Armand Seguir história

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O plano do Cardeal Richelieu funcionou, porém ele não contava com o fato do Rei Louis XIII colocar em risco o futuro da França. Agora o Cardeal precisará de ajuda e ela virá de onde ele menos espera.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos). © The Musketeers e Doctor Who não me pertencem, fanfic escrita sem fins lucrativos.

#fanfiction #crossover #doctor-who #the-musketeers #clara-oswald-cardeal-richelieu
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Armand

Na experiência do Cardeal Richelieu só havia dois tipos de reis, os imbecis e os ingênuos. O Rei Louis XIII não era ingênuo. De fato, sua imbecilidade era tamanha que o Cardeal tinha dificuldade em contê-la. Desde o começo o Rei dava sinais da sua falta de inteligência confiando naqueles vagabundos e criminosos ao invés da própria Guarda Real, mas as coisas ultrapassaram os limites quando ele arrumou uma Rainha infértil e depois disso recusou a melhor pretendente que havia.


- Meu coração está tomado pela tristeza. - ele choramingou depois da morte da Rainha Anne. - Cardeal, como espera que eu me case com Charlotte depois do que aconteceu?


A vontade que o Cardeal tinha às vezes era de enforcar o Rei com suas próprias mãos. Mas não havia necessidade disso, eles eram franceses não bárbaros. Richelieu sabia que havia um jeito de manobrar a Sua Majestade, apenas tinha que descobri-lo.


- Majestade, pensei que a Charlotte fosse tua preferida. - o Cardeal argumentou, com toda paciência que ainda lhe restava.


O Rei da França limpou o nariz nas mangas antes de responder.


- Eu simpatizava com ela, sim... mas nenhuma mulher pode substituir a Anne! Cardeal, ela era minha companheira e o amor da minha vida.


O Cardeal inspirou, forçando-se a engolir as palavras que queria dizer. O Rei estava tão insatisfeito quanto todos com a infertilidade de Anne e não era discreto em seu interesse pela Charlotte. Agora que Anne não estava mais no caminho, a França poderia finalmente ter um herdeiro mas o Cardeal não contou com a imbecilidade do Rei que, mais uma vez, atrapalhava todos os seus planos.


- Eu entendo. - disse Richelieu, trincando os dentes. O fato é que ele entendia aquela bobagem toda. Ora, Anne tinha morrido e antes disso já era uma inútil, o que impedia o Rei de procurar outra?


- Prometa que vai encontrar o assassino, Cardeal.


Richelieu fez uma reverência.


- Considere feito, Majestade. - garantiu, antes de deixar o Palácio naquela noite.


Não sabia quem o assassino era exatamente, tinha sido tudo arranjado pela Milady de Winter, mas fora ele próprio quem ordenou aquele assassinato. Precisava de algo rápido e limpo, algo que não chamasse atenção e resolvesse tudo. Agora se arrependia de tê-lo feito.


Dentro da carruagem, o Cardeal pensava no que faria agora. Milady foi descoberta e ele a mandou ir esconder-se em outro lugar, se fosse esperta já estaria fora do país a essa altura. Os Mosqueteiros seguiam cada passo que ele dava, não tinham provas contra o Cardeal mas estavam dispostos a encontrá-las. Richelieu sabia que era só uma questão de tempo. Se não encontrasse a solução depressa aquele seria o seu fim.


********

Para surpresa de todos o Rei tinha superado seu luto, bastou alguns meses fora visitando os reinos vizinhos para tirar a Anne de sua cabeça. Quando a comitiva dele retornou ao Palácio o Cardeal reparou na mudança de humor de Sua Majestade.


- Ah, Cardeal! - o Rei saudou, descendo da sua carruagem com ajuda dos lacaios. - Aí estás! Não mudaste nada, pelo que vejo.


- Não, mas Sua Majestade parece mais disposto. - o Cardeal soltou um sorriso satisfeito.


- Foi uma bela viagem, Cardeal. - ele aproximou-se do seu conselheiro e falou mais baixo. - Acho que ficará contente em saber que já escolhi minha nova Rainha.


- É mesmo? - seu sorriso enfraqueceu, tinha passado esses últimos dias fazendo acordos para encontrar a nova Rainha pois não confiava no julgamento do Rei. - Posso perguntar quem seria a felizarda?


- Eu a trouxe comigo, ela nunca esteve na França antes e eu gostaria que conhecesse meu Reino. Acho que vai aprová-la, Cardeal.


“Isso sou eu quem decide.”, Richelieu pensou. Não gostou de nada daquilo, e seu descontentamento deve ter ficado aparente pois o Rei deu uma risada e disse:


- Sei que és um homem prático, Cardeal, usas sempre a cabeça e nunca o coração. Mas não a escolhi apenas por ser bonita, ela é uma nobre. O pai dela era um Lorde e suas irmãs todas se casaram com membros da Corte e tiveram vários filhos. Ela é a mais jovem e a única ainda solteira, tive muita sorte.


- Qual Corte, Majestade?


- A Corte Inglesa. Ah, não faça essa cara, Cardeal... já estamos no século XVII, está na hora de superarmos nossas divergências. A Guerra já acabou.


Richelieu não acreditou no que ouviu, não podia acreditar, o Rei era um imbecil mas não sabia que ele era também um louco. Entregar a Coroa aos ingleses assim tão fácil? Não. O Cardeal Richelieu estaria morto antes de deixar uma inglesa ter os próximos filhos da França.


Ia dizer exatamente o que sentia sobre aquele arranjo quando foram interrompidos.


- Majestade, vosso Palácio é lindo! O mais belo que já vi. - disse uma voz feminina com o sotaque mais horrendo que o Cardeal já ouviu.


Quase deu uma risada desdenhosa, mas ainda estava em choque com as notícias que recebeu. Primeiro, nunca pensou que o Rei trairia a França tão descaradamente e, depois, pensou que a mulher causadora daquilo deveria ser no mínimo espetacular. Não. A jovem era uma coisinha pequena e miserável. Tinha os olhos maiores que o rosto e o nariz apontado para cima. O Cardeal não fazia ideia por que um homem iria querer dormir ao lado daquela criatura deformada até o fim da vida. Com todos os seus defeitos, pelo menos a Anne era bonita.


- Obrigado, minha querida. Quem sabe... talvez a senhorita possa ficar aqui permanentemente?


- Não vamos nos exaltar. - o Cardeal interrompeu.


A inglesa sorriu para ele, sem perceber seu tom agressivo.


- Ah, sim, primeiro as apresentações... - disse o Rei. - … Cardeal, esta é Lady Clara Oswald.


- Cardeal. - ela estendeu sua mão, Richelieu a beijou desgostoso. - Já ouvi falar muito no senhor.


- É mesmo?


- Sim, o Rei me contou coisas maravilhosas ao seu respeito.


O Cardeal não confiou naquele sorriso. Não confiava em nada que vinha dela. Decidiu que precisava mandá-la de volta para o inferno de onde veio o mais cedo possível.


********

Cada dia que a inglesa passava no Palácio era uma tortura para o Cardeal. Ela era uma coisinha besta e desinteressante, mas o Rei parecia encantado. Mais de uma vez o Cardeal tentou encerrar aquele assunto, mas o Rei se recusou a mandá-la embora alegando que o Cardeal devia estar mais preocupado em encontrar o assassino da Rainha Anne do que em perseguir a Lady Clara. Teria que tomar medidas drásticas.


Naquela noite quando Clara retornou ao seus aposentos encontrou o Cardeal esperando-a. Felizmente ela não gritou, apenas ergueu as sobrancelhas de surpresa.


- O jogo acabou. - ele disse. - Eu já sei quem és e o que queres, mas não vai conseguir. Não enquanto eu estiver aqui.


- Não estou entendendo, Cardeal...


- Basta! Ser Rainha... toda mulher no mundo deseja isso, ainda por cima uma que viu todas as irmãs tornarem-se mais poderosas do que ela. O Rei pode ter caído nas tuas artimanhas femininas mas eu sei a verdade e não vou permitir que essa farsa continue.


Clara analisou-o dos pés a cabeça.


- Eu esperava mais de ti, Cardeal. - falou com um sorriso no canto dos lábios.


Richelieu endireitou-se, estranhando a reação dela.


- Como assim? - perguntou.


- Depois de tudo que ouvi... não sei, pensei que planejaria algo melhor do que entrar no meu quarto à noite para tentar me assustar.


- Não estou fingindo. Tudo acaba esta noite. Já ordenei que chamassem uma carruagem que a levará de volta e o Rei nunca mais irá vê-la.


- E se eu recusar?


Foi a vez do Cardeal sorrir.


- Pensa que és a primeira? O Rei já se engraçou com outras mulheres, até mais importantes, e as esqueceu com a mesma facilidade. Perdê-la não será uma fatalidade.


- Não para ele, mas seria para ti.


“Um truque.”, o Cardeal pensou. A inglesa era mais esperta do que ele previu.


- Como...?


- Eu poderia ser uma ótima aliada, Cardeal. Tens razão, eu desejo ser Rainha, não aguento mais estar por baixo e receber ordens. As pessoas me subestimam por causa minha aparência frágil e sempre usei isso ao meu favor. Já descobri segredos de todo tipo só me fazendo de idiota.


- Segredos?


- Sim, como a morte da Rainha Anne.


O Cardeal continuou impassível.


- Então, acredita saber quem a matou?


- Eu sei, sim. - ela deu um sorriso mais largo. - Mas não se preocupe, não contei a ninguém. Gosto de guardar segredos, nunca se sabe quando vamos usá-los.


- Entendo... pretende me chantagear com seja lá o que for que pensas saber? Sem provas? Saiba que eu tenho a confiança do Rei...


- Não precisa ficar nervoso. Não quero chantageá-lo, quero ajudá-lo. Quando conheci o Rei percebi que ele era um imbecil, mas sabia que o Cardeal Richelieu não era. Pelo que ouvi dizer, tu és o verdadeiro líder da França. Eu quero ser uma aliada.


O Cardeal não se deixou enganar, sabia muito bem o que estava acontecendo.


- Depois que percebeste que a chantagem não iria funcionar mudou para uma tática típica da tua espécie.


Clara estranhou a resposta dele.


- Minha espécie? Os ingleses?


- As mulheres! Achas mesmo que podes me seduzir para conseguir o que queres? Pensas que és a primeira a tentar isso? Normalmente eu permito que acreditem que o plano está dando certo, mas neste caso vou dispensar. Sou um homem de bom gosto.


Ela não gostou do que ouviu. O Cardeal pensou que tinha vencido a batalha.


- Mais cedo ou mais tarde vais precisar de um aliado, Cardeal. Todos que o cercam são idiotas, mas até os idiotas descobrem coisas. No seu lugar, eu gostaria de ter um aliado à minha altura e não um lacaio qualquer. Alguém que poderia realmente influenciar o Rei ao seu favor.


Dito isso, Clara começou a arrumar suas malas para partir. O Cardeal Richelieu nunca confiou realmente em ninguém, todos acabavam lhe traindo ou fracassando em algum momento, mas era um fato que seu poder sobre o Rei ficava cada dia mais fraco e logo os Mosqueteiros o alcançariam. Poderia confiar na Clara? Mal a conhecia, mas ela parecia esperta o bastante para não afundar o Reino em loucuras e, se fosse ser sincero, tinha um pouco de curiosidade quanto a ela.


Mesmo assim, ela era uma inglesa e a França não podia se misturar com eles sob o risco de perder tudo. Clara poderia ser uma mentirosa. Poderia traí-lo assim que se casasse com o Rei. A carruagem dela logo chegaria e ele precisava tomar uma decisão.


********


- Cardeal, acho que sabe o motivo que me fez chamá-lo aqui hoje. - o Rei falou, solene.


O Cardeal Richelieu ajoelhou-se diante de Sua Majestade.


- Majestade, eu não sei.


- Sempre foste um homem esperto, Cardeal. Vamos, acredito que consegues adivinhar.


Ele prendeu a respiração.


- Seria... algo relacionado à Rainha, Majestade?


- Sim, Cardeal.


Richelieu ergueu a cabeça. Sabia o que estava por vir.


- A Rainha está esperando um filho, Majestade?


O Rei sorriu.


- Sim, meu amigo!


- Queríamos lhe contar primeiro, antes de todos. - disse a Rainha Clara, segurando a mão do marido ao seu lado.


- Sou muito grato por tua amizade durante esses anos todos, Cardeal. Sempre estiveste ao meu lado me apoiando e me aconselhando. Eu lhe agradeço por isso.


- Foi tudo pelo bem da França, Majestade. - o Cardeal respondeu sério.


- Vamos, amigo, hoje é um dia de comemoração! Dentro de um ano prendemos o responsável pela morte da Rainha Anne, ganhamos uma nova Rainha e agora ela terá o meu herdeiro. Darei uma festa hoje à noite para celebrar... sei que não gosta dessas coisas, Cardeal, mas seria importante para nós que estivesse lá.


- Estarei, Majestade.


O Cardeal fez uma outra reverência antes de se retirar. Não sabia por que mas sentia uma decepção muito grande, apesar de tudo ter corrido bem para ele. Conseguiu incriminar o Mosqueteiro Aramis e desde então o Rei parou de confiar em todos aqueles vagabundos. Clara se adaptou muito bem à França e conseguiu conquistar todos com seu carisma... da mesma forma que o tinha conquistado.


Não, bobagem. Ela era uma aliada. Uma aliada muito boa e só. Poderia se livrar dela se algum dia deixar de ser útil. O Cardeal Richelieu recolheu-se ao seu escritório para responder algumas cartas. Não demorou muito até receber uma visita.


- Armand. - ela chamou, usando o seu primeiro nome.


- Alteza. - falou, sem erguer o olhar.


- Por que estás chateado? Nós vencemos.


- Não estou chateado.


Clara segurou seu queixo e levantou a cabeça dele. Depois que virou Rainha da França passou a ficar mais bonita.


- Já considerou que talvez a Rainha Anne não fosse estéril? - ela perguntou.


- Ela nunca conseguiu engravidar. Obviamente que era estéril.


- Baseando-me na minha experiência, acredito que ela poderia ter tido filhos... se o Rei estivesse apto.


Clara lhe deu um sorriso cheio de significados.


- Seria horrível se isso fosse verdade. A Rainha teria morrido em vão. - disse o Cardeal.


- Sim.


Armand não sabia explicar, mas sentiu-se melhor ao saber disso.


********


Os choros do bebê ecoavam pelo Palácio inteiro, nenhum lacaio precisava vir lhe avisar do nascimento mas vieram mesmo assim.


- É um menino! - gritou um deles. - Temos um delfim!


- Eu sei. - o Cardeal replicou, sem se surpreender. Clara nunca decepcionou.


O Cardeal demorou um pouco antes de subir para visitar o quarto dela. Não queria parecer ansioso, como de fato estava. O Rei esperava do lado de fora, apreensivo. Quando os dois se encararam o Cardeal notou algo no olhar dele que fez seu corpo esfriar de medo.


- Cardeal...


- Majestade.


-Cardel! A Rainha... ela...


- Sim?


O Rei começou a chorar, como quando a Rainha Anne morreu.


- Ia ver o meu filho quando... me disseram que a Rainha... ela estava bem mas então...


Richelieu não esperou o Rei terminar de chorar para lhe dizer o que aconteceu. Ele precisava ver com os próprios olhos e entrou no quarto. Um odor horrível de morte lhe invadiu as narinas. O bebê ainda chorava muito, queria a mãe mas ela não estava mais lá.


Clara parecia adormecida, mas a pele estava mais pálida do que nunca. As mulheres costumavam morrer em partos, mas esperou que com ela fosse diferente. Ela sempre foi diferente. O Cardeal queria gritar com alguém, de preferência o Rei Louis XIII, mas não fez isso. Apenas ficou ali parado apreciando-a em seu sono eterno.


- O Rei não gostaria de ver seu filho? - perguntou uma das mulheres com o bebê chorão em seus braços.


O Cardeal queria dizer a verdade ali, naquele momento, mas segurou-se. Se dissesse colocaria tudo a perder. Tudo aquilo pelo que eles lutaram. Ela nunca o perdoaria por isso. Armand apanhou o bebê dos braços dela e tentou fazê-lo se acalmar.


- Ele é o filho da França. - disse.


O delfim parou de chorar eventualmente. O Cardeal Richelieu logo soube que aquele seria um Rei diferente dos outros, não seria ingênuo ou imbecil. Ele o educaria para que não fosse. O sol brilhava forte no lado de fora, anunciando a chegada da manhã.









9 de Maio de 2018 às 17:43 0 Denunciar Insira 1
Fim

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