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Você e eu

Desafio dos Signos

Tema: Escola

Signos: Peixes (Sonhador, talentoso e carente) Kakashi; Peixes (Sonhador, talentoso e carente) Gai.


A fic é UO, então o ambiente escolar foi retratado como o ambiente na Academia Ninja. As características estão postas de forma mais sutil, de forma a tentar manter o máximo da personalidade original dos personagens. Espero que gostem.


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Ele era um gênio.

Sempre lhe diziam isso, com os olhos brilhando assombrados e admirados com as habilidades apresentadas por alguém tão jovem.

“De fato! Um gênio tal como seu pai”, falavam antigamente.

Seu pai...

Às vezes, Kakashi se olhava no espelho em busca de qualquer semelhança com o homem, além de seus cabelos brancos. Ele, é claro, jamais contaria isso para qualquer pessoa. Não precisavam saber sobre o silêncio que o engolia ao voltar para casa, das noites em que, ao acordar devido as lembranças que invadiram seu sono, ele não conseguia mais dormir e aguardava o nascer do sol sentado mesclando-se as sombras da sala cujo chão ainda estava manchado pelo vermelho.

Mas, de qualquer forma, não como se alguém se importasse.

Ele era o último Hatake vivo. Seu pai havia quebrado as regras que coordenavam a vida ninja, tendo uma morte tão desonrosa quando suas ações. Mas ele era um gênio. E, no final do dia, isso era tudo que importava.

“Um prodígio, apesar do pai que teve!”, era o que diziam agora.

Houve um momento em que imaginou como seria sua vida se não fosse um ninja. Se seus pais não fossem ninjas. Eles ainda estariam vivos? Talvez ele poderia ter tido alguns irmãos pelo caminho, a família poderia ser conhecida como comerciantes, agricultores ou o que quer que fosse. Seriam reles civis, vivendo a vida como qualquer outra pessoa, sem se preocupar com guerras, lutas e treinamentos.

Mas tão rápido quanto vinham esses pensamentos, eles eram sufocados pelo peso da realidade. Ele não era uma criança! Ele era um ninja. E ninjas não se deixam influenciar por sonhos tolos e impossíveis.

*

Gai sentia seus músculos doerem.

As mãos, agora cobertas com a faixa branca que seu pai colocara pela manhã, estavam repletas de novos cortes doloridos e que ardiam a cada momento em que movia os dedos.

E, por um breve segundo, ele se perguntou se valia a pena.

Ele queria ser um ninja. Queria proteger e honrar o nome de sua aldeia. Mas ele simplesmente não era bom.

Não era um gênio.

Seu ninjutsu era terrível, tal como seu genjutsu. Seu taijutsu era aceitável, embora longe de ser impressionante. Sendo gentil consigo mesmo, ele sabia bem que era um estudante medíocre.

“Assim como seu pai” sussurravam as vozes dos outros estudantes, dos genins, chunins e jounins. “O eterno genin”, zombavam a suas costas, crentes de que ele não os ouviria.

E nesses momentos, ele se enchia de determinação. Então treinava. Até o cansaço. Até que desmaiasse sobre a terra quente.

“Conhecer seus defeitos só evidenciará seus pontos positivos”, seu pai lhe dissera. Ele acreditava em si. O incentivava. Estava sempre ali, exaltando os poucos sucessos que tinha.

Não. Gai não era um gênio em qualquer coisa. Mas ele era determinado.

E ele seria um ninja!

Então ele voltou ao seu treinamento. Os punhos encontrando-se repetidamente com o tronco de uma velha árvore, manchando o branco das faixas com o vermelho quente de seu sangue. O suor escorria quente por seu rosto e de seus lábios eram murmurados cada soco.

E dessa vez, ele conseguiria chegar a 500 socos, ou faria 500 flexões!

*

Kakashi observava o garoto que parecia desconfortável por estar em frente a toda sala. Do spandex verde ridículo, o lenço vermelho no pescoço e o cabelo que gritava por um corte, ele não sabia dizer o que o garoto estava fazendo ali.

Seu nome foi chamado e, sem a menor vontade de se levantar de sua cadeira, olhou para o garoto de spandex que o encarava com expectativa. Gai. Seu nome era Gai. E, em um piscar de olhos, a sala estava repleta de clones seus.

E mais uma vez ficaram admirados com todo seu talento.

“Como esperado do filho do Sakumo”, disse seu professor, impressionado. “Conseguir fazer múltiplo clones das sombras!”

Então foi a vez de Gai. E cada um de seus clones olhou para aquele garoto.

O desespero naqueles olhos escuros era palpável. O modo como percorriam a sala como se estivesse em busca de uma saída, até voltarem sua atenção a seus pés e, timidamente, as mãos formarem o selo necessário para o jutsu.

Decepcionante era pouco para descrever o sentimento do tempo que perdeu sendo obrigado a presenciar tal acontecimento. O garoto tinha ‘fracasso’ escrito em sua testa... como não desistia de uma vez?!

As risadas e os comentários que se seguiram não foram uma total surpresa, nem mesmo os ombros curvados e a vergonha estampada naquele rosto infantil, cujos olhos demonstravam ainda mais desânimo do que antes.

Talvez ele tenha finalmente percebido que ali não era seu lugar.

*

Ele corria. Suas pernas doíam a cada segundo, sob o peso e a força que lhe eram impostas. Mas ele continuava correndo. Sua mente o levava de volta a sala de aula, a demonstração de ninjutsu, a sua incapacidade de fazer um clone... e a Kakashi. O gênio.

Gai o invejava. Bem lá no fundo, em uma parte que desejava negar para si mesmo, ele o invejava. Por que Kakashi era tudo aquilo que ele desejava ser. Assim, mesmo sem nem perceber, Kakashi se tornou sua meta. Seu objetivo.

E no final da tarde, seu pai estava ali, como todos os outros dias. Seu rosto estava repleto de arranhões que Gai já sabia reconhecer como sendo causados por um gato, o spandex verde estava coberto de poeira e, escorrendo por seu pescoço, via-se uma gota de suor. Mas, ainda sim ele sorria.

E, depois de passar o dia sendo ignorado por todas as outras crianças da academia, além daquelas que gostavam de provocá-lo pela sua inabilidade em ninjutsu e genjutsu, ter o sorriso caloroso de seu pai e o brilho de fé em seus olhos, era o que o mantinha na busca de seu sonho.

Mas, acima de tudo, era ele quem o incentivava a sempre se superar... e qual a melhor forma de fazer isso se não tendo um rival que o desafiasse? E seu pai viu em Kakashi o melhor rival que Gai poderia encontrar.

*

Kakashi viu aquele garoto estranho dia após dia no campo de treinamento após as aulas. Ele treinava sozinho, as vezes haviam outros estudantes de sua turma por ali, dispostos a passar as horas provocando-o por qualquer coisa. Tão infantis.

Mas ele continuava a seguir seu caminho, ignorando o garoto e seus provocadores.

Não havia muito o que fazer após as aulas. Não havia ninguém com que ele quisesse passar o tempo, então seu tempo de dividia entre treinar e ler os diferentes livros que haviam espalhados por sua casa. Às vezes ele apenas sentava-se à beira de um penhasco e ficava observando as mudanças nas tonalidades que coloriam o céu durante o pôr do sol.

Nunca havia pressa... final, não havia ninguém que o esperasse em casa.

Era algo que se repetia dia após dia e, para sua surpresa, Gai se manteve na academia apesar de suas dificuldades... e algo mais estranho ocorreu.

*

Ele teve coragem de desafiá-lo.

Kakashi sempre esteve ali, como algo inalcançável, um alguém que Gai poderia admirar de longe sem jamais ser considerado um igual. Era como um sonho e uma realidade. A forma viva de tudo que Gai sempre sonhou e finalmente ele sentiu que tudo era possível.

E ele sentiu a juventude que tanto seu pai lhe falava, correr quente por suas veias, dando-lhe forças para seguir em frente e ser o ninja que ele sempre sonhou.

Pela primeira vez, os olhares de escárnio se tornaram de admiração. Ele havia consigo com seu trabalho duro e sua perseverança.

E mesmo Kakashi percebeu. E, naquele primeiro desafio, seu coração se aqueceu com o nascimento de tão sublime rivalidade.

Porque Gai percebeu no momento em que olhou nos olhos de Kakashi pela primeira vez que, lá no fundo, por mais que ambos negassem, ele era iguais.

*

Nos anos que se seguiram, Kakashi não saberia dizer o porquê de ter aceito aquele primeiro desafio que lhe foi pedido. Gai era impulsivo, barulhento e invasivo. Um sonhador que acreditava que tudo poderia acabar bem. Era talentoso, é claro, mas ainda sim irritante.

E, acima de tudo, era a única constância em sua vida. Ele sempre esteve lá, desde as aulas na academia ao período sombrio na ANBU e a nova vida como um professor jounin. Ele estava ao lado a cada perda e a cada ganho. Ele o deu conforto e o aceitou em sua vida.

Às vezes Kakashi se perguntava o que o fez ficar tanto tempo, o porquê de ele aturá-lo mesmo em seus maus momentos... e a grande maioria das vezes ele não queria ter uma resposta.

Porque Gai estava lá. E isso era tudo o que importava.

1 de Julho de 2018 às 02:00 2 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

Inial Lekim 22 anos. Pisciana. Escritora. Sonhadora. Fotógrafa e Desenhista quando surge inspiração. Vocês já ouviram a palavra de KakaGai hoje?

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Neeca Ashcar Neeca Ashcar
Olá, tudo bem? Eu aqui colocando todas as minhas leituras de Kakagai em dia, porque sim! Então acabei, tipo lendo umas 25 vezes ele antes de ter a coragem de fazer um comentário decente, fui tocada! É tudo tão canon, o sentimento de fracasso que o meu bebê Gai sentia antes de reconhecer o Kakashi como um rival, isso fez ele ser um ninja foda para caralho e sem nunca esquecer o que seu pai lhe ensinou. E isso também foi importante pro Kakashi, como se um completasse o outro. E você sua linda, conseguiu captar cada essência dos dois em curtas linhas, como disse antes tô tocada. O que eu mais amo nesses dois é o como eles são diferentes e iguais, aí eu vejo isso escrito num trecho do texto e já morro! 😊 Que obra linda! Sempre que estiver tristinha vou ler ela! Obrigada! 💚 Beijinhos 😘
1 de Dezembro de 2018 às 14:29
Boo Alouca Boo Alouca
Eu não acredito que fui Alice de novo! Eu jurava que não ia sofrer e sofri... A capa tão meiga, a autora que fala que só ama fluffly, que KakaGai e angst não combina... E EU AQUI DESTRUÍDA NO FIM DE TUDO... Mas marida do céu, como foi que você engoliu o cânon desse jeito, que toda fanfic UN sua, eu acho que é uma nível autorizada do Kishimoto... Não existem palavras suficientes para descrever o estado sublime em que eh tô
10 de Julho de 2018 às 12:45
~