Como salvar uma vida Seguir história

ladysalieri Lady Salieri

E se Donna tivesse visto o Doutor se despedindo dela no dia do seu casamento?


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Todo o público. © A série Doctor Who pertence a Sydney Newman, C. E. Webber, Donald Wilson e ao canal BBC1 que a exibe. A presente história se trata de uma fanficção e não visa qualquer interesse comercial.

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Capítulo Único

“Onde eu errei, eu perdi um amigo

Em algum lugar dessa amargura

Eu poderia ter ficado com você a noite toda

Se eu soubesse como salvar uma vida.”

(How to save a life - The Fray)


Ele sentia correndo nas veias o iminente e inevitável... Em breve se despediria de si mesmo e se reergueria pronto para tudo o que não fizera. Mas aquele surgido dos seus próprios escombros, por mais que mantivesse as mesmas memórias e os mesmos dois corações, era o desconhecido. Por isso todas as suas regenerações eram a primeira regeneração; e o pavor, a asfixia das possibilidades, o colapso de seus próprios arrependimentos, das perdas e das vontades eram um buraco negro dentro de si.


Queria correr disso tudo e ir para um lugar seguro!


Respirou fundo para não gritar. Então forçou os olhos no cenário à sua volta e viu Donna com seu marido posando para uma foto. A sua runaway bride já não fugia de nada...


Era ridículo estar escondido ali, observando a mais cotidiana das cenas, mas não queria estar em nenhum outro lugar. Ter sido obrigado a fazê-la esquecer-se doía muito mais nele que nela própria. Donna enfrentava sua vida plana como uma heroína, sendo a pessoa brilhante de sempre. E a consciência de ver a mulher mais importante da criação privada do seu maior desejo era devastador.


Apenas isso? Culpa?


Voltou-lhe os olhos e a viu guardar o bilhete de loteria entregue a Wilfred pouco antes. Donna gesticulava enérgica, chamando todos para uma foto em família, falando coisas que ele não era capaz de ouvir... Sorriu largo: Não? Claro que era, bastava fechar os olhos e sentir sua voz vibrando como um feixe no escuro. Era muito fácil perder-se em si mesmo atrás daquela luz... Escutou nitidamente:


Oe, o senhor pode me fazer o favor de explicar por que diabos essa cabine telefônica está atrapalhando o cenário do meu casamento?


Então voltou a abrir os olhos, assustado com a própria vulnerabilidade, para dar-se com o rosto dela contraído em interrogação, mas nem por isso menos desafiador. Pôde ver, na distância, Wilfred segurando a filha, impedindo-a de lhe acudir.


— Ei, eu o conheço, não?


O doutor recuou uns passos: e agora, e se ela se lembrasse? Lembrar-se de tudo seria a morte. E o simples arremedo de pensar em um mundo em que ela não existisse lhe soava insuportável. Não podia permiti-lo, nunca.


Donna semicerrou um olho e aproximou-se inquisitiva, de soslaio, fazendo-o afastar o tronco, com o mesmo aspecto que ela:


— O senhor esteve em casa um dia, há algum tempo.


Por fim suspirou aliviado. Ela parecia bem normal, não percebeu qualquer sinal de qualquer alteração:


— Na verdade, eu a confundi com uma pessoa de quem queria me despedir, me desculpe.


Viu algo pesar no semblante de Donna que se abrumou num raio de segundo, porém, antes mesmo de arrepender-se em havê-lo dito, voltou ao normal.


Bem verdade, ele queria sair correndo e fazer o que era certo, tomar uma distância segura, entretanto não podia, mais ainda sabendo não lhe causar o mal que pensava poder lhe causar.


Ela suspirou em seguida:


— Vai embora por muito tempo?


— Sim, uma viagem de ida somente.


— E você ama essa pessoa?


Ele sorriu na tentativa de esconder a vontade de trazê-la ao seu peito, e o desejo reprimido ameaçou sair por seus olhos transformando-se numa cortina de cristal. O sorriso dobrou-se num choro disfarçado.


— Sim... Muito.


Donna engoliu seco. Devia sentir isso como estava sentindo? Alguma coisa cortou sua mente em raio e a fenda aberta derramou-lhe o mais sentido dos rancores, o que a fez crescer sobre ele, empurrando-o.


— ENTÃO VOCÊ DEVERIA LEVÁ-LA COM VOCÊ!


Com isso, o cenário vacilou frente aos seus olhos, a fenda aberta rompeu-se e destruiu toda a escuridão dentro si doendo em crescente. Donna apertou a cabeça com as mãos, enquanto tentava lidar com a luz a refletir as memórias suprimidas como facas. Caiu de joelhos e gritou, mas não para aquilo parar. Muito pelo contrário, ergueu um dos braços, pedindo a distância do doutor. Ele, por sua vez, a caneta em punho, fez-lhe algo e esperava a situação se estabilizar para medir o tamanho do estrago feito. Estava acontecendo o que mais temia e ele não era capaz de pensar com clareza. Ou o era, era-o depois de tanto tempo!, e por isso deixava o momento se desenrolar.


Então houve uma grande dispersão de energia que quebrou as árvores mais frágeis e desmaiou os convidados fora de igreja.


A respiração dela finalmente voltou ao normal. Donna colocou as mãos no chão para apoiar-se e levantar-se. O Doutor se precipitou para ajudá-la, e ela encarou-o, os olhos limpos e brilhantes de fúria, por tempo suficiente para ele percebê-la a sua Donna. Abriu um sorriso e os braços para abraçá-la, contudo ela empurrou-o com força:


— Oh, Spaceman, você é um idiota!


Empurrou-o de novo:


— Um imbecil!


E de novo:


— Um doente!


Ele voltou a investir em um abraço, a emoção eriçando a sua pele:


— Oh, Donna…


Ela deu uns passos para trás:


Doctor Donna pra você, seu estúpido! E não se aproxime! Pra você apagar minha memória de novo?!


Ele colocou as mãos nos bolsos e os ombros se curvaram com o peso de tudo o que tinha carregado até então:


— Porque mais do que nunca queria te abraçar...


Ela olhou-o, as lágrimas machucando o rosto:


— Por quê…?


— Porque não suportaria te ver morrer, Donna. Tudo, menos isso.


— Não me importaria, quer dizer, NÃO ME IMPORTO de morrer vivendo o que a gente vivia, seu mentecapto! Eu te procurei, eu procurei tudo aquilo, eu merecia… E por que agora? — Sentiu uma pontada forte na cabeça, o efeito metracrisis já dava mostras de si.


— Está começando de novo, não é? — o doutor disse num fio de voz.


— Não me importo de morrer… Vivendo tudo o que a gente viveu…! Por que agora?


Ele suspirou:


— Em breve, eu não serei mais... eu… Serei outra pessoa, com as mesmas memórias e talvez até a mesma personalidade, mas… não serei eu…


Ela cruzou os braços, brava:


— Você ainda continua no lucro porque terá suas memórias. Isso definitivamente nos faz ser quem somos...


Mas sua própria expressão, conforme ela falava, ia se desfazendo, substituindo-se pela nostalgia. Continuou:


— Os momentos da nossa vida morrem com uma rapidez incrível. Quantos agora eu e você vivemos nos últimos cinco minutos? Tudo memórias…E você sabe disso mais do que ninguém, Spaceman. Então me responda, por que agora? De todas as companions para se despedir, de todas as pessoas para ver…


— Vi todas elas… Mas, você… de todas, você foi a única com quem compartilhei minha alma.


A cortina formada frente aos seus olhos desmanchou-se serena. Donna encarou-o, o semblante sem qualquer sombra da expressão dura de antes: tudo era apenas triste.


— Não sei o que vai ser de mim no futuro, mas queria reviver, por cinco minutos que fossem, um momento com você. Não bastava te ver, não bastava… — Tentou sorrir, mas parecia um esforço impensável. — Quando disse que vivemos o melhor dos tempos não foi nenhuma mentira. E, eu juro, queria que as coisas tivessem terminado de outra maneira, eu sempre escolheria viajar contigo…


— Te odeio mais ainda porque não consigo te odiar… — Donna contorceu-se com a dor que lhe veio de novo, muito maior do que antes. Sabia que se continuasse daquele jeito não teria muito tempo. Mas, Deus!, por que esse era o custo? Aquele momento era insuportável porque fazia todo sentido… Fazia sentido toda a tristeza quando descobria algo novo ou quando fazia planos para o futuro e as coisas pareciam ordinárias demais… Fazia sentido aquela ânsia do que não sabia, aquela sede do desconhecido. E ali tudo parecia tão grande! O efeito metacrisis lhe provocava isso, sua sensibilidade parecia elevada à milésima potência!


O doutor amparou-a e envolveu-a, de golpe, em seus braços. Ficaram um tempo em silêncio, buscando as palavras no território do indizível. Sentiam muito mais além do que era possível representar.


— Você não vai morrer… — ela disse entre soluços. — Vai estar adormecido aqui dentro de mim, nossas almas descansando uma na outra… Eu não queria admitir isso, porque queria ser pra sempre sua runaway bride… Mas, que ironia, não?, nem o doutor de 906 anos é pra sempre...


— Oh, Donna… — As lágrimas que lhe banhavam o rosto naquele momento limpavam suas vistas. — Eu entendo agora… Saber que você vai ficar bem é saber que vou ficar bem…


— Sim… E por mais que você apague minhas memórias de novo, não pode me impedir de sonhar com nossas aventuras como tenho feito desde então… A gente nunca vai se apagar da vida do outro, tenho isso muito claro agora… Espero ter isso claro depois…


— Você é brilhante, Donna, brilhante! Quero que, depois desse momento, você tenha uma vida maravilhosa. Seja como for, virei checar de tempos em tempos, não duvide disso, não poderia ser de outra forma.


Ela apertou-se mais ainda a ele, sabendo o que viria em seguida. No entanto, quando despertou inexplicavelmente na porta da igreja, já não sentia aquela tristeza, nem aquela ânsia do que não sabia: sentia apenas paz.


Alguém olharia sempre por ela.


E ela esperaria esse olhar.

27 de Fevereiro de 2018 às 22:48 2 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Lady Salieri Alguém que gosta de escrever mais do que de qualquer coisa na vida.

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Arymura Arymura
É tão sofrida a história da Donna, essa fic deu até um calorzinho no peito, adorei!
28 de Fevereiro de 2018 às 10:59

  • Lady Salieri Lady Salieri
    Neh, eu fiz pra um amgo secreto da Liga e acho que chorei mais que a pessoa que recebeu a fic kkkk. Masvq Donna é a minha companion favorira do Doctor, e a série terminou pra mim com a saida dela, simplesmente não aguentei xD 28 de Fevereiro de 2018 às 13:51
~