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larii Larii

" Já havia passado por aquela rua milhares de vezes. Sempre as mesmas casas, sempre as mesmas pessoas, mas nada parecia normal. "


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Paranoia

          Será que estava sonhando?

       Nada parecia real. Sua vida era muito rotineira, sempre acontecia a mesma coisa todos os dias e nada mudava. Isso nunca tinha sido um incômodo, afinal, gostava de ter o controle das coisas. Sempre foi assim.

         Mas nesse dia tudo parecia estar diferente. Era sua impressão ou uma névoa cobria tudo? Já havia passado por aquela rua milhares de vezes. Sempre as mesmas casas, sempre as mesmas pessoas, mas nada parecia normal. Passou por uma velha senhora, que trazia nas mãos um saco de pão.

         — Bom dia! — a senhora lhe disse e sorriu daquela forma que senhoras costumam sorrir. Lembrou-se logo de sua avó, que morava longe demais e que sentia muita falta. Seu coração apertou e fez uma anotação mental para não esquecer de visitar a avó no próximo final de semana.

         — Bom dia! — respondeu, retribuindo o sorriso. Sim, porque é muito agradável e raro receber um bom dia numa manhã fria e aleatória e é ainda melhor quando a pessoa que cumprimenta te faz lembrar sua avó. Não se fazem mais pessoas educadas como antes.

         Sempre ia na mesma padaria todas as manhãs, o pão era sequinho e o padeiro era gentil. Mas aquela senhora... Conhecia todos que moravam na redondeza, as pessoas sempre compravam pão no mesmo horário. E aquela senhora? Não se lembrava dela. Seria uma pessoa nova no bairro? Havia lido na internet que as pessoas que aparecem em nossos sonhos e não conhecemos são todas pessoas que vimos na vida real, assim, de relance. Poderia estar sonhando?

         Pensou tanto que quando deu por si já estava voltando para a casa com sua sacola de pão nas mãos e um pote de achocolatado. Parou. Havia pedido os pães, pego o achocolatado, pagado por tudo e saído sem perceber o que fizera? Como isso poderia ter acontecido? A sensação de estranheza aumentou ainda mais e sentiu seu coração acelerar.

         A névoa parecia encobrir tudo de forma ainda mais densa, sentia que sua mente estava rodopiando, talvez estivesse mesmo sonhando. Suas mãos começaram a suar e resolveu andar mais rápido. Se fosse um sonho, precisava acordar logo. Essa impressão estranha fazia com que sentisse extremamente mal, seu estômago dava voltas dentro de sua barriga, o coração estava tão acelerado que temia ter um acesso e desmaiar ali mesmo no meio da rua.

         A rua. Olhou a sua volta e percebeu que não havia nenhum pedestre, nem mesmo um único carro estacionado naquela rua. Estava completamente vazia. Isso, tinha certeza, era muito incomum. Geralmente as pessoas saiam para rua, as senhoras para varrer a calçada, as crianças para brincarem. Tinha ouvido falar em algum lugar que, para se acordar de um sonho, era preciso apenas se beliscar e foi isso que fez. Nada aconteceu.

         O suor aumentava, os batimentos cardíacos também. Não conseguia respirar direito. Queria chegar em casa, assim poderia tomar um banho e acordar ou se acalmar e aceitar que aquilo nada mais era do que a própria realidade. Precisava ir rápido. Esqueceu o pão e o pote de achocolatado fez um ruído seco ao bater no asfalto da rua deserta. Então, correu.

            Ao passar em frente uma casa, as janelas abertas, um som inundou seus ouvidos. A música que começava a tocar era Non, je ne regrette rien, de Edith Piaf. Parou de imediato, os olhos vidrados e tudo escureceu.

5 de Julho de 2018 às 23:57 2 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Larii “É por isso que as histórias nos atraem. Elas nos dão a clareza e a simplicidade que faltam à vida real” — O Nome do Vento.

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Karimy Karimy
Oie! Muito bacana o conto, o teor mais sombrio que ele possui assim como esse desespero do personagem. Gosto bastante de histórias que trazem um sentido mais enigmático e com múltiplas interpretações, não vou deixar a minha porque é tão particular e íntima que chega a ser engraçada! haha! Gostei mesmo do conto. ;)
18 de Agosto de 2018 às 12:57

  • Larii Larii
    Muito obrigada pelo seu comentário e fico muito feliz que tenha gostado do meu conto! Eu também gosto muito de histórias desse tipo, são as que mais me chamam atenção. Beijos! 8 de Setembro de 2018 às 10:51
~

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