Sete Demônios Seguir história

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Ella Donovan não imaginava que sua monótona vida fosse se transformar numa verdadeira avalanche de perigos, segredos e mentiras até o dia em que o pai a vendeu para um completo desconhecido. Após o desagradável ocorrido, a garota passou a crer naquilo que costumar julgar impossível enquanto grupos de diversas crenças unem-se para se preparar para o Dia do Juízo Final - o qual trará consigo uma profecia há muito esperada por várias partes do mundo, juntamente com uma terra prometida para aqueles que são justos e bons, cujas vidas serão poupadas. Uma guerra para disputar o posto de quem governará sobre o Novo Mundo que virá após o Apocalipse inicia-se, e seu campo de batalha são nossas cidades, moradias e esconderijos, pois assim como anjos, demônios também encontram-se em todos os lugares.


Fantasia Para maiores de 18 apenas.

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Capítulo I: A Aposta


"O Inferno está vazio. E todos os demônios estão aqui." William Shakespeare.


Fazer parte da alta sociedade de uma cidade demasiadamente conhecida exige sabedoria, perspectiva de vida e ambição para se manter no topo. Washington é a capital do país de maior economia do mundo na atualidade. Foi nesta famosa e histórica cidade que nasceu Ella Donovan.

Segunda filha do casal Maurice e Serena Donovan, Ella sempre ouvira histórias a respeito das origens simples dos pais e dos problemas que tiveram de enfrentar para subir na vida e alcançar o tão visado sonho americano.

Antes de seus filhos nascerem, Maurice e Serena começaram a investir em pequenos negócios na cidade. Comércios. Investiam tudo o que conseguiam receber trabalhando em empresas na cidade. Desde então, feliz e milagrosamente, a sorte parecia ter sorrido para eles e começaram a obter melhoras. Uma atrás da outra.

Maurice e Serena Donovan fundaram sua pequena empresa. Após muitos e muitos anos de trabalho duro e esforço – tanto da parte dele quanto da dela –, a empresa cresceu, expandindo-se por todo o estado, e, eventualmente, por todo o país, chamando-se a partir de então Donovan Corporation. A grande e prestigiada empresa de exportação e importação tornou-se mundialmente conhecida graças às filiais que foram consequentemente se espalhando pelos quatro cantos.

Os filhos vieram em seguida.

Declan fora o primeiro. Tinha os encantadores olhos verdes da mãe e os lustrosos e escuros cabelos do pai. Era uma criança agitada e sempre conseguia o que desejava.

Cinco anos mais tarde, sentiu-se excluído com o nascimento da irmã mais nova. Ella era seu oposto. Não apenas em sua personalidade, como também fisicamente. Possuía os finos e macios cabelos dourados de Serena e os mesmos olhos azuis de Maurice Donovan. Ella sempre fora uma criança tranquila e dócil. Tratava a todos com respeito e carinho.

As brigas infantis com o irmão mais velho começaram quando ela completara quatro anos. Declan a trancava no closet e a deixava sozinha, com a luz apagada. Dora – a governanta da casa – sempre acabava destrancando a porta por fora, se deparando com uma Ella amedrontada. Mas ela jamais contava o que acontecia. Não contava para seus pais que era Declan quem a trancava e pedia a Dora para que também não contasse.

A mulher – que já estava na casa dos cinquenta anos, de amistosos olhos castanhos e cabelos tingidos de preto, presos para cima – prometera à menina que guardaria segredo, embora desaprovasse totalmente a atitude de Declan. Ele começara a se tornar uma criança impaciente e levada, sempre causando alguns problemas ali e aqui. Mas não parecia se importar. Sabia que seus pais cobririam seus erros e tudo estaria bem sem que ele tivesse o trabalho de se preocupar em pedir desculpas.

Aos nove anos, Ella tornara-se uma garota encantadora que se esforçava ao máximo para conseguir alcançar seus pequenos objetivos. Gostava de dar longos passeios no jardim de sua casa, tocar piano e assistir à chuva. Sendo totalmente o oposto da irmã caçula, Declan roubava garrafas da estimada coleção de bebidas importadas do pai e as escondia em seu armário, no quarto. Conseguia arrumar problemas no colégio toda a semana. E depois todos os dias.

Serena Donovan chegou ao ponto de não saber mais o que fazer para controlar a personalidade transtornada do filho. Costumava tentar entendê-lo e nunca o repreender, pois temia que ele fosse reagir de forma negativa. Aquilo, contudo, fizera com que as ações dele piorassem e Serena não soube que atitude tomar a respeito desde então.

Foi em uma noite qualquer que Ella acordou ao ouvir vozes. Reconheceu-as. Eram de seus pais. E aparentemente conversavam seriamente na sala de estar. Curiosa, a pequena garota descera de sua cama em seu pijama rosa-claro e seguira para a escada que a levaria para a sala. Seus passos eram suaves, cautelosos. Não queria fazer barulho. Ela tentou ouvir sobre o que eles falavam. Logo descobriu o assunto quando ouviu o nome de seu irmão ser citado durante a conversa.

— Não há mais motivos para esperarmos, Maurice! – Serena exclamava com as mãos para o alto. Parecia terrivelmente alterada. A própria Ella jamais havia visto a mãe naquele estado.

— Querida, ainda acho que seria melhor darmos a ele um tempo. – Maurice tentava argumentar a favor de algo. – Ainda é uma criança. Irá amadurecer com o tempo.

— Sem mais desculpas. – declarou Serena em tom severo e autoritário. A última palavra sempre fora dela, afinal. – Declan irá para o colégio interno.

Ella congelou. Agachada nos degraus da escada que separava o andar de cima da sala de estar, ela sentiu um arrepio ao ouvir aquela decisão tomada pela mãe. Ainda que soubesse que Declan era uma criança problemática, Ella amava o irmão e não conseguia imaginar como seria viver sem sua presença naquela casa. Correu de volta para seu quarto, se enfiando debaixo das cobertas. Queria muito saber por que a situação havia chegado àquele ponto.

Na manhã seguinte, encontrava-se na sala principal de sua casa, ao lado dos pais. Dois homens vestidos inteiramente de preto passaram por eles e tornaram a reaparecer, levando Declan com eles, segurando-o pelos dois braços, um de cada lado. Ella viu nitidamente quando ele lançou para ela um olhar que refletia todo o seu ódio momentâneo. Momentâneo, pois Ella estava certa de que ele não a odiava. Era apenas sua reação diante da situação pela qual estava passando.

Os dias seguintes tornaram-se apáticos, deixando na vida de Ella um vazio imenso. Sentia sua família incompleta. Declan os visitava durante os feriados, mas demonstrava-se cada vez mais distante. Ella se perguntou se era possível que a situação piorasse.

Infelizmente era.

Em seu aniversário de doze anos, Ella descobrira que a vida, às vezes, conseguia ser impiedosa. Cruel e injustamente impiedosa.

Duas horas antes da festa de aniversário da filha – que seria celebrada em casa –, Serena Donovan decidira ir sozinha ao colégio interno para buscar Declan. Assim, ele estaria presente no aniversário da irmã. Ella ficaria em casa, esperando por eles, aos cuidados de Dora, a estimada governanta da família.

Naquela tarde uma forte tempestade ameaçava cair. O céu nublado e as nuvens carregadas eram um sinal. Ella ouvira Dora pedindo à sua mãe para que não guiasse pela estrada sozinha, mas Serena era uma mulher persistente. Havia tal persistência correndo pelas veias de Ella. Evitando o início de uma discussão, Serena abraçou fortemente a velha governanta, despedindo-se dela e dizendo para que não se preocupasse, pois estaria de volta dentro de duas horas. Também se despediu de Ella e deu-lhe muitos beijos, além de um forte abraço.

— Vai demorar? – Ella perguntara em tom amuado.

— Não se preocupe. Quando menos esperar, estarei de volta. – respondera sua mãe.

A expressão magoada nos tristes olhos da menina fez com que Serena Donovan sentisse um aperto no coração.

— De que tem medo?

— De que lhe aconteça algo de ruim... – havia gotas brotando de seus enormes olhos azuis.

— Vou lhe contar uma coisa. – Serena ajoelhou-se para encarar a filha nos olhos, soltando um leve suspiro. – Sempre que sentir que algo de ruim está por vir, feche seus olhos... Quando voltar a abri-los, a luz voltará a reinar no escuro vale do medo que existe em cada um de nós. E tudo ficará bem.

Ella não compreendera o sentido daquelas palavras, mas tornou a abraçá-la, concordando com o que ela dissera.

— Eu a amo muito, Ella.

Serena depositou um último beijo na face da menina e entrou no carro que a guiaria para uma tempestade monstruosamente implacável, a qual desabava sobre o chão em extrema velocidade e força. Ella assistiu o carro vermelho da mãe desaparecer por entre as espessas gotas de chuva que se misturavam com a neblina. Tentou aquietar seu coração e voltou para dentro de casa acompanhada de Dora.

Minutos mais tarde, começou a ajudar a mulher a preparar a decoração de sua festa de aniversário. Ella se encontrava sentada no meio da sala de estar, recortando pedaços de cartolina para a decoração. O som tremendo dos trovões já não a deixava assustada. Ela cantarolava e recortava, em ritmo harmonioso. Dora estava na cozinha, terminando de ajeitar os doces nas bandejas quando o som do telefone soou. Dora, sempre hesitante, aproximara-se do aparelho preso à parede e ergueu o auscultador.

— Residência dos Donovan. – anunciou ela.

Uma voz masculina soou do outro lado da linha.

— O Sr. Donovan se encontra no momento? – o homem perguntou.

Dora hesitou.

— Quem está falando?

— Tenente Daniels, departamento de polícia de Washington.

— O Sr. Donovan não está. – Dora respondeu. O coração começou a disparar. Queria muito saber o motivo de a polícia estar procurando por Maurice Donovan. — Poderia me informar sobre o assunto? Sou alguém de confiança da família.

— Infelizmente, ocorreu algo... – ele começou a explicar. Receosa e ao mesmo tempo aflita, Dora apertou o auscultador com toda a sua força. — É sobre Serena Donovan.

Dora sentiu uma súbita e dolorosa onda de pânico dominá-la. Sua voz soou trêmula e hesitante quando arriscou perguntar:

— Ela... A Sra. Donovan sofreu algum acidente?

Ella ergueu os olhos e virou-se para a cozinha ao ouvir o nome de sua mãe.

— Mamãe...? – balbuciou, começando a entrar em desespero.

Dora não escutara a menina, atenta à voz no telefone. Em seguida, ela pousara o auscultador e olhara para Ella com os olhos transbordando desespero.

— O que...?

— Querida... Venha cá... – Dora fez um sinal para que a garota se aproximasse. Era perceptível que ela estava tentando conter seu nervosismo. – Precisamos conversar...

Ella se recusou a aproximar-se dela. Então Dora a tomou pela mão e a guiou para as escadas, sentando-se com ela em um dos degraus. Fitava-a agora com um misto de pena e melancolia.

— Minha mãe... Está doente? – perguntou Ella, fitando a governanta nos olhos.

Dora respirara fundo, olhara profundamente nos olhos de Ella e dissera com firmeza em cada palavra:

— Sua mãe... – uma pausa deixara claro que Dora estava tão aterrorizada quanto a menina. – Sofreu um acidente...

— Não! – protestou em um grito de desespero.

A voz de Dora acrescentou em um sussurro:

— Ela se foi, querida...

Era um pesadelo. Um aterrador e insuportavelmente terrível pesadelo no qual Ella começara a se sentir como protagonista. Lentamente deixou-se cair em lágrimas pensando na mãe. Nas últimas palavras que ouvira dela.

Eu a amo muito, Ella.

O acidente de automóvel que consequentemente causara a morte de Serena Donovan ocupou as principais páginas de inúmeros jornais. Seu corpo fora sepultado no Cemitério Nacional de Arlington, em Washington.

Durante muitos dias e muitas noites, Ella se lamentou por sua perda. Pela morte da mãe. Por seu pai. O que seria dele? Ela imaginou que ele se recolheria em casa, evitando pessoas. Evitando o trabalho. Nada mais faria sentido.

De fato, aquilo acontecera. Maurice Donovan passara um longo tempo guardando dentro de si toda a frustração que a morte da esposa lhe causara. Serena era sua fortaleza, sua fonte de realizações. A ausência dela trouxera muita dor e solidão à sua vida.

Todavia, para a surpresa de todos que conviviam com ele – especialmente a filha mais nova –, um ano mais tarde Maurice tornara a se casar.

Sua nova esposa chamava-se Katherina. Era dez anos mais jovem. Possuía extravagantes cabelos tingidos de vermelho e insolentes olhos verdes-acinzentados. Um corpo exuberante, cheio de curvas e uma personalidade ridiculamente esbanjadora. Maurice conhecera-a em uma confraternização da empresa de um velho amigo. Katherina era filha única de um empresário da cidade. Maurice Donovan aproximara-se dela sem esconder seus interesses. Apresentou-a à família meses depois.

Em respeito ao pai, Ella prometeu que aceitaria a madrasta de braços abertos. Ainda que não aprovasse totalmente a atitude que ele tomara, ela estava ciente de que seu pai ainda tinha muitos anos para se viver. E evidentemente não queria passá-los sozinho.

Entretanto, Ella temia a reação de seu irmão. Principalmente depois que soube que ele voltaria a viver naquela casa, deixando o colégio interno. Temia que Declan fosse armar um escândalo com a presença da nova esposa do pai na casa. Na casa que antes pertencera à mãe deles.

Declan chegara à mansão em um final de semana, segurando malas nas mãos e um sorriso sarcástico nos lábios. Deixando Ella perplexa, ele não reagira de forma negativa em relação à madrasta. Ao contrário disto, Declan a tratara com naturalidade. Tratara toda a situação como se aquilo fosse algo que ele já havia previsto.

Os anos que prosseguiram tornaram-se continuamente repetitivos. Os feriados eram iguais. Toda a família se reunia para um jantar especialmente feito para tais datas, depois os dias seguiam normalmente, obedecendo a uma rotina entediante e monótona.

A vida de Ella também se tornara fastidiosa. Ia ao colégio todos os dias e depois voltava direto para casa, levada por uma limousine que era conduzida por um motorista particular.

Sempre se esforçando para manter suas boas notas, Ella terminou seu último ano de colégio com o melhor histórico. Orgulhosa de si mesma, ela encerrou o colegial com sucesso e esperava ser aceita em alguma prestigiada universidade. O passo adiante seria esse.

Contudo, Ella não obtivera uma admissão naquele ano. E aquilo a deixara frustrada, embora ela tivesse decidido que não ficaria de braços cruzados, esperando que aquele intervalo de um ano nos estudos terminasse.

Procurava sempre arrumar algo para se fazer. Ora fazia trabalhos voluntários, ora passava toda a tarde lendo um bom e velho livro, sentada na grama do jardim de sua casa. Ingressara em novos cursos, visando sempre aprimorar seus conhecimentos.

Ainda que sua vida seguisse sempre a mesma rotina desde a morte de sua mãe, Ella se esforçava para que tudo continuasse bem. Jamais reclamara. Julgava-se suficientemente feliz. Não havia qualquer motivo para que não gostasse de viver. De estar viva.

Tinha o pai que a admirava e amava com todo seu coração. O irmão, que apesar de problemático, estava de volta à casa, presente em sua vida mais uma vez. Tinha Dora que era considerada parte da família. E tinha Katherina...

Apesar de não manter com ela a melhor das relações, Ella a respeitava e agradecia a Deus todos os dias por tê-la posto na vida de seu pai, pois temia que ele adoecesse caso seguisse sua vida solitariamente.

As coisas estavam indo bem. Tudo estava encaminhado. Ella sentia-se satisfeita com tudo ao seu redor. As pessoas, os acontecimentos.

Entretanto, durante aquele mesmo ano no qual ela não pudera entrar para uma universidade e seguir com os estudos, Ella vira que a vida novamente estava lhe pregando uma peça.

Ela passara a ver o pai chegar em casa no meio da madrugada. Bêbado. Completamente bêbado. E o modo que ele agia sempre que se encontrava em tal estado era algo que Ella jamais pensou que fosse ver. Ela começou a temer que aquilo fosse levá-lo à morte, pois as noites nas quais ele chegava bêbado tornaram-se cada vez mais frequentes. Tentou de diversas formas convencê-lo a parar com aquilo.

Maurice Donovan sentia um remorso imenso tomar conta dele quando via a filha com os olhos marejados, pedindo para que ele não voltasse a cometer tais atos. E então ele prometera a ela que aquilo jamais voltaria a acontecer.

Estava enganado. E a estava enganando.

A situação se repetira não só uma vez, mas muitas outras. Aquilo se tornou também uma rotina. Maurice deixava o prédio da empresa e saía para beber. Todas as noites. E todas as noites Ella esperava por ele, sentada nos degraus da escada principal da sala de estar.

Ver o pai naquele estado era um pesadelo quase tão aterrador quanto ter perdido a mãe naquele acidente, anos atrás.

Surpreendentemente, Katherina não parecia se importar com o problema do marido. Não se importaria desde que ele continuasse a pagar por seus gastos desnecessários.

Declan, como filho mais velho, deveria ao menos tentar oferecer sua ajuda, mas não.

Ella concluiu que não poderia contar com ninguém naquela casa para salvar o pai de seu vício. Contava apenas com Dora, a governanta em quem sua mãe tanto confiava.

Todas as madrugadas, Dora preparava um café forte e amargo para quando Maurice aparecesse na casa, alcoolizado. Ella sempre a agradecia por todo o seu apoio.

No decorrer de muitas tentativas, ela tentara convencer o pai a procurar ajuda, mas Maurice Donovan era orgulhoso demais para fazer aquilo. Ele acabava por prometer à filha que se recuperaria daquilo sozinho. E Ella acreditava. Ao menos queria acreditar.

Porém aquele episódio seguia se repetindo.

Foi então que Ella começou a perceber que sua vida havia se tornado um inferno.

Mas o verdadeiro inferno ainda estava por vir.

Em uma tarde, quando o céu estava começando a escurecer, Ella vira o carro de seu pai passar pelos portões da casa. Aparentemente ele havia chegado mais cedo. Bem mais cedo do que de costume. Admirada, Ella pôs-se em pé com um livro em mãos e correu, atravessando o jardim e rapidamente alcançando a varanda da entrada do gigantesco imóvel que pertencia à sua família.

— Papai... – disse ela. Sua respiração era ofegante, pois havia corrido o mais rápido que podia para alcançá-lo.

Maurice Donovan tinha acabado de descer de um magnífico Bugatti prateado. Encarou a filha com um olhar ocioso.

— Olá, querida. – ele abriu um sorriso sem alegria. – Como você está?

— Estou bem, mas... – Ella o observou com certa curiosidade. – Chegou mais cedo. Aconteceu alguma coisa?

Por mais que ele tentasse esconder sua preocupação e angústia, Maurice não pôde conter um suspiro. Abaixou a cabeça e depois voltou a erguê-la, fitando a filha nos olhos.

— Precisamos conversar.

Ella assentiu com a cabeça e viu o pai se afastar, entrando na casa. Ela o seguiu, sem entender do que se tratava o assunto. Maurice caminhou até seu escritório e Ella entrou no mesmo logo em seguida. O escritório de seu pai era cuidadosamente decorado em madeira. Os móveis tinham um aspecto antigo, porém muito elegante. Havia livros postos em estantes presas às quatro paredes.

Maurice Donovan instalou-se em uma sofisticada poltrona marrom, atrás de uma mesa que entrava em perfeita harmonia com o restante dos móveis que ali se encontravam.

— Sente-se. – apontou para uma das cadeiras em frente à sua mesa. Ella aproximou-se dele e se sentou, sem deixar de olhá-lo.

— O que houve? – ela indagou inocentemente.

Seus olhos pareciam curiosos e seu tom de voz era ansioso.

O que ele estava prestes a anunciar obviamente não deixaria Ella feliz. Tampouco conformada. Maurice Donovan vasculhou o fundo de sua alma, buscando desesperadamente encontrar o mínimo de coragem e força necessário para dar a notícia à filha. Para contar a ela o – possivelmente – maior erro que cometera em toda a sua vida. Erro cujo qual ele cometera na noite anterior, antes de surgir em sua casa completamente bêbado, como de costume.

Ele levou um grande e longo intervalo de tempo para se preparar. Seus lábios tremiam perceptivelmente. Suas mãos suavam. Seu coração palpitava. Olhou para a jovem sentada à sua frente.

— Ella, eu... – ele parou de falar antes mesmo de começar a se explicar. Respirou fundo. Outra vez. E mais uma terceira. – Eu estive fora ontem à noite.

— Sei disso, papai. – a garota respondeu, balançando a cabeça positivamente.

— Você sabe que eu... Tenho cometido alguns erros. Digo...

— Papai, eu sei exatamente o que está se passando na vida do senhor. – ela o interrompeu. Seu tom de voz era sempre doce e reconfortante, embora houvesse também veemência e firmeza em suas palavras. – E o senhor sabe que estou aqui para ajudá-lo a superar todos os problemas que estiver enfrentando.

Aquelas foram as palavras que ele tanto evitara ter de ouvir antes de dar a ela a notícia. Aquela afirmação causara nele uma angústia ainda maior, pois estava seguro de que o que estava prestes a dizer a machucaria profundamente, de modo que duvidava muito que algum dia ela chegasse a perdoá-lo.

Mais uma vez ele respirou fundo. Encheu seus pulmões de ar e em seguida deixou-o escapar. Fitou a filha fixamente nos olhos e prosseguiu da forma mais firme que conseguia:

— Ella, eu tenho... Tenho tentado encontrar uma forma de me libertar de todas as minhas frustrações. Uma válvula de escape. Algo que fizesse com que eu pudesse fugir desta realidade por algum tempo. – explicou. – E infelizmente o álcool tem sido uma das saídas que pude encontrar.

Ella abaixou os olhos tristemente. Ergueu o rosto novamente e disse com a voz esperançosa:

— Superaremos isto juntos. Eu prometo.

— Minha querida... – Maurice Donovan tentava conter sua emoção, mas aquilo começara a sufocá-lo.

— O que queria me dizer, papai? – indagou, ainda curiosa.

Ele retomou a pouca coragem que encontrara em seu interior e voltou a olhar para ela com severidade.

— Eu fiz algumas apostas.

Ella franziu a testa, confusa. Julgou não ter ouvido direito. Inicialmente ela não entendeu o que o pai queria dizer com apostas. Ao ver a reação da filha, Maurice imediatamente deu continuidade à sua explicação.

— O álcool não foi a única forma que encontrei para me libertar, Ella. – ele agora falava com mais firmeza, disposto a terminar aquela conversa o mais rápido possível. – Eu tenho feito apostas em um clube que agora costumo frequentar.

— Papai... – a voz dela saiu num sussurro. – O senhor está envolvido em jogos?

— Este não é o único problema, Ella. – Maurice falou. Aquilo soara como uma confirmação para a pergunta que ela havia feito. – No início eu apostava dinheiro. Mas depois se tornaram objetos de valor. Carros. Pequenas propriedades. Grandes propriedades. Ações na empresa. – ele narrou uma lista de todas as coisas que havia colocado em jogo. – Até que... – suas palavras ficaram pairando no ar, incompletas. Ella permaneceu calada, aguardando o final daquela sentença, mas seu pai parecia hesitante.

— Até que o quê? – ela inquiriu, por fim; seu tom mais firme e severo

— Eu perdi tudo, Ella. – ao declarar isto, Maurice Donovan deixou que as primeiras lágrimas de desespero caíssem. Tentou escondê-las, levando as mãos ao rosto, mas era tarde demais. Deixou-se levar por suas emoções e em questão de segundos encontrava-se destroçado pelos soluços. – Perdi... Perdi tudo... – dizia ele com o rosto banhado em lágrimas de culpa.

Ao ver o pai em tal estado, Ella também não pôde conter suas lágrimas. Mas estas eram lágrimas de preocupação, de decepção. Queria agora mais do que tudo entender o que estava acontecendo. O motivo de seu pai ter chegado àquele extremo. Os vícios que o estavam destruindo.

Ainda dominado pelos soluços, Maurice Donovan ergueu os olhos vermelhos devido às lágrimas que incontrolavelmente escorriam por sua face.

— Ontem... Ontem eu arrisquei... Dei minha última cartada... – falava ele com muita dificuldade. Sua voz estava embalada pelas diversas emoções que se misturavam em sua mente naquele momento. – Era tudo ou nada.

— Do que... Do que está falando, papai? – Ella quis saber. Também haviam lágrimas brotando de seus grandes olhos azuis.

— Era minha única chance de recuperar tudo o que eu antes havia perdido no jogo. Eu estava certo de que conseguiria. Sabia que desta vez tudo daria certo. – disse tentando se recompor. – Mas eu não tinha mais nada para apostar. Já havia perdido tudo.

Ele parou de explicar mais uma vez. Deu um longo e profundo suspiro e então prosseguiu cauteloso com suas palavras:

— E então eu apostei o que tenho de mais importante. A única coisa que me restava. – fitou-a nos olhos com imensa intensidade. – Eu apostei você, Ella.

Ella encarou o pai com os olhos espantados. Ela sentiu uma terrível pontada na alma. Não conseguia coordenar suas ideias. Estava certa de que escutara mal, de que aquilo era uma piada extremamente sem-graça. Fez menção de pedir para que o pai repetisse o que tinha dito, mas antes que pudesse fazer isto, as palavras tornaram a soar vindas dos lábios dele. Claras e diretas.

— Eu apostei você.

A raiva a invadiu de imediato. Sentia-se atordoada. Seu estômago se comprimia. Sua cabeça começara a latejar. Sentiu um gosto de bílis lhe invadir a boca. Não era possível. Aquilo não estava acontecendo. Seu pai jamais cometeria uma atitude tão imprudente e grotesca quanto aquela. Ainda mais se fosse uma imprudência que a envolvesse. Logo ela que tentara de várias maneiras salvá-lo daquela situação. Do vício. Da tristeza. De todos aqueles problemas.

— Não... Não pode estar falando sério... – ela proferiu aquelas palavras em tom apático. Não demonstrara qualquer emoção em suas palavras desta vez. – Está brincando comigo. O que pensa que sou? – a garota subitamente colocou-se em pé e empurrou tudo o que via sobre a mesa de Maurice. – É isso o que sou para você, pai? Uma maldita propriedade? Uma mercadoria que pode entregar a um estranho em troca da porra de uma aposta?

— Ella...

— Não! – apontou-lhe um dedo e seus dentes rangiam. – Não ouse! – advertiu-lhe a menina. – Isso só pode ser a droga de uma brincadeira...

Estava entorpecida pelo choque da notícia que acabara de receber. Sua cabeça dava voltas. Milhões de pensamentos transitavam por sua mente. Assim como milhões de emoções se misturavam em seu coração.

Era exatamente nisto que Ella estava pensando enquanto encontrava-se parada em pé no meio do jardim. Nas lembranças da tarde me que seu pai lhe contara sobre a loucura que havia cometido.

Uma semana havia se passado desde que descobrira que o pai havia tentado recuperar todos os seus bens, apostando ela – sua própria filha – em um jogo.

Seu adversário no jogo ocorrido uma noite antes da tarde em que ele dera a notícia à Ella era James Braxton. Ella não fazia ideia de quem se tratava. Maurice dissera-lhe que o pai do sujeito era um velho e conhecido sócio de sua empresa. Ela lembrava-se vagamente daquela família.

Tinha seis anos quando o pai os convidara para um jantar em sua casa. Lembrava-se de um homem na casa dos quarenta anos que não parava de falar sobre negócios. Uma mulher que se vestia de forma elegante. E do filho deles, que durante todo o jantar não pronunciara nenhuma só palavra. Mas aquelas eram lembranças há muito tempo deixadas para trás, assim como muitas outras que Ella deixara no passado desde que a mãe falecera.

Quando constatou que a filha havia se acalmado, Maurice dera-lhe a metade que falava para completar toda a explicação.

— Ele agiu de modo muito amável. – ele tentava mantê-la calma, o que era ridículo. – Disse-me que poderei continuar a tomar conta de todos os meus bens. Mas para isto, querida, – fez uma breve e curta pausa. – Você terá de se casar com ele.

E quando Ella achava que aquilo não poderia piorar, percebeu que estava completamente enganada. Perdida em meio a estes mesmos pensamentos, ela encarava o nada, imóvel em frente à sua casa.

O vento fustigava seu rosto, fazendo seus cabelos dourados flutuarem com leveza. Sentia-se terrivelmente enojada. Obviamente não havia concordado com aquela atitude de imediato. Não até lembrar-se da mãe, de como sofrera para conquistar todo aquele patrimônio e na maneira com a qual seu pai colocara tudo a perder. Não havia qualquer outra saída, por mais que ela tentasse encontrar uma.

Dominada pela coragem que tanto faltava no pai, Ella Donovan decidira que aceitaria o trato sem objeções. Mas manteria sua dignidade, procuraria formas de recuperar o que era de sua mãe e honraria a memória dela. Uma vez que recuperasse todos os seus bens, entraria legalmente com uma maneira de recuperar sua liberdade.

E então iria embora do país, deixando para trás o pai que a tratara como uma maldita mercadoria. O irmão que não merecia sua compaixão e paciência. E a madrasta com quem jamais pudera contar.

Restavam-lhe apenas alguns dias para arquitetar o plano que devolveria a ela tudo o que o vício de seu pai os tinha feito perder.

O plano que restauraria sua vida e que a faria começar a pensar mais em si mesma. Estava na hora de parar de ser a garota boazinha e se tornar a mulher forte e determinada que sua mãe era.

12 de Março de 2018 às 20:57 2 Denunciar Insira 3
Leia o próximo capítulo Capítulo II: Simpatia Pelo Diabo

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Rouke Nystrom Rouke Nystrom
Cara tempest fay, tudo bem? Lembro-me te ter lido essa estória no nyah, mas li bem pouco dela, mas vejo que você alterou algumas coisas no primeiro capítulo. Sinceramente, gosto da maneira que você narrou este capítulo, acho super bem fluído a maneira que você escreve. A vida de Ella não esta sendo fácil, pois descobrir que o pai a perdeu como aposto de um jogo, de verdade, deve ter corroído a sua alma. Afinal, quanto disso não acontece no mundo real? Dá até raiva do pai dela, afinal, bebidas e jogos são péssimas combinações.
19 de Maio de 2018 às 21:38
Izzy Treet Izzy Treet
Ahhhh, agora sim, mas eu já to bem avançada na história,. Puta que pariu garota, vc devia publicar esse livro, sério mesmo. Ta perdendo dinheiro. Muito bem escrita, muito bem organizado, muito bem apresentado, vc ama e odeia os personagens. Uma história que prende vc. É extremamente espetacular. Nem tenho mais palavras pra descrever sua história. Só... Toma vergonha e publica isso de verdade, vai ganhar dinheiro, criatura! Enfim... To amando demais. <3
13 de Março de 2018 às 15:54
~

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