Aquele alguém Seguir história

sweet-mary Mary

Por mais azul que esteja o céu amanhã, nunca será tão azul quanto foi hoje. As ondas que quebram à beira-mar são cristalinas, mas também não são as mesmas de outrora. A água molha os pés do turista e na areia molhada aquela menina que vê o mar pela primeira vez deixa suas pegadas ali, ainda que não permaneçam e outros pés por ali passem, a experiência imortalizou o instante.


Histórias da vida Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#crush #nostalgia #conto #diversidade #inspiração #parque-de-diversões #diversão
Conto
2
4964 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Curitiba, 05 de janeiro de 2018

Amanhã será outro dia, a noite apagará as lembranças desta tarde de céu azul, calor e diversão. O amanhã está por vir, embora não saibamos o que nos reserva. Estou muito cansada e presumo que você também esteja, afinal, a adrenalina foi o cerne da aventura que com o apoio dos recursos tecnológicos foi registrada em fotografias, vídeos inesquecíveis e risadas, aquelas que ecoaram das profundezas na alma e espantaram qualquer indício de desânimo.

Não perguntei seu nome, nem você o meu, mas de vez em quando coincidia de estarmos no mesmo brinquedo, a exemplo de quando nos conhecemos lá na montanha-russa e o medo norteou a socialização.

Uma pontinha de medo todo corajoso sente, mas enfrentá-lo nos enche de satisfação e aquele monstro de sete cabeças e mil tentáculos se desvanece.

O carrinho ia subindo pelos trilhos, o caminho me era conhecido de outro parque, embora eu tenha te respondido que nunca estive numa montanha-russa. Tudo bem, eu menti. Não faz mais diferença agora, entretanto não me agrada a ideia de mentir. Uma meia verdade, talvez. O mais correto seria explicar que eu não frequentava um parque de diversões havia quase dez anos, o que seria brecha para engrenar uma conversa na qual pudesse perguntar seu nome, você o meu e trocar algumas informações, quem sabe até o contato do whatsapp mesmo que de crush de uma tarde você se tornasse apenas mais um contato que não interage comigo como tantos tantos, isso é, se eu não fosse tão tímida, se as palavras não me acanhassem.

Eu estava tão concentrada em viver aquele instante e só ele que me deixei guiar pelo frio na barriga, não disse nada e isso disse tudo. Os batimentos cardíacos alinhados em plena sintonia com aquele frio na barriga que nos fez gritar, exorcizar nossos temores, nossos gritos silenciados e entrar no clima de aventura. O percurso pode ter sido breve ao mesmo tempo em que foi eterno na dosagem certa para que eu não me esquecesse dele.

Um punhado de gentileza, simpatia e descontração. Um sorriso, um olhar de identificação. Espero que você tenha se divertido tanto quanto eu no dia de hoje, mesmo que acabemos por nos esquecer dos detalhes mais pequenos, o que é natural, certas coisas ficam guardadas porque não se repetem. Antes de sair de casa, enquanto me arrumava, essa frase que ouvi numa novela me invadiu de súbito.

Nessa vida os momentos jamais se repetem.

Por mais azul que esteja o céu amanhã, nunca será tão azul quanto foi hoje. As ondas que quebram à beira-mar são cristalinas, mas também não são as mesmas de outrora. A água molha os pés do turista e na areia molhada aquela menina que vê o mar pela primeira vez deixa suas pegadas ali, ainda que não permaneçam e outros pés por ali passem, a experiência imortalizou o instante.

Não, o que houve hoje não vai se repetir nem amanhã nem depois, nem que quiséssemos com todas as forças que sim.O tempo sempre tem tempo para acabar.

Amanhã outras pessoas levantarão os braços no embalo do Barco Viking que me fará lembrar de você, do seu sorriso e da animação que aquela breve viagem teve. Alto, baixo. Uhuuuuuu, gritou a multidão. Alto, baixo. Quanto mais alto melhor, a graça é essa.

Amanhã haverá uma fila de gente esperando para brincar no Crazy Dance, jurando não ter medo de montanha-russa, repetindo a fila para o carrinho bate-bate, puxando uma conversa amigável com o coleguinha ao lado para ter com quem partilhar aqueles instantes de animação, flertando com o Kamikase, na fila para o algodão-doce, se esbaldando com o sorvete, de mãos dadas sendo tão crianças quanto aquelas que ainda o são no tamanho e na pureza, registrando em suas câmeras algum amigo ou ente querido numa atração. Ou a si próprios. Ou registrando com os olhos do coração.

Amanhã em nosso lugar estarão a perambular naquele espaço outras pessoas de pulseira colorida no pulso esquerdo, outras histórias serão vividas, tudo será diferente do que foi hoje. Ainda assim desejo que a alegria em sua alma se conserve como a luz do sol aquece as folhas das árvores e é tão intensa no verão, a fim de nos guiar por essa estrada nova cheia de páginas em branco esperando para serem escritas com as nossas experiências e impressões de nossos mundos sobre esse mundo maior, os embustes e os deleites que ele nos reserva.

Janeiro é sempre janeiro, mas repare nos detalhes que nada é igual. Se porventura retornarmos ao parque, ainda que ele esteja no mesmo lugar, a experiência será diferente.

Não pretendo te procurar porque é certo que os contornos do seu rosto se apagarão com o passar dos dias, não faria o menor sentido porque nunca saberei seu nome, nem você o meu, as probabilidades de nos encontrarmos de novo são ínfimas e provavelmente eu fui alguém que você também vai se esquecer. Nem te culpo por isso, todo mundo tem uma história desse tipo para contar. Um rosto dentre tantos na multidão. E só. E o que ficou onde esteve. Às vezes na poltrona ao seu lado no ônibus talvez com um livro por entre as mãos, talvez não. Alguém que te despertou um olhar mais atento na fila do cinema ou que se sentou ao seu lado na montanha-russa.

Nunca se sabe quando esse alguém vem, mas é sempre alguém. Um alguém que sem pedir licença toma conta dos seus pensamentos. E dos meus. E de outros tantos corações que deixam aquele milésimo de eternidade cair no esquecimento e prosseguem. Como chegam também se vão, num estalo.

Bem ali naquele terreno onde a cada temporada brinquedos radicais são montados para animar o verão vai ficar o meu segredo, o ponto final daquela conversa imaginária que tive com você, os momentos em que nos vemos e sorrimos como se fôssemos amigas de longas datas.

Não sei onde você mora, quais são as suas expectativas para este ano que acabou de chegar, não sei de nada e jamais saberei, mas quero guardar na memória aquilo que nenhuma câmera de celular registrou, que dentro de mim se passou, uma vez que a duração não importa e sim a intensidade do que se vive.

Tudo o que sei é que quis muito ter uma oportunidade de conversar com você e já que não pude, me contentei em te observar porque enquanto estive lá e brinquei com outras pessoas, elas foram minhas conhecidas e sentada numa cadeira de plástico foi inevitável negar minha essência, a de olhar para cada um e imaginar o que se passava em seus corações, de onde vinham e para onde iriam, seus amores, suas descobertas, suas saudades, mas não possuo o dom de ler pensamentos.

Não poderia ser diferente com você.

Sua camiseta cinza e aquela aura de animação e coragem que pareciam inesgotáveis, o sorriso daquelas duas menininhas tão pequenas e tão valentes que remeteram à inocência e pureza que ainda se tem na idade delas, a sensação de que naquela tarde tive a idade do meu coração, fui criança e fui mulher, um híbrido das duas em mim e na poesia que não fiz porque não trouxe caderno, não trouxe nada comigo senão o dinheiro para o ingresso e o desejo de me divertir, saindo dali no final da tarde tocada por uma vontade inquietante de transformar esse dia em verso e de te fazer personagem de um conto que você certamente não lerá porque são raras as chances de nossos destinos se cruzarem morando numa cidade tão grande, isso se você realmente reside aqui (se não estiver de passagem) e também porque eu nem sequer saberei se você escreve, se gosta de ler tanto quanto de se aventurar, faz parte de olhar de longe, de prestar mais atenção numa pessoa do que nas outras, e eu não tenho a pretensão de que tal atitude tenha sido recíproca. Se foi, ótimo. Se não, nem posso te culpar. Você foi aquele alguém.

Aquele alguém.

Você foi alguém que fez uma participação especial na minha história e já se foi. Não doeu nem morri de coração partido. Isso só me fez pensar que o mundo é tão grande e mesmo tão imprevisível quanto perigoso, nos reserva esses pequenos presentes recheados de sensações que reativam nossa crença de que as pessoas mais ingressantes não se oferecem, simplesmente nos encontram e o resto... Esse alguém pode se sentar na montanha-russa comigo ou então cruzar meu caminho de outro jeito. O fato é que eu não saber quem é e como esse alguém virá é que acentua a graça e me recorda de quão bom é viver a chuva, o sol, o ciclo e o seu fim.

Posso recriar você de modo a te tornar imortal aqui, ao menos neste dia porque se você escrevesse e quisesse guardar a memória de alguém que te chamou a atenção mesmo sem tantas informações e nada além de boas intenções, também se poria a escrever como se o amanhã não fosse chegar, para amanhã de manhã a tudo apagar...

Por hoje, durma bem, menina da camiseta cinza. E tenha bons sonhos. Tenha uma boa vida e não se esqueça nunca que dentre os altos e baixos inevitáveis da existência, o frio na barriga sempre compensa. Aonde quer que esteja, qualquer que seja o seu nome e o seu endereço e o que faz o seu coração acelerar, até mais ver!

25 de Maio de 2018 às 02:59 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~