Heart’s on Fire Seguir história

thekatsukishiro Theka Tsukishiro

A promessa de um amor eterno é posta em xeque pelo destino. Um elo denso e, de repente, a guinada. Até que ponto este será capaz de manter um coração aprisionado?


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 21 anos apenas (adultos). © Reservados

#angst #romance #Camus #Milo #ua
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Para sempre seu - Parte 1

Fic postada originalmente em 2010


Advertências: Sexo. Universo Alternativo, angst (um pouco), Deathfic, romance e não apropriada para menores de 18 anos. Fic presente de Amigo Secreto SSDreams 2009 Para Virgo-chan. Originalmente posta em 12/01/2010.

Disclaimer: Saint Seiya não me pertence... Pertence sim ao tio Kurumada e etc, etc e etceteraetal. Se você não gosta de Yaoi e Lemon (cenas de sexo entre homens) não comece a ler essa fic. Pode fechar ali em cima no xizinho, ou mesmo clicar em voltar em seu navegador, pois não vou aceitar nenhum tipo de reclamação ou comentário maldoso. Ler é por sua conta e risco. Essa fic é sem fins lucrativos, apenas para diversão minha e de quem ler.

Agradecimentos: Agradeço à minha beta e amiga querida, Nana por sempre estar presente nas horas mais inusitadas, mostrando-me que eu conseguiria sair das maluquices em que eu me colocava. Também quero agradecer a Eliz (Shiryuforever94) por muitas vezes aturar minhas neuras e me dar uns toques e por último, mas não esquecida; a minha irmã Tay-chan por que... Ah bem... Ela sabe! Adoro vocês!


Virgo-chan

Confesso que quando comecei a escrever essa fic, nem me passou pela cabeça que ela poderia ficar desse tamanho. Querida Virgo, espero que goste do que acabou de ler. Tentei muito agradar-lhe. Se por ventura não ficou de seu agrado, peço que me desculpe, pois não tenho costume de unir ao casal Poison e Ice o geminiano gostoso. Tentei, pelo menos posso dizer que tentei! E me sinto realizada.

Mais uma vez espero que goste.

Beijos de sua amiga não mais secreta.


oOoOoOo


Verão de 2007 – Grécia

Por mais que estivesse no país há mais de sete anos, ele não conseguia acostumar-se com as temperaturas elevadas daquela estação. Voltou seus olhos para os lados. Os óculos de sol protegendo-lhe a visão. Constatou que estava sozinho. Caminhou alguns poucos passos e parou fixando o olhar em um ponto, mas não um qualquer. Fechou os orbes castanho-avermelhados tentando forçar-se a não acreditar em nada do que estava passando, mas acontecera não? Suspirou.

Voltou seu rosto para o céu azul, límpido. Nem mesmo a leve brisa refrescante amenizava a tortura à qual era submetido. Fitou a rosa em sua mão direita. Rosa de um vermelho escarlate, quase vinho em algumas partes, que era levemente agitada ao sabor da brisa. Levou-a até próximo às narinas, inalou a suave fragrância e, com um beijo nas pétalas sedosas, deixou-a repousando sobre a grossa camada de mármore. Essa é considerada a rainha das flores e consagrada pelos amantes como a flor dos enamorados... Do amor.

“Símbolo do amor!” – Bufou. Não se prendia a essas crendices. Menosprezava-as, assim como fazia com tudo o que lhe parecia subjetivo. Para ele, apenas o racional tinha lógica. Acreditava naquilo que podia comprovar. Nada mais. E, exatamente por culpa disto, agora estava ali. Havia controlado-se até aquele momento. Permanecera impassível, mas não fora tão forte. Uma única lágrima marcara-lhe o rosto alvo. Tinha de manter as aparências. Era considerado, por motivos muito óbvios, uma pessoa fria. Um dos pilotos mais condecorados. O exemplo para muitos aspirantes. Limpou o rosto discretamente.

“Hipócrita! É isso que sou! Não passo de um medíocre covarde!” – Pensou ao volver sua cabeça um pouco para trás. Parado perto dos carros avistou seus amigos. Voltou seus olhos para a rosa e esqueceu-se novamente da presença deles ali. Baixou um pouco a cabeça.

Não devia tê-lo deixado partir. Ignorou os sinais que lhe foram dados. Não seguiu assumindo a responsabilidade quando esta fora necessária. Deixou-o ir. Seu amado! Partiu sozinho e ele não derramou uma lágrima sequer. Não sentiu? Sim, sentiu. Um aperto no peito, um nó na garganta e a impotência de muitas vezes nada dizer-lhe. De não demonstrar seus sentimentos quando necessário.

Sua mente vagou pelo tempo, pelo espaço. Sua vida desde o momento que em terras helênicas chegara, passou feito um flashback. Sentiu-se estranho. Quem costumava divagar era o homem alto, loiro de olhos claros. Músculos perfeitos. Olhar ora doce, ora malévolo. Não era bom. Não era mal. Era, apenas, o homem que amava. Ciente disso, sentia agora a frustração de não tê-lo segurado ao seu lado, de não ter conseguido convencê-lo de não fazer aquilo. De não partir.

Deixou que novo suspiro escapasse de seus lábios. Fincou os olhos na rosa sobre o granito. O vermelho sedoso remetendo-o para um tempo onde tudo ainda era diferente. Onde seu coração ainda não havia sido quebrado e debilmente ferido. Parecia até que, ao fechar os olhos, poderia ouvir o tão conhecido barulho de seu antigo bimotor. Deixou que a lembrança o tomasse e o arrebatasse para um lugar um tanto mais calmo.

o~o~o~o

No silencioso infinito azul, borrões cruzam os céus. A paz e a tranquilidade sendo quebradas pelo barulho de duas aeronaves cortando as nuvens e vencendo a distância que separa a França da Grécia. As hélices dos bimotores girando velozmente impulsionavam-nos para que logo chegassem ao seu destino. As cores berrantes, vermelho e amarelo, faziam que os hidroaviões lembrassem dois borrões vistos de terra firme.

Dentro, homens valentes que arriscavam suas vidas em prol do próximo. Intrépidos combatentes terrestres das chamas e dois cavaleiros alados em seus reluzentes bimotores. Pelo rádio, comunicavam-se pouco e só o faziam para passar o tempo. A viagem não era longa, mas estavam sobrevoando as águas azuis do mar Adriático* já há algumas horas.

Os melhores entre os melhores haviam sido escolhidos para que fossem prestar auxílio no que poderia ser considerada a maior das calamidades daquele ano em terras helênicas. Muitos países estavam prestando socorro à Grécia para controlar e extinguir as áreas de queimadas, mas as altas temperaturas e os incêndios propositais estavam quase destruindo toda uma parte de floresta nativa e chegando a pequenas cidades, ameaçando a vida da população local.

Todos estavam cientes dos perigos que enfrentariam, mas mesmo assim ali estavam: prontos para levar esperanças e tentar conter uma desgraça que poderia ser maior. Ao avistarem a costa grega, novamente o rádio foi acionado.

- Roux, estamos quase lá. – A voz levemente rouca invadiu-lhe os ouvidos pelos fones.

- Oui, eu já tinha visto, Blond. Creio que pelos meus cálculos, mais uns vinte minutos de voo e estaremos sobrevoando a base da Brigada de Incêndio Grega de Corinto. – Respondeu ao olhar os instrumentos. Ao longe, nuvens negras carregadas de fuligem podiam ser vistas a noroeste. O contraste com o céu límpido era gritante. – Pelo visto, teremos muito a fazer. – Comentou ao acaso.

- Tem razão, mon ami. Mas estou pronto para bombardear esse ‘foguinho’. – Riu debochado ao pronunciar a última palavra.

Revirando os olhos, o primeiro piloto fez uma leve manobra alterando o curso. Foi seguido prontamente pela segunda aeronave. Blondentendia perfeitamente que quando seu amigo Roux nada dizia era com certeza por que deveria ficar quieto. Ele estava concentrando-se para a nova missão e não deveria ser atormentado. Muito sério e competente, com apenas vinte e dois anos já era reconhecido no que fazia, e fazia muito bem.

Deixando a imensidão azul do mar, os dois bimotores Canadair CL-215 começaram a sobrevoar terra firme. Muito pouco comunicaram-se entre si para prestar atenção às coordenadas que eram passadas pela torre de comando do aeroporto de Corfu. Desviados das rotas de aviões comerciais e de voos domésticos, em pouco tempo Roux e Blond avistaram ao longe o canal de Corinto.

- Monsieurs, estamos chegando. – Avisou ao resto dos homens que acomodavam-se entre muitas coisas dentro do bimotor. – Foxtrot – Charlie – Bravo – dois – cinco – um, procedente da base de Paris pedindo permissão para pousar, over. – O leve sotaque francês misturado ao inglês, o tom frio e impessoal. Estava a serviço e a seriedade sempre fora uma de suas mais marcantes características.

- Foxtrot – Charlie – Bravo – dois – cinco – dois, solicitando também permissão para pousar, over. – Blond identificou-se, também esperando receber as coordenadas para o pouso.

- Avião Foxtrot – Charlie – Bravo – dois – cinco – um. Favor pousar na pista um à sua direita. Foxtrot – Charlie – Bravo – dois – cinco – dois. Favor ficar no aguardo enquanto a pista dois é liberada, over. – O controlador da base remexeu-se na cadeira. Os olhos ávidos e muito azuis acompanhando a aproximação das duas aeronaves no radar. Pressentindo que não estava mais sozinho, voltou-se para saber quem era e abriu um leve sorriso. – Eles chegaram, Mask!

O italiano, que há mais de cinco anos encontrava-se no grupamento, voltou seus olhos para as grandes janelas da torre. No horizonte, já podia-se ver as aeronaves, pequenos borrões no infinito azul.

- Hmm... – Grunhiu ao coçar o queixo. Os olhos estreitos. Os óculos de sol protegendo-os contra os raios fortes do sol do meio dia. – Estão chegando em boa hora, Sentry! – A voz grossa, o olhar arguto por sobre os óculos. O barulho chamando a atenção de ambos.

- Oh, droga!

- O que está acontecendo? – Perguntou Mask. Aproximou-se do radar e localizando o ponto brilhante com a identificação do Bombardier 415 de Voyage. – Sentry, eles estão em rota de colisão. – A voz alterada, o semblante carrancudo.

- Sierra – X Ray na escuta? Manobra de retorno à direita agora, over! – Sentry não desviava os olhos da tela do radar. Ele não esperava que Voyage voltasse tão cedo. – Sierra – X Ray... Voyage? Você está na escuta?

Com um binóculo, Mask voltou as poderosas lentes na direção do hidroavião. – Caspita! Ele está sem rádio! – Disse ao notar a falta da antena acima da cabine do piloto. Ágil e sem muito pensar, o italiano sentou-se ao lado do controlador de voo, plugou um dos fones e observou quanto tempo tinha. – Foxtrot – Charlie – Bravo – dois – cinco – um. Favor arremeter à esquerda e subir para quatro mil pés! Arremeter à esquerda e subir para quadro mil pés, over!

Nos céus, Roux arregalou os olhos ao ver-se em linha de colisão com o Bombardier. Ao escutar as ordens da torre de comando, puxou o manche o mais rápido que pode e virou à esquerda fazendo o Canadair ganhar altitude.

- Entendido. Over! – Respondeu sem demonstrar o que estava sentindo.

Acompanhando a tudo pelo radar, Sentry e Mask levantaram-se das cadeiras e seguiram para a janela lateral com o intuito de terem certeza de que nenhuma fatalidade fosse ocorrer. Os dois hidroaviões desviaram com alguma sobra de espaço evitando assim o acidente. Após trocarem uma rápida olhadela, Sentry deixou o italiano e voltou para seu posto. O ar escapando lentamente de seus pulmões.

- Torre de comando o que estão tentando fazer? Estou com quinze pessoas dentro deste Canadair. Over. – Roux reclamou. A voz fria não revelando a raiva que estava sentindo.

- Foxtrot – Charlie – Bravo – dois – cinco – um, ao que parece um dos nossos está com pane no rádio. Aguarde até nova liberação, isso também serve para você dois – cinco - dois, over. – Sentry bufou e fechou o canal do rádio assim que ouviu uma resposta afirmativa do segundo bimotor. Com os olhos, procurou pelo italiano sisudo que há pouco havia assumido o comando da base. Ele apertava fortemente o cabo do fone de ouvido nas mãos. Sabia só de vê-lo daquele jeito que estava bravo e muito bravo. – “Céus! Voyage que se cuide!” – Pensou. O piloto em questão era um dos melhores, para não dizer o melhor e, até mesmo por isso, sempre passava dos limites, colocando em risco sua vida e o patrimônio da nação. Voltou seus olhos para o radar. Os dois hidroaviões franceses voavam em cíirculo sobrevoando a uma altura de mais de quatro mil pés sobre o campo. O silêncio dos pilotos para ele nada dizia, mas o de Mask sim. Levantou-se da cadeira e parou a poucos passos dele. – Mask... Eu sei que não tenho desculpas. Eu me distraí por dois segundos e...

- Sentry, não aconteceu nada. Só peço mais atenção. Você sabe que é nosso melhor controlador de voo. – Deu um meio sorriso, mas ao escutar o Bombardier pousar, saiu sem dizer nada. Voyage iria ouvir mais uma vez.

Assim que a pista dois foi limpa e desobstruída, o controlador informou ao segundo hidroavião que este poderia pousar na pista em questão. Em seguida foi a vez de liberar o pouso na pista um para o outro hidroavião que tivera de arremeter.

Após taxiar e desligar os motores, Roux fez a checagem dos instrumentos. Os bombeiros que havia trazido já se encontravam retirando suas coisas do interior do hidroavião e quando este finalmente saiu, encontrou Blond e outro homem conversando.

- Roux, venha! Esse é Enzo Ferruccio, ou Mask. Ele é quem está no comando aqui na base. – Blond chamou o amigo e fez as apresentações.

Estreitando os olhos, Roux aceitou a mão que lhe era oferecida.

- Seja bem vindo. – Saudou-o.

- Merci! Mas o que raios aconteceu? – Perguntou sem demonstrar seus verdadeiros sentimentos e ocultar a vontade que tinha de voar no pescoço do piloto imprudente. Não era de se deixar levar, mas naquela situação tinha de apurar os fatos. Era o responsável naquela missão e não queria deixar que nada prejudicasse o bom andamento.

- Roux, s’il vous plaît! – Blond revirou os olhos. Eram difíceis os rompantes do amigo, mas não raros.

- Como ia dizendo ao Blond... – Mask continuou não fazendo conta do comentário do recém chegado. – É uma dessas coisas que acontecem e não existe explicação. – O rosto impassível. Nos olhos, o brilho calmo, mas nos lábios um sorriso demoníaco.

Roux estreitou os olhos, o que chamou a atenção de Mask e de Blond. Os olhos frios cravaram-se no piloto que se aproximava. A desconfiança era inevitável. O homem alto, cabelos loiros longos presos em um rabo de cavalo baixo, parou ao lado do responsável do local. O macacão vermelho com o símbolo da força aérea Helênica era a única diferença para os que os franceses estavam usando.

- Eu gostaria de desculpar-me com o piloto do Canadair que quase me choquei. – A voz máscula, os olhos azuis esverdeados brilhantes. A boca carnuda em um meio sorriso jocoso. Quem resistiria ao charme daquele homem? Ele sabia do que podia fazer e exercer sobre homens e mulheres, mas o que via naqueles olhos frios... Ah! Talvez ele houvesse encontrado alguém imune ao seu poderio. À sua sensualidade.

- Deveria era tomar mais cuidado. – Roux mirou-o de soslaio. Os olhos castanhos quase avermelhados ganhando um brilho frio. – Sua imprudência poderia ter causado um grave acidente.

- Hei! Tive um pequeno problema com a antena de minha aeronave. – Estreitou os olhos e fixou-os na identificação do outro. – Roux, enquanto você estava cruzando um oceano, eu já estava ajudando a equipe de terra a dar um jeito naquele inferno. – Apontou na direção contrária. Na voz, o timbre irônico. – Nessa nossa profissão temos de arriscar tudo. Vidas dependem de nós.

Mask estranhou aquela troca de gentilezas entre os dois. Em outros tempos, poderia até achar graça e colocar mais lenha na fogueira. Mordeu a língua para não fazer um comentário mordaz e, assumindo um ar sério, até mesmo perigoso, meteu-se no meio de ambos.

- Creio que temos muitas coisas para nos preocuparmos agora. Vocês precisam de um descanso para poder entrar em ação. – O italiano estava a ponto de perder a paciência com aqueles dois. – Vou pedir para alguém levá-los até os alojamentos. E você... – Voltou-se para Voyage com cara de poucos amigos. – Temos de conversar mister Evel Knievel! – Ao avistar um dos mecânicos fez-lhe sinal. – Podem seguir ao Doc, ele os levará aos alojamentos. – E sem mais nada dizer, saiu fazendo com que Voyage o seguisse.

Roux ficou por algum tempo parado observando o aviador grego afastar-se. Estava irritado com ele e ao mesmo tempo intrigado.

o~o~o~o

A recordação parecia fundir-se à vida real... Ao tempo real. Ele parecia ouvir a voz de Blond chamando-o, mas não lembrava em nada o timbre afrancesado do amigo. Já fazia tanto tempo que não se viam, mas nunca confundiria a voz dele. Sentiu um toque em seu ombro e balançou a cabeça antes de voltar os olhos para o lado.

- Roux, o que foi? Podemos ir embora?

- Pardon, Sentry... – Desculpou-se. – Estava apenas pensando um pouco. Ainda não consigo entender, mas ele preferiu assim, não? – Com uma última olhada para a rosa, o francês acompanhou o amigo e sem mais nada dizer, entrou no carro da base. Não olhou para trás.

Mask já encontrava-se ao volante e assim que o controlador sentou do lado do carona, saiu com o carro lentamente. Pelo espelho retrovisor, observou as feições de Roux. Ele não queria demonstrar, mas estava na cara que seu silêncio era por que estava fechando-se em seu mais profundo ser.

- Camus... – Pigarreou para limpar a garganta.

Ao ouvir seu nome e não o codinome, o ruivo sabia que a coisa era muito séria.

- Todos nós já passamos por algo parecido, não é algo que possa ser esquecido de uma hora para outra e... – Mask fez uma pausa.

- Enzo, já sei o que vai me dizer, mas eu não quero ficar em terra. Estamos enfrentando altas temperaturas e temos focos de incêndio espalhados para todos os lados do território grego. Use o bom senso! – Fez uma pausa.

“Céus! Lá vem ele com o uso do bom senso!” – Pensou Afrodite ao remexer no banco do carona.

- Use o bom senso você! – Mask atalhou-o. – Eu não estou falando como um amigo, estou falando como seu superior e lhe dando uma ordem. – Os nós dos dedos tornando-se esbranquiçados por segurarem muito forte no volante. Se pudesse, torceria o pescoço daquele empoado. – Está afastado até segunda ordem. – Grunhiu dando fim ao falatório. Ou tentando dar um fim.

- Mas Mask...

- Sem essa de: Mas Mask! – Parou o carro no acostamento e voltou-se para trás. – Você viu o que aconteceu ao Hunter, não viu? Não quero perder outro piloto para o medo e está fora de discussão seja lá o que queira me falar. Tire esse tempo de folga, temos pilotos vindo de outros países para nos ajudar. – Voltou-se para frente e com o canto dos olhos procurou apoio em seu namorado.

Afrodite esticou a mão e tocou lentamente a coxa de seu italiano. O gesto não passou despercebido ao francês. Seu coração falhou uma batida. Controlou a vontade que tinha de deixar as emoções tomarem conta de si e cravou as unhas nas palmas das mãos.

Ele precisava mostrar que conseguiria exercer suas funções mesmo com a partida de Voyage. Pensativo, Camus nem viu quando Mask parou o carro em frente à sua casa. Era tão estranho voltar para lá. Tudo ficara tão vazio...

- Pronto, Camus! Espero não ver sua cara na base por um bom tempo. Pelo menos até que você sinta-se apto a voar novamente, mas fique uns dez dias descansando. – Mask voltou-se para olhá-lo.

Fuzilando-o com os olhos por cima dos óculos de sol, o francês desceu do carro sem nada dizer. Ele tinha muito no que pensar e voar estava tornando-se o menor dos seus problemas.

Assim que o carro entrou em movimento, Afrodite voltou seus olhos para Mask.

- Tem certeza que fez a coisa certa? Precisamos dele e da experiência que tem. – A voz calma e levemente rouca.

- Mia flor, já não tenho certeza de nada. O jeito é esperar. O tempo é o melhor remédio para que as feridas sejam cicatrizadas.

oOoOoOo

Atenas – Horas antes

Dizem que notícias desagradáveis, notícias ruins e até mesmo constrangedoras não tardam a chegar. Parece até que o vento as impulsionam fazendo com que estas cheguem mais rápido. E foi com certo pesar e relutância em acreditar no que ouviam que as bases da Brigada de Incêndio receberam a notícia da partida de Voyage.

A base situada nos arredores de Atenas foi uma das primeiras a receber o comunicado. Muitos pilotos, mecânicos e até mesmo a alta chefia não acreditavam no que liam. Aquela fora a primeira base de Voyage - à qual sempre regressava quando dele precisavam.

Dizia a boca pequena que o experiente piloto seria convidado para assumir o comando do local tão logo o atual aposentasse. Outros que ele seria instrutor, mas com aquela notícia tudo caía por terra.

Dentre todos na base, Venon, um experiente piloto de helicóptero, fora pego de surpresa como todos os outros e sentira muito. Sentira calado, guardando para si a tristeza. Quanto tempo não o via? Quanto tempo fazia que haviam perdido contato? Na verdade, aquilo já não tinha mais tanta importância. Conhecia muito bem Voyage, sabia do que o loiro era capaz e nunca imaginara ouvir nada similar àquela novidade.

“Seu maluco! Disse várias vezes que eu era muito imprudente e veja agora. Você nos deixa quando mais precisamos.” – Pensou enquanto prendia os longos cabelos que lhe cascateavam pelas costas em ondas dos mais belos fios dourados.

Sabia estar atrasado. Acreditava que nem deveria aparecer, mas uma força maior o impulsionava. Devia aquilo a si mesmo... a Voyage! Tinha de estar presente. Colocou o capacete, abriu a viseira e ajeitou os óculos de sol. Olhou para seu helicóptero parado ao longe. Havia perdido as contas de quantas vezes ajudara indo e voltando dos arredores da cidade, lançando litros e mais litros de água nas labaredas que lambiam as árvores, toda a vegetação rasteira e o que quer que se encontrasse em seu caminho.

Estreitou os olhos. Fora ele quem o salvara...

Passou habilmente a perna direita por sobre o tanque da moto preta esportiva. Acomodou-se no acento. Voltou mais uma vez seus olhos para o helicóptero. Um sorriso jocoso iluminou-lhe os lábios. O barulho de um hidroavião fez com que ele voltasse os olhos para os céus sobre sua cabeça. Um Canadair sobrevoando o campo. Venon não conseguiu suprimir o saudosismo.

Deu partida na moto e saiu cantando os pneus. O vento entrando pela viseira aberta dava-lhe a sensação de liberdade. Acelerou mais, fazendo o motor da moto rosnar feito um gato selvagem. A velocidade o fascinava. O barulho de um helicóptero voltando à base sobrepôs ao ronco do motor. Parou à saída da base. Voltou os olhos para trás a tempo de ver o pouso do aparelho que mais lembrava uma libélula. Recordações bombardearam-lhe a mente. Venon pareceu reviver os momentos de alguns anos atrás. Parecia que havia sido no outro dia. Era tão real... Tão palpável...

o~o~o~o

- Voyage, eu não consegui liberar todo o caminho de escape para a equipe de terra.

- Está perdendo seu toque, Venon? – A voz grossa, uma pitada de ironia. – Deixe aqui com o melhor. – Riu.

- Ora seu grandessíssimo egocêntrico! – Replicou Venon. – Deixe um pouco de árvores em chamas para mim.

- Pensarei no seu caso. Vejo-o na base, Venon. Vá logo encher a cesta reservatório no lago.

Com um riso debochado, Venon moveu o manche para a esquerda, dando a volta. Precisava de nova carga de água. Sobrevoando um lago, baixou lentamente e deixou que a água invadisse o compartimento suspenso por cabos de aço. Novo movimento no manche e voltou pela mesma rota.

A fumaça alta dificultava todo o serviço. Ao longe, avistou algo vermelho incandescente cortar os céus... um sinalizador. Sabia tratar-se da outra equipe de terra. Diminuiu a altura um pouco e quando estava acima do local, deixou a água cair. Sorriu de lado ao avistar a clareira aberta. Checou seu painel de controle. Precisava voltar, pois não teria combustível para mais uma carga.

Ao começar a ganhar altitude, a explosão de um pinheiro fez com que as labaredas lambessem a parte debaixo do helicóptero. Este também foi atingido por alguns pedaços de madeira.

- Uou! Quente, quente! – Venon reclamou. – Base, over!

- Na escuta, Venon! Prossiga!

- Fui atingido por chamas e pedaços de árvores. Tudo parece estar bem. Estou próximo da base, na verdade, a poucos quilômetros. – Informou.

- Todo o equipamento está funcionando direito?

- A princípio. Já estou bem próximo da cabeceira da pista. – Venon voltou seus olhos para o painel de controle ao ouvir um barulho conhecido.

- Venon, o que está acontecendo? – A pergunta fora inevitável. O piloto esquecera o rádio aberto. – Que aviso é esse?

- Sky, estou perdendo combustível. Não sei o que aconteceu.

- Droga, Venon! – Sky arregalou os olhos. Deslizou a cadeira de rodinhas e fez soar o alarme.

Em pouco tempo, a equipe de socorro e bombeiros estava esperando pela aterrissagem do helicóptero.

- Vamos, belezura! Vamos! Só mais um pouco. – As mãos do piloto seguravam fortemente o manche. – Isso, só mais um pouquinho... aguente, eu tenho compromisso à noite. Não me faça perder. – Voltou os olhos para o marcador de combustível e prendeu a respiração.

Com um binóculo, Sky, o controlador de voo, acompanhava da torre a aproximação da aeronave. Faltando muito pouco para que esta tocasse solo firme, o rotor e a hélice começaram a falhar. A altura caindo rapidamente. O baque forte pode ser ouvido ao longe. A fumaça negra elevando-se ao céu como uma nuvem macabra.

- Merda! – Sky aproximou-se do rádio e do radar. Teria de fazer com que todos os pousos e decolagens fossem para a pista dois. Sem delongas, deslizou com a cadeira de rodinhas para perto do telefone e já avisou ao hospital que um dos pilotos chegaria em breve, para que uma equipe ficasse de prontidão. Ao desligar o telefone, não teve como não pensar em Voyage. Ele tinha absoluta certeza que o piloto mais velho estaria entre o pessoal de socorro na pista. Suspirou. Não havia muito a fazer. O jeito era esperar para ter notícias de Venon.

Assim que liberou sua última carga de água misturada com terra, Voyage voltara para a base. Nem fazia ideia do que estava acontecendo com Venon e, ao ouvir o alarme disparar e ressoar em toda base, imaginou que fosse um dos hidroaviões com alguma avaria ou pane seca.

Um tanto curioso, parou ao lado de alguns bombeiros da equipe de segurança da base e voltou seus olhos para o horizonte. Alguns minutos se passaram e, bem próximo de umas árvores, o helicóptero revelava-se. Já apresentava sinais de avaria. O rotor da cauda e as hélices falhavam.

Ao seu lado, muitos torciam, afinal, ninguém gostaria de perder um companheiro de combate tão bestamente. Andando um pouco entre os tantos que ali aglomeravam-se, Voyage pediu um binóculo emprestado. Suspeitava que algo não estava bem e, realmente não estava.

- Venon! – Murmurou ao avistar o prefixo da aeronave. – Droga! – Devolveu o binóculo para seu dono e tentou correr para mais perto, mas foi detido pelo bombeiro chefe da segurança ao tentar passar por este. Voltou seus olhos indignados para o homem, mas ao escutar os comentário e buchichos fincou o olhar no aparelho.

Sem o auxílio do rotor de cauda, o helicóptero começou a girar em seu próprio eixo. Qualquer piloto em sã consciência sabia que quando aquilo acontecia, a situação do piloto passava para mero passageiro dentro de sua própria aeronave. Em outras palavras, não havia muito a fazer.

A altura foi sendo perdida e o baque forte no chão estremeceu a todos. Mais um pouco que o rotor aguentasse, Venon teria conseguido pousar, mas não adiantava pensar nos ‘se nãos’. Salvar o piloto era o que mais importava. O primordial em toda aquela situação.

Como toda a equipe de segurança, Voyage correu para perto do helicóptero. Um principio de incêndio estava sendo controlado. Uma parte da equipe jogava água na fuselagem para, com isso, resfriar o tanque e evitar que algo pior acontecesse caso ainda existisse um pouco de combustível no reservatório.

Sem importar-se consigo mesmo, Voyage tentou abrir a porta para poder retirar o loiro de dentro da cabine. Tinham de ser rápidos, tanto ele quanto os demais.

- Venon... Venon... – Chamou-o. Sem resposta, notou que ele estava desacordado. Um filete de sangue escorria da têmpora do piloto, o que deixou Voyage mais preocupado. – Venon! Droga! – Praguejou ao forçar novamente a porta emperrada.

- Voyage, dê espaço para que forcemos a porta. – Um dos homens do resgate pediu-lhe. Este tinha em mãos uma ferramenta que mais parecia um alicate enorme.

Com o olhar decidido, pulou por cima dos destroços e passou para o outro lado do aparelho. A outra porta não estava tão danificada e ele não teve problemas em abri-la. Bateu a mão na trava do cinto e puxou o loiro para fora. Mesmo inconsciente, este gemeu dolorido. Talvez tivesse quebrado alguma coisa, mas não era a hora para averiguar. Retirou-o do helicóptero quando o pessoal já estava extinguindo o incêndio. Uma maca foi colocada próxima aos dois pilotos. Com cuidado, Voyage depositou-o lentamente sobre esta.

- Tomem cuidado, pessoal. Acho que Venon quebrou alguma coisa. Suspeito que seja o braço esquerdo. – Voyage informou. Sem dizer mais nada, acompanhou todo o trajeto que a maca fez até a ambulância. Esta encontrava-se um tanto mais afastada. Entrou após os paramédicos e sentou-se ao lado do jovem piloto.

A sirene estridente pedia passagem. Carros, ônibus e motos saíam da frente da ambulância dando-lhe passagem. Os paramédicos examinavam Venon e a única e maior preocupação era a batida na cabeça. Mesmo estando com o capacete, um hematoma feio se fazia presente na têmpora do lado direito. O braço esquerdo fora imobilizado com uma tala, assim como o colar cervical também fora posto imobilizando o pescoço do loiro como medida de precaução.

O grego mais velho tinha o olhar preocupado e seus pensamentos pareciam não querer ajudar. No hospital, ele não pode entrar na emergência e fora um tormento aguardar na sala de espera até que alguém fosse falar com ele. Após algumas burocracias que Voyage achou o fim do mundo, finalmente conseguiu entrar no quarto onde o outro estava sob observação.

Parou admirando as feições bonitas do loiro. A testa enfaixada. Suspirou. Puxou uma cadeira para perto da cama e segurou a mão direita do outro entre as suas. Venon era uma pessoa importante. Na verdade, alguém que fazia com que ele se sentisse bem. Mas não era o que o outro queria...

Voyage não soube dizer quanto tempo ficou ali velando-lhe o sono induzido pelos sedativos. Sim, sono, pois a ele fora dito que Venon estava fora de perigo e apenas sedado para não sentir muita dor no braço. Seus olhos ardiam e começaram a pesar. Sua cabeça pendeu um pouco para frente. Recostou-a nas mãos de ambos e depositou um beijo no dorso da mão do amante. Novamente deixou um suspiro escapar pelos lábios.

Sentia-se um tanto mal por ter com ele apenas algo de ocasião. Tinha tesão por estarem juntos, mas nada mais que isso. Não havia cobranças da parte dele, Venon nunca lhe cobrara nada, mas sabia que ele queria algo a mais do que lhe oferecia. Talvez o amasse um pouco, talvez não... – “Maldita instabilidade... Inconstância!” – Pensou ao bufar. Venon é um homem forte, mas ele não podia dar-lhe aquilo que via estampando nos bonitos olhos azuis. Não o amor que ele almejava, mas não era insensível e muito menos ordinário. Não diria nada a ele, nem sobre a ida para a outra base... Não naquele momento. O acidente havia prejudicado um pouco os planos que há muito escondia do amante. Só o tempo se encarregaria de tudo. Naquele exato momento, tudo o que ele almejava, o que mais desejava era que o ‘acidentado’ abrisse os olhos.

Sentiu sua mão ser apertada. Voltou o olhar para o rosto bonito. Já havia acordado? Quanto tempo fazia que estava ali? Buscou por um relógio ou algo do gênero, mas não encontrou nada. Sua atenção foi novamente cobrada por aquele que encontrava-se deitado.

- Hei... Hei egocêntrico! – A voz levemente rouca. – Eu ainda não morri. – Gracejou. Os olhos brilhantes buscando informações. Olhando para todo lado tentando saber se era um sonho, se estava no céu ou se realmente aquilo era um hospital. Detestava hospitais!

- É... – Um riso malicioso iluminou o rosto de Voyage. – Você ainda não passou dessa para uma melhor.

- Hmm... Melhor seria sair daqui e ir para casa. Já estou me sentindo bem e creio estar pronto para outra. – Venon sorriu. Tentou sentar-se e gemeu levando a mão com o soro até próximo a testa. Voltou seus olhos para o outro braço e observou pela primeira vez o gesso. – Pelo visto estraguei tudo, não é? – Perguntou referindo-se ao encontro deles mais à noite.

- Não te preocupe com isso, o médico já informou que terá de ficar essa noite em observação. – O olhar sério. Sabia que o amante não iria aceitar muito bem aquilo.

- Droga, Voyage!

- Você precisa, sabe disso. Pense assim: terá roupa limpa, um ‘pijama’ que é muito sexy e minha companhia que é a melhor parte. – Egocêntrico e cheio de si deveriam ser o pré nome e sobrenome de Voyage.

- Bem... Assim desse jeito fica até aceitável e tolerante, mas...

- Mas o quê? – Sabia que lá vinha alguma daquele maluco.

- Mas essa cor não combina com os meus olhos! – Gracejou rindo descontraidamente e contagiando ao outro.

- Veja se da próxima vez pousa direito aquela libélula que usa para apagar incêndios.

- Da próxima vez mandarei um recado para que as árvores não explodam quando eu estiver sobrevoando-as. – Respondeu de travessado. Voyage às vezes conseguia ser irritante, mas tinha uma coisa boa... Um senso de proteção enorme.

- Obrigado por me ajudar!

Voyage sorriu. Ficou de pé e aproximou o rosto do dele. Sem palavras, pois não era necessário, beijou-lhe os lábios possessivamente. Separou apenas para que recuperassem o ar. – Agora descanse, ou seu médico pode querer segurar-te mais que o necessário aqui.

- Mais que um dia ficarei louco. – Venon bufou o que fez com que o loiro ao seu lado caísse na gargalhada. Se pudesse, cruzaria os braços ou até replicaria, mas não estava com vontade.

o~o~o~o

Inconscientemente, Venon elevou uma das mãos ao lábio. Fazia tanto tempo! Já havia se livrado do sentimento forte que tinha pelo outro, mas o simples fato de recordar-se o fizera sentir-se saudosista. Balançou a cabeça ao ouvir uma leve buzinada atrás de si. Buscou pelo espelho retrovisor o que seria. Uma das viaturas precisava sair e ele havia parado bem no meio da saída.

Acelerou a moto e saiu deixando uma nuvem negra de fumaça. Queimara o pneu traseiro. Sorriu de lado. Tinha pouco tempo e precisava vencer oitenta quilômetros de estrada. O trajeto todo ele foi imaginando se veria alguém conhecido. Expert, o mecânico de Voyage, havia seguido o piloto para a nova base, mas não tinha certeza se ainda estava por lá. Bem, o melhor era não pensar mais em nada, não devia nada a ninguém.

Ao cruzar a ponte Rio-Antirio, Venon deixou para trás o canal de Corinto. Estava muito próximo de seu destino, talvez chegasse em cima da hora, talvez não. Dependia dele não se perder. Reduziu a velocidade ao entrar na cidade. Sabia que teria de seguir como quem fosse para a base da Brigada. Poucas placas indicavam o caminho certo. Perdeu-se por duas vezes até finalmente encontrar o lugar. Parou a moto a certa distância. Tirou o capacete deixando-o sobre o retrovisor. Recolocou os óculos escuros e aproximou-se um pouco do lugar onde muitas pessoas estavam presentes. Ficou oculto atrás de uma árvore de tronco grosso. Era bom em ocultar-se quando queria. Não estava com vontade de ser visto. Não sabia se Voyage estava sozinho. Não importava-se muito com isso, mas com aquela situação, não queria causar constrangimentos a quem quer que fosse.

O pessoal começou a dispersar. Ficaram apenas um pequeno grupo de pessoas próximo aos carros e outra pessoa parada no mesmo local. Parecia algo particular. Bufou. Revirou os olhos e recostou-se um pouco na árvore. Não sabia dizer se era uma jovem que se encontrava sozinha e, se fosse, não estava com vontade de vê-la aos prantos. Não tinha nada contra mulheres, apenas preferia uma pegada mais forte. Definitivamente, homens lhe chamavam mais a atenção, não que fosse sempre assim, mas sua vida mudara da água para o vinho quando conhecera Voyage.

Torceu um pouco os lábios e, por entre o tronco e a sebe que crescia bem ao lado, viu que a jovem de longos e lisos cabelos ruivos não se encontrava mais sozinha. Não podia ouvir o que estavam conversando, mas não soube dizer por que não conseguia desviar o olhar. Na verdade, não conseguia nem piscar.

“Ruiva?” – Pensou ao arregalar os olhos e sentir-se embasbacado. – “Pelos deuses do Olimpo! Como eu pude enganar-me de tal maneira?” – Arqueou a sobrancelha ao medir com os olhos o corpo másculo de cima a baixo. Como poderia ter se enganado e quase cometer uma gafe tremenda? Seus pensamentos não foram nada castos e ao voltar um pouco seus olhos para o mármore escuro, a lembrança de onde estava e do por quê viajara tanto caíram-lhe como uma bomba sobre seus ombros. Sentiu-se um perfeito canalha. Ali não era lugar para ficar paquerando e achando-se um predador atrás de sua presa.

Bufou. Desencostou da árvore e somente quando teve certeza de que estava sozinho, rumou para perto do local onde minutos antes estivera o ruivo. Baixou o corpo e pegou a rosa que a brisa havia conseguido derrubar do mármore negro. Antes de colocá-la no lugar em que fora deixada, observou atentamente a escuridão da pedra a brilhar sobre os efeitos do sol.

“O que ele era para você, Voyage? Um amigo dedicado? Algum parente?” – Perguntou-se ao colocar a rosa no lugar. – “Ou será que o egocêntrico senhor ‘eu não sei amar’ finalmente deixou-se apaixonar? Deixou-se enamorar?” – Não entendia por que sentia-se tão ultrajado. Tão chateado que não conseguia perceber que, na verdade, estava um tanto enciumado, mesmo após tanto tempo de separação.

Balançou a cabeça. Ficou em silêncio por alguns segundos. – Você fez e continuará fazendo falta, Voyage. – Murmurou. Deu as costas e, sem olhar para trás, seguiu até sua moto. Teria um longo caminho de volta até sua base. Ajeitou-se cuidadosamente sobre o banco. Colocou o capacete e sem muitas delongas saiu devagar, pois teria de passar pelo meio de pessoas que acompanhavam um féretro.

A cada quilômetro que vencia, Venon fazia questão de deixar as lembranças do ex-amante no lugar de onde nunca deveriam ter saído: em seu passado!

31 de Março de 2018 às 22:37 0 Denunciar Insira 0
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