ouro?” perguntou Jaguar a todos os participantes.
“Aqui apenas anéis.” retorquiam cada um deles. E todos colocaram os anéis nas mãos imundas do Jaguar, que perfazia um total de oito anéis,

“Apenas isto não vai dar. Começamos com isto, e a missão de cada um de vós será procurar mais ouro para terminar o ritual!” exclamou a voz dele, decidida, que obteve respostas afirmativas de todos os súbditos. Todos se encaminharam para a saída, exceto raposa que ainda olhava para mim. A cara dela até hoje é impossível de decifrar. Jaguar aproximou-se dela e rosnou “Tu, raposa, vais trazer-me todo o ouro que tens em casa, e se por acaso todo esse ouro não der para lhe cobrir o corpo todo, tu vais dar o teu corpo e vender-te como escrava para angariar ouro… entendes?”

Raposa saiu sem uma palavra. Jaguar continuou nos cânticos de adoração enquanto depositava os anéis no meu peito. Todos eles agora se derretiam e se espalhavam na minha pele, enquanto um misto de euforia e dificuldade em respirar me tomava o corpo. Cada vez mais o corpete de ouro que se formava à minha volta apertava ao ponto de quase me sufocar, tal era a pressão que exercia no meu tórax.

Em vão lutava para me libertar no terror e aflição que é a incapacidade de lutar a metalização que se realizava no meu próprio corpo. Agitava-me na maca, gritava horrores e ameaças e pedidos de ajuda em vão, tão longe que era esta tenda da sociedade. A adrenalina era injetada no meu sangue a cada pedaço de pele queimada que sentia, como se estivesse a ser engolido por lava, lentamente, à espera de passar para o mundo governado por Gadaha, sentindo cada vez mais próxima a minha passagem eterna.

O maquiavélico líder olhou para mim com um sorriso de orelha a orelha, como um assassino sorri enquanto chacina uma das suas vítimas e diz-me “Nunca valeste tu tanto dinheiro, rapaz”.

Nesse momento a porta abriu-se e, sem olhar quem interrompera o procedimento, talvez por saber que esperava por algumas pessoas nessa mesma tenda , Jaguar perguntou “Trouxeste algum ouro?”. No momento em que ele terminou a pergunta senti um som peculiar. Um som que ouvira num talho, de lâminas que trespassam carne dos animais. Com olhos fechados de dor, sentia agora uma substância líquida a apaziguar as queimaduras que já percorriam as pernas e os braços, não tendo forrado estes a ouro. O líquido que causou o meu alivio, também algo quente, não era água, mas o sangue do chefe dos meus raptores, que sangrava espantosamente do abdómen, perfurado por uma espada, que à primeira vista era uma espada da guarda real.

Quando finalmente vislumbrei quem me teria salvo, vi a cara enraivecida do meu pai, após ver o que o homem maluco me fez. Gritei por ele, lágrimas caindo do meu rosto. Enquanto ele me soltava do que me prendia os membros, reparei que vinha acompanhado de alguém… Uma senhora encapuçada… Uma senhora que eu reconhecia de ainda há pouco. O meu pai agradeceu à mulher que o ajudara, e enquanto procurava um nome para lhe poder agradecer, eu estava certo de qual era o seu nome. “Obrigado raposa”, disse eu, e abracei-a.

Jaguar realizou os cálculos errados no final de contas. Ele disse, quando facilitou o encontro do rapaz de bronze com a morte, que o metal não acompanhava o crescimento da pessoa. No entanto aqui estou eu, adulto, provando precisamente o contrário. Quem me vir desnudo saberá que eu mantenho sequelas desse episódio, na forma de um tórax e abdómen forjados do metal precioso.

A mim cabe-me apenas colocar a questão: se realmente fosse colocado sobre mim ouro derretido para secar e criar um corpo deste metal, não sucumbiria eu das feridas próprias da queimadura? Eu juro por tudo, juraria na campa de meu há muito falecido pai, que o que eu conto é a pura verdade!

Há cerca de duas voltas faleceu o meu grandioso professor. Querendo fazer uma homenagem ao homem que foi e à influencia que teve na minha vida e carreira, com o intuito de engrandecer aquela casa que parecia vir de origens mercenárias ou piratas, e talvez por ironia do próprio destino, decidi alterar o meu nome de família e as minhas armas. Agora ostento em fundo vermelho, uma raposa dourada, em posição de batalha. O nome, o Senhor Doutor decerto o conhecerá.

Do seu fidelíssimo conhecido e amigo

Amériso D’houro.

28 de Agosto de 2018 às 08:17 14 Denunciar Insira 7
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Camy <3 Camy <3
Olá! Sua história ficou muito bacana. De início me passou uma sensação meio "pinóquio", devido a essa parte de o menino ser de bronze, não "de verdade". A sua narrativa é muito envolvente e você consegue desenvolver os acontecimentos sem confusão e de uma maneira muito legal, parabéns mesmo! Eu venho em nome do Sistema de Verificação do Inkspired. No momento, sua história está como "em revisão". Para que ela seja verificada, preciso que você corrija os seguintes apontamentos: 1) há algumas palavras erradas, como "disfrutando", em vez de "desfrutando" e "considerara" em vez de "considerar". 2) Há erro no uso dos porquês nos seguintes trechos: "Estranhava porque na noite anterior..." -> deveria ser "por que". Mesmo que o personagem não faça uma pergunta direta, ele ainda está fazendo uma indagação. E em "Eu perguntei porquê. Porque é que ele tinha feito o que fez" -> "Eu perguntei por quê. Por que é que ele tinha feito o que fez". Mesma razão. Você pode deixar "porquê" no primeiro se o substantivar acrescentando um artigo (Eu perguntei o porquê de ele ter feito o que fez). 3) Erro de concordância. No texto está "para os outros artistas dormir", deve ser "dormirem". 4) Você usa hífen como hífen estendido ou travessão em alguns momentos. Se você escreveu no word, deve ser porque ele faz a mudança de forma automática. Durante a narrativa, quando quiser usar um símbolo para separar as frases (travessão, parênteses ou hífen estendido), use sempre o mesmo. O hífen comum junta duas palavras (como em "jogá-la", por exemplo / jogar + ela). Eu aconselho você a usar o parênteses ou o travessão, porque o hífen estendido já não tem sido muito utilizado atualmente, porém isso é questão de estética. 5) O uso do ponto e vírgula nem sempre está correto. A palavra após essa pontuação é sempre minúcula. Ele é usado para juntar duas frases que estão interligadas, mas SEMPRE pode ser substituído por um ponto (à exceção de quando é utilizado para fazer listas). Isso significa que o uso do ponto e vírgula antes de conjunções não é adequado, porque elas servem para unir duas frases e, com o ponto e vírgula, você as está separando. "...pessoas feitas de vento; mas uma cuja veracidade". Nesse caso, uma vírgula simples é suficiente. "Selvagens, pensei eu; especulando...", outro caso em que uma vírgula simples é suciente. Isso se repete ao longo do tempo. Para comparação, aqui um exemplo de quando você o utilizou corretamente: "...ao mais pequeno; ensinou-me também...", porque ele poderia facilmente ser substituído por um ponto, mas dessa forma une duas ideias interligadas. 6) Seu maior problema, porém, é a vírgula. Sempre que você muda o sujeito, é preciso usar vírgula "E certo está (...) palavras eu não...". Deveria haver uma vírgula depois de "palavras", porque o sujeito muda de vocês para eu. Há outros erros, nada que uma revisão mais aprofundada não corrija. 7) Há um erro de crase em "à paulada". A crase exige especificação. Ou você altera para "a paulada", ou acrescenta "à paulada de x", o que acaba deixando a frase sem sentido. Minha dica ainda é que altere para "a pauladas", porque, pelo contexto, entende-se que foi mais de uma. De novo, sua história está ótima, esses são apenas os errinhos gramaticais que precisam ser corrigidos para que sua história seja verificada. Quando tiver analisado meu comentário e feito as mudanças desejadas, avise-me a partir deste comentário e eu volto para conferir e mudar o status da sua história para "Verificada". Uma boa semana para você!
16 de Outubro de 2018 às 14:24

  • B C Bruno Coutinho
    Olá! Tratei de corrigir o que foi apontado no seu comentário. Agradecia que, se por acaso me tiver escapado algo, me informe que eu emendarei. Muito obrigado pelas anotações :) Uma boa semana! 17 de Outubro de 2018 às 06:11
Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, tudo bem? Esperamos que tenha gostado de participar do desafio! Sobre sua história: eu adorei a narrativa em primeira pessoa e o modo tranquilo como a história foi desenvolvida. É notório que o autor não teve pressa para apresentar fatos e personagens, o que só deixou tudo bem desenvolvido e muito claro para o leitor. Todo o suspense, a trama, o modo como se usou a magia para algo mais obscuro, tudo isso tornaram sua história maravilhosa. O narrador também foi excelente. Como era uma carta, tive o receio de que a narrativa pudesse soar formal demais para uma história em que o personagem era uma criança, mas a preocupação se mostrou infundada, e você conseguiu nos apresentar um narrador muito bem feito, com os tons certos à medida que a narrativa evoluía. A história claramente pertence ao estilo fantasia, contudo, nos pareceu muito mais ligada à Fantasia Sombria que à Alta Fantasia, que era o subgênero indicado nas tags. Quando fiz a primeira leitura, fiz até sem ver qual o subgênero sorteado e estava certa ao terminar a história que era Fantasia Sombria, uma maravilhosa aliás, porém fiquei surpresa ao ver que não. Há alguns acentos faltando no texto, algumas palavras erradas como "disfrutando" e uso equivocado de crase, talvez valesse a pena dar uma revisada na história. Fora isso, foi uma leitura incrível e adoramos tê-la no desafio! Parabéns e esperamos que tenha se divertido ;)
4 de Outubro de 2018 às 14:38
LiNest LiNest
Deuses que coisa mais maravilhosa vc criou aqui, eu estou realmente apaixonada! Adorei tanto o fato de vc escrever o conto como uma longa carta, é sem dúvida uma boa ferramenta para introduzir histórias em primeira pessoa sem deixa-las cansativas ou irritantes (confesso que não sou uma fã) e dá aquela sensação de empatia com o narrador, eu me pegava sentindo o mesmo que o Amériso e até temendo pelo o que estava por vir, apesar de estar tão curiosa quanto para entender o quê diabos estava acontecendo. A tensão tmb foi super bem transmitida, teve momentos onde não consegui respirar de tão imersa que estava, incrivel. Eu ficava às vezes confusa por conta de ser português de Portugal (já que a gramática difere bastante em algumas coisas) mas depois que reli com essa informação foi muito mais fácil de entender e muito mais cativante, tem trechos tão deliciosamente bem escritos que dá até vontade de ler em voz alta (algo que às vezes me peguei fazendo enquanto lia sua fic) Adorei os personagens, o Amériso é muito humano e seus pensamentos e sentimentos são cativantes, o que faz com que o leitor se importe com o que ele está dizendo; eu cheguei a ficar com raiva dele, mas depois, ao entender que tudo o que ele fez foi em desespero pra se ver livre daquele pesadelo, eu só fiquei com muita pena tanto do menino quanto do Pai, então fiquei super aliviada ao ver que deu tudo certo no final graças a ajuda da raposa. E eu espero que o líder do culto queime no inferno, falei mesmo. Enfim, amei essa história, amei desde os personagens até a narrativa, foi tudo incrivelmente bem escrito, só deixando um gostinho de quero mais. Parabéns pelo ótimo trabalho <3
14 de Setembro de 2018 às 09:25

Marchetti ! Marchetti !
Oii, que coisa mais valiosa que você escreveu aqui, hein?! Gosto muito de ler histórias escritas do português/Portugal, uma narrativa impressionante, como se estivesse nos contando um dos maiores segredos, eu fiquei um tanto com raiva do menino, mas eu entendo que ele só queria ser livre e então toda minha raiva foi para o líder deles, por ter matado o pobre menino, também não esperava que no final, o pai dele iria o salvar, por causa de uma delação da mulher... enfim. Historia perfeita! Beijos
7 de Setembro de 2018 às 23:06
Karimy Karimy
Oie! Eu gosto muito de ler histórias de aventura escritas no português de Portugal, principalmente porque a maioria, pelo menos as que li, são contadas com esse mesmo ar que você usou, como se o narrador estivesse, de fato, segredando uma história vivida por ele para nós, leitores. Você conseguiu me passar isso de uma forma muito especial nesse conto, acho que foi genial a ideia de usar a narrativa em forma de carta, trouxe uma aproximação ainda maior do que a já referida por mim. Como se a carta tivesse extraviado e chegado às minhas mãos! Quanto a história em si, eu gostei do desenrolar e da forma como a surpresa atingiu Amériso ao ver o garoto de bronze sendo golpeado, pois o correr da narrativa deu essa mesma sensação para mim, o que foi muito legal, assim como a sucessão de fatos após isso. Parabéns, história muito bacana!
30 de Agosto de 2018 às 11:33

  • B C Bruno Coutinho
    Olá! Muito obrigado! :D Quando decidi escrever este texto o objetivo era mesmo esse: dar a sensação que estávamos a ler uma coisa que não era propriamente para nós mas se perdeu no caminho e veio inevitavelmente cair nas nossas mão. Ainda bem que gostou, sinceramente :) 31 de Agosto de 2018 às 03:24
Yuui C. Nowill Yuui C. Nowill
Achei interessante como você abortou o tema de alta fantasia. Certamente não esperava por isso. Como comentaram, por ser o português de Portugal uma forma muito comum aos nossos clássicos, certamente essa história tem um "q" nostálgico muito forte. Mas essa nostalgia que nos evoca certamente foi o que deu o diferencial dela. Fiquei encantada pela ideia do menino de bronze, um pouco chateada por sua morte, certamente. Mas saber que no final tudo ficou bem, de algum modo, foi excelente. Também gostei como você diversificou as etnias da história! Achei interessante. Apesar de os nômades serem tratados dessa maneira me entristece um pouco de certo modo também. Parabéns pelo conto!
30 de Agosto de 2018 às 01:27

  • B C Bruno Coutinho
    Muito obrigado pelo feedback! :) De certa forma, com os nómadas, eu queria recriar o ambiente de um grupo errante, de nómadas mesmo, que por andarem de um lado para o outro acabam por não "pertencer" a nenhum deles, de acordo com a sociedade. Eu tentei ao máximo demonstrar que haveria um mundo por detrás desta história, e fazê-lo parecer minimamente real e funcional, daí a referência aos vários locais e às várias etnias. Fico contente que tenha gostado :) 30 de Agosto de 2018 às 03:16
Kaline Bogard Kaline Bogard
Caracaaa eu comecei a ler e fiquei tipo "ue... ue... quanto erro de portugues, que que tá conteceno"? Dai caiu a ficha e é Portugues de Portugal! É isso? Achei o tom da narrativa encantador! Acho que pela diferenciação do idioma, esse tem um tom muito dos nossos clássicos, então remete a nostalgia mesmo! Que bravo protagonista nos brindou com suas aventuras. Eu não sou muito fã de narrativa em primeira pessoa, mas a proposta da carta e a diferenciação pela qual ela foi escrita me fizeram devorar! Confesso que pegou um tema dificil (eu teria muita dificuldade com ele) e alcançou um bom resultado. Parabens por participar do desafio com tão agradavel história!
29 de Agosto de 2018 às 09:52

  • B C Bruno Coutinho
    É sim, eu sou de Portugal 😁 obrigado e ainda bem que gostou! 😀 29 de Agosto de 2018 às 13:46
Nathalia Souza Nathalia Souza
Meu Deus, que fantástico! Sério, eu adorei! Narrativas em forma de carta são complicadas, podem ficar massantes se você não souber conduzir a história. E a sua com certeza não ficou massante! Cheia de reviravoltas e uma morbidade interessante. Amei, de verdade. Beijos!
28 de Agosto de 2018 às 14:27

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