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Capítulo Único

Acordou como em qualquer dia normal. Os tímidos raios de sol iluminavam o quarto, no mesmo instante em que as persianas automáticas se abriam. Não havia melhor despertador do que este, pelo menos, era o que Paul dizia a si todas as manhãs.

Seu dia seguia normalmente. Pegou o carro e seguiu em direção ao trabalho. Tudo ia bem, como sempre, até ouvir uma voz.

Ela lhe dizia que nada estava certo; perguntava-lhe se toda essa calmaria não era boa demais.

Ignorou a voz, afinal é normal o ser humano ser um pouco negativo, talvez estivesse com problemas de autoestima. Não sabia, mas não se importava. Não hoje, o dia em que comemoraria dez anos de casamento com sua linda esposa Claire: loira, de olhos claros, carinhosa e submissa que lhe deu uma bela prole, um menino e uma menina, inteligentes e obedientes.

Paul era tão grato por sua vida perfeita!

Chegou ao emprego, que exercia em uma empresa de tecnologia, onde conseguiu o cargo de CEO, mesmo sua formação sendo em engenharia civil. Paul era um homem sortudo e humilde, conhecia todos os empregados de sua empresa, do vigia do estacionamento ao mais alto escalão. Todos o adoravam, sempre procuravam sua companhia e achavam suas piadas ótimas durante os happy hours da empresa.

Sentou à sua mesa e sentiu a cadeira confortável sob seu corpo. Sua sala era tão espaçosa que ele poderia morar ali.

Então aquela voz retornou:

— Paul, você tem certeza que tudo isso é real?

Ele se levantou procurando de onde vinha a voz.

Seria uma brincadeira de seus colegas? Alguém teria escondido um dispositivo em sua roupa, por isso podia ouvir aquelas palavras em alto e bom som?Perguntava-se.

— Ei! Eu sei que você consegue me ouvir. Preste atenção, isso tudo não é bom demais?

Paul suava frio, o som não vinha de dentro de sua cabeça, ressoava pela sala. Teve medo de alguém entrar ali e ouvir aquilo, ou pior, a pessoa não ouvir nada e ele descobrir estar louco.

Foi até a janela e olhou para fora procurando se acalmar. Entretanto, olhando o trânsito ordenado, percebeu uma coisa: um pequeno ponto falho, como um pixel queimado em uma enorme tela de TV; algo que depois de notado ficava impossível de desviar os olhos.

Paul pegou um pano e tentou limpar a janela jurando que alguém da limpeza não havia feito seu trabalho direito, algo que nunca havia acontecido. Esfregava o pedaço de tecido com força, mas o pequeno ponto não sumia.

— Ok, está tudo bem — ele disse para si.

Ao fim da frase o ponto aumentou, tomando conta de parte do céu, que passou a ser uma mancha negra. Ele se assustou e fechou rapidamente a persiana da janela, tornando a abri-la segundo depois.

— Você só precisa de um descanso — disse olhando para o céu e constatando que a mancha corrosiva havia sumido.

Paul sentou-se novamente à sua mesa, secou o suor e começou a ler os papéis que estavam amontoados ali. Sua cabeça doía de forma infernal, e ele nem sabia que era possível sentir tanta dor. Reparou que não entendia nada que estava escrito nos papéis, as palavras não faziam sentido, tudo estava embaralhado como em um sonho. Assinou as folhas tremendo enquanto pensava:

Será que tudo isso é real?

Aguardou o fim do expediente, pegou seu carro e fugiu para casa, ainda atormentando pela lembrança da voz e a imagem perturbadora. Chegou e escondeu-se em seu quarto, sobrava-lhe meia hora livre antes do compromisso; iria jantar com sua esposa em um dos restaurantes mais caros da cidade, teve que reservar a data com um ano de antecedência. Deitou na cama, encolhendo-se debaixo das cobertas de olhos fechados, como uma criança com medo do bicho-papão.

— Paul, você precisa acordar. Não temos mais tempo para brincadeiras. Se não acreditar em mim, você vai morrer.

A cabeça de Paul parecia que ia explodir. Abriu os olhos, saindo debaixo das cobertas e gritou furioso:

— Me deixa em paz!

Neste momento a mancha negra retornou e parecia petróleo escorrendo pela parede à sua frente. O borrão que começou pequeno, do tamanho de um botão, escorreu pela superfície até tomar a forma de algo que parecia um portal, por onde ele pensou que poderia facilmente passar uma pessoa. Enquanto esperava que alguma criatura horrenda como as vistas nos filmes e livros adentrasse o quarto, outra coisa aconteceu.

A substância negra serviu de tela para algo como outra dimensão. Paul pode ver as luzes formando uma imagem nítida de um lugar que parecia um laboratório se estendendo por quase toda a parede.

— Você pode me ver? Eu sou o doutor Symon. Você se lembra de mim? — Paul não respondeu, mal conseguia se mexer de tanto medo, quanto mais balbuciar qualquer palavra. — Você me conheceu no laboratório Kryogen. Eu te escolhi como voluntário para o experimento Realität. Tente recordar.

Paul sentiu seu cérebro explodir com os flashes de memórias antigas, lembrava-se vagamente do laboratório que via do outro lado do portal, do doutor e também uma conversa sobre conseguir dinheiro suficiente para sustentar sua família por muitos anos. Mas ele não queria acreditar que aquilo poderia ser verdade.

— Vocês são alienígenas e isso é uma abdução! Me deixem em paz, aberrações!

— Está enganado, tudo isso que está vivendo não é real, são projeções criadas em sua mente pela nossa criação. — Percebendo que Paul não estava convencido ele acrescentou: — Como posso fazer você se lembrar? — O doutor pensou por um segundo e disse: — Me diga qual o nome da sua esposa?

— Como assim? O nome dela é Ana! — Paul tampou a boca.

Como podia errar o nome de sua esposa? Pensou e sentiu algo escorrer pelos seus dedos. Quando olhou, percebeu que era sangue, vindo de suas narinas.

— Senhor — disse uma voz ao longe vinda pela tela —, ele está instável, é melhor cortamos a comunicação.

O Doutor assentiu.

Do mesmo jeito que a mancha chegou, ela sumiu, consumindo-se de fora para dentro.

Paul piscou os olhos várias vezes, perplexo com o que havia presenciado. Olhou para as mãos e o sangue havia sumido.

— Que pesadelo foi esse?— Ele passou a mão na testa, secando o suor. — Talvez eu precise de férias. — Qualquer explicação era melhor do que acreditar que seu mundo perfeito não existia. — Já sei. Eu poderia levar minha família para uma viagem ao Havaí, as crianças sempre quiseram conhecer as paisagens de lá.

Sorriu de forma fingida indo em direção ao banheiro até chegar em frente ao espelho e perceber a expressão patética que tentava sustentar. Tomou banho e pela primeira vez se cortou fazendo a barba. Riu da situação como se fosse uma bobagem do dia a dia, mas por dentro sabia que as coisas estavam desmoronando como um castelo de cartas. Terminou de se arrumar e foi para o carro, mal sabendo o que lhe esperava.

Pegou um trânsito infernal, todos os carros pareciam ir exatamente na mesma direção, rua por rua. Xingou a mãe e todas as gerações de cada um dos motoristas. Estava frustrado com a possibilidade de chegar atrasado, pois, novamente, isso nunca havia acontecido. Uma quadra antes de chegar ao seu destino, desceu do carro e correu até ao restaurante, esbarrando em pessoas nas calçadas, chegando até a pisar na pata de um cachorro. Quando viu o letreiro do restaurante, sentiu-se aliviado. Olhando no relógio percebeu que estava somente cinco minutos atrasado; Claire o perdoaria.

Entrou no local e logo viu sua amada, que acenou para ele, o chamando. Sua mulher o esperava com um sorriso no rosto, parecia não ter reparado em seu atraso, deu-lhe um beijo apaixonado, um pouco mais seria impróprio para o lugar.

Logo o garçom chegou com o pedido, seu prato favorito, Salmão defumado, que estava perfeito, perfumado e farto. Continuaram conversando até que sua esposa o interrompeu com uma pergunta inesperada:

— Você me ama?

Ele quase engasgou.

— Está maluca?

Quando olhou para sua amada, viu a vicissitude acontecer. Os belos cabelos loiros e longos tornaram-se curtos e marrons, levemente esbranquiçados; a jovialidade deu lugar a rugas e manchas na pele. Sua deusa havia se tornado uma mulher comum, que poderia ser vista todos os dias pelas ruas, e ele começava a desconfiar que já a havia visto antes.

— Ana, porque você me perguntou isso? — outra vez disse ‘Ana’.

Quem é Ana? Questionou-se em pensamento e desta vez obteve a resposta.

Lembrou-se de seu casamento, que foi celebrado em um belo jardim e em um dia ensolarado. Depois recordou da casa nova que compraram; um lugar onde eles foram felizes, principalmente com a chegada do primeiro filho, seguido de um segundo, uma bela menininha. O que recordou depois lhe doeu na alma. Sua bela menininha tinha uma doença rara e o tratamento havia lhe custado todas as economias e a hipoteca da casa. Queria parar as memórias de vir à tona, mas não tinha volta, então relembrou tudo: estava servindo de cobaia para conseguir dinheiro o suficiente para salvar sua família. Só não conseguia precisar o momento em que se tornou egoísta e desligou-se do mundo real.

— É claro que eu te amo — foram as últimas palavras que pronunciou antes de ser puxado de volta ao mundo real.

Abriu os olhos e viu a mesma mancha negra a sua frente. Tentou se debater, mas não teve tempo, seu corpo foi içado para fora de algo que parecia um tanque. Brigou para manter os olhos abertos, mas a sala era tão clara que era impossível focar em algo.

— Ei, finalmente você voltou — falou o doutor sorrindo. — Nossa! Você nos deu um trabalhão.

Dois homens o envolveram em um roupão e o levaram até uma maca.

— Eu só vou fazer alguns exames e em breve você poderá ver sua família.

Paul focou os olhos em uma mancha na água, parecia ter medo dela. Vendo a situação o doutor esclareceu:

— Não se preocupe, só utilizamos a Öl para comunicação. Colocamos um pouco no composto líquido em que você estava e pronto! Você podia nos ver. Não é interessante?

Paul deu um sorriso amarelo, fingindo entender o que ouvia. Enquanto isso, o Doutor continuou a examiná-lo, colheu sangue e utilizou tantos instrumentos e máquinas que Paul se sentiu tonto com os apitos e luzes vermelhas que elas produziam.

— Pronto, terminamos. Vou chamar sua esposa.

Paul assentiu e esperou ansioso.

Não demorou mais que um minuto para que Ana aparecesse, correndo para seus braços com lágrimas no rosto.

— Vão com calma, vocês dois. Ele está bem, mas é melhor que não sofra fortes emoções — o doutor advertiu. — A senhora poderia sentar-se ao lado dele? Precisamos conversar. — o homem falou tão sério que Ana se espantou.

— Pode dizer, Doutor — Paul concordou, segurando a mão de sua esposa.

— Infelizmente você não poderá continuar no nosso estudo. Nós ainda não sabemos o que ocorreu, mas se você entrar mais uma vez no tanque não será capaz de voltar. Seu cérebro vai derreter se tentarmos. Entendeu?

Ana chorava pensando no sofrimento que seu marido tinha passado, e Paul só pensava no dinheiro que perderia.

— Hoje você ficará em observação, sob nossos cuidados, e amanhã lhe tratei a papelada para encerrarmos o contrato.

Então, como uma máquina que deu defeito, vocês vão me jogar fora. Paul pensou.

— Certo. Ana, vá para casa, avise as crianças que amanhã estarei com elas. Vai ficar tudo bem. Eu vou dar um jeito nisso. — Deu um beijo em sua esposa. — Doutor, onde é meu quarto?

O homem sorriu e o guiou até seu dormitório, conversando sobre os avanços que havia conseguido graças a Paul. O que o Doutor não sabia é que Paul continuava relembrando as coisas sobre o seu passado e uma em especial brotou-lhe à mente: a cláusula que especificava uma polpuda indenização em caso de morte ou incapacitação.

Durante aquela madrugada, Paul voltou ao laboratório e se jogou no tanque sem nem pensar. Sentiu a água fria invadir seus pulmões quando seu ar acabou e acordou com os tímidos raios de sol iluminando seu quarto, enquanto as persianas se abriam. Olhou para o lado e viu Ana ainda dormindo, depois correu para o quarto de seus filhos, onde observou o menino dormindo calmamente e, ao lado, sua menina, espreguiçando-se enquanto falava:

— Bom dia, papai.

Paul não teve dúvidas, estava tudo certo agora… 

30 de Julho de 2018 às 01:43 2 Denunciar Insira 1
Fim

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Karimy Karimy
Achei o conto bastante interessante, não sei de onde tirou a sua ideia, mas ela me fez lembrar muito da "nossa" realidade. Algumas pessoas vivem como o Paul, tendo de abrir mão de muitas coisas para se submeter aos caprichos e mandamentos dos outros, das empresas, dos patrões, muitas das vezes, carrascos, para depois serem substituídos por máquinas. Antigamente, por exemplo, na Volkswagen do Brasil existiam um bocado de gente que trabalhava na construção dos automóveis, o lugar é tão grande que eles precisavam usar ônibus para se locomover, mas agora está vazio, os que trabalham lá são os que manejam os robôs que substituíram os homens. E o que aconteceu com todas essas pessoas? Acredito que muitas devem ter feito o mesmo que Paul, mas sem esperar indenização nem nada, porque já não tinha nada mais a receber, então por desgosto mesmo. É, bem realidade.
18 de Agosto de 2018 às 12:08

  • Arymura Arymura
    Uau, eu não tinha pensado nisso! É muito verdade essa comparação que você fez, infelizmente nossa vida real não está muito longe da ficção u.u. A ideia veio de um prompt sobre uma pessoa presa em um holodeck sem saber e no fim virou isso kkk. Obrigada por comentar, fiquei muito feliz em ler sua visão sobre a fic. Espero te ver novamente por aí, bjs. 19 de Agosto de 2018 às 14:25
~