Como nascem as lendas Seguir história

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As lendas só existem enquanto alguém acreditar nelas. "Yo no creo en brujas, pero que las hai, hai"


Conto Todo o público.

#fábula #fantasia #mistério
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Capítulo Único

Reza a lenda de que na parte mais ao norte da floresta que circundava aquele povoado vivia um ser terrível, um monstro inominável. "Ele tem orelhas pontiagudas, como os lobos", diziam alguns; "dentes tão afiados quanto os de um leão", diziam outros; "produz um guincho terrível, como um morcego", diziam mais alguns outros. A verdade, no entanto, é que ninguém nunca vira de fato tal criatura.


A lenda passava de geração em geração, e todas as crianças do povoado cresciam sabendo dos limites da floresta. Por vezes, elas ainda se desafiavam entre si, provocando os amigos e os incitando a dar alguns passos além da borda imaginária imposta pelos adultos, mas no fim das contas nenhum tinha coragem de ir muito adiante, e voltavam para casa antes do entardecer, seus corações infantis cheios de emoção por aquela pequena ousadia.


E a vida seguia assim naquele vilarejo. O monstro assombrava as histórias dos mais velhos, que eram repetidas pelos mais novos, e recontadas a exaustão a todo e qualquer andarilho que estivesse de passagem. A lenda fazia parte da aldeia, era quase como se fosse responsável pela construção da identidade visual de todos aqueles moradores.


Todos não. Dentre eles, havia um homem que zombava da lenda. Dizia não acreditar em nenhuma palavra e ria com escárnio sempre que a história era contada. Emilio era o ferreiro da vila. Alto, forte e ruivo, trabalhava todos os dias em sua oficina criando armas, ferramentas agrícolas, utensílios domésticos e todo o tipo de objeto prático para facilitar o dia a dia do povoado. Era conhecido e querido por todos — só não gostavam da maneira debochada a como ele se referia ao monstro. À lenda.


Afinal, desacreditar aquela história chegava a ser um insulto. Gerações de aldeões haviam crescido em torno daquela fábula, e rir daquilo como se fosse uma piada era considerado por muitos como uma blasfêmia. Emílio no começo não ligava, e ria ainda mais da seriedade com que todos naquela vila pareciam levar o assunto. Achava graça de como eles tinham medo, um verdadeiro pavor, de pensar em atravesar o suposto limite seguro da floresta. "É só um bosque!", ele exclamava, se desmanchando em gargalhadas, "Por acaso tens medo de esquilos e pássaros? Dos galhos das árvores frondosas que crescem mais além?", perguntava, em tom de zombaria, balançando os abastados cabelos vermelhos.


Os aldeões se sentiam incomodados, e com o tempo, passaram a evitar a oficina de Emílio. Alguns chegavam a ir até o vilarejo vizinho para encomendar suas peças, ou até mesmo as compravam dos viajantes que transitavam entre os povoados levando mercadorias.


A notícia chegou até Emílio, que ficou ultrajado com o boicote. Via sua renda diminuir mês a mês, e em breve, não teria mais com que se alimentar ou custear sua oficina. Seria obrigado a encerrar as atividades, procurar outra ocupação ou até mesmo ir em busca de oportunidade em outro vilarejo. Só que Emílio não queria nada daquilo. Nascera ali, como seus pais e seus avós, e assim como eles, crescera dentro de uma oficina de forja. Nascera para aquilo, e morreria fazendo o que amava, junto da terra de seus ancestrais, morando na casa que pertencera a todas as gerações anteriores a sua.


Ele decidiu que aquilo não poderia ficar assim. Teria que dar um jeito naquela situação o quanto antes, reconquistar a confiança de seu povo e voltar a ter trabalho para poder colocar comida na mesa. Por isso, convocou uma reunião com todos os moradores — crianças, adultos, idosos, homens, mulheres. Todos eram bem-vindos para ouvir o que Emílio tinha a dizer, e, tamanha a curiosidade daquele pequeno povoado, todos compareceram na hora marcada.


"Sei que não gostam de como eu trato a lenda local, de como falo do monstro. A ponto de não mais procurarem meus serviços de ferreiro", ele começou, e todos escutavam com atenção. Aqui e ali ouviam-se alguns burburinhos, mas ninguém ousava interromper. "Isso está trazendo instabilidade para minha casa, e já quase não tenho como me sustentar. Não quero abandonar minha vocação muito menos essa terra que tanto amo, mas também não quero enganá-los, dizer que estão certos apenas para tê-los de volta como minha clientela. Por isso quero provar que estão errados, que não há nada a temer. Sei que se apegaram à figura do monstro, sei que a lenda é importante para muitos aqui, mas não podemos mais deixar que essa história, que esse mito conduza nossas vidas a esse ponto. É hora de evoluirmos, deixarmos o passado e suas fábulas para trás".


Emílio fez uma pausa, observando a reação dos seus amigos e vizinhos. Todos se entreolhavam, murmurando baixinho, incrédulos com tamanho atrevimento.


"Por isso, vou passar esta noite na floresta. Voltarei amanhã, como prova de que tal criatura não passa de uma invenção".


"Você não pode fazer isso, Emílio!", uma pessoa gritou. "Você vai morrer!", bradou outra, mas ele deu de ombros. Estava convicto do que faria.


"Se eu assim o fizer, e retornar a salvo na manhã seguinte, a única coisa que almejo é ter meu prestígio de volta. Voltar a trabalhar dia e noite com paixão como sempre fiz nesta aldeia. É tudo que peço".


Os moradores não estavam muito convencidos, mas Emílio já fizera sua escolha. Ouviu todas as recomendações e avisos, mas suas resposta era sempre a mesma. "Vou ficar bem", ele dizia. Aceitou apenas o conselho de levar consigo alguma arma para se defender de uma possível ameaça. Escolheu, entre suas ferramentas, um pesado martelo de forja que estava habituado a manejar.


Cheios de receio, eles acompanharam Emílio até a borda norte da floresta, sem ousar dar mais um passo. Viram o ferreiro seguir a caminhada sozinho, o martelo seguro nas mãos, até sumir entre as árvores. O único som que o acompanhava era o uivo sibilante do vento.


A noite correu silenciosa e devagar, como sempre. Muitos não conseguiram nem dormir, tamanha a apreensão que sentiam. Nunca antes alguém havia desafiado o monstro. Alguns grupos chegaram a até mesmo organizar uma vigília, rezando por toda a madrugada pela segurança de Emílio.


A aldeia estava em polvorosa na manhã seguinte. Todos aguardavam ansiosos pelo retorno do homem, divididos entre a esperança de que ele estivesse bem, e o medo do destino cruel que ele podia ter enfrentado naquele bosque.


O sol mal tinha raiado e eles já esperavam o corajoso aldeião na saída da floresta. Olhavam cheios de expectativa pelas árvores, atentos ao menor sinal de que ele estaria voltando. O cabelo ruivo de Emílio se destacaria fácil naquela paisagem verdejante, mas tudo que eles viam eram os animais silvestres e o balançar das folhas. Esperaram por diversas horas, mas aos poucos foram abandonando o posto. A vida lá fora chamava: a colheita devia ser feita, os animais, alimentados e as crianças, banhadas. Ainda assim, sempre que sobrava algum tempo, corriam até a oficina de Emílio para conferir se o ferreiro estava de volta.


Passou-se um dia inteiro, mas ninguém conseguira encontrar o homem. O burburinho foi geral. Muitos choravam, exclamando coisas como "O monstro! O monstro!", mas alguns ainda mantinham acessa a chama da esperança de ver o amigo retornar a salvo. "Aposto que é só mais uma piada de mal-gosto de Emílio", refutavam.


Porém, o segundo dia surgiu e o homem continuava desaparecido. Chegavam o mais perto possível da borda norte da floresta, esticavam o pescoço e apuravam os ouvidos. Nada.


O grupo que ainda acreditava no retorno de Emílio ia sendo reduzido dia após dia. Uma semana depois, mais ninguém o ia esperar na saída das árvores. A oficina permanecia fechada, sua casa, completamente deserta. Com o tempo, foram se acostumando com a ideia. Inconscientemente, já falavam de Emílio no passado.


Meses e anos se passaram. A aldeia ganhou um novo ferreiro e a vida seguia normalmente. E os viajantes que procuravam abrigo na hospedaria do povoado eram sempre bombardeados pela lenda local. Pela lenda do monstro que morava na ala norte da floresta. "Ele tem cabelos de fogo", diziam alguns; "Possui uma pata de ferro, sólida como um martelo de forja", diziam outros; "Ele produz um som agudo, como um metal trincando", diziam mais alguns outros.


“Ele se chama Emílio”.

1 de Maio de 2018 às 02:43 9 Denunciar Insira 6
Fim

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Marchetti ! Marchetti !
Sempre me pego pensando sobre como surgem as lendas, se alguém algum dia viu e começou a história, se foi algum sonho e passou em diante, coisas do tipo, coisas como; se realmente existe, será que são da mesma forma que descrevem? Esse tipo de coisa sabe... Sua história é incrível Parabéns
11 de Setembro de 2018 às 11:37
Elisa Dias Elisa Dias
Gostei muito! Não é igual aos outros contos desse tipo que eu leio, e gostei disso.
29 de Agosto de 2018 às 08:12

  • Drafter Drafter
    Ah, que bom! Fico feliz em saber disso! Muito obrigada pelo comentário! =) 8 de Setembro de 2018 às 12:29
Karimy Karimy
Eu nem sei direito o que comentar. Sabe, a gente cresce ouvindo histórias, algumas são apenas histórinhas infantis, outras para assustar criancinhas, lgumas com teor mais forte, outras em tons religiosos, mitológicos e assim por diante. Às vezes, fico pensando de onde todas essas histórias vieram, porque, é notório, estudado e sabido, que o mais original vem de algo já escrito, já vivido, então qual foi a primeira história? Qual é o primeiro conto, o mito, a religião? Quando terminei de ler esse conto, essas questões voltaram com uma força muito maior para mim, porque é exatamente assim que as coisas são, que acontecem. "Nada pode ser mudado a história é X", mas até esse ponto já não temos ideia de quantas transformações essa história já sofreu, menos ainda temos como prever que transformações sofrerá (mesmo que não alterada no papel, isso não quer dizer que o significado será o mesmo para cada pessoa. Cada um enxerga o mundo de uma forma diferente, de acordo com cultura, religião, experiência de vida e muitos outros fatores, então tudo, todas as histórias, mitos e religiões, estão em constante mudança, em movimento, tudo é mutável, mesmo quando não documentado). Só quero dizer que sua história conseguiu transmitir muito para mim mesmo com um tamanho tão pequeno, mas como diz a música de Gilberto Gil, Metáfora, "Na lata do poeta tudo-nada cabe, Pois ao poeta cabe fazer Com que na lata venha a caber O incabível". Foi o que você fez foi uma linda poesia: costumo sempre dizer que uma história nada mais é do que uma poesia desenvolvida. Simplesmente adorei.
16 de Agosto de 2018 às 21:39

  • Drafter Drafter
    Me desculpe pela demora em responder seu comentário tão lindo! <3 Ando meio afastada d site por motivos pessoais, então às vezes acabo deixando passar alguma coisa! Mas fiquei muito feliz com seu comentário, e por ter gostado da minha história! Eu gosto muito dela também, e essa coisa de como as pessoas inventam histórias para lidar com o que não sabem sempre foi algo que achei intrigante. E sim, as pessoas sempre acabam dando novos significados ou alterando as histórias de algumas maneira. Acho que cada um meio que acrescenta o seu ponto de vista, ou reconta a história como acha que deveria ser, e no fim das contas, muito do que temos hoje acaba não sendo nem de perto parecido com o que era originalmente. Muitas tradições e lendas devem ter sido deturpadas ao longo dos séculos. Mas isso é tão da natureza humana, né? Uma simples brincadeira de telefone sem fio deixa isso evidente. Enfim, obrigada pelo comentário, pela leitura e pela reflexão! Um beijo enorme!!! 8 de Setembro de 2018 às 12:28
SS Sarah Salvador
Amei o conto! Pior que vi muita semelllhança do modo dos habitantes dessa aldeia com os da minha rua que fica logo no Rio de Janeiro kkkkkk Adorei o fato de agora ele ser a lenda.
7 de Maio de 2018 às 15:06

  • Drafter Drafter
    Oi, muito obrigada pelo comentário! Fico feliz que tenha gostado do conto! Mas nossa, sério que o pessoal da sua rua é assim também? Hahahaha Beijos! 7 de Maio de 2018 às 21:24
Luisa Poison Luisa Poison
Olha elaaaa, me surpreendendo como sempre. Muito bom, por um momento achei que Emílio retornaria, por outros concordei com os aldeões e o achei louco e ir querer "confrontar" o monstro. E ele não retornou. Fiquei angustiada com isso, confesso! Bom, não preciso dizer que amo a maneira que escreve. Creio que já disse isso várias vezes kkkkkk. Tu nem sabe, mas eu te apelidei de Ágatha Cristhie das fanfics graças a Conspiração Escarlate. Bom...agora tu sabe hehe Como sempre amei essa estória. Como sempre cheia de misterios. Como sempre tu me surpreendendo. Beijos!
1 de Maio de 2018 às 18:14

  • Drafter Drafter
    Ahhh sua linda! Obrigada pelo comentário! Esse é um conto antiguinho meu que eu tinha no Nyah e trouxe pra cá. To aos poucos trazendo todas as minhas fics pro site =) E caramba, como assim Agatha Chistie das fanfics? Assim eu morro do coração hahaha Eu AMO a Agatha Christie, é minha autora favorita, li tudo que é livro dela! Fiquei até emocionada com essa comparação <3 Muito obrigada! E que bom que gostou dessa pequena história também!! Como você já sabe, adoro manter o suspense nas minhas histórias até o final ;) Esse final, aliás, deixei bem aberto sobre o que pode ter acontecido com Emílio de verdade. Mas na aldeia, ele acabou se tornando mais uma das lendas locais. Beijo enorme!!! 2 de Maio de 2018 às 22:42
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