karimy Karimy Lubarino

"...era difícil respirar, não saiba se por causa do ar sombrio que circundava aquele local ou se pelo temor de ver a tumba de seu filho querido."


#54 em Fanfiction #7 em Livros Para maiores de 18 apenas. © Os personagens encontrados nesta história não me pertencem, assim como algumas citações. São propriedade de George R. R. Martin. História sem fins lucrativos, criado de fã para fã, com direito do enredo reservado. História postada no Spirit também.

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Capítulo único

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Se olhar para trás, estou perdida, ela pensou ao ver o mar de gelo que se erguia à frente, atrás e por todos os lugares. Cinza, azul, branco e um ponto enegrecido no meio de tudo aquilo, destoando-se.

Não, estou no fim do mundo, mas ainda é o meu mundo. Após sair de Atalaialeste, só conseguia pensar em voltar por seu filho, mas agora que estava aqui sentia-se uma garotinha tola mais uma vez, cheia de temores. O jeito que seu Urso Jorah a olhou, antes que se lançasse às costas de Drogon e deixasse a galé... Não, não devo pensar sobre isso agora. Era tarde demais para se arrepender. Sequer havia contado para onde seguia, pois sabia que tentariam impedi-la se o fizesse. Tentei não vir, mas aquele lugar parecia chamar por ela, seu filho gritava o nome dela. Não podia ouvir, mas sentia.

Sou do sangue do Dragão, recordou-se, inclinando seu corpo para frente e enfincando as unhas nas escamas de Drogon o mais forte que podia enquanto ele cuspia uma rajada de fogo vermelho enegrecido para frente e para o ar. Uma névoa cresceu onde as chamas terminavam, e o estalo de gelo rachando se espalhou com um eco de crac, crac, crac. Ele não tem medo, percebeu ela, mas devia ter. E eu também.

— O mal está aqui — disse com uma voz estranha, mais infantil do que o comum. Sou do sangue do Dragão.

Usava uma luva de lã cinza, uma bota de pele de lobo da mesma cor, e sua túnica era tão branca como o gelo que os cercava, cravejada de botões de lápis-lazúli. Usava uma calça de sedareia também branca, e seus cabelos prateados estavam presos para trás, sem seus sinos. Devia tê-los pedido para Irri. Aqui, de frente ao lago congelado, sentia-se pequena, e os sinos a ajudariam a se lembrar de quem era. Mãe dos dragões.

Mãe de monstros, um sussurro cruel respondeu.

Daenerys deslizou de cima de Drogon, sentindo seus pés afundarem em neve tão macia como espuma. Coração acelerado, olhou para frente e para frente. Drogon silvou e as pontas de suas azas se arrastaram pelo chão provocando outro alto ruído. Então o couro foi soprado pelo vento, e ele subiu, deixando-a sozinha naquele mar gelado. Olhou para cima, vendo seu filho tornando-se cada vez menor. Mãe de monstros, o sussurro voltou, rastejando para mais perto. Se olhar para trás, estou perdida. Era só o vento falando ao seu ouvido aquilo que pensou. Não. Não, não, não. Eram seus filhos, não monstros.

De repente, a voz de Missandei veio à sua cabeça como um acalento aos seus temores, um toque de carinho e ternura em sua mente: Todos de joelhos para Daenerys Nascida da Tormenta, a Não Queimada, Rainha de Meereen, Rainha dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Khaleesi do Grande Mar de Grama, Rompedora de Correntes e Mãe de Dragões. Dany estava vestida em suas orelhas de abano mais uma vez, mas as franjas do Tokar a pinicavam e sua bunda doía. Apoiava uma perna em cima da cadeira, e o grande salão da pirâmide se esvaziava de meereenses. Um homem permaneceu no salão, porém, com olhos baixos, agarrado a um saco de ossos.

Não, pensou, não posso ver isso outra vez, não outra vez. O homem virou o saco para baixo e os ossos saíram de dentro dele como uma cascata mortífera, para banhá-la em horror. Dany recuou na cadeira, olhando para os lados; sor. Barristan tocava a empunhadura de sua espada e Reznak mo Reznak tapava os lábios com uma mão trêmula. Por favor, pediu ela, mas continuou a ver ossos jorrando e rolando no chão de pedra da pirâmide, até que, com um baque suave, o crânio enegrecido pelo fogo parou próximo ao seu pé.

Hazzea, recordou-se. Depois de tudo o que lhe aconteceu, do que aquela garotinha sofreu, não quis mais ouvir o nome dela em boca alguma. Pensar que seu filho havia feito aquilo era como sentir mil agulhas atravessando seu corpo, relembrar de forma tão nítida, porém, era ainda mais doloroso. Era apenas uma criança. Na época, tentou criar justificativas em sua mente, isentar seus filhos de culpa, mas sabia bem demais o que eles eram para negar o que seus olhos presenciaram. Jurou para si mesma que não haveria mais casos como o de Eroeh, que seus filhos estariam a salvo, mas quem os salvariam dela e de seus dragões? Hazzea era uma liberta, assim como Eroeh, e ambas morreram por causa de sua ousadia.

— Mhysa — uma voz doce a chamou. Daenerys levantou-se da cadeira com um pulo e todos à sua volta desapareceram. Vazio, o salão da pirâmide se tornou sombrio e um vento soturno uivou em seus ouvidos. — Mhysa — ouviu mais uma vez, mas não havia ninguém. Sua respiração estava pesada, seu peito, comprimido em remorso.

— Hazzea — chamou, mas apenas o eco respondeu: ea, ea, ea... Ofegante, olhou ao seu redor, observando os tijolos coloridos das paredes da pirâmide olharem para ela, acusando-a com olhos multicolores e estreitos em reprovação. — Hazzea — chamou outra vez. — Hazzea? Hazzea...

E os olhos sumiram, enquanto cumes de gelo se ergueram ao seu lado, um lago congelado à sua frente e branco, cinza e azul espalhados para todos os lugares. Olhou para cima, ofegante, vendo o ponto negro que se agitava no céu de chumbo, lançando chamas dançantes para o ar. Voltou os olhos violetas para o lago que brilhava como diamante polido, liso e sombrio. Sou do sangue do Dragão.

Tentou dar um passo, mas a ponta de sua bota deu de encontro com gelo, olhou para baixo, onde uma poça d’água se formava em volta de seus pés. Se permanecesse tanto tempo parada quando estivesse no lago, o gelo derreteria e poderia cair no desconhecido profundo. Moveu-se, sentindo a água entrando pelas laterais do couro. O coração retumbante, respiração acelerada, passos lentos. Seus pés pequenos lutavam para continuar, enquanto ela tremia, não de frio, pensou ela. Medo. Não, não podia temer, encontrava-se longe demais agora para temer.

Quando estava a um passo do lago de gelo, percebeu que, diferente do que viu de longe, sua superfície era irregular, áspera e cheia de armadilhas. Ergueu o pé, mas desceu-o de novo, tornando a olhar para frente com um bico carregado de rancor em seus lábios delicados. Viserion.

Seu filho branco nasceu para ser bom, para voar, livre e destemido. Quando viu aqueles olhos de ouro derretido, algo a tocou o fundo com mãos suaves e, de uma forma estranha, não pôde pensar em nada além de seu irmão. Viserys era mau, beliscava-a, enchia-lhe de medo. Quer acordar o dragão? Ela nunca queria o dragão acordado, porque sabia que quando ele despertava, a fúria se erguia junto. Mas, mesmo com toda a maldade, ele ainda era seu irmão. Vendeu a coroa de sua mãe para garantir que ela não ficasse com fome, ensinou-a sobre sua casa. Casa... Era só isso o que ele queria também, mas agora que ela via Westeros cada vez mais perto, ele estava longe demais. Viserion era para ser tudo aquilo que seu irmão deveria ter sido, mas ele estava morto agora, assim como seu irmão coroado em ouro e sangue.

Não, o sussurro lhe disse. Ele vive. Um arrepio subiu em suas costas, mas não era frio. Não sentia frio desde que renascera com seus filhos. O frio não lhe atingia desde aquele dia que, com suas próprias mãos, asfixiou seu sol-e-estrelas e se deitou com ele em uma pira ardente. Dele sobraram cinzas e ossos enegrecidos, dela, a Mãe de Dragões, a Não Queimada. Mesmo assim, ainda era difícil respirar, não saiba se por causa do ar sombrio que circundava aquele local ou se pelo temor de ver a tumba de seu filho querido.

Ele vive, o sussurro lhe contou mais uma vez.

— Quaithe — chamou ela, virando-se para procurar, mas só enxergou uma nuvem de fumaça fria que se erguia, tão longe e tão pequena quanto a palma de sua mão. — Quaithe — gritou dessa vez, mas só o eco lhe respondeu de novo, aithe, aithe...

Se tinha alguém falando com ela, devia ser a umbromante. Podia vê-la em pé, do lado de sua piscina, na varanda de seus aposentos em Meereen, anunciando a chegada da égua descorada, a traição do senescal... Também se lembrava com frequência das palavras da mulher em Qarth e agora se perguntava se estava aqui, no norte mais uma vez, para poder, realmente, alcançar Poço do Dragões, em Porto Real. Pra andar para frente, terá que voltar para trás, se lembrou mais uma vez. Em todas as previsões que fez, Quaithe se mostrou certa do que dizia. Ainda conseguia ver a chegada dos astaporis depois da destruição, seus homens de confiança lhe dizendo para fechar o portão para que a doença não se espalhasse. Ela não queria fazer aquilo, eles eram seus filhos, mas chegou um tempo que não pôde mais deixar de ver a verdade e os largou do lado de fora dos muros de Meereen para morrerem tragados pelo fluxo sangrento que se espalhava. Agora, se perguntava para que havia feito aquilo, já que, de qualquer maneira, a égua descorada cavalgou muro adentro, matando quem sequer esteve do lado de fora, em contato com os doentes. Ela também viu a traição que se seguiu, o senescal perfumado... e o príncipe.

Quentyn Martell foi consumido pelas chamas de seu filho verde. Raegal estava assustado, ele não queria... Não? Raegal matou um traidor, Quentyn foi em busca dela, da cama dela, mas, quando Daenerys virou as costas, ele soltou seus dragões. Não, Quentyn queria provar seu valor, me presentear com as lanças de Dorne... e se tornar seu rei. Mas aquilo tudo se foi, e agora ela não era mais a mesma, sabia de mais coisas, sabia, inclusive, que não era Quaithe sussurrando com o vento em seus ouvidos.

Deu um passo, ouvindo um suave crac ao pisar no lago congelado com suas botas encharcadas pela neve que se derreteu em volta dela. Era do sangue do Dragão, era o fogo e tudo à sua volta tendia queimar. A respiração ficou ainda mais pesada, como se uma bola de ar a impedisse de respirar direito. Olhou para os lados, mas só via vazio e a nuvem de gelo branco-acinzentada que parecia se aproximar mais e mais dela, crescendo. Uma tempestade vem por aí, pensou ela, mas, em seu íntimo, algo lhe dizia que não era isso que estava vindo. Continuou a andar e, por mais rápida que parecesse estar, era como se nem tivesse saído do lugar. Se olhar para trás, estou perdida. Prosseguiu, um passo e outro, mais um. Parou.

Seu peito subia e descia com força enquanto encarava o lugar onde seu filho afundou. Se lembrava de tudo; o sangue vermelho e dourado misturado com fumaça lambendo o ar, respingando e caindo. O grito de seu filho branco entrando em seus ouvidos e estremecendo sua carne em puro pavor. Devia ter sido eu, pensou. Quem salvará o povo se você morrer?, Tyrion lhe questionou em resposta. Brigaram mais uma vez quando ela resolveu que resgataria Jon, se soubesse que ela voltou para o norte, brigariam de novo. No fundo, sabia que ele tinha razão e que estava se deixando dominar por suas emoções, como quando ainda era apenas uma criança de treze anos. Mas é o meu filho...

O lugar onde Viserion caiu estava desgastado, fino. Não se atreveu a pisar ali, em vez disso, permaneceu olhando, mesmo quando a vontade que sentia era de correr, chamar por Drogon e voar de volta para a galé, nas costas dele. Seus companheiros estariam lhe esperando dentro no navio, Jon a estaria esperando. Três traições, Quaithe a prevenira, já estava livre das três, não estava? Não encontrava uma resposta para isso, assim como ainda não sabia com exatidão o motivo de ter voltado aqui. Seu filho se foi, assim como Drogo, Viserys e muitos outros ainda pereceriam. Estou em guerra, relembrou-se. Antes, a guerra era para tomar seu lar de volta e expulsar os usurpadores que reinavam na cadeira que lhe pertencia, mas agora estava em guerra contra o assassino que levou Viserion. Uma mãe não se esquece.

Aquele lugar não a agradava, mas Daenerys notou que não conseguia se mover. Abriu os olhos, quando os fechou? Uma lufada de ar saiu de sua boca, transformando sua visão em névoa gelada. Virou o rosto para o lado e sentiu seu coração acelerar; a nuvem de gelo a envolvia, de um lado ao outro, na frente e atrás, apertando-a sem a tocar. Metros de distância estavam entre eles, mas era como se sufocasse em suas mãos gélidas e fantasmagóricas.

Não podia deixar aquilo se aproximar mais, precisava sair daqui. Onde está Drogon? Dardejou o ar com olhos violetas brilhantes à procura do dragão, mas a única coisa que via era o céu enevoado com mais uma promessa de neve.

— O Rei da Noite — ouviu-se dizer. Não podia ser, estava sozinha. Aquela criatura vil devia estar em seu covil agora, juntando os cacos restantes de sua tropa de mortos-vivos que ela mesma havia retalhado.

Obrigou-se a dar um passo para trás antes que seus pés derretessem todo o gelo e ela caísse no lago e fosse sepultada junto ao seu filho branco. Fechou os olhos mais uma vez, chamando por seu filho negro; Drogon teria de escutá-la, voltar por ela e levá-la daqui. Desde sempre estiveram conectados, uma relação que cultivaram desde que lhe deu de beber o leite do seu próprio peito. Com a cabeça ainda erguida, abriu seus olhos, mas não viu nada. Será que ele acha que não quero voltar? Ou era ele que não queria mais sair de perto do derradeiro covil de seu irmão?

O frio que rasteja, a voz sussurrou, e Daenerys Targaryen alinhou o rosto para dar de cara com um mar de carnes podres, ossos amarelados e mãos e pés negros.

Tremia, mas não, não podia estar com medo. Lembrou-se das primeiras vezes que montou em Drogon com seu chicote na mão. Quando estava montada em sua prata, Dany batia do lado esquerdo e a égua desviava para o direito, mas quando açoitava Drogon do lado direito, ele ia para o mesmo lado, porque o primeiro instinto do cavalo é fugir da ameaça, mas o primeiro instinto do dragão é aniquilar o inimigo. Não podia temer.

A grande nuvem gelada se dissolvia enquanto mais caminhantes brancos apareciam lá e cá, atrás e na frente, formando um largo anel em volta dela. Como não os ouvi chegar?

O frio que rasteja, ouviu o sussurro outra vez.

O inimigo a observava, calmo, silencioso, parado. Estavam tão quietos que pareciam esculpidos em madeira. Engoliu em seco e a fumaça gélida que saía de sua boca se tornou cada vez mais espessa ao passo que sua respiração se tornava mais forte e seu coração quase lhe saltava da boca. É um exército, percebeu. Mas não era como o exército que viu quando foi resgatar Jon, era mais numeroso agora. Como? Aquele grupo que enfrentaram devia ser apenas uma parte dos homens mortos que o Rei da Noite mantinha consigo. Mas o que tantos deles faziam aqui agora? Teriam visto Drogon? O coração de Dany perdeu uma batida, dor, era tudo o que sentia. Olhou para o alto mais uma vez, desesperando-se.

— Onde está? — questionou com voz trêmula. — Drogon, cadê você?

Girou seus calcanhares na água empossada que seu calor derreteu, olhando para o céu que rodava acima de sua cabeça. Mas não viu seu filho negro. Parou, sua respiração doendo em seus pulmões, ofegando alto.

Sou do sangue do Dragão. O dragão não tinha medo, o dragão enfrentava. Encarou os rostos mortos daquela multidão de caminhantes brancos e imóveis. Pedaços de ossos afiados como adagas despontavam da carne de uns, com pontas afiadas o bastante para rasgarem-na de cima a baixo. A respiração pesada de Dany enchia o ar com nuvens branco-acinzentadas, enquanto aqueles que a cercavam não produziam calor algum. Deu mais um passo para trás, saindo de mais uma das poças que seu calor formou.

O frio que rasteja.

Daenerys se virou de uma só vez ao ouvir um barulho. O frio que rasteja, entendeu ela ao ver os caminhantes se esfregando contra o gelo, puxando as partes moles e soltas de seus corpos enquanto abriam uma brecha no círculo que formaram: um paredão de mortos-vivos. Posso correr, pensou ela. Posso aproveitar que estão se afastando para me enfiar nessa passagem e fugir. Mas sabia que essa esperança era tola; se tentasse passar por ali, os caminhantes brancos a agarrariam e a transformariam em farrapos.

Sua respiração ficava cada vez mais rápida e alta. Os caminhantes brancos pararam. Dany tentou olhar por entre o caminho de carne podre, ossos, mãos e pés negros, mas não conseguiu ver nada além de mais e mais deles, a perder de vista.

Bum, bum, bum, tocava o tambor em seu peito, mas não ouvia um som além desse. Colocou a perna direita na frente da esquerda, cruzando-as. Deu um passo dançante para o lado, olhando de frente para o buraco deixado no anel de mortos. Seu coração parou.

Alto e imponente, um ser surgia. Enquanto as peles dos caminhantes brancos eram congeladas, a dele era o próprio gelo. Olhos em um azul profundo, morto e ao mesmo tempo vivo o suficiente para fazê-la sentir-se pequena. Os passos dele eram silenciosos, lentos, ritmados, fortes. A armadura era gelo em aço polido, reluzindo mesmo sem que o sol o beijasse, bebendo o frio. Em sua cintura, uma espada pendia, em vez de guardada em couro, era mantida por uma espécie de diamante congelado; tudo nele era puro gelo mentiroso, fingindo ser aço e carne. Pequenos chifres brotavam da cabeça dele, apontando para trás. Linhas finas marcavam seu rosto, como se fossem rugas ou cicatrizes de batalha, e os lábios finos e largos eram duros, secos, firmes, e de suas mãos garras negras brotavam de onde deveriam sair as unhas, eram como as garras de Drogon. Mesmo sem uma coroa, ele reinava. Dany tremia.

Firmes, um após o outro, os passos continuavam, adiante e adiante, em direção a ela. Daenerys não se movia, não podia. Deuses, salvem-me. Mas ela estava além disso agora, entrou no reino de seu inimigo e estava cercada pelo exército dele, ninguém a salvaria, deus nenhum era tão bom assim.

— Meus filhos — sussurrou de repente, mas, dessa vez, não era em seus dragões que pensava, mas no seu povo, em seus libertos e nos westerosis.

Dany viu aquele gigante humano em gelo crescendo em direção a ela, passo a passo, segundo a segundo, sentindo-se cada vez mais impotente por não conseguir fazer nada. Preciso correr, mas para onde? Para qualquer lugar que fosse, cairia nas mãos dos caminhantes brancos. Então preciso me mover. Sob seus pés, o gelo transformava-se em mais uma possa de água, mas Dany sentia-se condenada à morte, pois seu corpo não a obedecia.

Então rápido, feroz, ele chegou. Parou à sua frente, centímetros os separando, mas o vento a jogava na direção dele, como se quisesse uni-los. Uma tempestade, pensou, mas, mais uma vez, sabia que não era isso. O vento veio com ele, era seu escravo.

— Desgraçado! — gritou, ele sorriu. Um riso sombrio e horripilante, mostrando dentes brancos e alinhados como Dany nunca vira antes.

Crac. Dany olhou para seus pés, o gelo cedendo sob sua bota cinza e encharcada. Quando ergueu os olhos, uma mão enorme estava em sua cara, tentou se desviar, mas sentiu o beijo do toque em seu pescoço. Arfou, queimando. Os dedos congelados se fecharam em sua garganta, e queimavam-na.

Daenerys sentiu seus olhos tremularem ao encarar os olhos azuis da criatura enquanto fogo subia e descia em seu pescoço. Não, pensou, gelo deve ser frio, não quente. Ela era o próprio fogo, era a mãe dos dragões, a não queimada, ela devia queimar, mas era ele quem a torrava por dentro e por fora.

Uma pressão se fez em sua mandíbula e Dany agarrou o braço do Rei da Noite com suas duas pequenas mãos, batendo nele enquanto era erguida no ar como se não pesasse mais do que uma pluma. Suas botas encharcadas davam chutes no ar. A cabeça da criatura se ergueu para olhá-la, sério, obstinado. Dany percorreu os olhos pelo mar de caminhantes brancos à sua volta, tentou falar, mas mal conseguia respirar, sua garganta se tornando cada vez menor.

Monstro, quis gritar, ou gritou, não sabia. Monstro, monstro, monstro. Enfiava suas unhas no gelo do braço dele, mas só conseguia se ferir, chutava e chutava, mas não o acertava. Então estacou no ar. Os olhos mortos a lhe vigiarem. Viserion. Ele vive, recordou-se da voz lhe contando, e entendeu. Meu filho, você transformou meu filho em um monstro.

Sentiu-se tonta, fechou os olhos por um instante e, quando os abriu, estava em Meereen de novo. Embaixo da pirâmide, as portas do poço ardiam e brilhavam. Mesmo assim, Dany as tocou. Era o fogo de seus filhos, eles eram fogo, ela era fogo, e o fogo não era mais do que um doce beijo para ela. O cadeado estava aberto, tocou-o, puxando as correntes e ouvindo o tilintar do aço contra o chão. Puxou a imensa tranca para o lado e empurrou as portas com força.

Fogo vermelho salpicado em verde brilhava e rodopiava no ar. Rhaegal se debatia em suas correntes enquanto mordiscava um pedaço de osso quase do tamanho de Dany. Ela olhou para os lados e para trás, mas estavam sozinhos. Não, pensou, então olhou para cima, onde a parede se encontrava com o teto. Um buraco havia se formado ali, escavado com unhas e fogo, e Viserion se pendurava de ponta-cabeça. Ele abriu as asas de couro branco, silvando. Soltou-se de repente, batendo as asas uma, duas vezes, apagando as chamas de Rhaegal, mas o dragão verde cuspiu mais uma rajada de fogo, iluminando o local mais uma vez.

— Meu filho — disse Dany emocionada, e aproximou-se. Estendeu a mão, alcançando a boca imensa do dragão. Viserion moveu a cabeça como uma cobra ao se desenrolar no ninho, deixando-se tocar. As escamas ásperas roçando nos dedos delicados de Daenerys, quentes e aconchegantes. — Senti tanto, tanto sua falta — falou, abraçou aquela cara gigante e encostou seu rosto no dele, sentindo o fungar fumacento que saía das narinas de seu filho, que nublava o lugar.

Tudo aqui cheirava a enxofre, carne torrada, sangue e fogo. Era o cheiro deles, era o cheiro dela. Seus olhos violetas se encontraram com o dele, o ouro derretido de sua alma, o acalento de seu coração. Então, de repente, uma nuvem de fumaça tomou o lugar, Dany tentou agarrá-lo com mais força, mas seus braços encontraram seu próprio corpo. Tossiu, balançando as mãos, afastando a fumaça. Olhou para trás e viu fogo rodopiando em vermelho e dourado; o fogo de Viserion, mas onde ele estava?

Um baque ecoou por todos os lados, fazendo-a tapar os ouvidos e fechar os olhos. Quando os abriu, estava sozinha no poço, as portas fechadas, e uma gargantilha de aço a agrilhoava à parede.

— Não! — gritou. — Não, não!

A respiração presa na garganta, o mundo a girar à sua frente. Deu de cara com um mar em um profundo azul, turvo. Sua visão foi se adaptando aos poucos, até que percebesse que não era mar algum. O Rei da Noite a mantinha presa, agarrado à sua garganta, com força. Fechou os olhos, recordando-se do poço mais uma vez, tentando retornar àquela visão, mas a única coisa que viu foi a longínqua lembrança dos ossos caindo no salão de Meereen. Hazzea. Aquela garotinha morreu queimada pelo fogo de seu filho negro, e Daenerys acorrentou Rhaegal e Viserion naquele poço, enquanto Drogon fugia dela. Naquele dia, ela percebeu que se seus filhos eram monstros, então ela também era um.

Abriu os olhos, sentindo seu corpo descendo e descendo, o rosto da criatura à sua frente tomando traços menos rijos conforme o corpo dela ia em direção ao lago congelado. As pontas de suas botas molhadas tocaram o gelo, e depois se firmou por completo. A mão em gelo e fogo a soltou, lento, calmo, e Daenerys colocou suas próprias no lugar, ainda sentindo o calor do Rei da Noite em si.

— Você devia ser frio — ouviu sua voz dizer.

— O gelo queima — respondeu ele, a causando um arrepio profundo na espinha. A voz era o quebrar do gelo e o correr das águas. Dany arregalou os olhos, pisando em falso, ele a segurou pelo cotovelo.

— Quer me matar. Que faça de uma só vez.

O riso dele encheu o ar, e o coração de Daenerys perdeu o compasso.

— Está zombando de mim — concluiu ela entredentes.

— Zombar?

As pedras de gelo que eram os dedos dele se apertaram em seu cotovelo com mais força, e Dany se contorceu, mas ele logo afrouxou o aperto. Com a cabeça baixa, sentiu seus olhos se enchendo de lágrimas. Sou do sangue do Dragão. E dragões não choravam. Ergueu os olhos com imponência, sentindo... quente e frio profundo, uma mistura de horror e desejo, sangue e gelo, sangue e fogo, misturando-se em uma dança; lábios contra lábios em uma batalha inerte. Quando a boca dele se separou da sua, ela gritou, sentindo a pele de seus lábios desprenderem-se.

Quente, sangue escorreu em seu queixo. Dany ergueu a mão e tocou a ferida, notando que o Rei da Noite a encarava, sério. Por quê? Ele não devia ter feito aquilo, ela era o fogo, ele o gelo, ela o bem, ele o mau, ela a luz encarnada, ele a escuridão infernal.

— Vou matar você — disse ela —, vou te destruir, acabar com seu exército frio e rastejante.

— Não agora. Agora, se eu quisesse, te mataria.

— Se quisesse...

— Não percebe?

O quê? Ela não entendia. O que ele queria dizer? Daenerys olhou para os lados, vendo os rostos descarnados observando-a, imóveis. Claro, era isso. Era seu trono, seu povo, seu khalasar. Isto que ele queria: o que a tornava uma rainha. Sua mente viajou para seu sol-e-estrelas, fechou seus olhos, sentindo mais uma vez lábios a tocarem, mas eram os de Drogo agora. Fortes e vorazes, sugando sua língua, devorando-a. O homem que a mostrou o que era ser uma governante de verdade.

Seus corpos cederam e deitaram-se sobre o mar dothraki. O khalasar inteiro ao seu redor, observando-a enquanto era devorada por seu khal. Deslizou por cima dele, montando-o. As mãos fortes de Drogo rasgaram suas calças de sedareia branca, enquanto as dela percorriam o corpo nu dele. Tão quente, tão forte. Onde você estava?, quis perguntar, mas não havia espaço para palavras no meio daqueles beijos.

Os dothraki assistiam com olhos ansiosos, enquanto ele escorregava para dentro dela. Os senhores dos cavalos costumavam montar nas mulheres como os cavalos faziam com as éguas, mas, naquele dia, ela montava seu Khal. Sentia a brisa fria tocando sua pele enquanto rebolava em cima dele. Foi naquele dia que conceberam seu filho, o Garanhão que monta o mundo, o Khal dos Khals. A Esperança do khalasar, o Khal que domaria as águas envenenadas e tomaria o trono de ferro.

Enterrou as unhas no peito dele, agarrando-se a aço em gelo e fogo, abriu os olhos para se deparar com um céu sem estrelas, cinza, e um ponto negro rodopiando com chamas ao redor. Drogon... Abaixou os olhos, deparando-se com os caminhantes brancos, silenciosos e imóveis a olhá-la. Seu íntimo ardia e latejava como se fogo e sangue se comprimissem dentro de si em uma pressão absurda. Sua cintura, mantida com mãos fortes como ferro, quente. Olhou para baixou, tentou gritar, mas seu corpo não a obedeceu, fechou os olhos de novo, e agora aquelas eram as mãos de Daario. Seu mercenário, tão quente e fervoroso como se lembrava, seu amante, seu... seu. Contorceu-se. Não podia fazer isso, não podia ter prazer, não desse jeito, não com esta criatura. Era tarde demais. Seu corpo, sem forças, tremulava sobre o dele. O lago de gelo soltou um crac, Dany gemeu.

Ofegante, abriu seus olhos. A mão de gelo e fogo a agarrar sua garganta como uma coleira de aço. O Rei da Noite a encarava, erguendo-a no ar. Não. Como? Como?... Seu corpo todo tremia, mas a única coisa que sentia era calor. O que está acontecendo? Em um instante montava e gemia em cima do inimigo, no instante seguinte estava suspensa pela mão dele outra vez. Não, ele me colocou no chão, ele falou comigo. Falou?

Maegi, uma voz sussurrou. Ela não era maegi coisa nenhuma, a única bruxa que conheceu foi queimada viva na pira de seu sol-e-estrelas, perdeu a vida enquanto seus dragões nasciam. Maegi, o sussurro insistiu. O Rei da Noite começou a abaixá-la devagar, Dany encontrou o chão com dificuldade, cambaleante, sem fôlego, cansada.

Maegi, a voz chamou outra vez. Encarou a criatura da noite à sua frente, lutando para conseguir respirar normalmente. Maegi, Dany olhou para o lado, assustada, procurando pela voz. Maegi, outras vozes se juntaram em um coro sussurrante.

— Maegi — as vozes entoaram, e Dany percebeu que eram os caminhantes brancos que falavam. — Maegi, maegi, maegi...

— Não! — gritou, usando as mãos para tapar os ouvidos, mas as vozes não paravam.

— Maegi, maegi, maegi, maegi, maegi...

Daenerys olhou para cima, Drogon vinha em sua direção, quis gritar para ele, quis pedir para que ficasse longe, mas sua garganta falhou. Caiu de joelhos no lago congelado, fechou os olhos, escutando e escutando e escutando. Parou.

Por uns segundos, Dany permaneceu com os olhos fechados e com os ouvidos tapados. Teve medo de ouvi-los de novo, de vê-los outra vez, de erguer os olhos e dar de cara com o Rei da Noite rindo de sua fraqueza. Sou do sangue do Dragão. E o dragão não teme, devia enfrentar. Ergueu os olhos, mas a única coisa que viu foi uma nuvem branco-acinzentada se afastando cada vez mais. Soltou o ar de seus pulmões, aliviada. Ao seu lado, Drogon silvou. Dany mal podia se conter de felicidade, seu filho negro estava aqui para ela, ileso.

Agarrou-se nas escamas duras como chifres de mamutes do dragão, subiu em cima dele e olhou para frente e além. Um sonho, foi só um sonho. Não seria o primeiro pesadelo que tinha. Reis e rainhas veem terror noite e dia. Por que seria diferente com ela?

Olhou para o céu em chumbo, pensando no que lhe aguardava quando voltasse à galé. Navegariam até o Poço dos Dragões, em Westeros, e enfrentariam a rainha usurpadora. Chegarei atrasada. Mas não ligava, estaria lá. Via, mais do que nunca, a importância da trégua. O Rei da Noite levou seu filho branco, mas ela tinha outros dois que o vingariam... e Jon a esperava. Dany, ele a chamou, minha rainha, consertou em seguida, prendendo seus dedos nos dela, impedindo-a de se levantar.

— Drogon... — disse ela, está na hora da conquista, deixou por dizer.

Preparou-se para incitá-lo a alçar voo quando sentiu algo quente escorrendo em seu queixo. Seus dedos tatearam o local e voltaram cheios de sangue. Não. Foi só um sonho. O meio de suas pernas eram fogo, mas sempre se sentia aquecida em cima de seu dragão, ainda assim, abaixou os olhos. Sua calça estava rasgada. Não.

Maegi...


25 de Setembro de 2020 às 23:44 17 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Karimy Lubarino Sou preparadora e revisora de textos literários, além de coordenadora da Embaixada Brasileira do Inkspired. Meu compromisso é cuidar do seu sonho garantindo intimidade entre seu leitor e seu livro por meio da língua portuguesa. Siga-me no insta e conheça mais sobre meu trabalho. @karimyrevisa

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