Entre Branco e Preto Seguir história

victor-hugo Victor Hugo

Kevin nunca entendeu Charles como entendeu aos outros. Mas ele está disposto a tentar.


LGBT+ Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#anos 60 #racismo
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Capítulo Único

— Você tá bem?

— Sim.

— Tá mesmo?

— Já falei que sim.

Kevin faz silêncio por um tempo. E isso é difícil para ele. É difícil não falar sobre tudo o que aconteceu nas últimas horas, sobre as marcas estridentes e escandalosas que profanam o corpo de Charles.

Ele sente que isso é injusto. Quer falar sobre isso.

Mas os ombros contraídos e os olhos tensos de Charles o impedem.

Kevin não entende isso.

Se bem que, entre os dois, Charles sempre foi mais fechado. Não era de muitas palavras, não era de muitos sorrisos, não falava muito sobre a família – apenas depois de muita insistência Kevin descobriu que sua mãe era doméstica e o pai trabalhava em alguma fazenda de cana na cidade vizinha –, não falava muito nem sobre si mesmo. Mesmo quando acordam, um ao lado do outro, Charles ainda parece distraído.

E Kevin não entende isso.

Kevin, que foi presidente da classe durante três anos seguidos e que participou de todas as peças possíveis. Kevin, que alugou, sozinho, um apartamento em San Francisco, aos dezessete. Que já participou de tantas passeatas a favor do tal “Poder Gay” que já até perdeu a conta. Kevin, que um dia ser algo como Sean Connery ou Montgomery Clift e estrelar em Hollywood.

Ele não entende como uma pessoa pode ser tão... silenciosa.

Talvez seja por isso que ele não entende a retração de Charles. Ele já viu gente depois como ele mesmo. Com a pele branca e o sorriso ainda mais claro. Mas há poucos como Charles por aí. Charles, cuja casa vazia ainda hoje repercute sobre cada um de seus gestos e ações. Charles que, como uma flor rara, hesita em se abrir.

— Você pode conversar comigo – Kevin, enfim, diz.

Charles encara a noite escura por muito tempo antes de dizer alguma coisa. Durante esse tempo, Kevin não pode deixar de notar, não pela primeira vez, que ele e a noite tem a mesma cor. Assim como Ceceile – a mulher que preparava os assados que sua mãe oferecia às visitas.

— Não me olha assim.

— Não se sinta assim.

Charles suspira.

— As pessoas já te olham esquisito porque você é gay. Você quer mesmo colocar mais um alvo em suas costas? Porque você tá com um preto?

Kevin olha para Charles mais uma vez. Há lágrimas no rosto dele.

A respiração de Kevin fica mais pesada por um instante.

Eles nunca falaram sobre isso.

Mas, no fim, esse é o elefante na sala.

Não, não o elefante. Foram pessoas que marcaram, com todas aquelas cicatrizes e manchas roxas, o corpo – o corpo negro – de Charles.

Talvez seja por isso que Kevin não entenda Charles como entendia outros.

Kevin é branco. Charles não.

Mas ele não quer que isso impeça algo.

É por isso que, mesmo no escuro, deixa que suas mãos busquem as de Charles.

Como resposta, o rapaz deixa seus dedos envolverem os dele.

Kevin o ama por isso.

E, nesse momento, não tem dúvidas de que Charles o ama de volta.

4 de Março de 2018 às 00:03 0 Denunciar Insira 2
Fim

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