Âncora Seguir história

brokeen Maria Victoria

Em uma cidadezinha pacata chamada Belaventura no interior de Minas Gerais, haviam dois garotos ligados por um fatídico destino. Mal sabiam eles que uma terrível tragédia poderia conectá-los de uma maneira linda, mas que faria seus corações sangrarem.


Fanfiction Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#exo #kaisoo
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Capítulo Único

Seu coração batia forte contra as costelas, como se pudesse explodir a qualquer segundo. Os pulmões gritavam em desespero por não conseguirem ar o suficiente. Foi jogado abruptamente contra a grama quando tropeçou em um galho e continuou ali, com o coração retumbando e ensurdecendo o barulho das cigarras que haviam naquela mata.

Jongin suspirou fundo, a garganta queimava e os olhos ardiam. Suspirou outra vez, tentando acalmar os nervos, mas nada naquele momento poderia o acalmar. Levantou-se de uma vez e quase tropeçou enquanto corria, quando ouviu um barulho de passos agitados.

Não era nenhum animal, pois a região onde morava não possuía animais de grande porte. Ficou parado por alguns segundos, quando ao longe viu uma sombra no meio da claridade do fim da mata.

Uma pessoa correndo.

O garoto voltou a correr, pois não queria diminuir a distância entre ele e o seu pior pesadelo. Corria desgovernado, mas tinha o que iria fazer em mente, só não sabia que teria coragem o suficiente.

Os pés de Kyungsoo batiam forte contra o asfalto gasto, trazendo um impacto em seus tornozelos, mas não iria parar por isso, não iria parar por nada nesse mundo.

Olhou outra vez para trás, a paranoia da perseguição o seguindo, mas continuou indo em frente. Havia acabado de sair da mata, mas não era o suficiente para o ter despistado.

Não dava para fugir dele, não agora e nem nunca, pois o monstro que vivia em sua casa era insistente e maldoso. E não poderia deixá-lo vencer nessa vida onde todo caminho se torna doloroso.

Kyungsoo fechou os olhos, desejando que toda aquela dor desaparecesse, que todo o desespero fosse finalmente embora. E lembrou-se um dia que um sábio havia lhe dito que poderia transforar toda a tristeza em alegria. Mas então queixou-se para o bom homem, lhe afirmando que não poderia transformar a tristeza em algo que nunca viveu em seu coração algum dia.

O sábio sorriu para ele, mas o garoto não entendeu.

Não sabia se o sorriso era de pena ou de sigilo.

Preferiu não perguntar. Pois as melhores metáforas são aquelas que não entendemos.

Jongin viu o formato da ponte se aproximando e algo afundou em seu coração, só não soube definir se era alivio ou pânico.

Sentimentos tão opostos podem se tornar sinônimos quando o desespero passa a viver dentro dos corações.

Jongin segurou na barra da ponte e soltou todo o ar que havia prendido para conseguir o fôlego que fora usado em sua fuga. Apoiou a testa no metal gelado e sorriu. E então pensou, talvez aquela dorzinha que sempre viveu em seu ser poderia se tornar a razão do sorriso em seus lábios. Estava finalmente se livrando de todo aquele peso.

Peso no qual era compartilhando nos ombros de dois jovens.

Jovens que não se conheciam.

Mas que iria passar a tal.

Kyungsoo se apoiou nos joelhos, respirando fundo e tomando coragem o suficiente para olhar para o rio que se estendia abaixo da ponte. Sempre foi taxado como o covarde, e talvez não fosse mais assim fossem o chamar.

Agora que estava sendo mais corajoso que qualquer um poderia jamais ser.

Uma lágrima desceu pelos seus olhos e todos os sentimentos que estavam embalados em seu peito desceram juntos com ela. Aquela mistura terrível que machucava tanto a sua alma. E sorriu, sim, sorriu, pois finalmente estava se livrando dela.

Os jovens apoiaram os pés na barra da ponte, um em cada lado dela, o céu estrelado se estendendo sobre eles e iluminando as águas calmas e fundas do rio abaixo. Suspiraram juntos, soltando todo aquele ar que antes se esforçavam tanto para guardar e usar na corrida que decidia suas vidas.

Eles olharam para o céu, pois ele era a única certeza que tinham sobre a vida. Que, mesmo que não continuassem nela, ele ainda estaria lá. Sorriam sob essa certeza, sorrisos luminosos que poderiam ser usados como estrelas um dia, e assim eles esperavam que fosse.

Poderiam almas tão maltratadas pela vida, conseguirem enfim suas próprias luzes? Para então, iluminar o coração devastado de outros que estivessem passando pela mesma situação?

Torciam para que sim, pois sabiam, no fundo, que o alguém lá em cima iria os dar esse presente.

E então, pularam.

A água tocando os pés alheios e os engolindo no mesmo segundo, lavando toda a dor que um dia enfestou aqueles corações.

Cadê o menino que estava aqui?

O monstro venceu.

(...)

Era um dia qualquer, pelo menos para ele sim. Um dia como outro, daqueles que não adicionam e nem diminuem nada em sua vida. Talvez fosse um dia especial para muitas pessoas, ou um terrível para outras, mas para Kim Jongin e Do Kyungsoo, não.

Era um dia ruim. Talvez o pior deles? Talvez.

Mas o terror fazia parte de seus dias, então não havia nada que pudesse os pegar de surpresa, pois já tinham visto tudo que poderia acontecer.

Até aquele dia.

O garoto moreno levantou-se após amarrar o cadarço dos tênis surrados, nunca o tirava dos pés. Era o único presente que sua mãe pôde lhe dar sem antes ser arrancado pelo seu padrasto. E o garoto fazia questão de valorizá-lo.

Desceu a ladeira da rua em que vivia após sair do colégio, era um bairro calmo, coberto pela vegetação e com uma mata ao lado. Afastou alguns dos bichinhos que o acompanhavam enquanto descia a rua sinuosa. O lugar em que vivia era cheio de serras e morros, fácil identificar como interior de Minas Gerais, lugar bonito para viver, não para fugir.

E infelizmente, era o que o garoto mais fazia em sua vida.

Atravessou o cercado e abriu o portão de grade. A grama crescia no quintal, não que alguém já havia feito questão de podá-la antes, sempre foi assim, ninguém se incomodava em mudar alguma coisa.

Abriu a porta e o barulho de vidro se quebrando foi o que recepcionou o garoto. Jongin suspirou e fechou a porta com cautela, não queria avisar que havia chegado, aliás, se ninguém soubesse seria ainda melhor. Caminhou lentamente pela sala, nenhum barulho o incomodou até ouvir o som da porta batendo com força. O quarto de sua mãe.

Andou até a cozinha para pegar um copo d’água e a viu, estava agachada no chão enquanto recolhia com cautela os vidros de um copo quebrado. Jongin não pensou antes de se juntar à mulher mais velha e ajudá-la e, no ato, viu o sangue escorrendo da palma de sua mão pequena e calejada.

Fechou os olhos, se levantou e pegou um pano.

- Não precisa, não é tão fundo. – A mãe negou o ato do filho, se levantando com os cacos em mãos para jogá-los fora.

- Está sangrando.

- Está tudo bem. – Não sorria e nem olhava para o filho, não seria necessário para que Jongin entendesse que não havia verdade no que falava.

Mentiras sobre o bem-estar dela era o que mais ouvia, e de tanto contestar e não receber respostas, desistiu de perguntar.

Bater na mesma tecla não iria mudar a função dela, só iria desgastá-la.

(...)

Kyungsoo apertou a sacola em suas mãos, com as frutas que havia comprado para a casa. Era sempre ele quem comprava os mantimentos, pois sua mãe se mantinha ocupada demais como dona de casa para exercer a tarefa e seu padrasto era exigente demais para deixar faltar algum de seus luxos.

Afinal, ele que bancava tudo, não era?

A tarefa da mãe e do filho era fazer tudo o que o líder da casa pedia.

E Kyungsoo estava farto disso, mas não poderia abrir a boca pois ‘’falar demais” não era uma de suas funções. Sua função era ficar em silêncio e aguentar tudo calado.

Chutou algumas britas largadas por uma obra abandonada e virou a esquina, subindo o morro de sua casa. Rodeou a mureta e abriu o portão de madeira, logo em seguida abrindo a porta e se deparando com a imagem de seu padrasto largado no sofá gasto, vendo algum jogo de futebol. Sorria em satisfação, e Kyungsoo se perguntava em como até seu sorriso poderia ser tão nojento.

Deixou a sacola na mesa da cozinha e foi até o banheiro, ouvindo um barulho na porta ao lado, o quarto onde seu padrasto e mãe dormiam. Abriu a porta com cuidado e viu a silhueta de sua mãe, de costas sentada na cama, os ombros tremiam enquanto chorava baixinho.

- Mãe? – Andou cautelosamente até perto da mulher, observando o rosto vermelho dela.

- Oi, filho. – Fungou abruptamente e limpou o rosto com rapidez. – Já voltou do mercado? – O menino assentiu e se agachou a frente da mãe, para observá-la de perto.

O cabelo preto estava amarrado, os olhos estavam inchados e o rosto pálido, devastado. Aquele era o perfil da sua mãe que comumente via todos os dias e, infelizmente, não poderia fazer nada para afastar a tristeza dos olhos da mulher.

Tristeza que apunhalava seu coração e destruía em cacos sua alma.

- Ele fez algo? – A pergunta ficou no ar enquanto os olhos perdidos da mulher vagavam pelo quarto.

- Vá para fora, é melhor ficar em seu quarto. – Levantou-se, terminando de arrumar cama de casal.

- Fez ou não? – Ela suspirou, sem forças para continuar o diálogo e dar as respostas que gostaria de evitar.

- Pode pegar um copo d’água pra mim, por favor? – Tentou afastá-lo novamente, como um mecanismo de defesa, mesmo que estivesse protegendo o filho das verdades cruéis que guardava em seu interior.

Kyungsoo piscou algumas vezes, pensando no que poderia ter acontecido, e se retirou do quarto. Ainda era fim de tarde e a luz fraca do sol distante reluzia na janela da cozinha, trazendo a noite que rapidamente chegara. A luz avermelhada refletia no rosto do garoto, tornando seu perfil estranho, quase que doentio.

Talvez, aquele sempre fosse o seu verdadeiro perfil.

Foi até a geladeira e pegou a água, já ia levar o copo para sua mãe, quando viu o padrasto levantando do sofá, tirando o cinto enquanto ia para o banheiro.

Kyungsoo parou, como se tivesse sido congelado, e do nada o coração começou a retumbar contra o peito. O copo quase deslizou de sua mão, mas se deu conta do artefato novamente quando ouviu a voz de sua mãe, e continuou a segurar o copo com força.

- Obrigada. – Sorriu docemente quando pegou o copo das mãos gélidas, um sorriso cheio de feridas e medos escondidos. Iguais ao do filho.

- Mãe? – A mulher parou também, olhando para o chão, de repente suas mãos começaram a tremer.

- Hum? – Olhou para ele e fechou os olhos, caindo em um choque de realidade quando viu o marido saindo do banheiro e fechando a porta do quarto quando entrou.

- Que dia é hoje? – Os dedos da mulher tremiam tanto que a água começou a sair do copo, pingando pelo corredor.

- Kyungsoo, vá para a vizinha. – O menino arregalou os olhos, o coração doendo, uma dor contínua e familiar, pois sempre aparecia e vivia em seu coração.

- Vamos embora, por favor. – Clamou.

- Filho, vá. – Soltou as mãos frias que seguravam as pequenas e trêmulas da mulher.

- O que ele ainda está fazendo aqui? – O homem abriu a porta, ainda estava de roupas e Kyungsoo temia a hora em que não estivesse mais.

- Ele já está indo. – A mulher pronunciou rapidamente, entrando em um desespero interno e profundo.

- Não estou. – Sua mãe o olhou como se não o conhecesse, como se estivesse vendo uma miragem do fruto de sua imaginação, pois era melhor que fosse, assim as consequências não viriam para assombrar o seu filho.

- O que disse? – O homem terminou de tirar o cinto da calça, se aproximando de Kyungsoo. – O que deve fazer mesmo? O que eu lhe disse para fazer? – Murmurou lentamente, observando a reação de suas palavras.

- Eu não sou um cachorro seu, e nem a minha mãe. – O homem franziu o rosto, como se não entendesse as palavras ditas.

- Acho que não estou escutando bem, e pelo visto você também não. Saia daqui agora, ainda não é o seu momento.

- Meu momento? – O menino indagou, as mãos suavam e o corpo tremia internamente.

- Ações têm consequências, Kyungsoo. – O mais novo engoliu em seco, puxando a mãe para que ela ficasse atrás de si, transformando-o em um escudo.

- Você não vai mais abusar dela, não mais. – Murmurava as palavras como se cada uma delas rasgasse sua garganta, manchando tudo de sangue e embaçando seu pensamento.

Kyungsoo pegou o copo da mão da mulher e o segurou com força.

- Abusar? – O homem riu em deboche. – Esse é o trabalho dela, a função dela. Ela faz o que eu bem entender, entendeu moleque? – Apontou o dedo no rosto dele, afundando-o em sua bochecha. – Ela servirá para mim até que eu me satisfaça, pois é isso que ela deve fazer, e você deve ficar calado. – Bateu outra vez o dedo contra o rosto de Kyungsoo, mas dessa vez outra coisa foi em seu rosto, a palma dura do homem a sua frente.

O menino cambaleou para trás, e a mãe gritou assustada.

- Quer que eu mostre quem manda aqui? – O padrasto gritou. – Quer que eu o faça na sua frente? Quer que eu use ela na sua frente? – Os olhos do homem ferviam e o corpo de Kyungsoo pulsava, em uma mistura de sentimentos ardilosos que não poderiam ser descritos.

Queria matar aquele homem.

O mais velho puxou a mulher para ele, rasgando a roupa dela em seguida e Kyungsoo ficou parado, observando a cena em angústia, o que poderia fazer?

A mulher tampou a parte da frente de sua roupa, o rosto estava manchado em lágrimas, ela não gritava, apenas sofria em silêncio, e era exatamente aquilo que dilacerava o coração de Kyungsoo.

O menino segurou o copo com força e o estourou no rosto do homem. Sangue jorrou e Kyungsoo foi para o chão quando o homem o empurrou, o ódio apoderando aquela pessoa horrível. Tudo ficou vermelho, e o menino só foi se dar conta do que estava acontecendo quando sentiu a pele arder.

O mais velho estava batendo com a cinta em seu corpo.

E então, o Kyungsoo pensou, se fosse morrer ali mesmo, não se importava, contanto que sua mãe pudesse se livrar de toda aquela dor, seria válido.

- Kyungsoo, fuja! – A mulher gritava em desalento. – Fuja agora! Eu vou ficar bem, prometo!

Pensou no que deveria fazer em seguida, mas se deu conta de que não era páreo para o seu padrasto, que sempre usou de sua força para machucar os mais fracos.

A mãe continuou dizendo as mesmas coisas repetidamente, para que fizesse algum sentido para o menino e ele realmente acreditasse em suas palavras e fizesse o que estava lhe dizendo.

E então, o fez.

(...)

O cair da noite chegou para Jongin que estava na sala sentado no sofá, os dedos batucando incansavelmente em suas coxas. Estava inquieto e o motivo da inquietação tinha nome e sobrenome, e estes apenas em seres pronunciados, traziam um incomodo enorme para o garoto.

Fechou os olhos com força quando ouviu o barulho da porta de casa bater e passos lentos e bruscos virem do lado de fora. Jongin se levantou e andou até o pequeno corredor, onde haviam os dois quartos.

O seu e o de sua mãe.

A mulher olhava para fora pela janela de seu quarto e Jongin imaginou o que estava pensando. Se seria algo feliz e distante, ou simplesmente o que iria acontecer em seguida naquele dia?

Ouviu o estrondo da porta ao bater e logo escutou murmurinhos chegando perto de onde estava. Fechou os punhos e continuou parado, esperando o que estava por vir.

Estava cansado de testemunhar as mesmas cenas todos os dias, estava cansado de ser despedaçado inúmeras vezes por uma situação que não era capaz de controlar. Estava cansado de ver o seu bem mais precioso ser dilacerado aos poucos, lenta e violentamente, definhando como uma fruta esquecida na árvore sendo machucada por quem passava perto. Jongin estava cansado de sua vida e o que lhe provinha dela.

Lembrou-se do primeiro dia, quando chegou em casa e se deparou com aquela cena. Nunca mais iria se esquecer daquilo, e o padrasto que vivia na mesma casa também fazia questão de sempre o lembrar com memórias novas. Memórias das quais queria se livrar para sempre e nunca mais ter que se preocupar com elas nem com o que viria depois delas.

Entrou no quarto com cuidado, com medo de assustar a mãe avulsa, perdida nos pensamentos que havia enterrado em sua mente. Tocou o braço da mulher com cautela e ela se virou para ele, como se estivesse em um sonho e não reconhecesse quem estava ao seu lado.

Jongin observou a mão enfaixada da mulher quando esta segurou a mão dele que lhe tocava. Como imaginou, o corte foi mais fundo do que pensava, e teria que conviver com ele nos próximos dias se quisesse ter a mão curada.

- Mãe, podemos ir embora? – A mulher o observou por alguns segundos.

- Ir embora para onde? – Sorriu, abobalhada com as palavras sem fundamento do filho. Para onde iriam?

- Vamos ir embora disso. – Continuou olhando para a mulher, e ela não precisou de alguma referência para entender ao que o menino estava se referindo.

- Vá para o seu quarto, está escurecendo. – Ela parecia perdida no tempo.

- Já escureceu. – O sorriso terno da mãe desapareceu, como baque de tijolos caindo em suas costas.

- Vá para o quarto. – Tornou a pedir, com uma ansiedade estranha.

- Ele já chegou, vamos ir embora agora. – Ela soltou a mão do filho que lhe agarrava o pulso.

- Vai ficar tudo bem, só precisa ir. – Tocou no ombro do menino, o afastando levemente como proteção.

Jongin suspirou e se retirou do quarto. Não iria tolerar quando tudo começasse, não novamente. Já no corredor, abaixou o rosto quando o padrasto vinha em sua direção, e percebeu que o mais velho fez questão de esbarrar em seu ombro rudemente. Mesmo que estivesse caindo de bêbado, sem consciência nenhuma de suas ações, ainda possuía controle sobre elas.

Não possuía receio, mas total comando.

Jongin foi para a cozinha pois lembrou que o café havia acabado quando tinha chegado em casa e tomou a última xícara que sobrara. Colocou a água para ferver e esperou, como se a bebida fervendo fosse um cronômetro usado para saber que o tempo estava passando. Cruzou os braços e esperou com os olhos fechados, deixando a brisa leve da noite tocar sua nuca.

Abriu os olhos com o susto de algo se quebrando no quarto de sua mãe. Em poucos segundos a porta foi aberta e a mulher saiu de lá aos tropeços.

- O que aconteceu? – O moreno perguntou preocupado, a agonia já apossando o coração machucado diversas vezes.

- Eu esbarrei em um vaso e ele acabou caindo. – A mulher estava à procura da pá e a vassoura, mas Jongin a deteve.

- Não esbarrou, foi ele que jogou, não foi? – Os olhos da mais velha se fixaram no chão e ele teve certeza de que tinha razão. – Peça para que ele limpe.

- Não brinque com isso, Jongin. – O olhou severa, antes de se retirar para fazer o trabalho.

- Estou cansado de esperar. – A voz grave do homem foi pronunciada e ele apareceu no corredor, emanando álcool de suas vestes esfarrapadas. – O que está fazendo aqui? Não deveria estar no seu quarto? – O homem se aproximou de Jongin e a mulher tomou a frente do menino.

- Ele já está indo.

- É bom mesmo. – Falou grogue.

- Eu não vou. – Jongin pronunciou.

- O quê? – O padrasto voltou até ele e Jongin franziu o nariz.

- Não preciso ir, já que sei o que você vai fazer com a minha mãe.

- Ah, então quer o show ao vivo? – O mais velho sorriu e Jongin se segurou para não vomitar.

Não conseguiu prever as ações dele quando este tirou o cinto com rapidez e atacou sua mãe desprevenida. A mulher fechou os olhos quando recebeu a dor em sua perna, mas nenhum som saiu dela.

- O que está fazendo? Você está louco?! – Jongin gritou, mas de nada adiantou.

O homem continuou batendo na mulher, Jongin fechou os olhos em pânico e tentou detê-lo mas acabou recebendo o mesmo que sua mãe. Os braços arderam com a pancada e quando os abaixou por causa da ardência, recebeu a cintada no rosto.

Jongin grunhiu e caiu para trás, o corpo dolorido e a cabeça latejando.

- Jongin! – A mãe gritou, mas não era necessário o grito para saber o que estava passando por entre seus corpos e mentes.

Desespero, agonia e dor.

O coração do moreno estava sangrando, assim como seus braços e o rosto. O sangue jorrava causado pela dor e destruição, estava acabado, caído em pedaços e não estava pensando direito, tudo havia se transformado em uma perfeita anarquia.

A mãe ainda sofria em angústia por causa da preocupação e a dor que ardia por entre os membros machucados. O homem não foi parado, não até Jongin pegar a panela com água fervente e jogar nas costas alheias.

O padrasto gritou e a água jorrou. Jongin foi puxado pela mãe, os olhos estavam arregalados e encharcados pelas lágrimas, mas não era de alívio, era de medo. Beijou o rosto do menino mesmo com todo o alvoroço e rogou, por uma última vez.

- Jongin, corra.

Antes de se dar conta, os pés estavam o levando para longe.

(...)

Após retornar à consciência, Jongin teve medo de abrir os olhos e se dar conta do lugar onde estava. Mesmo que não pensasse muito sobre o assunto, tinha medo do que iria encontrar depois da morte, ou o que não iria encontrar.

Piscou lentamente e assim foi abrindo os olhos hesitante, e então, o lugar onde estava foi tomando forma. Ninguém nunca imaginou que o tão sonhado paraíso que todos mencionavam ao falar da morte fosse um quarto de hospital.

Jongin levantou o tronco suavemente para apoiá-lo no travesseiro atrás de si. Estava sozinho no quarto minúsculo e ao perceber a paisagem através do vidro da janela, se deu conta de que não estava em paraíso nenhum, que o lugar parecia mais com o seu pior pesadelo.

Fechou os olhos e suspirou em frustração. Afinal, o que havia feito por impulso não o livrara de todos os monstros. Na verdade, de nenhum monstro, pois tinha certeza que ao voltar em casa ainda encontraria com ele.

Travou as mãos em punho e tentou se levantar, mas foi detido quando a porta de madeira se abriu, revelando uma mulher vestida de branco e uma figura conhecida ao lado. O cabelo preto estava preso em um rabo de cavalo firme atrás da cabeça, e após um longo tempo, Jongin finalmente estava se sentindo aliviado por ter a figura familiar próximo de si.

A mulher o encarou surpresa, ao mesmo tempo que preocupada por causa do ocorrido. Foi até o filho e segurou nas mãos finas e longas, se certificando que elas estavam ali, saudáveis.

- Filho, está se sentindo bem? – O garoto assentiu, mesmo que em sua cabeça estivesse uma confusão de questões que sabia que teria que enfrentar após sair do local onde estava. – Eu tive tanto medo... – A frase ficou inacabada, enquanto a mãe observava o filho atentamente, tocando o rosto bonito com suavidade.

- Estou bem. – Certificou.

- É tão bom vê-lo bem. – Sorriu levemente e Jongin deixou com que os cantos de sua boca se erguessem em um sorriso terno.

- Você está bem? – O sorriso se desfez quando Jongin percebeu que uma das mãos de sua mãe continuava enfaixada, e se deu conta de que a mulher usava um suéter por causa dos machucados nos braços, além dos no resto do corpo.

Abaixou os olhos e suspirou lentamente, se esforçando para liberar a dor interna, mas ela não era simples para ir embora tão facilmente. Mesmo com todos os seus esforços, a dor continuava lá, intacta e o mais cruel possível.

- Ele ainda está lá? – Perguntou preocupado, imaginando que depois de tudo o seu padrasto ainda estivesse em casa.

A mulher negou lentamente, perdida em pensamentos avulsos.

- A polícia foi até a nossa casa depois do ocorrido, haviam encontrado você e... – Ela parou como se tivesse atingida por algo invisível. – Jongin, como... – Parou novamente, dessa vez era por medo.

Medo de receber a resposta do filho e se assustar com a mesma, pois no fundo, ela sabia o motivo, e se estivesse realmente certa, não poderia lidar com o martírio que a envolveria. Já que de certa forma se sentia culpada por não ter conseguido proteger seu filho e ter sido tão fraca por tanto tempo.

- Não precisa me dizer nada, você precisa se recuperar, certo? – Jongin não respondeu, estava quieto. – Já que acordou, podemos ir embora. Você está bem e só precisava descansar. – Ela se afastou para poder pegar as peças de roupas e entregar para o filho, em seguida saiu do quarto.

A mulher abriu a grade de casa, e então Jongin percebeu de imediato que a grama havia sido aparada. Não perguntou o motivo nem disse algo a mais do que havia percebido, apenas entrou em casa em silêncio.

O lugar não tinha mais o cheiro impregnado de bebida e o garoto respirou fundo, aliviado. Algo parecia extremamente diferente na áurea das duas pessoas e na do lugar, pois o medo não residia mais aquela casa, não enquanto o homem que a infernizara se mantivesse atrás das grades pelos crimes que havia cometido.

- Vou fazer café, você vai querer? – Jongin assentiu, antes de ir até o seu quarto.

O lugar simples parecia o mesmo de sempre, deitou-se na cama e fechou os olhos, deixando com que o alivio tão esperado o inundasse completamente e nunca mais saísse, como tanto esperava.

(...)

Nada de perguntas ou olhares indesejados o incomodou naquela manhã escolar. Algumas pessoas o olhavam com curiosidade, mas nada que não pudesse despistar. Afinal, ser encontrado na margem de um rio no começo da madrugada por pescadores não era algo comum a acontecer na pequena cidade.

A notícia de seu padrasto ainda não tinha se espalhado e nem o motivo de ter “caído” no rio também. Não o perguntaram sobre aquilo por mais estranho que fosse, e preferia que continuasse daquela forma. Não almejava voltar a se lembrar dos sentimentos ruins que o fizeram cometer o ato, pois não queria encarar aquilo como uma escolha a tomar.

O garoto sentiu as gotas gélidas tocar o seu rosto e olhou para cima, e imediatamente começou a chover. Começou a correr pela calçada, a mochila batendo contra as suas costas e a roupa encharcando enquanto tomava o caminho até sua casa.

Jongin abaixou-se para passar por uma fileira de árvores e escutou um barulho perto de onde estava. Se aproximou lentamente do beco entre as lojas comerciais onde geralmente pegava o atalho até sua casa e viu uma silhueta agachada no chão frio. Andou até lá, mesmo que a chuva batesse contra o seu corpo sem nenhuma gentileza.

- Não está com frio? É melhor ir para um lugar seco.

O menino levantou os olhos para Jongin, e este percebeu o quão grande eles eram e o quão desesperados estavam. O rosto estava vermelho e os pingos de chuva se misturavam com as lágrimas recém caídas na face singela.

O garoto levantou-se, revelando roupas de estudante, mas eram diferentes das de Jongin. O menino parecia fragilizado e Jongin pensou no que poderia fazer para mudar aquilo. Não o conhecia, mas para ele estar em um local como aquele, a situação não era boa.

- Podemos ir para algum lugar até a chuva passar. – Comentou. – Não vou conseguir chegar em casa seco se continuar indo. – O menino não disse nada, mas concordou com o que Jongin disse.

Viraram algumas esquinas e pararam em um ponto de ônibus coberto. Não havia ninguém e os garotos se aproximaram do local. Ficaram parados, um ao lado do outro, observando a água descer pela avenida.

O menino sentou-se em um dos bancos de ferro e Jongin fez o mesmo. Os bancos estavam molhados, mas não se importaram, pois as roupas também estavam no mesmo estado.

Jongin colocou a mochila no colo e pegou a sacola parda que fora guardada por sua mãe. Abriu a mesma e pegou um dos pães de queijo que ela havia deixado lá. Mordeu um pedaço e sorriu levemente. Adorava quando sua mãe cozinhava.

Observou de soslaio o menino ao seu lado e perguntou-se pelo o que ele estaria passando para parecer tão perdido daquela forma. Jongin já se sentiu perdido diversas vezes, então sabia como era, mas nunca havia observado alguém no mesmo estado e imaginou se era daquela forma que parecia em seu dia a dia.

- Quer? – Ergueu a sacola para o menino e este olhou para o que havia dentro e assentiu, pegando um dos pães de queijo. – Você mora por aqui? – Assentiu. – Por que não foi para casa? - O menino pensou, e Jongin imaginou se talvez não houvesse uma resposta para aquilo.

- Ir para a casa nem sempre é a solução. – Murmurou. Era a primeira vez que havia dito algo e o moreno levantou as sobrancelhas em surpresa. Talvez aquele menino tivesse a sua idade.

- Talvez possa ser a origem do problema. – Jongin completou e o menino ficou em silêncio, provavelmente por ter sido pego em cheio pelo que o outro disse.

Kyungsoo olhou para o pão de queijo em sua mão e mordeu um pedaço, olhando para longe e sorrindo. Era a primeira vez que sorria naquele dia e Jongin sentiu-se satisfeito. Ele se importava com a condição dos outros, mesmo que não os conhecesse, pois não era preciso a proximidade para entender as dificuldades alheias e se identificar, era preciso apenas o problema em comum.

- Posso saber o seu nome? – Soltou e o menino olhou para ele.

- Kyungsoo.

Os meninos atravessaram a rua juntos e em silêncio após a chuva ter cessado e as nuvens negras terem se afastado. O sol tomava o lugar do tempo nublado e os raios solares tocavam as peles expostas dos meninos, aquecendo o que antes estava frio.

Chegaram ao fim da rua e os dois pararam de respirar em conjunto, sem ao menos perceber o feito. Encaravam a ponte em sua frente e respiravam com dificuldade, como se houvesse uma barreira no lugar.

Jongin começou a andar novamente e Kyungsoo continuou ao seu lado. Os dois olhavam fixamente para o chão, como se algo estivesse os bloqueando de olhar para o rio ao redor.

- Sua casa está perto? – Jongin perguntou e Kyungsoo levantou para os olhos para ele, assustado por ouvir a voz enquanto estava distante dentro de seus pensamentos.

- Sim.

- Agora não há problema em voltar? – Kyungsoo pensou por alguns segundos e Jongin o observou, pensando no quão novo ele parecia mesmo que em seus olhos carregasse milhares de lembranças pesadas e doloridas, como uma pessoa velha.

- Acho que não. – Kyungsoo sorriu e Jongin pensou que talvez ele sorrisse facilmente, da mesma forma que poderia se machucar com facilidade.

- Tudo bem então. – Sorriu levemente para o menino à sua frente. – Até mais.

- Até mais, Jongin. – Acenou com o sorriso ainda nos lábios e se virou na direção oposta que Jongin seguiu.

E então, se separaram.

(...)

Quando os policiais foram até a casa de Jongin para conversarem com sua mãe, acabaram por perguntar como ele havia acabado na margem do rio naquela hora da noite.

Jongin engoliu em seco e pensou por alguns segundos, não iria falar o seu real propósito, pois não queria ser julgado e muito menos machucar com sua mãe com motivos que poderiam ser esquecidos com o passar do tempo. Então, mentiu.

- Eu estava andando pela mata e cheguei até o rio, então pensei em entrar na água, mas acabou que a correnteza me levou e eu acabei na margem.

- Por que iria querer entrar no rio naquela hora? E por que estava na mata tão tarde? – Jongin suspirou e encarou seus próprios dedos.

- Meu padrasto chegou em casa, bêbado. Ele agrediu minha mãe e eu, eu consegui fugir e atrasá-lo para que não pudesse nos machucar, e então eu acabei no rio.

- Entrou no rio para tentar fugir? – Jongin assentiu. – O motivo é plausível, então não vou mais incomodá-lo com perguntas em uma situação delicada como essa.

Jongin agradeceu mentalmente.

Despediu-se de sua mãe logo depois quando o policial fora embora, os avisando que o padrasto havia sido preso definitivamente para cumprir a pena pelos seus crimes. O dia no colégio foi normal como antes, mas sabia que logo logo não seria a mesma coisa, mas por hora, não iria querer se preocupar com aquilo, queria curtir o sossego que estava tendo depois de tanto tormento.

Quando passou pelo mesmo beco ao voltar para a casa, encontrou com Kyungsoo novamente, ele estava sentando no mesmo lugar de antes, abraçando os joelhos.

- O que está fazendo aqui de novo? – Jongin se aproximou dele e o garoto se assustou com o movimento, levantando os olhos rapidamente.

- Eu só... – Se perdeu nas palavras e desviou o olhar. Não sabia o que responder.

- É difícil? – Jongin sentou-se ao seu lado.

- O que seria difícil? – Jongin fez um gesto com dedo indicador, formando um círculo no ar, se referindo a tudo e Kyungsoo riu levemente. – Sim. – Murmurou.

- É mais fácil fugir do que enfrentar o que está te esperando. Talvez tudo melhore quando você criar coragem e enfrentar tudo de frente, mas... é muito provável que os machucados sejam fundos demais para cicatrizar facilmente, então... pode ser difícil esperar tudo se aliviar. – Kyungsoo ficou calado, pensando no que o outro havia dito.

- Eu me sinto sozinho. – Kyungsoo murmurou. – Como se todo o mundo tivesse ido embora, me deixando de lado.

- Sempre tem alguém que se importa.

- Mas e se essa pessoa também estiver como eu? – Kyungsoo olhou para Jongin. – Eu não posso ajudar a ninguém quando também preciso de ajuda. – Os olhos clementes faziam com que algo dentro do moreno despertasse, desejando do fundo de seu coração que aquele garoto ficasse bem.

- Alguém... – Jongin murmurou, como se tivesse perdido as palavras. – Alguém vai ajudar. – Kyungsoo sorriu levemente, talvez achando graça da bobeira que havia dito, ou simplesmente achando engraçado o fato de ter tanta razão.

- Você parece tão certo com suas palavras. – Divagou e Jongin ficou em silêncio.

- Experiências trazem fatos.

Kyungsoo olhou para ele e assentiu, e por um momento Jongin se sentiu a pessoa mais sábia do mundo. Não por saber muito, mas por aquele menino ter acreditado em suas palavras.

Estavam indo para casa no tempo frio. Não estava chovendo como antes, mas o vento gelado já era suficiente para fazerem os garotos tremerem. Kyungsoo tossiu e Jongin tomou a atenção para ele enquanto caminhavam. O lugar cheio de morros apenas dificultava a caminhada e trazia um ar ainda mais frio conforme ganhavam altura.

Jongin observou como Kyungsoo estava tremendo e imaginou se o menino estava doente, e se não estivesse, era melhor que prevenisse tal coisa.

Tirou o casaco que usava e colocou delicadamente em seus ombros, sem que o menino visse de antemão e se assustasse com o ato. Olhou curiosamente para Jongin, em dúvida, mas não estranhamento.

- Obrigado. – Murmurou acanhado enquanto apertava o tecido contra seus ombros pequenos, aquecendo-o.

Estando lado a lado era possível perceber claramente a diferença de altura entre os dois, chegava a ser adorável como ficavam um ao lado do outro. Jongin era alto e a pele bronzeada o tornava ainda mais bonito. Kyungsoo era mais claro e menor, de um jeito quase doentio, mas o modo como era singelo afastava todas as impressões ruins. Possuía um olhar lindo e cativante, algo que Jongin não havia deixado de notar.

Haviam muitas diferenças que os divergiam entre si, mas talvez, houvesse algo trivial que os juntassem, algo tão que importante que não poderia sequer ser compreendido.

(...)

O dia que começou não havia sido como os anteriores. Jongin almejava tanto a quietude que estava tendo que acabou a perdendo facilmente. Foi parado no corredor do colégio diversas vezes para responder perguntas inconvenientes e provocativas, mas tentava ao máximo se livrar delas, levando junto os olhares julgadores e curiosos que passavam por si.

A notícia da prisão de seu padrasto já tinha se espalhado pela cidade toda, e agora o nome de sua família estava passando de boca em boca, trazendo-lhe mal olhares ou palavras de pena que não precisaria ouvir, não mais.

Antes quando realmente precisava de ajuda, ninguém oferecia um ombro amigo ou se preocupava em perguntar se estava tudo bem. Não importa quando não se sabe de nada, certo? Como diz o ditado popular, é muito fácil julgar um livro pela capa.

Sorrisos não significam bem-estar, e quietude não significa não ter nada para falar ou dizer, a quietude também é usada para tentar acalmar os nervos e pensamentos ardilosos que passam por uma mente desgovernada.

E Jongin sabia na pele como era aquilo, mas quando realmente sentia, ninguém se importava. Agora que tudo havia melhorado, pessoas ignorantes vinham xeretar em um território limpo, procurando alguma pista para cutucar.

Saiu do colégio a passos firmes e impacientes, queria ir embora o mais rápido possível. Enquanto andava pelas ruas calmas e frescas do lugar, viu alguém ao longe, a pessoa não estava mais em um beco encolhida e cheia de dores guardadas em seu coração enquanto sofria em silêncio, aquela pessoa estava encostada no muro de uma loja, sorrindo para quem estava indo em sua direção.

Kyungsoo era aquela pessoa, e Jongin era quem estava indo.

Os dois estavam sentados no banco da praça ao lado, Jongin com a mochila no colo e Kyungsoo com uma bolsa pequena, como uma lancheira.

- Você está bem? – Kyungsoo indagou e Jongin se virou para ele surpreso.

Era sempre o moreno que perguntava, e agora ser o alvo da pergunta o fazia se sentir estranho. Como se agora fosse ele que precisasse da questão.

- Estou. – Murmurou, mais tentando lhe fazer acreditar nas próprias palavras do que responder Kyungsoo.

- Eu trouxe... isso. – Kyungsoo ergueu a lancheira em suas mãos para Jongin.

- Uma lancheira? – Kyungsoo riu fraco.

- O que tem dentro dela. – Abriu a lancheira e tirou de lá uma vasilha. – São bolinhos de chuva, minha mãe sempre faz para mim, então eu trouxe... – Pareceu acanhado enquanto Jongin o observava atentamente, enlevado.

- Para mim? – Kyungsoo sentiu as bochechas arderem e desviou o olhar, achando que estivesse louco por se sentir estranho. Jongin sorriu e pegou a vasilha das mãos de Kyungsoo, abrindo-a. Fechou os olhos quando o aroma dos bolinhos o infestou e sorriu ainda mais. – Obrigado.

- Pode comer. – Incentivou e o moreno pegou o bolinho polvilhado com canela e açúcar. Mordeu um pedaço e parou, olhando para a Kyungsoo. – O que foi? Não gostou? – Preocupou-se. – Eu não sabia que não gostava... – Jongin terminou de comer para falar.

- Está delicioso! – Kyungsoo riu, abobalhado.

Continuaram a comer enquanto conversavam assuntos aleatórios. Por fim, Jongin percebeu: Kyungsoo havia melhorado o seu dia completamente e sentia grato por aquilo.

Enquanto andavam até suas respectivas casas, Jongin fez um desvio e Kyungsoo logo percebeu, mas não quis comentar com o moreno pois queria continuar conversando com ele. Ambos gostavam da companhia que estavam tendo, e aquilo com certeza iria se repetir por mais dias.

Quando chegou no destino desejado, Jongin parou. Estavam em frente à mata e a conversa que estavam tendo se encerrou, ficando em silêncio.

- Por que viemos até aqui? – Kyungsoo finalmente perguntou sobre o motivo, pois já tinha percebido que estavam indo em outra direção.

- Eu só queria... vir. – Suspirou, como se estivesse liberando sentimentos que esperava nunca mais sentir em sua vida.

- Gosta do lugar? – Jongin sentiu a insegurança na voz do menino e interpretou como se ele estivesse com medo da mata.

- Sim, você tem medo daqui? Não tem nenhum animal ou algo do tipo.

- Eu sei que não tem. – Jongin sentiu a tristeza na voz do menino, mas quis afastar sua intuição pois não queria que a tristeza voltasse ao seu dia.

- É bonito lá dentro. – Kyungsoo assentiu e seguiu Jongin quando ele avançou mata adentro.

O lugar era cheio de plantas e árvores longas e antigas. O dia estava claro antes de entrarem no lugar, mas tudo ficou escuro por causa da altura das árvores e seus galhos longos que tampavam a claridade com as folhas.

- Eu gostava de vir aqui com a minha mãe. – Kyungsoo comentou, a voz mais baixa que o normal. – Eu sempre pegava flores para ela, mas ele as jogava fora depois.

- Ele? – Jongin temeu a resposta, mas a recebeu antes que pudesse sugerir outra coisa.

- Meu padrasto. – Jongin tremeu, mas tentou afastar a sensação ruim que dominou o seu peito e fora distraído por vários pés de flores que haviam juntos.

- São bonitas. – Comentou.

- São gardênias. – Kyungsoo se aproximou das belas flores brancas.

Jongin arrancou uma do chão, cheirando-a e fechando os olhos quando o aroma o infestou.

- O cheiro é bom. – Kyungsoo concordou enquanto observava o formato das pétalas da flor na mão de Jongin. – Você dava elas para a sua mãe? – Kyungsoo assentiu. – Agora é a sua vez de recebê-las. – Jongin ergueu a flor para Kyungsoo.

O menino ficou parado por alguns segundos, observando a flor em sua direção. Nunca havia ganhado uma flor de outra pessoa, de um menino... Piscou outra vez perplexo, e só foi se dar conta que estava paralisado quando foi acordado pelo riso de Jongin.

- É só uma flor, Kyungsoo.

- Sim... Obrigado. – Pegou a flor.

Jurava que suas bochechas estavam vermelhas, e não foram apenas a pele rosada delas que reagiram ao ato, Jongin também via o quão brilhantes os olhos do outro estavam e imediatamente sentiu seu coração se aquecer.

(...)

Depois dos encontros ocasionais depois do colégio, Jongin e Kyungsoo passaram a se ver todos os dias, compartilhando de momentos felizes únicos e conversas jogadas fora de uma forma saudável, fazendo-os esquecer dos problemas que os rondavam e entrarem em um mundo só deles.

Sem preocupações, sem dor, sem nada de ruim.

Mas teve um dia que Kyungsoo não estava esperando Jongin no lugar de sempre, este achou que o menor havia se atrasado ou algo do tipo e o esperou quase a tarde inteira, mas ele não apareceu.

Talvez houvesse tido algum imprevisto com Kyungsoo e ele simplesmente não pôde ir por estar ocupado ou algo do tipo, pois Kyungsoo também tinha uma vida e situações para lidar, pensou Jongin. Até pensou em ir para a casa do outro, perguntar o que estava havendo e se poderia ajudá-lo em algo, mas lembrou-se de última hora que não sabia onde Kyungsoo morava e infelizmente, não poderia ir atrás dele.

Jongin se forçou para afastar o mal pressentimento no peito que insistia em infestar o seu pensamento com suposições ruins, e resolveu finalmente voltar para a casa no mesmo caminho habitual, mas sem a companhia que sempre estava ao seu lado nos últimos dias.

No dia seguinte saiu do colégio aos tropeços, apressando-se o quanto podia para chegar no lugar desejado e achar quem tanto ansiava em ver. Já no começo da avenida Jongin sentiu uma batida do coração faltar quando enxergou a silhueta da pessoa ao longe.

Parou por um momento e recobrou sua consciência, o que estava acontecendo consigo? O que eram aquelas reações estranhas? O que eram aqueles dedos trêmulos e o coração disparado?

Meneou a cabeça negativamente, afastando pensamentos inúteis e focando na direção que iria seguir. E enquanto se aproximava, algo afundava em seu coração, um pensamento ruim, talvez. Mas era mais que aquilo, como se estivessem implantando sentimentos nele, acionando sensações que não sentia segundos atrás, e quanto mais se aproximava do garoto, mais aquilo intensificava.

E então de imediato, entendeu.

Kyungsoo estava aos pedaços.

E aquele era o motivo da aflição momentânea em seu coração, pois de alguma forma, estavam sentindo a mesma coisa.

- O que aconteceu? – Jongin perguntou assim que fechou a porta de casa atrás do menino.

Os soluços impediam que dissesse alguma resposta e Jongin esperou até que se acalmasse, mas parecia que aquilo não teria fim. O coração de Kyungsoo estava disparado, mas de um jeito ruim, desesperado.

- Você está bem? Aconteceu alguma coisa? – Kyungsoo tomou fôlego e suspirou com força, as lágrimas caindo como enxurradas.

Os olhos que brilhavam tanto antes haviam perdido o seu brilho e aquilo estava deixando Jongin em pânico, pois não sabia o que fazia para impedir. Queria abraçá-lo e dizer que estava tudo bem, mesmo que não fizesse a maior ideia da gravidade do problema. Queria confortar Kyungsoo, queria protegê-lo do mal que estava afligindo-o.

Jongin levou Kyungsoo até a cozinha, sentando-o em uma das cadeiras à sua frente.

- Tente se acalmar, tudo bem? – Kyungsoo assentiu, os soluços estavam cessando aos poucos.

Jongin pegou um copo d’água e levou-o para Kyungsoo, que recebeu de bom grado. Ficaram em silêncio por um tempo até que Kyungsoo estivesse em condições de lhe explicar o que havia ocorrido.

- Na minha casa vivem minha mãe, meu padrasto e eu... – Começou e Jongin esforçou-se para não se apreender, precisava escutar tudo primeiro sem antes assemelhar o ocorrido com a sua própria situação. – Eles não possuem um bom relacionamento, na verdade só minha mãe e eu nos damos bem. Meu padrasto sempre foi muito violento e eu não sou capaz de pará-lo... Hoje quando cheguei em casa ele estava... – Kyungsoo parou e uma onda de choro o pegou novamente.

Jongin tentou lutar contra as lágrimas que queriam o envolver, mas infelizmente não era forte o bastante para impedi-las. O que estava vendo era uma imagem sua de um passado não tão distante. Estava vendo seu próprio eu e seu desespero estampados em Kyungsoo, e aquilo deixava-o em pânico.

Pois em nenhum lugar do mundo queria que outra pessoa passasse pelo mesmo que passou, sofrer da mesma dor, entrar no mesmo clico de desespero por tempo o bastante para se acostumar o sentimento cruel.

Em um ato não pensado, Jongin se aproximou de Kyungsoo e o abraçou forte, sendo correspondido imediatamente. E algo brilhou, uma luz forte que infestava todo o local.

A luz de suas almas.

Quando se soltaram, Jongin finalmente viu. O brilho nos olhos de Kyungsoo estava voltando, aos poucos, mas ainda estava ali e o moreno sorriu. Não era o momento para sorrir, sabia daquilo, mas algo dentro deles fazia com que quisessem cometer tal ato. Pois além de todas as dores e todo o sofrimento, eles estavam juntos, como uma luz no fim do túnel.

- Obrigado. – Kyungsoo sussurrou baixo, desgastado por causa do sofrimento e infestado por sentimentos que nem ele mesmo conseguiria descrever.

Jongin sorriu como resposta.

- Quer... café? – O rapaz mais alto perguntou e Kyungsoo sorriu.

- Sim.

Após compartilharem uma xícara de café, Kyungsoo disse que estava pronto para ir embora, pois ainda tinha sua mãe e precisava consolá-la por causa do que tinha passado. Jongin concordou e o acompanhou até a porta, deixando com que ele fosse embora.

Minutos depois a mãe de Jongin chegou após chegar do trabalho, cumprimentando o filho com um selar na bochecha.

- Como foi o seu dia? – A mãe perguntou, colocando a bolsa na cadeira na mesa da cozinha e observando a pia ao seu lado.

- Normal.

- Hum... normal? – Voltou os olhos para ele, desconfiada. – Não aconteceu alguma coisa? Alguém veio aqui? – Jongin franziu o cenho.

- Como assim?

- Você parece meio desnorteado... e a pia tem duas xícaras. Você não tomou as duas, certo? – Jongin olhou para a mãe como se ela tivesse desvendado o segredo do século.

- Ah, eu trouxe um amigo. – A mãe sorriu para ele.

- Amigo? Não sabia que trazia amigos para cá.

- Eu não trago, mas ele... – Jongin parou.

- O que foi? – Jongin suspirou, não queria ter que dar explicações e muito menos contar sobre a vida de outras pessoas.

- Nada demais. – Meneou a cabeça negativamente e rumou até a porta da cozinha, mas parou quando a mãe o chamou novamente.

- Por que uma das xícaras ainda está cheia? – Jongin olhou confuso para ela e se aproximou da cozinha, vendo as duas xícaras vazias.

- Como assim?

- Ainda tem café em uma delas. – Jongin franziu o rosto, havia visto Kyungsoo tomando todo o café, não tinha nada na xícara quando colocou na pia.

- Mãe, você está precisando descansar. – Sorriu para ela antes de ir até o seu quarto.

(...)

Os garotos caminhavam em sincronia até a lateral da ponte. Faziam alguns dias desde que Kyungsoo fora para a casa de Jongin. A situação na casa do menor tinha se aliviado um pouco, mesmo que soubesse que a qualquer momento pudesse piorar. Mas aquele não era o momento para se preocupar, a única coisa que importava era fugir dos problemas.

Pois tinham jurado entre si que enquanto estivessem juntos, não iriam lembrar de nenhum problema que os fizessem mal. O momento que tinham juntos era para ser feliz, nada de tristezas.

O brilho nos olhos do garoto tinha voltado por completo e Jongin se sentia satisfeito. Tudo estava completo.

- Eu sempre estive aqui, desde que me entendo por gente. – Kyungsoo comentou sobre a cidade onde vivia. Belaventura poderia não ser a melhor cidade de todas, aliás, estava bem longe daquilo, mas a cidade era aconchegante e familiar, apesar dos defeitos tinha seus pontos positivos.

- Eu também, não há coisa melhor do que as ladeiras enormes e a falta de ar ao chegar no topo. – Kyungsoo riu.

- Não penso em me mudar daqui, apesar de tudo, não me imagino em outro lugar.

- Eu também não. – Jongin sorriu.

- Imagina viver em um lugar onde não tem pão de queijo. – Kyungsoo sorriu para Jongin. – Nem pensar.

- Ou em um lugar onde não tem Jongin. – Kyungsoo sussurrou, mais para si mesmo do que para Jongin escutar.

- O que disse? – O garoto olhou para ele, enevoado.

- Nada. – Sorriu singelamente e Jongin sentiu uma aquela batida do coração faltar. Sempre acontecia aquilo quando Kyungsoo sorria daquela forma.

Deveria procurar um médium? Ou um especialista em paixão?

Paixão?

Jongin ficou sério momentaneamente, pensando sobre as reações estranhas que seu corpo estava tendo ao ter Kyungsoo por perto. Nunca havia sentido tal coisa antes, mas também, nunca havia se apaixonado antes.

- Kyungsoo? – O menino o olhou, como aquelas crianças olhando para um adulto esperando-o contar sobre o maior segredo do mundo. Será que Kyungsoo estava esperando o mesmo vir de Jongin?

Mas Jongin não sabia o que falar, talvez só o chamou para que ele voltasse seu olhar para si, e então pudesse contemplar o rosto de Kyungsoo completamente, vendo como seus olhos grandes eram bonitos, como a franja lisa e escura descia sobre suas sobrancelhas, como as bochechas estavam róseas por casa do frio e como os lábios eram carnudos e avermelhados, formando um coração vez ou outra quando sorria.

Percebeu-se admirando Kyungsoo.

E o garoto percebeu o que Jongin estava fazendo, pois também estava fazendo o mesmo.

Sem perceber a movimentação, estavam se aproximando. Quando os rostos estavam a centímetros de distância, um vento forte passou por eles, tocando os rostos alheios e os lembrando do que estavam fazendo.

- Kyungsoo? – Jongin chamou novamente, como um sussurro enquanto admirava os lábios bonitos de Kyungsoo.

- Sim? – O garoto perguntou, envolto no mundo que haviam criado só para eles.

- Posso te beijar?

O menino assentiu, sentindo todas as suas células de seu corpo reagirem e explodirem quando os lábios se tocaram levemente. O mundo dos dois explodiu em luz, uma bela luz brilhante e reluzente.

A luz era o fio que os ligavam, trazendo todos os sentimentos que sentiam e juntando-os em um só, com apenas um significado.

Amor.

Quando Jongin abriu os olhos, percebeu que estava chorando. E após alguns segundos, entendeu o motivo.

Kyungsoo não estava mais lá.

(...)

Jongin levantou-se da cama, havia passado horas deitado, pensando em como sua mente havia brincado consigo de uma forma tão drástica e criativa. Passou dias daquela forma, exatos cinco dias afogando-se em seus próprios pensamentos. E novamente voltou a mesma questão que o atormentava todos os dias:

Como havia conseguido criar uma pessoa? E ainda se apaixonar por ela?

O quão narcisista era para conseguir chegar àquele ponto?

Fechou os olhos e se pegou imaginando a cena novamente, na ponte, enquanto beijava Kyungsoo. Lembrou-se de que sentia tudo a sua volta ruir, como se só apenas o momento dos dois existisse, como se apenas os lábios de Kyungsoo importassem, e então, tudo se partiu ao meio, como se tivesse sido arrancado.

E então, não havia mais nada. Tudo tinha ido embora.

Kyungsoo não havia voltado depois daquele dia, Jongin não havia conseguido achar a casa em que ele vivia e nem se esforçou para continuar a procurar. Afinal, como iria achar a casa de uma pessoa que havia inventado com sua própria mente?

Perguntou-se o quão tolo era e como havia chegado àquele ponto da loucura e como nunca havia percebido algo suspeito.

E então lembrou-se que um louco nunca saberá que é louco, pois a loucura é a sua mais plena lucidez.

Suspirou irritado e levantou-se da cama, não poderia passar sua vida inteira lamentando por alguém que nunca existiu. E mesmo que Kyungsoo realmente nunca tivesse sido uma pessoa de verdade, havia deixando um buraco enorme em Jongin.

Um buraco cheio de saudade e de sentimentos que talvez jamais poderia sentir com outro alguém. Pois mesmo que Kyungsoo fosse fruto da sua imaginação, ele ainda seria inesquecível.

Ouviu a campainha da casa tocar e lamentou-se por ter que sair de seu quarto e encarar a luz do sol que estava o esperando do lado de fora, que aliás, não via há dias. E quando abriu a porta, sentiu como se um trem tivesse passando por cima de seu corpo. Esmagando tudo e não deixando sobrar nada.

E de repente toda aquela sensação que sentiu quando pulou da ponte voltou para o seu interior, como se toda a cena estivesse realmente acontecendo, mas ele não estivesse lá. Sentiu a água banhar o seu corpo e o desespero de finalmente estar se afogando, sendo levado para outra dimensão.

Mas ele ainda estava acordado, na porta de sua casa, estático. Jongin piscou uma vez, e outra, mas a imagem que estava em sua frente não mudava ou desaparecia.

O menino a sua frente chorava, mas não de tristeza ou dor. Era de felicidade, pois o sorriso residia em sua face. E agora, Jongin finalmente teve toda a certeza.

Estava completamente louco.

Kyungsoo se aproximou e o abraçou firme, como se todo o seu mundo estivesse ali, sendo agarrado por ele. Jongin segurou a respiração e talvez cogitou a ideia de estar sonhando, mas não, não estava, pois o abraço que sentia apertar o seu peito era real e o garoto que tremia enquanto chorava também era real.

O que estava acontecendo consigo?

Jongin encarava Kyungsoo como se aquilo dependesse de sua vida, e achava que se ousasse desviar o olhar, ele iria desaparecer novamente.

- Me desculpe. – Foi o que disse, após entrar na casa e se sentarem na cama de Jongin para esclarecer as coisas, ou o que tinha para explicar.

- Você vai desaparecer de novo? – Jongin indagou, não queria deixar o tom rude, mas não pôde evitar depois de tudo que havia passando trancado em seu quarto, esperando os dias passarem lentamente.

- Não, não vou. – A voz saiu áspera, como se tivesse dificuldade em falar.

- Você é real? – Finalmente questionou, com a esperança de acabar de vez com toda a farsa que havia criado em sua mente.

- Sim, eu sou. – Kyungsoo não sorria mais, estava sério, focado. – Eu sou uma pessoa, como você. Tudo que você viu de mim antes foi real.

- Até você ter desaparecido na minha frente como fumaça? – Kyungsoo assentiu e Jongin riu, áspero. – Isso é algum tipo de brincadeira? Está jogando com a minha mente? – Kyungsoo negou, exasperado.

- Não, nada disso foi criado pela sua mente. – Suspirou. – Eu tenho algo para falar.

- É o esperado.

- Não fale dessa forma, por favor. – Jongin assentiu, tirando suas armaduras uma por uma enquanto Kyungsoo continuava a falar. – Eu... eu tentei me suicidar em uma noite, quando eu estava fugindo de meu padrasto. Eu reagi quando ele tentou abusar de minha mãe novamente e ele acabou revidando, então eu tive que fugir se quisesse ficar bem, eu não queria deixar minha mãe, mas não tive escolha. – Jongin franziu o rosto, parecia que Kyungsoo estava contando a sua própria história. – Eu pulei no rio perto daqui, tentei morrer afogado, mas fui resgatado horas depois, na margem do outro lado. Fiquei em coma por alguns dias, os dias que fiquei com você.

- Como assim? Como isso é possível? – Jongin não percebeu quando seus olhos se encheram de lágrimas, mas Kyungsoo viu isso claramente, e foi difícil continuar vendo-o tão fragilizado.

- Eu não sei... Eu lembro de tudo que passamos juntos, tudo. – Suspirou. – Mas de alguma forma eu também estava no hospital internado, em coma. É como... se eu tivesse separado o meu corpo e a minha alma.

- É divertido inventar coisas assim? – Kyungsoo bufou, estava começando a se desesperar.

- Eu sou real, Jongin! Eu juro! Eu acordei ontem no hospital, minha mãe estava lá comigo e ela me disse tudo o que aconteceu e me disse que tudo estava bem, que meu padrasto foi preso enquanto eu estava internado. E naquela vez que eu... que eu estava chorando e vim para a sua casa pela primeira vez, eu estava chorando porque havia lembrado do que o meu padrasto havia feito com a minha mãe, havia lembrado daquela noite.

- Eu passei por isso também. – Jongin murmurou. – É como se... tivéssemos passado pela mesma coisa. – Pensou por alguns minutos, mas não adiantava pensar quando nada fazia um sentindo lógico ou realístico.

- Eu sou real. – Proclamou novamente, como se houvesse necessidade em lhe afirmar aquilo. – E eu posso provar. – Kyungsoo levantou-se da cama rapidamente e se encaminhou para cozinha, procurando por algo que pudesse usar e quando o achou, voltou para o quarto. – Olhe. – Posicionou a faca no antebraço e começou a cortá-lo.

- O que está fazendo?! – Jongin pulou da cama, o detendo. Mas não conseguiu o impedir antes do garoto se machucar e o ferimento começar a sangrar.

- Viu? Eu sangro, eu respiro, eu estou vivo. – Sorriu para Jongin. – Eu sou real. – Desabou nos braços do outro no próximo segundo por causa da exaustão.

Jongin observava Kyungsoo dormindo em sua cama sentado ao lado dele. Ele estava lindo enquanto dormia. Parecia ainda mais angelical do que antes e continuou a pensar no que o garoto havia dito. Queria realmente acreditar nele, mas sua mente estava confusa.

Tudo fazia algum sentido, ao mesmo tempo que tinha medo que tudo que o outro houvesse dito fosse apenas sua própria mente lhe pregando peças. Mas queria acreditar que não era aquilo, que sua mente não era tão cruel a ponte de fazer aquilo consigo mesmo.

Foi despertado de seus devaneios quando ouviu a porta abrir e soube que sua mãe havia chegado. Correu até a sala e a puxou para o seu quarto imediatamente.

- O que foi menino? Mas o que... – Parou no meio da frase. – Jongin, o que esse garoto está fazendo dormindo na sua cama? – Jongin quase gritou por causa da euforia.

- Você consegue ver ele? Consegue mesmo? – A mulher o olhou desconfiada.

- Mas é claro que consigo. O que aconteceu para estar assim? – Jongin sorriu e negou abobalhado.

- Nada. – Abraçou a mãe com força, o coração batendo forte contra o seu peito.

- Agora pode me dizer quem é ele?

- Um amigo.

(...)

Já era noite quando Kyungsoo acordou. Parecia que todas as suas energias haviam se esgotado e o que havia dito fazia realmente sentido pois, se estava consciente todas as vezes que estava com Jongin, significava que de alguma forma gastava suas energias. E após ter acordado do hospital, era como se não tivesse repousado nada.

- Você está bem? – Jongin prontificou-se em perguntar.

- Estou. – Kyungsoo sentou na cama. – Eu dormi muito? – Jongin negou.

- Só algumas horas. – Kyungsoo riu.

- Já anoiteceu.

- Sim. – Olharam para a janela. – Tenho algo para te contar. – Kyungsoo voltou seu olhar para Jongin, atento ao que ele teria a dizer. – Eu... passei pelas mesmas coisas que você. O que tinha dito sobre o seu padrasto e sua mãe... Eu passei por algo igual. Meu pai agredia minha mãe, eu tentava apartar, mas nunca era o suficiente pois eu não era capaz de protegê-la, então, um dia eu explodi e o feri gravemente para poder salvar minha mãe. Mas acabou que ela pediu para que eu fugisse, pois eu não estaria a salvo se continuasse no mesmo lugar que ele, então eu fugi e pulei na ponte. Só existe um rio na nossa cidade, então... pulamos no mesmo lugar. – Sorriu triste.

- Acha que tudo isso têm um significado?

- Deve ter. – Kyungsoo limpou a lágrima sorrateira que havia descido pelo rosto de Jongin e a vontade que tinha era a de arrancar toda a dor que residia no coração do moreno. Tirar todo o sofrimento e nunca mais deixar com que nada o fizesse mal.

- Que dia isso aconteceu? – Jongin não pensou para responder, aquela data estava marcada em sua memória.

- Dia treze de janeiro. – Kyungsoo sentiu o coração doer.

- É a mesma data.

- É um dia antes do meu aniversário. – Kyungsoo sorriu triste.

- É um dia depois do meu.

Olharam para a janela, onde podiam visualizar o céu estrelado daquela noite, e diferente daquele dia fatídico quando tudo aconteceu, aquele dia era feliz e talvez até milagroso, pois estavam vivos e juntos.

Enquanto observavam aquela imensidão, viram uma estrela cadente cair. Voltaram o olhar um para o outro e sorriram. Jongin buscou a mão de Kyungsoo no meio das cobertas e entrelaçaram seus dedos, sendo aquecidos internamente.

- Fomos vítimas do destino, mas foi ele quem nos juntou. Talvez para que não nos separássemos e transformássemos toda a dor em alegria. – Jongin sorriu com as palavras do menor e não pensou duas vezes antes de juntar os seus lábios aos dele.

Sentia falta de algo que havia provado apenas uma vez, e tinha a certeza que teria outras oportunidades para provar de novo, assim como estava fazendo naquele momento. E mesmo que repetisse o ato milhões de vezes, nunca iria se cansar de senti-lo.

- Preciso que faça uma coisa. – Jongin falou para Kyungsoo, após se separarem.

- O que?

- Prometa para mim que nunca irá embora? – Kyungsoo sorriu terno e assentiu.

- Prometo.

Cruzaram os dedos mindinhos em uma promessa única, cheia de confidencialidade e sentimentos não descritos. E foi assim que dormiram juntos, com as mãos entrelaças no meio deles enquanto um estava virado de frente para o outro.

E então os dois souberam e finalmente perceberam, estavam se amando. 

11 de Junho de 2018 às 00:35 0 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Maria Victoria Ol� caro visitante, sou apenas uma pseudo escritora que passa o tempo surtando por k-idols e sofrendo por animes, al�m de aclamar todos os livros da Cassandra Clare, sejam bem vindos ao cantinho das minhas hist�rias!

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