Jogo de Risco Seguir história

kalinebogard Kaline Bogard

Kiba demora para voltar de uma tarde em Akihabara. E surpreende a todos agindo de um modo estranho. No dia seguinte, ele retorna para o bairro tecnológico e Shino resolve investigar. É quando ele descobre um mundo sinistro de apostas, onde o prêmio é algo mais valioso que a própria vida. * Naruto não me pertence. * Feita para o Desafio #UniversosTrocados do grupo no facebook. * Não foi betado, nem será * Era pra ser oneshot, mas dividi em duas partes (provavelmente não passará do próximo) * Atenção para os avisos


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

#drama #yaoi #violencia #slash #naruto #boyslove #angst #Shino #universoalternativo #tortura #kiba #linguagemimpropria #dor #shinokiba #Humilhação #Dorei-ku #Homssexualidade
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O preço mais alto

Inuzuka Kiba era um bom garoto. Na medida em que garotos de dezessete anos poderiam ser. Gostava de fazer bagunça na sala e matava aulas o bastante para que a escola ligasse uma vez por mês para Tsume cobrando uma postura melhor. Isso rendia ao garoto alguns tabefes na orelha, certo castigo e muito sermão. Apenas para tudo se repetir no mês seguinte.

Kiba adorava dormir durante as aulas de matemática e passava a manhã inteira beliscando a comida. Na hora do almoço acabava roubando metade do bento do namorado.

Por outro lado, sempre ouvia os sermões da mãe calado, nunca questionava as ordens dela. Participava com louvor do clube de Ping Pong e Corrida, como membro titular. Sua atuação rendia vários troféus para o colégio. Procurava um arubaito para começar a juntar dinheiro e ajudar a pagar a faculdade. Quando via a vizinha Chyo-san carregando sacolas de supermercado, parava o que estivesse fazendo para ajudar a velhinha com o peso.

Um adolescente normal. Com qualidades admiráveis e defeitos toleráveis.

Por isso, naquela quinta-feira, quando deu nove horas da noite e o filho não apareceu, Tsume se preocupou.

Kiba nunca chegou depois do toque de recolher. Muito menos ficou sem atender as ligações. Era totalmente atípico.

Resolveu ligar para Aburame Shino pedindo ajuda. Tinha uma intuição ruim.

---

Shino desligou o celular após falar com Tsume e discou os números do namorado. Ouviu o toque de chamada até cair na caixa postal.

Não era um bom sinal.

Kiba era viciado em celular. Em hipótese nenhuma desgrudava do aparelho. Quando tocava, atendia nos primeiros três segundos. Tinha todo tipo de jogo inútil instalado. Verificava as redes sociais a cada vinte minutos. Era irritante.

Sabia que Kiba havia ido até Akihabara, para uma tarde de jogos nos fliperamas. Shino dispensou o convite. Não gostava de lugares barulhentos, nem de muita gente aglomerada.

Tentou de novo. O resultado foi o mesmo.

A falta de contato com Kiba era preocupante.

Ignorou o toque de recolher e saiu de casa. Morava no mesmo bairro que seu namorado, se conheciam desde tenra idade. Pensou em ir até a estação do metrô e sondar por ali ou, ao menos fazer hora e arriscar-se a vê-lo chegar.

Naquele horário o rush já havia acabado. Shino chegou à estação onde poucas pessoas ainda trafegavam. Não teve tempo de entrar, viu que Kiba vinha caminhando pela rua, ainda um tanto longe, mas reconhecível.

Respirou fundo, aliviado. Empurrou os óculos escuros de volta para o alto do nariz. Aquele objeto chamava atenção, já estava acostumado.

Aguardou que Kiba o alcançasse, fato que demorou um bocado. Ele caminhava devagar, cambaleante. Shino notou que o garoto abraçava o próprio corpo, cabisbaixo. Estranhou a postura que remetia a derrota.

— Kiba… — começou quando o outro chegou perto o bastante. A frase morreu em seus lábios.

Viu claramente sangue seco no rosto trigueiro, pingado do nariz meio inchado, apesar de a cabeça baixa ser uma tímida tentativa de ocultar-se. O olho esquerdo estava escurecido, com certeza por causa de um golpe. Ainda que tentasse se proteger com os próprios braços, Shino viu parte da barra da blusa rasgada.

Surpresa roubou qualquer reação. Apenas assistiu Kiba aproximar-se, passar por ele e seguir em frente sem sequer lhe dispensar um olhar.

— Kiba! — chamou, num tom rouco. O coração bateu forte e pesado no peito — O que aconteceu? Onde você estava?

Silêncio. Ele não parou de andar, mantendo o passo ritmado e cambaleante. Shino teve uma epifania. Kiba parecia exausto.

— Você veio andando de Akiba até aqui?! — olhou na direção de onde Kiba veio. Akihabara ficava o quê? Seis ou sete quilômetros de distância? Naquele passo ele devia ter saído de lá por volta de seis horas, o que explicava o atraso para chegar em casa

— Kiba?

O menino já ia longe.

Sem opção, Shino o seguiu a passos largos. O alcançou em segundos.

— Kiba, quem te machucou assim?

Nada. Nem uma resposta. Nem um olhar.

Angústia apertou a garganta de Shino. Ele se sentiu perdido. Conformou-se em caminhar ao lado de Kiba, até que ele chegasse em casa. Tsume estava parada a porta, preocupada. Entreabriu os lábios ao reconhecer o casal, mas não disse nada, surpreendida pelo aspecto do filho caçula.

— Kiba — se preparou para cobrar respostas, mas até ela foi ignorada. Kiba passou direto, entrou na casa e sumiu de vistas — O que aconteceu, Shino?

— Não sei, Tsume-san. Encontrei com ele na estação. Acho que Kiba veio andando de Akiba até aqui. E alguém o machucou.

— Entra — Tsume chamou. Assim que fechou a porta, ambos foram para o quarto de Kiba. Ele se trancou ali sem nenhuma menção a um banho ou ao menos limpar o rosto ensanguentado. — Filho, venha falar comigo. Abre essa porta, Kiba!

Nada. Silêncio foi a resposta oferecida.

Shino e Tsume se entreolharam sem saber o que fazer.

— Kiba?! — o rapaz ainda insistiu — Vamos conversar. Ninguém está irritado com você, só estamos preocupados.

Ele disse uma verdade. Nem Tsume conseguiu ter a reação de sempre, vendo como o filho estava abalado. Machucado. Nunca imaginou que um dia o veria naquele estado!

— Passe a noite aqui — Tsume pediu para Shino — Amanhã justifico a ausência de vocês no colégio. Vou tentar falar com Hana. Kiba se abre bastante com ela.

Pensou na filha, que morava em Ginza, onde tinha uma clínica veterinária. Sua primogênita saiu de casa assim que conseguiu se formar na faculdade e abrir a própria loja. Era um orgulho para a família, que Tsume esperava servir de exemplo para o caçula.

— Tudo bem — Shino pegou o celular e se afastou, para informar ao pai que ficaria na casa do namorado. Não deu muitos detalhes, apenas explicou que Kiba já tinha voltado.

Tsume testou a maçaneta, sem conseguir abrir a porta. Então se inclinou devagar até encostar a testa na folha de madeira. Os olhos arderam um pouco. Era uma das mulheres mais fortes que existia, mas nenhuma mãe está preparada para ver o filho ferido. Alguma coisa ruim aconteceu para deixá-lo naquele estado. A ponto de tirar-lhe a vontade de falar! O que poderia ter afetado um garoto tão enérgico e tagarela quanto Inuzuka Kiba?

Muitas, muitas coisas. Todas elas ruins.

---

No fim das contas, nem Tsume nem Shino conseguiram dormir aquela noite. A mulher ficou vagando pela casa, volta e meia parando em frente ao quarto de Kiba, tentando escutar alguma coisa.

Shino passou boa parte da madrugada sentado no sofá, tentando entender a situação. Fez algumas buscas no celular, atrás de notícias que falassem sobre algum acontecimento em Akihabara, algo como briga de gangues ou qualquer coisa parecida. Não encontrou nada.

Também observou as redes sociais de Kiba, tudo seguia normal até por volta das quatro e meia da tarde. Depois disso as atualizações no Line, twitter e Facebook cessaram.

O que quer que tivesse acontecido, foi por volta desse horário. Com certeza!

Deu uma vasculhada nas postagens de amigos. Naruto e Shikamaru faziam várias ao dia, todas pareciam corriqueiras, sem alarde. Deduziu que eles não sabiam de nada.

Amanhecia e o novo dia trouxe esperanças. Talvez aquela noite tivesse dado a Kiba a oportunidade de se acalmar, assim podendo contar o que aconteceu, o motivo dos ferimentos e do comportamento inexplicável.

Quando a porta do quarto dele se abriu tanto Tsume quanto Shino, que estavam sentados na sala em um silêncio pesado, se levantaram. Esperança encheu o coração deles.

— Kiba… — Tsume deu início a frase assim que o filho desceu as escadas.

A voz morreu na garganta.

Kiba tinha uma aparência terrível. Visivelmente passou a noite em claro, o que lhe rendeu olheiras escuras no contraste com o rosto pálido, o sangue seco ganhando um aspecto assustador. A pele ao redor do olho esquerdo escureceu, num tom arroxeado feio. Vestia as mesmas roupas do dia anterior, inclusive a blusa meio rasgada.

Passou direto pela sala, sem falar com a mãe ou o namorado e saiu de casa.

O queixo de Tsume despencou.

Shino não perdeu um segundo em seguir atrás do namorado.

— Kiba!

Foi ignorado. Kiba tomou a direção que veio na noite anterior, em sentido contrário. Voltava a pé para Akihabara.

Mil coisas passaram pela cabeça de Shino. Teria seu namorado consumido alguma droga? Por que agia feito um zumbi? E não sentia fome? Logo ele que tinha apetite por dez pessoas?

Era muito cedo, mas já havia pessoas pela rua, prontas para trabalhar, estudar. Diferente da noite anterior, a claridade denunciava o estado deplorável do garoto. Vários transeuntes desviaram o caminho, como se ele portasse algo contagioso. Era de partir o coração.

Tomando uma decisão, Shino apertou o passo e avançou até se colocar na frente de Kiba e barrar-lhe o caminho.

— Kiba, o que aconteceu com você?

Ele apenas desviou do inesperado obstáculo e voltou a caminhar. Parecia surdo aos questionamentos que recebia. E mudo para oferecer qualquer tipo de resposta.

O celular vibrou no bolso de Shino. A bateria ia pelo fim, mas poderia atender aquela chamada.

— Pronto — aguardou. Era Tsume querendo notícias do filho — Nada mudou. Ele não fala comigo, está apenas andando. Acho que está voltando a pé para Akiba (...) Vou atrás dele. Não vejo opção, Tsume-san. Talvez encontre uma resposta por lá.

Desligou e se conformou em seguir Kiba, mantendo-se uns três passos atrás.

Eventualmente o chamava, sem nunca obter uma resposta.

---

Shino estava certo.

Eles caminharam através dos bairros, até chegar a Akihabara. O percurso que de metrô levava cerca de meia hora, custou muito mais do que isso. Quando chegaram lá, sentia-se exausto. Os pés latejavam e as pernas reclamavam do esforço. Só a grande custo da força de vontade evitava sentar-se e descansar. O aspecto de Kiba era o pior. Ele parecia prestes a desmaiar de exaustão, ainda assim recusando qualquer tentativa de contato, até mesmo as tentativas de Shino de fazê-lo parar para descansar. Caminhava alheio a tudo.

O local já estava fervente de movimento, pessoas indo e vindo, otaku de todos os tipos: com cosplays, funcionárias vestidas de Maid tentando atrair clientes, grupos pequenos e grandes de viciados em jogos trocando informação. Turistas impressionados pelo designer futurista que parecia saído direto dos aclamados mangas.

Uma bagunça que Aburame Shino odiava. Mas que seu namorado adorava.

O mesmo que cambaleava a frente, parecendo a beira de um colapso.

Por fim, Kiba parou num vão entre uma grande livraria e uma casa de games. Desceu dois pequenos lances de escada e abriu uma porta um tanto escondida de quem andava pela rua.

Shino foi atrás, cheio de precauções. Acabou por descobrir que o lugar era a espécie de junção entre fliperama e lanchonete. De fora não parecia, mas o espaço era amplo: começava com um salão enorme, tomado por mesas arredondadas onde clientes faziam lanches, jogavam em portáteis ou nos celulares mesmo, alguns conversavam apenas. Garçonetes iam de um lado para o outro deslizando em patins de quatro rodas bem retrô, equilibrando com maestria as bandejas com os pedidos dos clientes. Duas das paredes eram tomadas por máquinas de jogos, todas lotadas. Cada máquina tinha um jogador e uma pequena plateia que acompanhava as partidas com emoções pontuadas através de exclamações de euforia e surpresa. Por fim, havia uma pequena escada de metal que levava a um sobre piso tomado por máquinas de jogos de lado a lado.

A visão era nada menos do que impressionante. O clima de anos 80 envolvia e convidava para experimentar um milk-shake. A música ambiente soava baixo, nada que atrapalhasse as conversas paralelas, ainda assim perceptível.

Shino perdeu alguns segundos admirando o cenário inesperado. Logo a urgência voltou e ele olhou em volta sem grande atenção, procurando quem realmente interessava.

Viu o namorado parar perto de uma das mesas mais ao fundo e ao canto, onde um rapaz estava sentado, todo displicente, com os pés sobre o tampo e um player nas mãos. Shino percebeu quando ele interrompeu o jogo colocando-o sobre a mesa, olhou para Kiba e gargalhou.

Foi o sinal para que saísse da letargia. Esqueceu o cansaço da caminhada, se buscava respostas, era naquela mesa que as encontraria. Avançou pelo salão, precisou empurrar um ou dois clientes que entraram em sua trajetória. Obrigou algumas garçonetes a desviar enquanto patinavam para não causar incidentes com os pedidos que carregavam.

Assim que parou em frente a mesa do desconhecido, lançou-lhe a melhor expressão séria, deslizando os óculos para o lugar certo.

O sujeito, pouco mais velho do que o casal, parou de rir.

— Posso ajudar? — perguntou numa voz divertida. Os olhos brilharam por trás das lentes dos óculos de grau. Usava os cabelos claros presos em um rabo de cavalo. Tudo naquela figura gritava deboche e ironia. Não precisava avaliar por muito tempo para se concluir que era um homem perigoso.

— Espero que sim — devolveu com pouco humor — Vim atrás dele — apontou para Kiba.

— Ah, entendo — fez um gesto com a mão e Kiba caminhou até dar a volta na mesa e ficar em pé ao lado do rapaz. Shino franziu as sobrancelhas. Só então notou duas garotas próximas a mesa, do outro lado da cadeira. Não deu muita atenção, mais preocupado com seu namorado — Talvez eu possa ajudar, talvez não. Me dê um minuto sim? Quero ver se o teste deu certo.

— Teste? — Shino não gostou do tom usado.

A resposta do outro foi apontar para o chão.

— De joelhos, cachorrinho.

Quando Kiba obedeceu àquela ordem, Shino sentiu-se mortificado.

— Kiba…?

— Sempre funciona! Sempre!! Aliás, me permita: sou Kabuto-sama. Ontem eu me tornei o mestre deste traste. Pelo jeito ele me obedeceu direitinho!

— Mestre? — Shino não entendeu. Olhou do tal Kabuto para Kiba. Notou seu namorado olhando para o lado, evitando encarar de volta. Isso significava que ele estava consciente da situação?

— “Vá a pé para casa. Não se comunique com ninguém. Volte amanhã a pé.” Foram as minhas ordens. Pelo estado em que ele está, imagino que foi um menino obediente.

Shino pensou que aquele cara era louco. E Kiba mais louco ainda por obedecer! Tudo bem que seu namorado parecia ter sofrido alguma agressão. Kabuto, provavelmente, o coagiu no dia anterior. Mas a partir do momento que ficou sozinho, Kiba não precisava seguir as ordens absurdas!

— Vamos embora — falou para o namorado. Ele não se levantou, sequer se moveu.

Kabuto riu.

— Ele é meu escravo! Faz tudo o que eu mando — colocou a mão da cabeça de Kiba e empurrou de leve, desequilibrando-o. Embora não chegasse a derrubá-lo — Mostre, mostre!

Pasmo, Shino assistiu Kiba entreabrir os lábios. Kabuto enfiou os dedos na boca do garoto, sem cuidado algum, puxando um objeto estranho. Algo parecido com um aparelho odontológico que estivera acoplado aos dentes dele.

— O que é isso?

— Isso, meu caro. É a nova moda do momento. Um aparelho SCM. Ele faz parte do ultimate jogo, onde duas ou mais pessoas apostam a vida. Não em sentido literal, claro. Só pode haver um vencedor, o mestre. E esse sou eu. Quem me enfrenta e perde, se torna meu escravo.

Shino fez um som engraçado com a garganta, traindo sua incredulidade. Que absurdo era aquele que acabou de ouvir? Citou Kiba brevemente, mas ele ainda evitava contato visual.

— Não faz o menor sentido…

Kabuto tirou os pés da mesa. Ao fazer isso, esbarrou em uma grande taça de milk-shake que caiu ao chão.

— Ops… — fingiu sentir muito — Limpa isso pra mim, cachorrinho. Com a língua.

A obediência foi imediata. Shino chegou a dar um passo a frente ao assistir Kiba se abaixando e começando a lamber o líquido do chão, junto com cacos de vidro. Em segundos o chão tinha traços de sangue.

— Pare com isso! — deu outro passo a frente pronto para interferir na cena bizarra que assistia.

— Já chega — Kabuto soou entediado. Kiba ergueu o corpo. O queixo banhado em sangue vermelho vivo — Viu? Ele é meu escravo, não pode recusar nenhuma ordem.

— Ele precisa de um médico! — tentou não se desesperar. Tinha que manter o sangue frio, mesmo que seu namorado demonstrasse estar com dor.

— Parece mais feio do que é. Relaxa. O SCM não arrisca a vida dos escravos desse jeito.

Shino observou o aparelho odontológico nas mãos do inimigo. Não podia ser verdade… podia?

Kabuto riu, muito satisfeito em ser o centro das atenções. Continuou falando:

— Funciona assim: eu tenho um SCM e me encontro com outro usuário de SCM. A gente faz uma aposta, qualquer tipo de aposta. Quem vence se torna o mestre e o escravo tem que seguir todas as ordens do mestre. Hum… todas não. Se eu mandar meu cachorrinho pular do alto de um prédio não vai funcionar, nada que tire a vida funciona. Também não dá pra mudar os sentimentos — voltou-se para as duas garotas — Se beijem.

Elas obedeceram. Se abraçaram e começaram um beijo nada pudico, abraçadas quase com desespero.

— Isso é quente, meninas. Vê? Mandar elas beijarem é uma ordem valida. Se eu mandar uma se apaixonar pela outra não vai funcionar. Basta. Depois a gente continua isso no quarto.

Ambas se separaram, havia tanta vergonha na face daquelas duas que Shino teve certeza que o beijo em público foi algo contra a vontade delas. Observou o aparelho SCM e, em seguida, Kiba. Também dedicou atenção ao cenário ao redor. Notou coisas estranhas, que não viu antes. Um homem grande engatinhando num dos cantos, com uma moça montada nas costas dele. Algumas mesas à frente, três rapazes cuspiam no rosto de uma mulher que; mesmo exibindo asco na face, tentava lamber a pele respingada de saliva alheia. O último que reparou, foi um rapaz magro e recurvado, que furava a própria mão com um garfo, erguia o talher e se feria de novo e de novo, enquanto a mulher que parecia ser a mestre ria sem parar. Era um show dos horrores! Não estava em uma casa de jogos normal.

— Como?

— O aparelho envia sinais ao cérebro, acredite. Tem uma longa explicação que envolve neurônios e outros termos técnicos. A única coisa que me interessa é que funciona.

Shino engoliu em seco. Não pode acreditar que Kiba embarcou em uma confusão dessas! Lançou uma mirada intensa na direção do namorado, cobrando respostas apesar de a lente esconder parte do efeito. Prestou atenção no rosto machucado. Ontem Kiba chegou com o olho esquerdo e nariz feridos. A pele ao redor dos olhos estava escurecida, com um aspecto feio. O coração disparou no peito. Suas suspeitas se confirmaram ao analisar as duas garotas. A loura de cabelos curtos tinha um curativo na bochecha. A ruiva de longos caracóis exibida uma mancha arroxeada na fronte. Compreendeu tudo.

— Você os obrigou a isso — aquelas três vitimas tinham apanhado feio.

Kiba adorava jogos eletrônicos e desafios. Mas não era burro. Nem mesmo o ego exacerbado o faria enfiar um aparelho desconhecido na boca e apostar a própria liberdade.

— Claro. A graça está em domar as feras.

— Você… — Shino se preparou para acabar com a situação. Resgataria o namorado e levaria Kiba direto para um hospital. Queria que Kabuto tentasse impedir. Seria a desculpa perfeita para Shino mostrar tudo o que aprendeu no clube de Artes Marciais.

Muito tranquilo, Kabuto mostrou o SCM.

— Você não quer se precipitar, quer? Cachorrinho, ordeno que vá para sua casa a pé e volte para cá. Vá para sua casa de novo e volte a pé… até eu mandar parar…

Em silencio, Kiba levantou-se. Cambaleou, porque estava exausto, ferido, com fome e com sede; totalmente abalado. Sentia dores horríveis na boca e náuseas pelo leite misturado a sangue e minúsculos cacos de vidro. Os olhos rodeados por olheiras se marejaram. Estava a beira de um colapso.

— Pare — Shino falou baixo, num tom que tirou o sorriso de Kabuto. Verídico ou não, Kiba obedecia as ordens daquele homem. Até a mais insana e absurda.

— Espere, cachorrinho. Seu amigo resolveu se acalmar. Ah, sabe o SCM? Um escravo pode tirar por curtos períodos de tempo. Se não colocar de volta, o cérebro entra em crise. É a única forma de matar um escravo… se eu jogar isso fora, adeus garoto. Sacou?

Shino trincou os dentes e cerrou os punhos, furioso.

Nunca ouviu falar daquele aparelho. Mesmo que não fosse real produzia efeitos em seu namorado! Como poderia ajudá-lo?

— O que você quer? — perguntou de mau modo.

— Um harém de escravos — Kabuto inclinou-se para frente e apoiou os braços sobre a mesa — Vá embora e arrume seu próprio SCM. Depois volte e me desafie. Quem vencer leva tudo.

— Onde eu consigo isso?

— Ah, vai se foder cara. Pensa que vou te ajudar assim? Se vira.

— Enquanto isso ele vem comigo.

Kabuto riu baixinho.

— Até parece. Meus escravos ficam comigo. Mandei ele pra casa ontem pra se despedir e baixar a crista alta. A partir de hoje o novo lar desse cachorrinho é no meu porão.

Tal afirmação irritou Shino ainda mais. Em nenhuma das realidades existentes abandonaria seu namorado ali, nas garras daquele crápula. Com que cara voltaria para a casa de Tsume e explicaria tudo aquilo? Como conseguiria fazer qualquer coisa sabendo que Kiba corria risco de sofrer torturas inimagináveis?

— Kiba vem comigo.

O outro estreitou os olhos, perdendo a paciência.

— Você não está entendendo a brincadeira, cara. Meus escravos ficam comigo. Não gostou? Liga pra polícia e faz uma denúncia. Será ótimo. “Oh, senhor policial, meu amigo usa um aparelho que controla o cérebro dele, nos ajude!!” — Kabuto riu — Se, na melhor das hipóteses, alguém acreditar em você, vão levar os SCM para verificação, por tempo o bastante para quebrar as regras e matar meu cachorrinho. Dúvida? Vamos lá, cachorrinho. Conte pra ele. Seja sincero.

Terminou o monólogo com uma ordem, que também foi seguida a risca.

— É tudo verdade, Shino — Kiba falou baixo e cansado, o rosto contraído de dor — O aparelho, as regras… tudo. Me desculpa por isso…

— Kiba!

— Não se envolva — ele ainda não tinha coragem de encarar de volta — Vou resolver do meu jeito.

Shino apertou os punhos com tanta força que as mãos tremeram. Sentiu-se impotente.

— Vai pagar pra ver? — Kabuto provocou — Quer tirar a prova e confirmar se a regra mais importante é verdadeira mesmo? Só as nossas palavras não bastam? Volte aqui quando tiver um SCM pra me desafiar. Até lá… vou cuidar bem desse cachorrinho. Coloque a coleira de volta, não quero tragédias — jogou o aparelho no chão. Kiba o pegou e recolocou na boca, prendendo-o entre os dentes.

Shino sentiu o peso da derrota pesar em seus ombros. As opções que tinha: insistir em tirar Kiba dali e correr os riscos ou virar as costas e abandonar o namorado ferido ali, com um estranho que não hesitava em ser cruel. Observou rápido as duas moças, elas pareciam assustadas, mas resignadas. Como se já tivessem desistido de lutar. A postura de Kiba não era como a delas, ainda que não o encarasse nos olhos, Shino reconheceu a atitude de quem não desistiu de lutar. Sim. Aquele aparelho chamado SCM devia produzir algum efeito real no corpo da pessoa, alguém como Kiba jamais se sujeitaria a ordens tão humilhantes se algo não estivesse sobrepujando-lhe o livre arbítrio.

— Vou tirar você dessa, Kiba — prometeu. A voz saiu difícil, tão difícil quanto a decisão que estava prestes a tomar. Nunca imaginou que um dia faria isso: deixaria uma das pessoas que mais amava no mundo largado a própria sorte, na certeza de que ele ainda sofreria algumas humilhações.

Shino precisava investigar o que acontecia ali, que história era aquela de mestre, escravos e apostas. E não conseguiria resolver nada sozinho, precisava da ajuda de alguém que entendesse desse mundo de tecnologias.

— Diz pra mamãe que eu sinto muito — Kiba o encarou pela primeira vez — Shino…

— Quieto, cachorrinho. Já cansei da sua voz — Kabuto cortou a frase, divertindo-se com a angústia que impunha aos dois rapazes — Me desafie quando for capaz, permito que escolha o jogo. Mas já vou avisando: eu sou bom em tudo. Jamais perderei para você.

Shino aproveitou a frase arrogante e cheia de si para alimentar o rancor que começou a sentir. Fez a coisa mais dolorosa que jamais imaginou fazer na vida, ao não responder à provocação. Nem mesmo lançou um último olhar ao namorado, ou perderia a cabeça e o levaria consigo mesmo sob o risco de violar alguma regra mortal.

Shino saiu daquele local aterrador, porém a parte mais importante de sua alma ali ficou.

11 de Maio de 2018 às 18:19 2 Denunciar Insira 4
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Izumi Mimi Izumi Mimi
Mds, fiquei meio tensa agora. Nunca havia lido uma fic desse casal, mas a tensão foi tanta, que meu coração deu uma falhada e minhas mãos estão suando. É uma boa fic, então espero pelo próximo capítulo! E espero que o Shino acabe com esse verme. Que coisa mais insensível! Usar um humano como bem entende. Acaba sendo ridículo! Espero que o Kabuto sofra que nem um verme rastejante. Enfim, gostei demais da fic! Estou esperando a conclusão desse show de horrores que o Kabuto fez!
13 de Maio de 2018 às 19:05

  • Kaline Bogard Kaline Bogard
    OPA!! ShinoKiba é meu casal xodozinho, OTP da vida! Tenho outras histórias deles, já postei algumas aqui. Estou trazendo aos poucos! Sim, esse universo é de um anime chamado "Dorei-ku the animation", e o cenário do anime é tenebroso. tem mestres por lá muito piores que o Kabuto, eu assisto e fico agoniada! Muito obrigada, já estou trabalhando no ultimo! ♥ 13 de Maio de 2018 às 19:09
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