Três irmãos (e uma tragédia) Seguir história

ladysalieri Lady Salieri

A chuva que ressoa no meu quarto, neste momento, canta lembranças de muito tempo...


Conto Todo o público. © Essa história, sim, me pertence. Você tem toda permissão de publicá-la onde quiser, DESDE QUE me dê os devidos créditos. Cite: Lady Salieri.

#amizade #drama #Kierkegaard #3-porquinhos #Conto-de-fadas #filosofia #família #Três #irmãos
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Capítulo Único

Notas iniciais: Dessa vez trago uma original. Escrevi-a há um tempo, trata-se de uma releitura dos 3 porquinhos. Achei um exercício de escrita muito legal. Daí, pensando na história, misturei com as ideias de um filósofo que se chama Kierkegaard e é uma figura de que gosto muito. Virou esta história. É um texto que me agrada e do qual tenho orgulho. Espero que vocês também gostem.

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A chuva que ressoa no meu quarto, neste momento, canta lembranças de muito tempo... Agora já não tenho mais medo, senão uma profunda melancolia por toda a moral que a vida nos ensina na carne... E canta mais alto a chuva em minha cabeça, dando formas de gente a esse passado...

Lembro-me destes três irmãos, como três filosofias diferentes:

O mais novo, com toda a juventude pulsando nas veias, vivia por cores e se ria e chorava por amores. Nada tão importante como o prazer e o tédio, como a diversão e o enfado, seus céus e infernos em todos os níveis dantescos escritos. Ainda, depois de tanto tempo, a inveja arde meus olhos ao ver tudo isto, ao ver toda aquela luz que saía dos seus poros e brilhava na face de todos que o cercavam... Se era capaz de manter ou não essa luz acesa nas pessoas, bom, isso é música de outra chuva...

O irmão do meio, ao contrário do mais novo, era um estudioso, um humanista, sobretudo ligado às misérias humanas. Era um cético, claro, mas um cético sereno e bem-humorado, meu melhor amigo. Com ele passava tardes e tardes conversando sobre seu senso tão natural de realidade, através do qual sentia uma voracidade muscular manifestada em palavras quando ele dizia que a natureza jamais perdoava qualquer ação do homem, e que nós, produto dessa mesma natureza, deveríamos atuar da mesma forma.

E o mais velho, oposto a esses dois, era uma alma antiga cujo trabalho se voltou inteiramente para a obra de Deus, tornando-se seminarista. Andava de mãos dadas com sua religião, ao contrário do irmão caçula, e apresentava respostas em lugar de perguntas, ao contrario do irmão do meio. Com este não tive a chance de conversar muito, mas as poucas conversas que tivemos me marcaram muito pelo timbre de verdade e fé nos sons de suas palavras. Dizia-me constantemente sobre o quão desesperador poderia ser cair nos braços do Deus verdadeiro, mas que não deveríamos temer nunca; e que sentia muita pena do seu irmão do meio que até podia viver sem Deus, com seu iluminismo e entre seus filósofos, mas que seria muito doloroso morrer sem Ele.

Os três, por questões fáceis de inferir, viviam separados, ainda que na mesma vizinhança. Antes que o irmão mais velho entrasse para o seminário, tentaram viver juntos, longe dos pais, mas foi uma época difícil. O mais velho, inclusive, me dizia que eu era uma espécie de elo que os unia em certas ocasiões e que ele próprio se sentia muito culpado por permitir que o caminho deles se tornasse esse labirinto de percepções e pessoas. De todas as maneiras, por mais que gostasse de estar com os três ao mesmo tempo, não podia impedir que, a certas alturas, a discussão saudável se tornasse um tema áspero nas vozes críticas que apontavam neles mesmos todos os aspectos de suas necessidades reprimidas. Eu somente observava, notando esse triângulo de três lados diferentes soando em uma freqüência tão desarmônica... E não dizia nada -porque simplesmente não podia- tamanho fragmento era eu perto dessa figura emaranhada que, de longe, me parecia tão perfeita.

E o que seria isso tudo agora, se não chuva na minha cabeça?

Essa vida de muito tempo possuía um ritmo provinciano pachorrento, com a promessa de eternidade sendo mais um dia mais além... Nada parecia poder romper com aqueles trilhos que conduziam ao paraíso do qual falava o padre aos domingos de manhã. Nada parecia poder romper com as relações estropiadas das pessoas que se riam de tudo isso e depois voltavam para suas casas a contar histórias para suas famílias... Nada senão o próprio pai Deus e a própria mãe natureza que um dia amanheceram brigados um com o outro, escolhendo como cenário da luta essa pequena cidadezinha incrustada no nada dos meus pensamentos de agora.

Nesse dia os céus amanheceram cinza, carregados de chumbo, se preparando para a guerra que viria a qualquer hora. Lembro-me muito bem de que o seminarista saiu antes da missa, olhou o céu e em seguida me olhou com um semblante bastante preocupado, como se Deus lhe houvesse sussurrado um segredo. Acenei para ele e fui à sua direção. Depois dos cumprimentos de sempre, perguntei o motivo do seu semblante tão nublado quanto o céu que nos apresentava tão repentinamente. Ele me disse que o padre estava bastante preocupado, visto que há tempos, quando houve uma inundação séria no povoado, o céu tinha esse mesmo aspecto. No curto instante de nossa conversa passou por nós o irmão caçula, abraçado a uma senhorita, e nos cumprimentou, aproveitando para apresentar a nova namorada e também comentar do tempo que parecia tão louco e fora de questão. Nesse intervalo, como uma reunião organizada pelo destino, também apareceu o irmão do meio, com seus companheiros papéis e mapas, e advertiu que viria uma chuva muito forte e que todos deveriam ir para suas casas, ou para o lugar mais seguro que conheciam. Em seus papéis, tentou assinalar para nós quatro a proporção do temporal que viria e que seria muito grave para essa cidade. O irmão mais velho, por sua vez, sugeriu que no caso de o temporal vir com a gravidade tal e qual relatada, todos deveriam ir para a igreja, já que esta fora reformada há pouco tempo e apresentava estruturas sólidas, ademais de estar sob os olhos de Deus, e Deus não os iria abandonar.

Diante do caso, os dois irmãos riram e disseram, cada um à sua maneira, que se Deus quisesse a cidade salva, não mandaria um temporal somente para mostrar que poderia salvar a cidade. Seria a mesma coisa um sequestrador raptar uma pessoa só para depois levar o mérito por libertá-la, ao que o irmão seminarista respondeu que Deus tem razões muito mais além da nossa compreensão para fazer o que faz. O caçula, achando graça de tudo aquilo, simplesmente riu e disse que estavam todos fazendo tempestade em um copo d’água, saindo logo em seguida. O irmão do meio simplesmente disse que ia estar em sua casa até que esse fenômeno passasse. E o seminarista me olhou com tristeza, me disse que se eu pudesse meter um pouco de juízo na cabeça deles deveria fazê-lo, se despedindo e voltando para seu templo.

Permaneci ali, instantes, perdido entre tantos caminhos, que eram os mesmos que se enrolavam em minha cabeça, entre palavras de vários discursos. Foi exatamente quando senti as primeiras gotas de chuva que me acordaram desse enredo de estradas e retóricas e pessoas e me vi entre uma multidão correndo para não perder a hora da missa e para não estar nua debaixo daquela chuva que marchava a passos lentos e certeiros.


E na volta de um segundo para outro, eis que o temporal abriu a capa e se revelou de uma vez, implacável, com seus tambores em estrondos, anunciando sua chegada. Dentro da igreja, o som do órgão tentava lutar contra os tambores e as trombetas do vento que cada vez rugiam mais alto. E me lembro com muita intensidade do momento em que umas pessoas abriram a porta da igreja em um golpe brusco, para anunciar ao seminarista que seu irmão havia sido arrastado correnteza abaixo na rua principal que estava totalmente inundada. Foi um segundo depois do qual o relógio não quis avançar. Vi as feições do seminarista empalidecerem, vi seus olhos turvarem e vi todos na missa olharem para essas pessoas em câmera lenta, embalados pelo peso de um silêncio difícil. O seminarista, então, saiu correndo em direção a essas pessoas, como se elas fossem trazer o irmão de volta. Pediu-me que fora avisar o outro irmão sobre o acontecimento, pediu para que o trouxesse, mas ele próprio não saiu da igreja. Pediu que continuasse a missa, voltou para onde estava e se ajoelhou diante do sacrário.


Apesar de não compartilhar de sua atitude, não hesitei em tentar correr na direção da casa do meu amigo e contar-lhe tudo o que havia passado. Mas demorei muito em chegar devido às condições, tive que parar em muitos lugares, e não nego que o motivo nem sempre foi somente o tempo, meu susto e minha tristeza igualmente me obrigavam a fazer paradas para respirar e desanuviar a cabeça.


No entanto, nem havia acabado de formular a maneira com que ia contar a meu amigo sobre seu irmão, quando me deparo com sua casa, no alto de um morro ali decadente, destruída. Fiquei lá parado, sem conseguir ordenar as ideias, sem conseguir esboçar qualquer reação, com tantas emoções desencontradas sem que nenhuma conseguisse se sobressair.


E naquele momento chegaram os bombeiros, passando por mim sem que eu conseguisse sentir de fato o que estava acontecendo... O temporal se tornou mais forte, e, sem que eu percebesse, de alguma maneira milagrosa, cheguei à porta da igreja onde as pessoas seguiam reunidas, apesar de a missa haver acabado. O seminarista veio a meu encontro, com lágrimas nos olhos, como se já soubesse o que tinha passado, me tocou no ombro e me convidou a rezar com ele. Daria tudo para saber o que passava em sua cabeça para que pudesse, diante de tudo isso, manter a fé no seu Deus, fé que já não me parecia bonita nem tranquilizadora. Uma fé que custava a razão... Levantei-me e saí, fiquei no fundo da igreja brigando em pensamento com esse Deus em Quem meu amigo tanto confiava.


No final do dia, as divindades já haviam feito as pazes, o sol saiu fraco entre as nuvens que já se clareavam e, ao contrário da promessa de uma nova luz, o que iluminava era a realidade, assim, sem nada.


Não pude continuar vivendo ali, a tempestade havia levado metade da minha vida. Invadiu-me uma necessidade de começar tudo de novo, de ser outra pessoa em outro lugar. Saí sem olhar para trás ou para frente...


Soube muito tempo depois que a fé do meu amigo seminarista se tornou não mais que uma profunda tristeza, que acabou levando-o para a mesma promessa de caminho para onde foram seus dois irmãos. Diante disso, sim, não fiquei triste, nem poderia, que outro destino lhe caberia?


E a moral de tudo isso, como disse, ainda a sinto na carne, quando amanhece esses dias de vento e chuva que levantam as cinzas do passado e as misturam com tudo... isto.

12 de Maio de 2018 às 00:05 3 Denunciar Insira 2
Fim

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Lady Salieri Alguém que gosta de escrever mais do que de qualquer coisa na vida.

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Karimy Karimy
Entrei aqui no Inks de bobeira, mas meu not tá de sacanagem comigo já faz uns dias, então, brincando comigo mais uma vez, ele travou. Paciente, deixei pra lá e esperei, aí quando voltei a olhar a tela estava nessa história! kkkkkkkk Sério, parece coisa do destino, e deve ser, porque, poxa! Tem mesmo que se orgulhar desse conto. A voz do narrador é muito simples e intrínseca aotexto, coisa deliciosa de se ler, parece até a história sussurrada de um conhecido triste que encontrou o final de uma balada que não deu muito certo, sabe? Além disso, também acho impossível ler esse conto sem perceber a poesia aplicada às frases, em especial no comecinho e no final, onde a reflexão está mais "dentro" do narrador. Também gostei do jeito que desenvolveu o diálogo, me fez pensar no narrador não como um simples amigo dos três irmãos, diria mais que, talvez, o ser que estava entre eles, quase que um Espírito Santo, capaz de ver, ouvir, aconselhar bem baixinho, mas nunca interferir. Hehe, nem tenho mais o que falar!
28 de Agosto de 2018 às 20:48
HikariNoHime Writer HikariNoHime Writer
O conto dos três porquinhos sempre foi um dos meus preferidos. Ler essa releitura foi a melhor coisa que eu poderia ter feito nesse domingo de manhã. O jeito que você escreveu a história me lembrou muito o modo como os escritores clássicos narravam seus livros. Machado de Assis, Sir Arthur Conan Doyle, Graciliano Ramos, entre vários outros, são alguns dos que conheço. A escolha das palavras, as metáforas, a mensagem passada... Tudo, tudo se combinou perfeitamente para proporcionar uma experiência única. Eu não conhecia esse filósofo, vou dar uma olhada nele depois. Ademais, ninguém mais poderia ter escrito esse conto como você fez, e obrigada por compartilhá-lo conosco. Beijinhos de Chocolate 💖
13 de Maio de 2018 às 09:11

  • Lady Salieri Lady Salieri
    OI, sua pessoa lindamaravilhosa. Obrigada pela leitura. Preciso corrigir mil coisas, mas de todos os modos fico super hiper mega feliz que vc tenha vindo aqui ler e comentar minha história <3. Obrigada de verdade =). Um bjo grandão! Te adoro, sou sua fã e saber que vc curte o que eu escrevo aaaaaa 17 de Maio de 2018 às 18:45
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