A shadow and a dancer Seguir história

coldcherry

As pessoas reagem a certos momentos da vida, sejam eles permanentes ou passageiros, de maneiras distintas. Alguns seguem em frente, tentam melhorar o máximo possível, porque querem se assegurar que nada mais possa marcá-los de forma tão forte. Ainda que apavorados, eles lutam. As vezes, sem medir as consequências. Outros ficam estagnados no tempo, sentem necessidade de relembrar daquilo que os marcou num loop infinito. Sentem medo de tudo se repetir, e marcá-los ainda mais intensamente, então preferem não arriscar. Sabotam a si próprios. Jongin escolheu a opção mais fácil. Sehun se opôs.


Fanfiction Bandas/Cantores Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#sliceoflife #chanyeol #sehun #sekai #kai #exo
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A shadow and a dancer


Os cabelos negros estavam caídos sobre os olhos castanhos, alguns fios colados no semblante suado de Kai, enquanto ele se movia pela pista de dança. Aquela típica roda de pessoas dando espaço para que o corpo delgado do homem de vinte e quatro anos se movimentasse livremente, acompanhando o ritmo da música. Kai tinha os olhos fechados e um sorriso torto nos lábios fartos. Sentia os olhares sobre si, sabia o que causava em quem o assistia. E gostava. Adorava toda a atenção que atraia. E desejava mais. Tão mais daquilo.


Quando a música foi abaixando gradativamente para dar início a outra, o pé esquerdo do moreno pousou pesado sobre o chão quadriculado, finalizando a dança. A respiração pesada e quente saindo apressada pelos lábios rosados. Abriu os olhos, observando as pessoas o aplaudindo enquanto se dispersavam pela pista.


Entretanto, como se uma bolha ao seu redor se rompesse, se deu conta da realidade e do quão exageradamente alto Chanyeol gritava seu nome do bar daquela danceteria esquecida. Afinal, eles tinham muitos pedidos para atender.




Chanyeol tinha um cigarro apagado entre os lábios, enquanto enxaguava os últimos copos de vidro que restavam na pia. Kai o encarava, um meio sorriso no rosto sonolento, a cabeça apoiada na mão.


“Você leu os jornais recentemente?”, o mais alto proferiu, repentinamente, quebrando o silêncio agradável daquele lugar vazio, cheirando a gente bêbada e fumaça.


“Tenho cara de quem lê jornal, por um acaso?”, o moreno respondeu, tragando o cigarro, e estendendo a bituca ainda acessa para Chanyeol.


Park encostou a ponta ainda em brasa contra o cigarro que tinha nos lábios, puxando o ar para acender. Tragou duas vezes, e olhou para Kai por alguns segundos entre a fumaça esbranquiçada. Pensava seriamente se falava ou não. Pesou os prós e os contras e, no final, decidiu que de qualquer forma, aqueles dois se topariam em algum lugar.


“Sehun está na cidade”, a voz saiu baixa e calma. Os olhos estudaram o semblante de Kai. Apenas o mover mínimo das sobrancelhas indicava que o moreno tinha ouvido. “O grupo de dança... O que ele está envolvido. Vão se apresentar aqui na próxima semana”.


Kai estendeu o braço direito sobre o balcão, alcançando a meia garrafa de vodca que repousava sobre a superfície escura da pia. Tirou a tampa e sorveu do líquido translúcido. Os lábios fartos formando uma linha, quando o gosto amargo explodiu no céu da boca. Chanyeol encarou o amigo em silêncio, não esperava por outra reação. Tão típico do Kim.


“Tudo bem?”, questionou, mesmo sabendo a resposta.


“Perfeitamente bem”, Kai respondeu, fechando os olhos e apertando a garrafa de vidro com a mão direita, os nós dos dedos esbranquiçados.




“Vamos viajar por todos os países do mundo, conhecer os lugares mais legais”, o moreno sorriu, abraçando as pernas, sentado na calçada gelada.


“Essa ideia... Me assusta um pouco”, Sehun proferiu, os braços abertos, o corpo repousando na grama do quintal da casa de Jongin. O sol de fim de tarde batendo no rosto dos dois.


“Medo de que?”, Jongin encarou o amigo. “Não tem do que ter medo. Somos os melhores!”


“Você sabe que é melhor do que eu”, a positividade do amigo, às vezes era irritante. Sehun girou na grama, a barriga magra contra o chão, a cabeça apoiada sobre as duas mãos. Fixou os olhos nos de Jongin. O mais velho o encarou por alguns segundos antes de virar o rosto para a rua, um sorriso sem graça nos lábios.


“Para de me olhar desse jeito”, proferiu. Os olhos vidrados na rua daquela vizinhança tranquila demais para dois garotos tão cheios de energia. Tentava disfarçar o quanto Sehun mexia com ele de um jeito estranho demais.


“Você está contando vitória antes da hora, Jongin. Isso não é algo bom”, o mais novo pronunciou. “Expectativa demais nunca faz bem”, murmurou. E o moreno, perdido em sua agitação interior com os olhares de Sehun, não percebeu o apertar dos dedos longos do amigo contra a grama e o pesar em seu rosto.




Quando Sehun passou pela entrada daquela danceteria, poucas pessoas tinham ocupado os lugares nos sofás de canto. Estava meio perdido, procurando coragem, repassando milhares de respostas mentalmente. As músicas pareciam ser mais calmas naquele momento, assim poderia pensar direito. Sentou-se no lugar mais próximo do bar.


Apenas um homem alto e magro, com cabelos avermelhados, estava preparando drinks atrás do balcão. As luzes coloridas do ambiente refletindo nos espelhos e prateleiras de bebidas. O loiro permaneceu ali, sem saber quanto tempo havia se passado, perdido em pensamentos. Só se dando conta do quanto o volume das músicas tinha aumentado consideravelmente.


Foi durante o início de uma música mais lenta que Sehun percebeu Jongin ali. Ou melhor, Kai. Ele estava do lado do homem alto demais e movia as mãos habilidosas, fazendo uns truques com as garrafas de bebidas, enquanto preparava um drink azulado. Os cabelos negros estavam penteados para trás, o rosto mais amadurecido, o corpo bem desenvolvido. Não tinha se passado tanto tempo assim, mas Kai tinha mudado muito fisicamente. Entretanto, o sorriso torto e travesso que ele tinha nos lábios era o mesmo. Mais sedutor do que ele se lembrava.


Sehun tentou se levantar duas vezes do lugar que estava, as pernas um pouco bambas, as mãos suadas. Apenas na terceira vez é que sentiu confiança o suficiente para terminar um assunto pendente por sete anos. Passou as mãos pelos cabelos descoloridos e ajeitou a jaqueta de couro nos ombros, os olhos atentos ao moreno no bar.


Caminhou devagar, sentindo as pernas pesadas. Esbarrou os ombros em algumas pessoas que dançavam por ali, as batidas da música ecoando nos ouvidos, deixando-o meio zonzo sem ter colocado uma gota de álcool na boca. Quando chegou próximo o suficiente do balcão, apoiou a mão sobre a superfície de madeira. Não sabia ser era o volume da música que estava fazendo tudo tremer tão forte, ou se era o próprio corpo perdendo o controle, o coração disparado. Ficou ali parado, sem abrir a boca. Observando o moreno mais de perto por alguns segundos.


Jongin entregou o drink para uma garota de cabelos compridos, e olhou para o loiro rapidamente, conferindo de quem seria o próximo pedido. Sehun notou quando o semblante do moreno mudou, e os olhos ficaram vidrados, olhando para frente. Ou para o mais longe possível de onde Sehun estava.


“Jongin”, proferiu. Ainda que todo o barulho ao redor fosse o suficiente para abafar a voz do loiro, o mais velho encarou os olhos do mesmo. O semblante sério do moreno causando arrepios em Sehun.


Com a sensação de estar submerso, o mais alto observou todos os movimentos do outro em câmera lenta, o mais absoluto silêncio. Os dedos longos de Jongin se enroscando no tecido preto da camisa ao arremangar, a língua rosada molhando os lábios cheios, os olhos vazios fixos aos dele e a luzes refletidas no rosto indiferente. Apoiou as duas mãos grandes no balcão, o corpo um pouco curvado sobre o mesmo. A voz grave ecoando na mente de Sehun.


“Não tenho nada para falar com você”.




“Ele é um grande filho da puta”, Kai esfregou o pano molhado sobre a superfície do balcão.


“Bonito também”, Chanyeol comentou. O moreno fez careta, antes de jogar o pano com força dentro da pia, espalhando água com sabão para todos os lados.


“Como ele me achou aqui?”, resmungou, secando as mãos de qualquer jeito na calça, puxando o isqueiro e o maço de cigarros. “Não! A pergunta real é: como tive tanto autocontrole? Juro que eu quase pulei o balcão para poder apertar aquele pescoço com muita força até quebrar”, sorriu maldoso, apertando os objetos entre as mãos.


“Acho que está na hora de vocês se acertarem. Já faz muito tempo”, o mais alto comentou. “Faz bem para o coração, para a mente”.


“Não me venha com esse papo furado de conselheiro barato”, Kai acendeu o cigarro, finalmente tragando-o. “Afinal, não foi você que teve a oportunidade de mudar tudo para sempre esmagada”.


“Blá, blá, blá”, Park debochou. Há quanto tempo ouvia aquilo mesmo? Havia perdido as contas. “Jongin, você já percebeu que ainda tem uma longa vida pela frente e que ela não parou aos dezessete?”


“Não quero discutir com você, de novo, Chanyeol”, murmurou entredentes. “Você não sabe de nada”.


“Eu sei até demais. No fim das contas, sou o único que te atura bêbado, chorando as mágoas feito um garotinho”, o mais alto encarou o moreno. “Enquanto deixar essa sombra do Oh cobrir o seu caminho, você não vai sair daqui. O problema deixou de ser ele há muito tempo”.


“Cala a boca”, Kai grunhiu, caminhou para longe do bar, os pés batendo fortes contra o chão, a fumaça do cigarro deixando um rastro para trás. Ao ver o moreno passar pela porta dos funcionários, o grandalhão balançou a cabeça.


“Foge porque sabe que estou certo”, estalou a língua, olhando para as próprias mãos molhadas. O folgado ainda tinha deixado ele ficar com toda a bagunça para limpar.




“O que você achou?”, Jongin perguntou, deitado no chão. A respiração acelerada, mal conseguindo raciocinar direito. Aquela era a décima vez do dia.


O silêncio na sala de dança fez com que ele levantasse a cabeça, olhando por sobre os tênis para Sehun. O mais novo estava no canto oposto do cômodo, encarando o amigo. Era incrível como Jongin conseguia melhorar seus movimentos a cada ano. Como aquela paixão toda dele nunca mudara desde as primeiras conversas que tiveram, quando se conheceram. Aquilo apenas aumentava mais e mais.


“Wow!”, Sehun exclamou. “Onde você viu isso?”


“Eu mesmo fiz. Tenho uns movimentos para ajeitar, mas essa vai ser a coreografia final”, sorriu, a mão esquerda limpando o suor da testa. Jongin girou no chão, rolando e rolando, até alcançar o punhado de papéis que estava ao lado da mochila dele. Sehun segurou o riso pelo jeito bobo do moreno, e se levantou. Caminhou para perto de Jongin, o mesmo rabiscando algumas folhas de sulfite.


“O que você achou da minha coreografia?”, apoiou os joelhos no chão de madeira. Observou os bonequinhos tortos que Jongin desenhava com uma caneta preta. ‘Deep Breath + Overdose’ no topo da folha com a caligrafia do amigo.


“Eu gostei”, o mais velho o encarou. “A parte de se molhar... Acho que isso pode atrapalhar um pouco, mas ficou bonito”.


“E se eu não passar, e se... Você passar e eu ficar aqui?”, Sehun sentou sobre as panturrilhas, as sobrancelhas franzidas. Ele realmente não queria ficar naquela cidade pequena para o resto da vida. Não sem o amigo.


Jongin deixou a caneta repousar sobre o papel, e se levantou. Sentou-se de frente para o outro, e empurrou o ombro do mais novo. Sehun o encarou com um bico nos lábios. O moreno o empurrou mais uma, duas, três vezes. Na quarta vez, Sehun revidou, rindo baixinho. Ficaram assim por um tempo, até se embolarem no chão, numa luta sem sentido, rindo da infantilidade de ambos.


“A gente tá velho demais pra fazer esse tipo de coisa”, Sehun finalmente desistiu, um sorriso no rosto. Os dois garotos deitaram, um ao lado do outro, olhando para o teto branco da sala de dança do colégio.


“Você vai passar, okay? Não sei o que fazer pra mudar essa sua falta de confiança, Hun”, Jongin se virou, encarando o amigo de perfil, este perdido em pensamentos. Suspirou olhando o suor escorrendo pelo pescoço pálido do mais novo. De modo automático, estendeu a mão, esfregando a palma fria contra a pele quente de Sehun.


O mais novo olhou para o mais velho, a mão de Jongin ainda tocando a pele úmida, os dedos pressionados ali. Os olhos do moreno estavam tão brilhantes, tão vivos, o encarando. Tão rápido quanto um piscar de olhos, Sehun viu o rosto do amigo tão de perto, apenas percebendo que os lábios dos dois se tocavam quando Jongin puxou a respiração forte, ansioso. A boca carnuda esfregou-se contra a pequena, mal sabendo o que fazer. O lamber e estalar dos lábios molhados fez com que o moreno despertasse, e se afastasse do menor. Sehun ainda permanecia de olhos abertos, processando a situação toda. As bochechas quentes, a mão esquerda apertando o tecido da camiseta larga que usava.


“E-eu vou mais... Mais cedo...”, Jongin se levantou apressado, o rosto em chamas, a boca mais ainda. As mãos tremiam quando puxou a mochila do canto onde estava. Sehun mal teve tempo de falar, e o mais velho já fechava a porta da sala. Os olhos arregalados o encararam pela pequena janela uma última vez antes de desaparecer. O som dos passos apressados cessando aos poucos.


A respiração saiu quente e pesada dos pulmões do menor, o corpo relaxou no chão, os olhos apertados. Sem forças, mas com o coração batendo forte, a primeira coisa que Sehun viu, quando abriu os olhos novamente, foram os papeis com desenhos espalhados pelo chão de madeira.


“Jongin”, sussurrou. “Me desculpa”.




Kai girava as chaves de seu apartamento no indicador, quando abriu a porta dos fundos da Dandelion. Estava cansado, com sono, e muita dor nos braços. Os olhos ardiam pelas luzes estroboscópicas e fumaças de efeito que, horas atrás, ocuparam aquele espaço. O cheiro doce ainda estava colado em seu cabelo.


“Merda de lugar”.


O moreno estava tão distraído, resmungando enquanto andava apressado para chegar até o velho edifício onde morava, que mal percebeu o homem loiro que estava encostado contra a parede da bilheteria. Quinze passos depois, quando olhou de relance para a calçada, se deu conta da segunda sombra que fazia ali.


“Essa é a última tentativa que eu estou fazendo, Jongin”, Sehun proferiu, a voz rouca por estar há tanto tempo sem falar, quando percebeu os ombros rígidos do mais velho.


“Perfeito”, respondeu, porém, continuou a caminhar. “Agora já pode me deixar em paz”, os punhos fechados dentro dos bolsos da jaqueta de couro. Aquela era a quarta vez que o loiro tentava falar com ele. A segunda do dia. Agradeceu, mentalmente, que o final de semana tinha acabado, e ele não precisaria ver Sehun o encarando dos sofás de canto da danceteria. Estava alcançando a esquina quando sentiu a mão firme do mais novo lhe apertar o braço esquerdo. Os passos de ambos cessando.


“Por favor, Jongin”, a voz soando em tom de imploração. Sehun puxou o braço do mais velho, fazendo-o virar em sua direção.


Os olhos dos dois se encontraram, e a sensação de estranheza era gritante para ambos. Fazia tanto tempo que não ficavam tão próximos desse jeito. Tanto tempo que, agora, era Jongin quem tinha de erguer o olhar para ver o rosto de Sehun.


“Queria te pedir desculpa”, o mais novo pronunciou, o olhar perdido nos pés. Estava com vergonha. Muita vergonha de toda aquela situação. O ronco do riso forçado do moreno ecoou na rua deserta.


“Corta essa”, o tom de voz ácido. “Você teve muito tempo para fazer isso, Sehun. Por que apareceu aqui depois de todo esse tempo? Está sem criatividade?”, Sehun franziu o cenho, os lábios apertados. “Já não sou tão ingênuo com você como eu era antes. Então, desista”.


“Eu sei que eu fiz merda, okay? Será que eu posso pelo menos tentar consertar isso?”


“Você não pode consertar sete anos da minha vida porque você foi um filho da puta inseguro e egoísta!”, Jongin cuspiu as palavras. “Eu confiei muito em você. Nós erámos amigos desde quando tínhamos nove anos! E você jogou tudo isso no lixo porque queria seguir o seu sonho, mas se esqueceu que eu também tinha um”.


“Aquela não era uma chamada única, você podia ter participado no ano seguinte!”


“Sua cara de pau me surpreende cada vez mais”, o moreno riu, quase desacreditado. “Está se ouvindo? Não é questão de ter sido um ano antes ou depois. Você me decepcionou muito”, Jongin mordeu os lábios, sentindo o nó na garganta começando a doer. Odiava parecer frágil na frente dos outros.


“Eu estava com medo”, o loiro sussurrou, a cabeça baixa.


“Isso não justifica nada, porra nenhuma!”, o mais velho apertou os punhos ainda mais forte dentro dos bolsos. Só agora percebendo que a mão de Sehun ainda permanecia em seu braço. “O que me impressiona é que teve tanto tempo para se arrepender. Treinamos juntos por mais duas semanas, depois que você pegou os papeis da minha coreografia. Você fingiu tão bem que estava seguro com a sua apresentação, mas pelas minhas costas estava treinando o que eu dançava, copiando tudo o que eu acrescentava!”, deu um passo para trás, se afastando do toque do outro. “Ainda tento encontrar sentido em tudo o que você fez, uma razão aceitável, mas fico com mais desgosto a cada tentativa”.


“Eu tive medo de ficar para trás. Você sabe o quanto eu queria sair daqui e ter uma vida melhor”, a voz do mais novo ainda era baixa. “Você seria chamado, eu ficaria aqui”.


“E por que eu tive que ficar? Por que, Sehun?”, Jongin encarou o maior. “Por que eu tive que ficar aqui? Nesse lugar onde a melhor coisa que posso fazer é trabalhar nesse buraco, e a única oportunidade que eu tenho de dançar é durante meus intervalos?”


O loiro se afastou, sentindo os olhos marejados. Apertou a mão contra o peito, sentindo a alça da mochila preta que tinha nas costas, só agora se lembrando do objeto.


“Não era bom o suficiente. Você só me convencia do contrário porque gostava de mim”, murmurou. Entretanto, o moreno ouviu.


“Não quero ouvir mais isso”, Jongin proferiu entredentes. A ideia de saber que a situação toda doía ainda mais porque ele gostava de Sehun na época era nauseante.


Respirou fundo, tentando se manter racional. De fato, por mais errados que os dois estivesses, ambos eram teimosos demais. Ainda assim, Sehun sabia que estava errado, mas não admitiria. Jongin sabia que ele não admitiria.


“Se o que você quer que eu faça é te desculpar, eu desculpo”, Jongin suspirou. "Da boca para fora, te desculpo. Se vai te fazer bem, e você vai me deixar em paz e nunca mais aparecer na minha frente, te desculpo para caralho”.


Sehun mordeu os lábios. Ele não queria isso. Era a coisa mais difícil de se pedir por parte do moreno, mas ele ainda se importava. Se importava tanto que ele estava ali. Um pouco tarde, mas estava. Porém, ele sabia que não tinha direito de exigir nada de Jongin.


“Você sumiu naquelas semanas... Quando eu me preparava para ir para a capital”, o tom de voz baixo, o nó na garganta corroendo por dentro. “Não queria me explicar depois de tanto tempo”.


“Sehun, acho que você não me entendeu. Eu não te entendo agora. Muito menos teria compreendido anos atrás, e provavelmente teria te socado a cara”, Jongin, falou ácido. “Não que minhas mãos não estejam coçando agora para tal”.


“Não vai me perdoar nunca, não é mesmo?”.


“Sinceramente, não”, Jongin apertou o isqueiro dentro do bolso. Estava louco para fumar. Não sabia como estava mantendo a calma tão bem. “É só isso?”


O loiro balançou a cabeça negativamente. Puxou a alça do ombro direito, a mochila preta escorregando para a frente do corpo magro. O deslizar do zíper ecoou pela rua vazia. O céu sobre a cabeça dos dois estava num tom mais claro de azul, anunciando a manhã que estava por vir em menos de uma hora. Sehun puxou uma pasta grande e preta de dentro da mochila e estendeu para Jongin.


“O que é isso?”, Jongin segurou a pasta, abriu e olhou a primeira página. “Deep Breath + Overdose. Você está brincando com a minha cara?”, a voz saindo mais grave. Estendeu a pasta para o mais alto, agora com a mochila vazia nas costas.


“Se você não vai me desculpar, pelo menos fica com isso. Me promete que vai ficar com isso”.


“Não te prometo nada. Pega logo essa porcaria”, proferiu, olhando para os lados, procurando uma lixeira.


“Por favor, Jongin”, o tom de voz quase choroso. O moreno revirou os olhos, entediado com aquele papo sem fim. Colocou a pasta sob o braço, e olhou para o loiro.


“Só isso? Posso ir?”


“É só isso”, suspirou. Jongin mal ouviu as palavras e deu as costas a Sehun. Caminhou por alguns metros, até ouvir o mais novo o chamando outra vez. Apenas cessou os passos. “Um mês, Jongin”. O moreno o olhou por sobre os ombros, a sobrancelha erguida. Que diabos? Apenas recebeu o acenar do mais alto.


Esperava que aquela fosse a última vez que via Oh Sehun na vida.


Sehun esperava que aquela fosse a última despedida com Kim Jongin.




O episódio do beijo permaneceu no silêncio. Jongin ainda estava confuso com a própria atitude. Sehun não o questionou. Fizeram de conta que nada havia acontecido, ainda que aquele momento balançasse com os sentidos de ambos. Os dois sabiam que não podiam se distrair de toda aquela série de ensaios para a apresentação.


Que aquele assunto ficasse para quando os dois estivessem longe dali. Juntos, longe de tudo. Pelo menos, isso era o que se passava na mente de Jongin.


O mais velho olhou para Sehun através do espelho, enquanto bebia água. O menor estava sentado contra a parede oposta, abraçando os joelhos, pensativo. Só saiu do transe quando percebeu o reflexo do moreno.


“O que?”, Sehun questionou. Jongin tossiu fraco, enquanto rosqueava a tampa da garrafinha.


“Eu... Eu esqueci meus papeis aqui ontem. Você ficou com eles?”, Jongin, se virou, olhando para o amigo. “Desenhar os passos faz com que eu memorize melhor a coreografia”, tirou o boné da cabeça e bagunçou os cabelos úmidos de suor.


Sehun o encarou por um tempo. Mordeu os lábios, e esfregou o pescoço. Parecia que tinha um peso de vinte quilos nos ombros. Sentindo culpa antes mesmo de responder o moreno, engoliu o bolo que formava na garganta.


“Não. Nem trouxe minha mochila ontem. Onde ia colocar aquele monte de papel?”, respondeu, a voz baixa. “E eu estava bem distraído para perceber alguma coisa ao meu redor”.


“Droga! Será que jogaram no lixo?”, suspirou, virando de costas, ignorando a última frase de Sehun. “Vou ter de fazer tudo de novo... Pelo menos, acrescento umas novas ideias que tive ontem e não conclui”, sorriu.




Parecia piada do destino o despertador não ter tocado na hora programada porque a maldita pilha estava fraca demais. Jongin pulou assustado da cama, como se um balde de água fria tivesse caído sobre ele. Olhou para o despertador morto, apenas alguns minutos a mais do horário que ele havia olhado antes de pegar no sono. Apanhou o relógio de pulso aposentado, sem uma das pulseiras emborrachadas, que ficava na mesinha de cabeceira, e viu que estava uma hora atrasado. Maravilha.


O moreno se arrumou quase na velocidade da luz. Pegou a mochila com a roupa que usaria na apresentação e todos os documentos necessários, uma maçã da fruteira e colocou os tênis sem amarrar mesmo. Correu meio sem jeito pela calçada. O próximo ônibus passaria em cinco minutos, e ele nunca se atrasava. A tentativa de ter colocado o despertador para tocar uma hora mais cedo havia falhado. Agora ele estava com o horário real, se atrasasse por alguns minutos, estaria tudo perdido.




Jongin suspirou pesado e aliviado quando o ônibus parou no destino desejado. Ajeitou a mochila no ombro e desceu as escadas quase saltitante. A fila para a apresentação não era das grandes. A cidade era pequena, e os jovens dali pouco se interessavam por algum tipo de arte. Era isso que ele não conseguia fazer Sehun perceber, além daquela insegurança sem fim.


Ficou esperando na fila por alguns minutos, até finalmente entrar no pequeno edifício. Ainda restava meia hora. Precisava assinar a confirmação da apresentação, onde ele saberia qual seria a sala onde a chamada era feita, e ir para o banheiro para trocar as roupas.


“Nome?”, uma mulher de óculos, muito magra, perguntou. A prancheta na mão.


“Kim Jongin”, e entregou a identificação para a mulher. Observou ela virar duas páginas, o dedo passando pelos vários Kims da lista. Ela estendeu a caneta e ele assinou onde a mulher destacou com um X.


“Sala 204, segundo andar”, ajeitou os óculos. “Boa sorte”


O moreno assentiu, entretanto, antes que saísse de perto da mesa, olhou para a lista novamente, e pensou em Sehun.


“Hm... Meu amigo, Oh Sehun, está fazendo uma apresentação também. Você pode me informar qual a sala que ele está?”, a mulher o encarou. “Se isso não for contra as regras”, sorriu amarelo. Ela não respondeu, apenas folheou as listas, e apontou para o nome de Sehun. Sala 201, segundo andar.


Jongin assentiu outra vez, e caminhou em direção ao elevador. Havia tantas pessoas esperando do lado de fora, que ele desistiu rapidamente. Afinal de contas, era o segundo andar, subir dois lances de escadas não mataria ninguém.


Subiu as escadas de dois em dois degraus. Queria ver a apresentação de Sehun. Se as apresentações estavam seguindo a ordem de inscrição, Sehun já poderia até mesmo ter se apresentado. Andou mais rápido, e empurrou a porta. O corredor não era muito longo, havia duas grandes salas de cada lado. Caminhou calmamente, as músicas soavam baixinhas de onde ele estava. A primeira sala pela qual passou era onde ele se apresentaria.


“Sério? A última sala do corredor, Sehun?”, resmungou.


Uma música lenta vinha da sala 201, e Jongin apressou o passo. Sehun dançaria uma música exatamente assim. Olhou pela janela circular que tinha na porta de madeira, avistando o amigo sentado no centro da sala. Os jurados estavam sentados de frente para o menor. Dois homens, e uma mulher. Conversavam animados, até um rapaz no canto da sala, acenar para eles e Sehun.


Ele viu Sehun sentado na cadeira. Levemente inclinado, e algumas vozes soando altas das caixas de som. Por alguns segundos, Jongin ficou ali parado, olhando o corpo do amigo se mover de uma maneira muito conhecida. Ele sabia de onde era aquilo, mas automaticamente o cérebro tentou recusar a informação. Apenas quando Sehun caiu de joelhos no chão e gritou, que Jongin realmente despertou daquela cena.


Que ele, por favor, estivesse sonhando e acordasse agora mesmo.


Mas ele não acordou. 


E Sehun continuou a dançar, e ele ainda estava ali assistindo. O coração pesado numa mistura de raiva e decepção. Quando a música finalmente terminou, as palmas foram batidas, e o punho de Jongin se chocou forte contra a porta.


Sehun se virou assustado para trás, os olhos dobrando de tamanho quando viu o moreno pela pequena janela. Aquela era a última vez que ele vira o rosto de Jongin.




“E então?”, Chanyeol estava esparramado no sofá verde.


“Então o que?”, Jongin, esticou as pernas sobre a mesinha de centro da sala de estar, minúscula, daquele apartamento que dividia com o Park.


“Não se faça de idiota”, desligou a televisão, e apontou para a pasta que repousava no balcão da cozinha.


“Não é nada. Só está ali porque não coube na lixeira”.


Chanyeol jogou o controle na cara do moreno, e caminhou devagar até a pasta. Os dedos longos deslizaram pela superfície áspera e preta da capa.


“O que é que tem dentro?”, puxou-a do balcão e colocou sob o braço, retornando para o sofá velho.


“Deixa essa porcaria ali!”, Jongin jogou o controle na mesinha, o cenho franzido para o mais alto, sendo totalmente ignorado. Chanyeol esperou ele responder, em silêncio. “São só as páginas velhas que o Sehun devolveu... Agora que já não tem mais uso”, bufou. Apoiou o braço sobre os olhos, ouvindo o som dos papéis sendo folheados.


O silêncio na sala fez o corpo de Jongin relaxar. Sentia-se quase que entrando no mundo dos sonhos quando um barulho alto na mesinha o fez quase pular de susto. Park Chanyeol era um...


“Parece que as coisas estão voltando ao seu lugar”, o mais alto comentou, se levantando do sofá.


“Tá falando do que?”, se sentou finalmente, afinal não dava para dormir naquele lugar. Não com o maior ali. Chanyeol apontou para a pasta preta.


“De todas as vezes que você apenas colocou seu nome nas chamadas e nunca foi... Se você perder dessa vez, você é um babaca e eu saio dessa casa”, o homem de cabelos avermelhados, caminhou até a cozinha. “Você só tem um mês”, gritou.


Por que um mês? Mas o que estava acontecendo? Jongin se esticou até alcançar a pasta. Abriu a mesma e a primeira folha que encontrou era uma das muitas que ele desenhara há anos. Os desenhos estavam meio borrados e, ainda que parecessem lisas, as folhas um dia foram amassadas. Depois de muito folhear, apenas papeis em branco foram aparecendo.


“Do que é que você está falando, afinal?”, Jongin perguntou. Mas o mais alto o ignorou, enquanto fazia um sanduíche.


Jongin segurou o punhado de folhas em branco e as soltou até que um envelope travou entre duas delas. O moreno puxou o envelope e o abriu. Duas passagens estavam lá dentro. Jogou-o sofá, fazendo careta. Voltou a atenção para a pasta. ‘Baby, don’t cry’ estava escrito com a caligrafia de Sehun. Aquela letra feia era inconfundível. Virou a folha e viu os desenhos ali. Passou devagar por todas as figuras. Algumas lhe faziam lembrar dos ensaios de Sehun, e outras eram completamente novas. Era basicamente, uma versão melhorada da coreografia do loiro.


“Pelo menos ele melhorou muito”, Jongin comentou, até chegar ao final da pasta. Colado na capa, estava um panfleto anunciando uma nova chamada na capital. Era algo muito maior, e selecionaria mais participantes.


“Você entendeu, não é?”, Chanyeol se pronunciou, sentando novamente no sofá, um prato com sanduíche nas mãos.


“Não quero esmola dele”, Jongin retrucou, colocando a pasta no chão.


“Mas você é um perfeito idiota orgulhoso. Até quando você vai ficar longe de tudo aquilo que você quer fazer porque não conseguiu superar a traição dele? Ele te devolveu a coreografia, e está te mandando para uma chamada ainda maior. O que mais você quer?”, Chanyeol bufou. “Esquece o passado”.


Jongin se jogou no sofá novamente, abriu o envelope e encarou as passagens. Era para o próximo mês. Suspirou, e fechou os olhos tentando engolir todo o orgulho e ressentimento que havia dentro dele. Não podia esquecer tão rapidamente. Estava conformado demais em não sair dali. Aquela confiança inabalável de quando era adolescente estava enterrada há muito tempo.


“Park?”, pronunciou. Um dia, quem sabe, ele encontraria Sehun de novo, e os dois estariam melhores. Talvez conversariam como adultos. E fariam de conta que aqueles sete anos nas sombras não aconteceram. Assim como eles souberam fingir muito bem que um beijo, na sala de dança do colégio, nunca foi roubado.


“Hm”, o grandalhão respondeu. Talvez, por mais difícil que fosse admitir, Chanyeol estivesse certo desde o começo. Sobre ele ainda ter um longo caminho pela frente. Que ele ainda conseguia realizar tudo aquilo que planejou, ainda que muito pouco, desde pequeno. Aquilo que ele amava tanto.


“São duas passagens...”, encarou o maior, um sorriso nos lábios. Chanyeol o encarou, aqueles olhos grandes e inocentes demais para um homem da idade dele. Um sorriso gigante foi se espalhando pelo rosto do mais alto, aos poucos, ao processar a informação. "É só recomeçar, não é mesmo?", o amigo não respondeu, apenas levantou os braços para o alto, suspirando pesado. Finalmente ele havia compreendido.


Talvez as coisas tinham que ser assim mesmo. 


Nem muito cedo, nem muito tarde. Apenas tinham que acontecer em algum momento.


 END 


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Sei nem o que escrever nessas notas finais, que sequer existem nesse famigerado site.

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29 de Junho de 2018 às 01:58 0 Denunciar Insira 2
Fim

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Cold Cherry "awaken your sleepin' heart" — SHINee & EXO — A Kaisoo Trash

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