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Bruno Coutinho


A observação e interpretação da vida de um homem, realizada por outra pessoa, sentada a uma mesa de um restaurante


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Ele

Assim estava ele, sentado à mesa do restaurante, a ler atentamente a carta. Parecia indeciso entre dois pratos, não sei bem quais, não conseguia ver do local onde estava sentado. Mesmo assim, no meio daquele restaurante cheio de famílias, de pais felizes com filhos felizes, de irmãos em reconciliação, pedidos de casamento, anulações de divórcios, amigos mostrando a outros os locais onde passaram férias, era ele o único que estava sozinho.

O seu cabelo negro agrisalhado - como se fosse possível o estático da televisão poder passar como por transferência de energia para os seus folículos - existia na sua cabeça despenteado, reflectindo só em si a informação básica complementada pela camisa suja no braço esquerdo e completamente amarrotada: ele deixara de se preocupar.

A sua cara triste seguia as letras e as imagens da carta, considerando talvez que escolhesse ele carne, peixe, salada, ou só a sobremesa, nada traria de volta o que ele talvez tivesse perdido. E assim estava, sentado na cadeira, numa mesa com dois lugares, desocupada num deles, procurando o conforto na felicidade que as outras pessoas emanavam claramente. E eu, de longe o via, sentado também numa mesa, também eu escolhendo o que queria comer, contemplando cada gesticular da sua personagem. Talvez estivesse esperando que a qualquer momento ele se levantasse e gritasse que está farto, talvez esperasse apenas que ele se alimentasse e saísse daquele lugar que não existia na tristeza da sua desinteressada contemplação.

Com o tempo, um garçon trouxe o pedido copo de whisky para a minha mesa, enquanto que ele próprio era servido do mesmo líquido na sua própria mesa. A maior parte das vezes, quando eu olhava, ele olhava de volta, quem sabe até mostrando a mesma curiosidade em mim que eu mostrava nele. Não saberia dizer, o álcool brincava com a minha perceção das coisas, e aquele copo que pedira não tinha sido o primeiro que tinha bebido durante o dia.

Enquanto bebia um gole e falava com o protetor do meu pedido de jantar, olhava-o a sorrir para outro garçon a pedir o que finalmente tinha decidido, naquilo que eu analisava como um misto de sono e falta de vontade de viver. Também o meu cabelo, um pouco mais grisalho, se confundia com os pelos do braços de quem passa por um ecrã de televisão, diferindo apenas no tamanho e localização dos pelos.

O seu prato finalmente chegara, e o meu, porventura, também.A sua postura alterou-se de um recostado nas costas da cadeira para um debruçar sobre o que iria comer. Brincava contemplativo com o jantar que pedira; mas de perto ou de longe, eu via nos seus olhos a sua tristeza. Via porque a tristeza dele era familiar, fosse ela qual fosse. Via porque a tristeza dele não era apenas dele.

Tentava a todo o custo ler na sua face e postura o que motivara à sua solitária presença neste local onde toda a gente estava acompanhada. A sua cara ensonada ostentava olheiras de quem já não dormia bem fazia alguns dias. Provavelmente problemas com a esposa. Provavelmente a sua "mulher para a vida" se lembrara que afinal não era ele o amor da sua vida e procurou conforto nos braços de outro; um outro mais jovial e mais bonito. Provavelmente a sua filha tinha-o abandonado para se juntar à mãe na demanda da sua felicidade e o tivessem deixado as duas, num restaurante, após uma grave discussão, onde ele agora se entretinha dopando-se com doses de álcool cada vez maiores, sem preocupações de amor, de tratar de seja quem for; apenas com o objetivo diário de ultrapassar em número o bebido anteriormente. Provavelmente isto é demasiado familiar.

Mas a sua cara transbordava a mesma tristeza, ou falta de alegria, da alegria da vida; quem sabe apenas falta de álcool. Bebia agora um vinho, trazida pelo garçon numa garrafa de litro e meio de vidro, sósia da minha própria garrafa.

Subitamente senti que sentia... Senti a sua dor, a dor de estar sozinho, escorria-me pela face em gotas salgadas, que ora aterravam no copo, ora no meu guardanapo. Disfarçava de forma bastante subtil, ninguém reparara que vertia ácido pelos meus olhos, mas um ácido que me corroía a alma, de não conhecer e no entanto de tão bem conhecer aquelas expressões e faces. Por vezes limpava as lágrimas à minha manga de camisa amarrotada, ao lado esquerdo, pois o direito estava manchado de vinho ou de algum molho, ou algo que lá aterrou.

Sentia a necessidade de ir ter com ele, falar com ele; explicar que não está sozinho... Tentar perceber a sua história e quiçá identificar-me nela. Olhava em volta na tentativa de perceber que alguém me olhava ou iria reparar na minha ausência naquela mesa que frequentava quase diariamente fazia dez ou onze dias.

Num rasgo de loucura e coragem coloquei-me de pé. Cambaleava um pouco do tempo que estive sentado a olhar para quem passava, mas com esforço consegui chegar até ele. Bati até contra um espelho que se situava perto de mim, virado de frente para a minha mesa, no caminho até ele, e hesitei durante a viagem curta de uma mesa para a outra, mas cada olhar de ameaça de colocar término à sua vida que ele lançava a tudo à sua volta e que agora assombrava a minha mente apenas motivavam mais os passos que cambaleava, o enxugar das lágrimas e a tentativa de conversar.

- Desculpe, boa noite. Eu não consegui deixar de reparar que estava sozinho e com uma cara triste. Eu vinha só perguntar se estava tudo bem, se queria companhia ou falar.- Disse eu apenas pensando nas boas intenções que tinha.

A sua resposta foi rápida e curta: - Não me dirija a palavra, estou a tentar comer. Saia daqui por favor!

Falou de uma rispidez e uma violência que me aterrorizou. Dei dois passos atrás e entre dentes soltei um "peço desculpa" e saí do restaurante; ainda tive tempo de o ouvir queixar de deixarem entrar no restaurante todo o tipo de escumalha,

Já na rua, olhava para ele novamente, através dos vidros. Só que aquele homem não estava sozinho, estava acompanhado, e não tinha a camisa marrotada nem o cabelo grisalho, mas uma camisa bem passada e o cabelo bem penteado. Olhei de novo, e repentemente percebia tudo.

Voltei a entrar no restaurante, para buscar o meu casaco, paguei e voltei à minha mesa, para me despedir do homem triste e com vontade de morrer. Aquele homem triste que vira a pedir um whisky, aquele que sorria tristemente e provavelmente até enxugava lágrimas às escondidas. Despedi-me do homem que via no espelho, em frente à minha mesa.

23 de Julho de 2018 às 22:59 0 Denunciar Insira 0
Fim

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