1972 Seguir história

Laveau Mariana Teixeira

1972, o ano em que a militante Milena Amaro foi pega pela Polícia Federal, sendo vítima de inúmeras torturas de uma das atrocidades dos "Anos de Chumbo" da Ditadura Militar. No presente, a mesma atrocidade é homenageada por um deputado diante da votação do Impeachment da presidente. Isso não só causou uma revolta nas redes sociais. Logo após o pronunciamento deste deputado, aparições fantasmagóricas foram registradas perto dos antigos lugares onde houve essas torturas, sendo de uma dessas, a de Milena. Agora, onde ocorre os atentados, sempre há uma vítima com os mesmos hematomas e cicatrizes de um torturado na época da Ditadura, cabendo a investigadora Marceli e outros 4 envolvidos espalhados pelo Brasil impedirem que isso vire um caos, mexendo com o sobrenatural.


Horror Para maiores de 18 apenas. © Todo o enredo e personagens são por minha autoria.

#Tristeza #Ditadura Militar #Horror #Tortura
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A História no Presente

1972, a ano em que o Brasil se encontrava em um regime militar, sob o governo de Emílio Garrastazu Médici (1969/1974) considerado como "Anos de Chumbo".


O número de pessoas desaparecidas ou exiladas estava cada vez maior, assim como a censura, sendo um fato abafado pela mídia com o "milagre econômico". Era a famosa época em que a sociedade estava totalmente proibida de opinar contra o tal regime, sendo assim acabar com os movimentos sociais que se propagavam no período.


Milena Amaro, uma jovem de 25 anos, nascida na cidade de Sarandi no Paraná, mudou-se com 16 para a cidade do Rio de Janeiro com a família, onde havia se casado com André Luiz Honorato, um advogado mestiço. A moça que possuía cabelos negros, olhos castanhos e pele branca; passou a morar próximo à periferia da cidade com o marido, deparando-se todos os dias com a pobreza, a fome e principalmente o olhar cansado e batalhador de certas famílias, sabendo que entendia o sofrimento delas.


Com André, uniu-se aos moradores de uma favela próxima, criando um centro de ajuda à essas pessoas com as determinadas dificuldades, mas sabia que aquilo não era o suficiente para ajudar todos.


O que adiantava estar no "milagre econômico" se a pobreza ainda era gritante? Sempre perguntava ao marido.


Foi aí, nesse centro de ajuda,que soube a existência de um movimento estudantil por uma jovem negra que vivia com os cabelos longos trançados, que se propagava na época. Milena não hesitou em querer fazer sua parte no movimento, recebendo até o pseudônimo de Miriam, mas ela mesma havia esquecido do provável destino que aconteceria a quem se tornasse um militante.


A jovem não tinha medo, jamais teve, principalmente quando soube do novo Batalhão de Infantaria do Exército perto de sua casa.Ela achava que isso seria bom, pois chamaria a atenção dos militares diante das questões sociais, mesmo que para a mesma era mais um passo ao terror.


Uma tarde de domingo, Milena soube que, a menina que lhe ingressou no movimento estudantil havia sumido enquanto voltava da casa de uma amiga e sua família encontrada morta em casa. Nesse instante, foi percebendo a profundidade do perigo que corria, mas não podia fugir e abandonar as famílias pobres que precisavam dela e as defenderia até o último minuto.


No dia 17 de abril, numa tarde, saiu com o marido pelo centro da cidade do Rio e lá foram abordados pela Polícia Federal no Arco dos Teles. Não havia escapatória e fora colocados em um camburão, sendo vistos pelas pessoas que passavam por ali, porém nenhuma era corajosa o suficiente para ajuda-los.


O pior pesadelo da vida de Milena Amaro se iniciou a partir dali.


***


Rio de Janeiro, cidade litorânea de Itaipuaçu, 17 de abril de 2016.


Diante da TV de seu quarto, olhando desinteressada para a votação do Impeachment da presidente Dilma na maioria dos canais abertos, Luiza Ramada aproveitava, com tédio, seu dia de folga. É uma estudante de 17 anos, prestes a entrar na faculdade.


Deveria prestar atenção na votação, caso o tema caia em algum concurso público, porém não estava afim de olhar para aqueles homens velhos e escutar "Por Deus, pela minha família, eu voto sim".


Bocejou, mexendo no celular para distrair que está passando tal programação. Estava conversando virtualmente com um jovem que mora em Santarém, no Pará, chamado Albert e com um outro amigo de Surubim, Pernambuco, o José Henrique.


Apesar de não ligarem muito para o que se passava, ambos falavam sobre o assunto do impeachment e sobre a tal votação. Cada um tinha uma opinião diferente, mas se respeitavam por isso.

Ao ouvir uma voz conhecida, focou os olhos na TV, vendo o futuro candidato a presidência em 2018, adorado por muita gente e odiado por outros. Ele estava discursando antes de dar o seu voto, como Luiza não o apoiava, olhou-o com desdém.


Antes que voltasse a mandar as mensagens, ouviu uma homenagem da boca do deputado ao Coronel Brilhante Ustra, um dos torturadores da época da Ditadura Militar, fazendo-a abrir a boca, incrédula. Como aquele homem pôde homenagear uma das maiores atrocidades que o Brasil teve? O que havia na cabeça daquele homem?


Para aqueles que não apoiavam o deputado, já diziam que ele teria fama de facista, misógino, homofóbico e xenofóbico; porém não esperava que ele tivesse a audácia de homenagear um torturador em plena TV aberta, somente porque ele foi o "pesadelo da presidente"


— Eu não acredito nisso! – exclamou para si mesma, mas foi interrompida com o som da campainha tocando, que levantou automaticamente.


Abrindo a janela do quarto, viu uma senhora de sessenta e poucos anos, que aparentava ter muito menos que isso, carregava uma sacola plástica repleta de doces. Sorriu para a mulher mais velha, sabendo que era sua vizinha, "tia Duda". A vizinha ajudava sua mãe nas horas vagas, que faziam e vendiam bolos e cupcakes para festas e um dia da semana, Duda vinha entregar-lhe os ingredientes.


O negócio das duas iam muito bem, apesar de não serem realmente melhores amigas, pouco se sabe sobre a mulher mais velha. Boatos do bairro que Duda veio de outro país, pelo seu sotaque carregado, mas ninguém nunca soube qual. Ao menos, sabiam seu apelido, idade e com quem morava, na companhia do filho adulto que a sustentava no maior amor.


— Olá, tia! Espere que eu vou apanhar as coisas com você! – gritou do alto da janela, saindo logo depois.


— Sua mãe não está em casa?! – gritou, ouvindo os passos apressados de Luiza na escada.


Ouviu a porta destrancar e encarar a menina pequena. A adolescente ajeitou o óculos, pegando a sacola, dando passagem a senhora.


— Daqui a pouco ela deve estar voltando. – sorriu a menina, de forma gentil – Quer entrar e tomar alguma coisa, tia?


— Não, obrigada, meu anjo. – depositou um beijo na testa de Luiza


— Tenho que ir agora, mas antes... – parou e respirou fundo – E a votação do impeachment? – perguntou interessada.]


Luiza revirou os olhos de forma tediosa, pensando em como iria escrever sobre aquele "circo" todo em um texto dissertativo de concurso público. Suspirou fundo, começando a contar.


— Olha, tia, essa votação tá um porre. Um bando de velhos falando mais de Deus do que seu próprio voto, sendo que um deles até homenageou um torturador, Coronel Ustra.


A última palavra ecoou na mente de Duda, como se conhecesse aquele nome de algum lugar. Sua respiração começou a falhar e suas pernas ficarem bambas. Luiza reparou a reação estranha da senhora, tentando segura-la, porém a mulher foi se afastando aos poucos.


— Tia Duda? – perguntou novamente a menina, prestes a dar o primeiro passo para ajudar a mulher, porém aparentava não querer aceitar a ajuda.


Olhou Luiza pela última vez, antes de sair sem dizer nada. Sua respiração continuou descontrolada e não andava muito bem, como se estivesse a ponto de desmaiar. O que estava acontecendo consigo?


De longe, a adolescente estranhava, mas ao mesmo tempo, sentia que algo iria acontecer a qualquer momento.


***


Cidade do Rio de Janeiro, 18 de abril de 2016 às 1:35.


No antigo Batalhão de Infantaria do Exército, agora uma delegacia, encontrava-se silenciosa na madrugada. Alguns policiais faziam plantão e poucas pessoas surgiam pra prestar queixas. Tudo quieto. Na porta da delegacia, fumando cigarro para aliviar os estresses do plantão, um policial moreno, de olhos verdes e corpo robusto, observava a rua, enquanto tragava.


Estava sozinho, pois gostava de se distanciar de seus colegas em certas horas, pensar era a melhor coisa. Não havia nenhum movimento na rua e isso era ótimo.


Sem carros, ou pessoas. Apenas ele, a rua e sua face iluminada pela forte luz da lua. De longe, viu a silhueta anoréxica de uma mulher de cabelos longos e desgrenhados, que caminhava mancando, acompanhada da sua roupa, ou apenas um pedaço de pano sujo e despedaçado. Sua figura saiu das sombras, para a surpresa do policial.


— Que porra é essa? – sussurrou para si mesmo.


Ficou horrorizado com a face extremamente pálida e magra, para uma mulher que aparentava ser jovem. Suas vestes estavam tão rasgadas, que seus seios e suas coxas estavam amostra, assim como sinais de sua magreza deplorável. Marcas de sangue por todo canto do seu corpo e uma ferida aberta na cabeça, que sangrava horrores.


— Jesus Cristo – murmurou o policial com a visão, assustado, foi aí que percebeu a suposta mulher lhe encarando. Pensou em ir na direção dela, mas seu jeito o apavorava.


Tentou fingir que não a viu, mas antes que pudesse fazer alguma coisa, o sobrenatural já estava na sua frente.


Cara a cara, encontrava-se a mulher e o policial. Nenhum deles dizia uma palavra, apesar do homem respirar ofegante, devido ao susto. A moça não esbanjava nenhuma emoção e ele, o medo.


— Vocês fingem que não veem, mas sabem o que eu estou passando. – sussurra a mulher, enquanto sua ferida jorrava ainda mais sangue.


A figura anoréxica se aproximou mais, fazendo o policial recuar. Como ele pôde ver, a mesma possui marcas de queimaduras, arranhões sérios e um corte que iria do umbigo até a sua vagina, mas não era tão sério quanto machucado na cabeça. Ela parecia ter sido torturada, desidratada e psicologicamente prejudicada, seus olhos castanhos parecia que a qualquer momento iria sair das órbitas. Iria fugir ou ajuda-la?


— Vocês vão pagar por isso! – exclamou, com raiva. – Onde ela está?!! O que vocês fizeram com o meu marido?!!


O homem se surpreendeu, jogando a cigarro fora e sacando o revólver, apontando para a criatura com as mãos trêmulas. Não fazia a menor ideia do que ela estava falando, não sabia quem seria "ela", muito menos seu marido e era melhor não perguntar quem. Não gostaria de atirar nela, mas uma estranha aura ameaçadora tomava conta do local, até pensou em chamar um colega para ajuda-lo, mas ficaria com má fama por ter medo de uma mulher vulnerável.


Mas aquela não é vulnerável, ela havia aparecido em sua frente no instante que reparou sua imagem deixando de ser uma silhueta, quando estava muito longe dele. E o policial aprendeu, a muito tempo, a não subestimar as mulheres.


— V-vá e-embora da-daqui – gagueja, com medo, contudo respirou fundo e voltou a sua voz normal e grave – Eu irei atirar em você se não parar de me ameaçar, mulher. Isto é desacato a autoridade.


— Que irônico! Um policial com medo de mim! Não era para eu temer a vocês? – riu, sarcástica.


Logo, o riso sarcástico da figura feminina se tornou um olhar maldoso, contribuindo para o medo dele, que deixou sua arma cair, enquanto recuava. Aquele policial não é novo no ramo, já havia matado e prendido muita gente, não era de sentir pavor à alguém. O que aquela mulher tinha de diferente?


— Agora, se sente medo de mim, vai sentir tudo o que eu passei! – exclamou.


O homem se virou, para voltar à delegacia, mas sentiu uma pancada forte de um objeto parecido com um tijolo em sua cabeça, vendo tudo apagar. A última coisa que escutou não foi um riso maldoso, mas um choro de medo, súplicas e uma respiração pesada. Ele realmente sentiria o que ela passou.


28 de Fevereiro de 2018 às 01:03 1 Denunciar Insira 2
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Conheça o autor

Mariana Teixeira Louisiana Creole practitioner of Voodoo, who was renowned in New Orleans.

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Publique!
Karimy Karimy
Olá! Fiquei extremamente interessada pelo tema que resolveu abordar na sua história, principalmente por ela se passar no nosso país, o que, claro, aumentou, e muito, minha identificação. Esta mesmo de parabéns por isso, acredito que temos histórias incríveis que podem ser aproveitadas a partir do que já existe em nossa cultura e história. Enfim, a história está intrigante, com um ar bastante inteligente, sem aquela coisa de personagens frescos vista em muitas histórias da categoria de terror. Aqui, quando houve o medo, deu para perceber que era algo natural e inexplicável, não infantil e desnecessário. Estou empolgadíssima para saber o que virá pela frente. Acredito que a história precise de uma correção, mas nada que atrapalhe o entendimento. Bom, estou no aguardo de mais um capítulo, autora! Está mesmo de parabéns! :*
21 de Junho de 2018 às 10:36
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