Simplesmente Tita 2ª Temporada Seguir história

sweet-mary Mary

O ano de 1998 terminou com saldo positivo para Tita que passou para a 6ª série com notas altíssimas, viveu grandes aventuras e finalmente encontrou uma melhor amiga: a doce, romântica e carismática Aline. Apesar disso, nem tudo são flores. Determinada a separá-la de Aline, Meire das Neves almeja transferi-la de volta para o antigo colégio. A iminência de retornar ao lugar onde viveu os piores anos de sua vida nas mãos da perversa Cássia Reis é o suficiente para tirar o sono de Tita em plena época de Natal. Nesse entremeio, outra reviravolta acontece na vida de Tita: após anos sem contato, Félix Linhares, seu pai, a convida para passar as férias de verão na companhia dele e de sua esposa Helena na badalada cidade de Guaratuba. Entre doçuras e brincadeiras, Tita não percebe a princípio que está cruzando a ponte que separa a infância da vida adulta e tampouco que vive um momento de transição. O primeiro passo é daquela menininha de sorriso sapeca e fé inabalável e a ponte, apesar de suntuosa, também é inconstante. O percurso, marcado por descobertas, transformações, questionamentos e muitas borboletas no estômago. Bem-vindos à adolescência e, acreditem, há um universo de segredos entre uma parte e a outra da ponte.


Ficção adolescente Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Férias, merecidas férias!

Esperança. Verbete indispensável num vocabulário em pleno desenvolvimento. Substantivo abstrato por definição, concreto nas palavras escritas em letra cursiva no meu diário, energia pulsante de um coração insistente pela vida, que dentre todas as alternativas que se apresentam, escolhe continuar caminhando. Amiga de todas as horas, o lápis que essencialmente tem todas as cores do mundo, desenha o guarda-chuva para a criança sonhadora brincar em cima de poças de água nos dias mais carrancudos, transforma um espaço em branco num bosque encantado onde todas as lendas se reunem para confraternizações às quais eu jamais serei café-com-leite nas brincadeiras.

Meu último dia de aula foi em 04 de dezembro. Durante a semana seguinte foram aplicadas as provas de recuperação, ou seja, para muitos — a exemplo de mim — aquela celebração foi uma despedida porque tendo eu sido aprovada por média, mamãe mensurou que não fazia sentido gastar passagem para "não fazer nada". Por um lado era bom porque significava que eu teria meu merecido descanso até o mês de fevereiro, por outro me entristecia sobremaneira porque até lá eu padeceria ao inferno da incerteza.

Ainda frequentando a escola, Aline me telefonava à noite e me contava tintim por tintim do que aconteceu na minha ausência.

— A prova do Emival foi terrível — narrou Aline. — A Mariana Franco deixou a folha em branco e saiu da sala chorando. Eu fiz o que podia, agora vou esperar o conselho de classe e ver no que é que dá. A Mari Oliveira falou que se for pra conselho numa matéria só ou talvez duas, passa de ano. O problema é que a Mari Franco está pendurada em muitas matérias e precisa de muita nota. Eu falei a ela que agora não adianta chorar, que ela podia ter feito tudo diferente, ter entregado os trabalhos, os deveres de casa, prestado mais atenção na aula e que isso sirva pra ela fazer diferente no ano que vem.

A D. Neide estava uma arara com a filha mais nova por conta da reprovação e com a razão de estar.

— Viu só como eu estou certa em te separar dessas preguiçosas? — ralhou Meire que ficava rondando a sala para ouvir a conversa. — Um bando de preguiçosas, isso sim! Se fossem alunas aplicadas, estariam de férias e não dependendo de conselho de classe pra passar de ano! Se eu fosse professora não daria trela pra aluno folgado, reprovava com gosto para ensinar o que é bom para a tosse...

Em 14 de dezembro ocorreu o conselho de classe e o resultado final divulgado foi às 15h00min. Naquele mesmo dia, mamãe foi apanhar o meu boletim e eu a acompanhei porque ansiava encontrar a Aline ou qualquer uma das meninas, no entanto a ordem foi a de permanecer no carro e francamente eu até que gostei disso porque estando o rádio ligado, meu pensamento voava pelos ares e aquele era meu único contato com a liberdade. Dentro da cabeça.

Cada música que tocava no rádio rememorava um fato marcante daquele ano. Era imensamente doloroso contemplar aquele lugar e aceitar a ideia de que nunca mais voltaria para ele, por isso mentalizava que estando lá dentro, Meire das Neves reconsiderasse seu decreto e desistisse daquela ideia absurda de me transferir para aquela escola onde eu fui tão infeliz.

Era fato que muitas coisas mudariam a partir de fevereiro. Com muita sorte eu veria o João no ônibus e tão só porque aquela instituição oferecia vagas apenas até o 8º ano e com isso ele e os amigos se transfeririam para outro colégio da região, nunca mais nos encontraríamos porque quando eu estivesse me formando na oitava série, ele estaria saindo do Ensino Médio. Mariana Franco e sua xará se separariam porque uma reprovou e a outra não.

Sequei as lágrimas com as pontas dos dedos quando reconheci os passos firmes de Meire em direção ao carro.

— Terceira melhor aluna da escola... — proclamou Meire, como se o mesmo fosse um fato tão inacreditável quanto um OVNI pousar naquela rua e nos abduzir, analisando o boletim para que não lhe restassem dúvidas quanto à veracidade das notas lá impressas que em suma garantiam a minha aprovação para o sexto ano, contudo não faziam de mim melhor ou pior do que ninguém dentro daquela instituição, apenas era um reflexo do meu esforço ao longo dos bimestres para não reprovar, do cumprimento com os meus deveres de aluna e o reconhecimento dos professores, embora isso não valesse nada para a Mariana Franco e para os garotos que preferiam a Aline que sobreviveu ao conselho de classe e com muita sorte seria minha colega de turma outra vez...

— Parece que a senhora não gostou das notas...

— Não é essa a questão — atalhou Meire, dobrando o boletim em quatro partes e guardando dentro do bolso da jaqueta preta de tactel. — Eu considero o ensino dessa escola muito fraco...

— Isso não é verdade, mãe!

— Como não? — debochou a troglodita, dando a partida. — É fácil ser a terceira melhor aluna da escola onde ninguém abre um livro, onde professor mais falta do que vem à aula, isso é trapaça.

— Não é não! Eu tive que estudar muito pra passar de ano. Se fosse verdade que qualquer um passa de ano, não teria um montão de gente com medo do conselho de classe. A Mariana Franco reprovou...

— Mariana Franco que se estrepe! Não tenho nada a ver com isso!

— Pensei que a senhora ficaria feliz com o meu boletim...

Eu era a melhor aluna da 5ª série e apenas dois meninos da 8ª estavam à minha frente na escola inteirinha. Meire das Neves tinha motivos de sobra para estar feliz se fosse uma mãe como a D. Neide ou a D. Nice, no entanto ela não era e jamais seria.

— A outra escola com certeza tem uma rotina mais puxada e aí a porca vai torcer o rabo, vamos ver se você vai conseguir ser boa aluna. — ameaçou Meire dobrando à direita numa esquina que nos levava ao supermercado onde nossa família fazia a compra do mês.

— A senhora não mudou de ideia?

— Mudar de ideia sobre o quê? — estrilou Meire. — Nem me venha pedindo presente caro porque passar de ano não é mais do que a sua obrigação!

Deixa pra lá, murmurei em pensamento.

Fora do mercado de trabalho, Meire das Neves se dedicava a tomar conta da casa e da minha educação. No entanto, manifestava o desejo de voltar a trabalhar porque tinha lá as suas ambições, sendo a mais importante delas juntar uma boa quantia em dinheiro a fim de comprar uma chácara bem isolada e lá viver até o fim da vida, bem longe de seres humanos.

Horácio saía para trabalhar pela manhã e voltava no final da tarde. O ordenado dele cobria as despesas do lar, nada nos faltava, mas minha família estava distante de pertencer à classe média e desfrutar de grandes luxos como viagens de avião, ser sócia de algum clube e me matricular numa instituição privada de ensino, uma vez que tanto meu padrasto como minha mãe sonhavam com o dia em que não precisariam mais pagar aluguel.

Estar perto das amigas me fazia uma falta tremenda, todavia as férias tinham muitíssimas vantagens: a) nada de dever de casa, b) nada de uniforme, c) nada de provas, d) eu almoçava assistindo Chaves e Chapolin e depois mudava de canal para não perder o Tarde Pop porque durante o ano letivo quando eu voltava para casa o programa já tinha acabado. Entre janeiro e fevereiro só seriam exibidas reprises porque a Samantha Saldanha estaria de férias, voltando somente depois do Carnaval.

A RPN tinha uma batata-quente em mãos quando Jacobina do Prado faleceu em decorrência de um câncer de pulmão. O programa Cozinhando com Jacobina, antecessor do Tarde Pop, ficou no ar por mais de vinte anos e a apresentadora que se consagrou na era do rádio como uma grande cozinheira deixou um espaço vago na grade. Substituir aquela atração que apesar de já não atrair aos jovens nem render lucro era uma missão de titã porque não daria para viver de reprises para sempre, ainda mais com a concorrência exibindo novelas importadas e desenhos animados que por si só já abocanhavam uma fatia bem significativa do público sintonizado na televisão no horário das três da tarde.

A oito de junho de 1997, uma das muitas tardes solitárias da minha infância, eu já tinha terminado o dever de casa e procurava alguma coisa para assistir. Sintonizei na RPN e não encontrei a falecida Jacobina conversando com sua florzinha de estimação na famosa cozinha cenográfica de onde mamãe pegou várias receitas. No lugar da cozinheira estava uma linda moça de cabelos louros na altura dos ombros, rosto em formato de maçã, maxilar firme, nariz arrebitado, olhos amendoados de avelã com enormes cílios que ressaltavam o encanto dos mesmos, lábios em formato de arco pintados de rosa abertos num sorriso muito acolhedor. Ela usava um vestido rosa de crepe cuja bainha acabava a dois dedos do joelho, se apresentava como Samantha Saldanha e prometia nos fazer companhia até o final da tarde. Aquele, eu não sabia ainda, era o início de uma era, de uma lenda.

Era o princípio do inesquecível Tarde Pop.

Nunca fui afeita aos programas de palco da concorrência porque já estava farta até a testa de ver baixaria, bundas de fora balançando em frente à câmera, então não coloquei fé que fosse gostar do Tarde Pop, ele seria uma propaganda enganosa prometendo uma originalidade bem questionável em se tratando de televisão porque depois se nutriria de copiar as oponentes.

Ledo engano.

Samantha Saldanha tinha formação em jornalismo, foi repórter de rede da RPN e por acaso selecionada para o piloto de um programa que o canal já sonhava em levar ao ar havia algum tempo, faltava apenas um bom horário e ousadia. O Tarde Pop tinha uma pauta muito interessante e Samantha continuava a exercer o ofício de jornalista, no entanto explorando seus talentos sob outro olhar.

Nas primeiras semanas de existência do Tarde Pop, muitos desacreditaram que aquela repórter inexperiente no ramo do entretenimento daria conta de sustentar a audiência no horário e agradar aos exigentes e fieis fãs da falecida cozinheira Jacobina, todavia ela superou isso e muito mais, abocanhou os saudosos jacobinos, tornou-se a queridinha das crianças, a campeã de cartas da emissora, dobrando o faturamento e fazendo muitos de seus concorrentes repensarem suas programações flutuantes. Quer mais?

Assumindo a estatura baixa, Samantha compensava com saltos altos e combinações estilísticas que valorizavam seus atributos físicos de modo que tão logo tornou-se uma referência para suas telespectadoras que não tinham pernas longilíneas. A voz dela era um encanto, transmitia segurança e calma, era como se ela realmente estivesse falando conosco e olhando dentro dos nossos olhos. Nós éramos seus "amigos". O estúdio remetia à uma sala de estar, aconchegante como uma casa de verdade.

Imagina só, em plena década de 1990, uma jornalista de trinta e poucos anos manter-se em evidência sem rebolar de fio dental e/ou ter um caso com algum homem locado num cargo de importância na hierarquia da emissora, melhor ainda, sem estar à sombra de um varão. Era uma ofensa para aqueles que nunca engoliram o seu sucesso e lhe acusavam de ascender dentro da RPN através do "teste do sofá". Por qual motivo?

Não sejam incautos, amados leitores!

Muitos colegas dela não se conformavam com as glórias que lhe eram concedidas por mérito e ainda hoje há uma grande parcela de pessoas que não toleram — encontrei o verbo adequado — a ideia de uma mulher chegar ao topo sem estar à sombra de um homem. Todos nós em algum momento por ciúme, raiva, indignação ou qualquer outro pretexto já desdenhamos o potencial de alguém, ora por nos sentirmos inferiores ao nosso alvo ora porque a ofensa sempre é o escudo de quem não tem um argumento convincente para atingir outrem.

Apesar dos sorrisos que iluminavam nossas tardes, Sam não era aquela boneca alto astral em tempo integral, padecia de sofrimentos tanto quanto qualquer outro mortal. Se de um lado havia o carinho e o reconhecimento de centenas de milhares de fãs — dentre os quais eu me incluo — que a amavam, sintonizavam a RPN só para vê-la, admiravam o seu trabalho e torciam de verdade pela sua felicidade na vida pessoal, do outro existia uma forte cobrança pela audiência porque o Tarde Pop tinha uma meta a cumprir para permanecer no ar, a pressão de todos para que se casasse e fosse mãe, mas ao mesmo tempo nunca engordasse e se mantivesse apresentável para as câmeras. Era insano e desumano, porém real e inegável que qualquer outra pessoa, mais cedo ou mais tarde, surtaria.

Samantha Saldanha conquistou o posto de primeira-dama da RPN, levou diversas premiações pela sua performance no Tarde Pop, foi eleita uma das mulheres mais influentes da década de 1990, ícone do empoderamento feminino muito antes das redes sociais, adquiriu uma bela mansão, um carro importado, o que o dinheiro podia comprar não lhe foi negado, todavia a outra face da moeda apontava para alguém que com a fama abdicou por contrato a privacidade.

Apesar do lindo anel de noivado comprado numa famosa joalheria em Nova York, minha ídola mantinha um relacionamento sucateado com o Inácio Guimarães, um repórter de rede da RPN por conta do agente dela. Sabia-se dos inúmeros casos de Inácio com modelos e atrizes, colegas de profissão. Entretanto, Sam nunca permitiu que os problemas pessoais desviassem o seu foco: às três da tarde lá estaria ela com o mesmo sorriso aprazível que eu entendi muito mais tarde com as pancadas da vida, todos usavam para encobrir o caos interior.

1 de Dezembro de 2018 às 18:34 0 Denunciar Insira 0
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