Corrida até o limite. Seguir história

sol_ Ravi 🚙

Mathias Almeira é um garoto completamente fissurado em corridas de carro e possui o sonho de estudar na renomada Academia Sobre Rodas e ser um grande corredor. Mas os planos do menino mudam quando ele é obrigado a ir para uma faculdade que não escolheu. Até que a grande chance de ser um corredor surge para Mathias. Mas para isso ele terá que se passar por outra pessoa. Se isso funcionar, ele vai poder frequentar a tão sonhada Academia, mas assumindo um identidade falsa. E é quando aparece a grande questão: Vale tudo em uma corrida?


Ação Todo o público.
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Correrei para a minha fã de chapéu verde.

Carl Spoo.

15 de outubro de 2000.

A empolgação e animação não parecia querer sair mais de mim. Não era apenas uma corrida, mas sim a última Pista 145 do século XX. Me sentia honrado por correr no ano 2000.

Eu estava acenando para uma menina bonita que estava na arquibancada, aquela garota realmente sabia como torcer para um cara. E como provocar sensações quentes e um tanto esquisitas perto das pernas desse mesmo cara. Além de frios constantes na barriga, ou seria só o grande nervoso e a imensa pressão de uma corrida que estava prestes a começar?

Provavelmente a causa de tudo isso era a moça, já que eu tinha praticamente toda a certeza que eu ganharia a corrida, modéstia a parte, eu estava bem preparado e tinha tudo para ser o melhor. Um ótimo uniforme, ótima equipe, ótimo patrocinador, e ótimas torcedoras.

A garota bonita usava uma saia curta de pregas e bolinhas brancas, a saia era verde, e combinava com os olhos verdes e penetrantes dela. Mascava uma goma de mascar e esboçava um sorriso provocador, tinha um pircing no umbigo e sua camiseta rosa regata estava amarrada com um nó, deixando parte da barriga à mostra. Aquela camiseta era de um tecido leve, que parecia voar quando a jovem saltava na arquibancada sem tirar os olhos de mim.

Ou será que era eu que não tirava os olhos dela?

O cabelo marrom e comprido estava preso de uma forma bagunçada, uma linda faixa verde e branca com bolinhas em tom de verde turquesa completava o visual encantador.

Ela usava um batom vermelho, um tanto quanto forte, possuía grandes cílios e seu rosto estava pintado com tinta verde e branca. Meu sobrenome estava escrito na testa dela, com letras caprichadas e bonitas e caneta preta: “Spoo”, para completar a arte, os “oo” eram dois grandes corações e o “S” parecia uma serpente verde com olhos brancos. A pintura era tão adorável quando a garota que a usava. A tinta verde usada no rosto tinha glitter preto, já a branca, tinha glitter verde. Uma verdadeira produção.

Tinta verde estava nas pontas enroladas do grande cabelo marrom.

A garota olhou fixamente para os meus olhos e me mandou um sorrisinho, depois, com um gesto gracioso e cuidadosamente ensaiado ela pegou da arquibancada onde estava sentada, um grande chapéu verde em formato de um automóvel. Com letras neon e brilhantes estava escrito, na parte mais alta e visível do chapéu a frase “EU TE AMO, CARL SPOO!”, o que me fez dar uma risadinha leve.

Era muita fama para uma pessoa só.

Não que eu não gostasse, claro.

Havia muitas outras garotas na arquibancada, mas aquela realmente tinha despertado minha atenção, talvez porque ela parecia tão natural e ao mesmo tempo tão quente e tão provocante.

A jovem enrolava a ponta do cabelo verde enquanto mexia no chapéu com a outra mão, sem tirar o olhar do meu rosto por nenhum segundo, sem vacilar nem um pouco. Ela me mandou uma piscadela sedutora, o que me provocou novas sensações.

Gritos frenéticos de outras fãs vieram, desviei meus olhos da de cabelos com pontas verdes por um segundo, e me concentrei em acenar para outras garotas, algumas quase e outras tão lindas como a menina de blusa rosa e saia verde.

Mas foi quando um grito ainda mais estridente do que de todas as outras fãs penetrou em meus ouvidos. Me virei procurando a dona da voz.

Percebi que era a garota.

Aquela garota.

A jovem de saia verde, blusa rosa e pintura facial. Aquela que mascava graciosamente uma goma de mascar e possuía olhos verdes sedutores além de um chapéu verde em formato de carro.

Aquela garota.

Ela estava segurando nas duas mãos um enorme megafone verde com listras brancas, onde gritava. Eu não acreditava naquela cena, me parecia ser alguém bem fanática.

“Todos os pilotos em posição!” Falava o juiz, Sérgio Pereira.

Dei um leve aceno dirigido a garota, que corou, e entrei no meu carro.

Meu maravilhoso carro verde com listras brancas e uma serpente verde escura desenhada.

O 63.

“Todos os pilotos já estão em posição.” Dizia o narrador, Eric Jiboia.

Eu bufei e revirei meus olhos só de ouvir a voz estridente de gralha dele.

O sobrenome não era por acaso, todos os corredores sabem que o homem nunca foi alguém imparcial, sempre torcia em meio as próprias narrações, e prejudicava com palavras os outros corredores que não eram o favorito dele. E quando digo em “seu favorito”, estou falando de Bruno Hawe.

Hawe, 27 anos, cabelos loiros e penteados corretamente, roupas arrumadas, sorriso brilhante, olhos focados na corrida, e uma velocidade incomparável.

4 vitórias consecutivas.

Várias fãs, o favorito.

Mas aquela garota, a do megafone, não estava torcendo para Bruno Hawe, mas sim para mim.

E era por ela que eu correria.

O sinal estava vermelho, mas já começava a piscar. O tic, tic, tic do som que significa que todos os automóveis precisavam estar com pneus trocados, com aparência limpa e com o motor checado, coisa que eu já tinha feito. E que todos os corredores precisavam estar preparados, o que eu já estava, me deixava cheio de adrenalina e emoção. Eu me sentia vivo.

Correr me deixava vivo. Ser piloto me deixava vivo.

A pista possuía alguns obstáculos e as regras da prova eram rígidas e clara.

Era a Pista 145.

Uma pista especial, apenas os melhores corredores dos melhores correm aqui, e eu não podia desperdiçar essa oportunidade, eu precisava ganhar.

Complete oito voltas e depois vá para a linha de chegada, sem burlar nenhuma volta, essas eram as regras.

“PREPARAR...” Comentava o narrador.

O sinal ficou amarelo.

Peguei meu capacete do banco, era verde com listras brancas e uma serpente desenhada. No canto esquerdo dele estava escrito o número “63”. Dei uma ultima piscadela para a garota de blusa rosa, saia verde, chapéu de carro, megafone, batom vermelho e pintura facial. Será que a jovem sabia que seria ela meu grande motivo para correr?

Sei que parece uma idiotice correr por alguém que você nem conhece.

Mas esse “alguém” estava torcendo por você.

Não podia decepciona-la.

Coloquei meu capacete e ajeitei meu fone, com um microfone colocado perto da boca, para conseguir falar com minha equipe.

O tempo pareceu congelar, minhas mãos suavam ao apertar com força o volante, minhas pernas tremiam de ansiedade, mas minha cabeça tinha a certeza: eu ganharia hoje.

“JÁ!”

O sinal ficou verde.

E eu comecei a correr.

O vento batia em meu rosto, o que fazia o capacete parecer um tanto inútil, um sorriso estava estampado na minha cara, meu corpo, mente e alma estava sendo tomado por adrenalina.

“Em primeiro lugar, o nosso querido Hawe...”

Começava o narrador, o que me fazia ficar com nojo.

“Concentre-se, Carl.” Eu murmurava para eu mesmo.

“Em segundo Guilherme Olivia.”

Guilherme Olivia estava em um carro amarelo, era o mais velho de todos os corredores e recebera o apelido de “Piloto de Segunda”, por conseguir o segundo lugar em praticamente todas as corridas.

Por que ele ainda estava sendo enviado pelos patrocinadores para correr na 145? Isso era um mistério que não cabia a mim responder.

“Em terceiro Leonardo Wade...”

Leonardo corria em um veiculo roxo, uma máquina rápida e com grande potencial, talvez fosse perigoso ele assumir a liderança com aquela beleza de veiculo.

“Com um rápido veiculo, mas não tão rápido quanto o R235 de Hawe, patrocinado pela Moentow.”

Revirei meus olhos novamente.

“Foco, Carl. Foco. Você tem que ganhar!” Eu falava baixinho.

“Em quarto Atilio Fertinado.”

“Em quinto Breno Junqueira.”

“Ganhe pelos seus patrocinadores.” Eu murmurava.

“Em sexto Daniel Uera.”

“Em sétimo Felipe Tie.”

“Pela garota.” Eu tornava a pensar.

Estava indo o mais rápido que podia, meus pés apertavam o acelerador com toda a força que conseguia.

“Em oitavo João Carlos da Fiera.”

“Em nono Gustavo Fabe.”

“Por você.” Eu pensava com toda a força, tentava ficar focado. Sabia que estava perdendo.

“E em décimo, e último lugar Carl Spoo.”

Aquilo doeu como uma facada, pude perceber que Sérgio sorriu por dentro ao dizer isso. Eu era o novato, só tinha corrido em pistas menores para provas menos importantes. Todos os demais corredores que competiam comigo tinham pelo menos um título importante, seja vitória de primeiro, segundo ou terceiro lugar em alguma coisa, em alguma coisa grande.

Já eu não.

E eu não daria esse gostinho de perder na minha primeira prova importante.

Percebi que as luzes do meu painel estavam verdes. Era isso, eu ainda não tinha trocado de marcha, talvez isso fizesse meu carro ficar mais rápido.

Aumentei minha velocidade e percebi que estava quase alcançando Gustavo Fabe, faltava pouco, muito pouco.

Percebi que uma curva estava vindo, então acionei o “Controle do Piloto nas Curvas”, onde me permitia mais segurança na hora de virar, para conseguir avançar.

Eu estava alcançando Gustavo Fabe, acelerei mais, fiz isso com toda a força que tinha.

Até que eu, o ultrapassei.

Gritos foram ouvidos da multidão, eu estava ganhando posições na minha primeira corrida importante. Olhei de relance para os fãs com adereços verdes, e lá estava ela.

A garota do grande chapéu estava balançando pompons verdes.

A pista estava um tanto lisa, mas não chegava a estar escorregadia e, graças aos indícios de chuva e do grande temporal que tinha caído 50 minutos antes da corrida na 145 todos os pilotos estavam usando pneus comuns, mas tínhamos pneus especiais para o caso de ocorrer chuvas, no nosso pit spot.

A primeira volta acabou, e eu estava no nono lugar.

Faltava 7.

Eu acelerava como nunca, mas João continuava na minha frente, não porque era mais rápido, mas porque estava na minha frente, de uma forma que eu não conseguia contornar e ultrapassar, estava me tapando.

Eu conseguia ser mais veloz do que isso se João me deixasse ultrapassa-lo. Ele estava fazendo aquilo de propósito.

O juiz levantou uma bandeira azul escura e o nome do João ficou azul no placar, isso significava apenas uma coisa: ele era o retardatário. Relutante, o homem deu passagem e eu continuei.

Agora na oitava posição.

Chegava a curva novamente e eu virei, segurando o volante com toda a força, eu estava suando.

Eu ainda continuava na oitava posição quando completei a terceira volta, mas se tinha uma coisa que eu estava fazendo, era estar dando meu melhor.

“Carl está tudo bem?” Uma voz conhecida falava no meu fone, era Ed, meu treinador.

“Sim, sim. Eu só estou um pouco nervoso.” Respondi, percebendo que João estava me alcançando novamente.

“Olha fique calmo e...” Ed continuava falando, com a voz segura que o mesmo tinha, mas algo cortou a transmissão.

“ED! ED! VOCÊ ESTÁ AI?” Gritei, mas não obtive nenhuma resposta.

Continuei correndo, eu não sabia o que tinha acontecido, talvez fosse comum o sinal ter caído, talvez uma interferência graças a chuva que tinha ocorrido.

O meu sinal de comunicação provocava ruídos.

Estava alcançando Felipe, estava na cola dele.

Eu estava o ultrapassando.

A pista parecia ficar mais brilhante e as arquibancadas mais bonitas, os gritos mais estridentes e os fãs mais loucos, a medida que eu avançava.

Eu sorria, estava na sétima posição.

Terminei mais uma volta.

Faltava quatro.

A pressão começava a aumentar, apenas quatro voltas e na sétima posição.

Os chiados do meu fone eram atordoantes, o que teria acontecido com Ed?

Os carros corriam como nunca, com motores incrivelmente acelerados.

E o placar era esse:

Hawe, o favorito do Jiboia estava descolando o primeiro lugar.

Wade, o que começou em terceiro, tinha passado para a segunda posição.

Ferdinado, que começou em quarto, tinha avançado para a terceira.

Depois Olivia, Junqueira, Uera, eu, Tie, Fabe e Fiera.

E eu em sétimo lugar. Com quatro voltas faltando.

Olhava a pista preocupado, meus nervos latejavam e minhas mãos estavam vermelhas de tanto apertar a direção. Mudei a marcha, acelerei, meu pé parecia querer quebrar o botão capaz de fazer o carro ir mais rápido.

Eu suava de nervoso, onde estava Ed?

Por algum motivo eu sabia que conseguia ganhar, mas minha autoconfiança estava se esvaziando, assim como meu orgulho. Eu não tinha tanta certeza assim.

“Alô? Ed?” Eu o chamei, mas nenhuma resposta, além dos chiados atordoantes que me dava a sensação que meus tímpanos explodiriam.

Acelerava ainda mais, sentia o vento ficar mais forte e minha cabeça doer.

Os gritos estavam mais histéricos, torciam por mim.

Pelo menos, aquela garota do chapéu verde, torcia.

E como torcia.

Era gratificante saber que ela estava gritando no megafone meu nome, enquanto dançava com seus pompons, esperando eu cruzar a linha de chegada.

A linha da vitória.

“E parece que Spoo acabou de ultrapassar Uera, indo para a sexta posição.” Sérgio narrava.

Eu estava na sexta posição, faltava seis corredores para ultrapassar.

A quarta volta já estava acabando e eu estava com velocidade total.

O tempo fechava, assim como previsto, começaria a chover.

“E Hawe completa a quinta volta em primeiro lugar. Seguido por Wade e por Ferdinado.”

A chuva começou.

Eu tinha acabado de completar a quinta volta. Faltavam apenas três.

E com um grito da multidão, eu ultrapassei Oliva, que tinha sido ultrapassado por Junqueira.

Quinta posição.

A chuva aumentava, mas a pista não estava tão escorregadia, os pneus davam conta. Pude imaginar os telespectadores assistindo a corrida, uns com guarda-chuva, outros reclamando do mau tempo, alguns se banhando.

“Ed? Ed? Onde está você?” Eu murmurava apreensivo, não era do meu perfil desacreditar em mim mesmo, eu tinha até uma boa autoconfiança. Mas os quesitos eram outros:

Agora Bruno, dirigindo seu R235 azul da Moentow, continuava ocupando com seu sorriso brilhante e postura impecável o primeiro lugar. O garoto ainda tinha o privilégio de estar com um dos carros mais rápidos e cobiçados pelos pilotos.

“Ah, se a Moentow tivesse me escolhido e me patrocinado...” Sonhava acordado em meio a corrida. Mas eu estava reclamando de barriga cheia, confesso. Pois Eruos era uma equipe automobilística fantástica, e eu me sentia honrado por terem me dado a chance de correr da Eruos63a, um ótimo veiculo.

Completei a sexta volta, ainda na quinta posição.

Faltava só duas voltas e acelerar até a linha de chegada, minha confiança estava sumindo, eu não sabia se daria tempo de ganhar.

Sentia uma pontada de dor na barriga e uma enorme ânsia, era o nervoso chegando, era meu orgulho indo embora. Era eu ganhando em quinto lugar. Eu perderia tudo, correr era a única coisa que me motivava dia e noite.

A chuva aumentava cada vez mais, meus vidros começavam a ficarem embaçados.

O fone parou de chiar, e uma voz, um pouco baixa surgiu.

“Carl, está me ouvindo? Carl?” Era Enrico, um dos chefes e acionistas da equipe Eruos.

“Tem um pouco de interferência, mas sim.”

“Escuta, você precisa ganhar essa, sabe como isso é importante para mim e para a equipe.” Ele falava em um tom sério, conseguia visualizar suas sobrancelhas franzidas em meio ao meu desempenho.

Eu assenti silenciosamente, contavam comigo.

Mudei a marcha novamente e aumentei minha velocidade o máximo que pude. Me concentrei em dar tudo de mim.

“Talvez, o meu melhor não fosse o suficiente para Eruos.” Pensei comigo, tristemente.

“E Bruno continua na primeira posição.” Falava Sérgio, com um orgulho nítido na voz.

“Não!” Uma voz no fundo da minha cabeça surgiu, eu mostraria para eles. Mostraria para todos da Euros que eu era capaz.

Eu estava muito perto de Junqueira, muito perto.

O homem encurralou meu veiculo na parede direita.

Meus olhos estavam cerrados e eu exibia um sorriso, eu sabia que eu conseguiria ultrapassar Junqueira. Uma voz na minha cabeça estava me dizendo isso.

E essa voz se chamava, determinação.

Acelerei, acelerei e fui um pouco para a direita, depois para a esquerda, esperei ele me dar um mísero cantinho para a ultrapassagem.

E foi quando o momento perfeito aconteceu, eu podia passar pela esquerda.

Junqueira percebeu que eu tentaria ultrapassa-lo e fechou ainda mais o cantinho, era impossível passar pela direita por causa da parede. O chão estava um tanto escorregadio, graças a chuva. Se eu me arriscasse ir pela direita colidiria com a parede na certa. Se eu fosse pela esquerda tinha uma chance de me dar bem.

O pequeno muro acabaria logo e seria substituído por cadeiras, o que me daria mais espaço para passar. Mas eu não tinha tempo.

Ultrapassar Junqueira pela esquerda era arriscado, com risco de danificar o carro, levar uma falta e de até, em casos graves, sofrer um acidente. Mas eu não tinha tempo.

A sétima volta estava quase completa, eu não teria outra chance de ficar em quarto lugar.

Eu tremia e suava frio, devia estar branco e minha cabeça latejava como nunca enquanto eu esperava uma pequena brecha de Junqueira para o ir para a quarta posição, pela esquerda. O espaço surgiu.

Rezei baixinho e, com uma manobra arriscada, consegui ultrapassar o piloto.

A chuva aumentava ainda mais.

“Carl, você vai ter que vir para o Pit Stop trocar seus pneus! Você tem um grande risco de derrapar!” Era Ed.

Aquelas palavras entraram na minha mente.

Se eu fosse para o Pit Stop só perderia tempo.

Minha roupa estava incrivelmente molhada.

A sétima volta foi completada, só faltava mais uma.

Ferdinado rumou em disparada para o Pit Stop da equipe dele, pois precisava trocar as rodas.

O que me garantiu o terceiro lugar.

Eu não podia parar, simplesmente não podia.

“CARL! Você está ai? Vai para o Pit Stop!”

A voz de Ed soava na minha cabeça, como um martelo.

“CARL! CARL! VAI AGORA!” Meu treinador gritava, havia nervoso e medo na voz dele.

Mas eu não podia ir, se eu fosse, Ferdinado pegaria minha posição.

Eu tinha decidido não trocar os pneus, então iria desse jeito, não tinha mais tempo. Não voltaria atrás, pois o tempo que eu perderia voltando poderia ser útil para Ferdinado. Enquanto eu trocava os meus, ele corria.

“CARL! SE VOCÊ NÃO TROCAR OS PNEUS, VOCÊ PODE DERRAPAR, SERÁ QUE NÃO PERCEBE ISSO?” Ed gritava, aflito.

Isso valeria se eu vencesse.

Eu estava ultrapassando Wade e a multidão ia a loucura, olhei de relance para Sérgio e percebi que o homem estava de olhos arregalados e de boca aberta.

“O que foi, coroa? Nunca viu ninguém não trocar os próprios pneus?” Eu pensava, enquanto sorria.

Eu estava na segunda posição.

Eu não conseguia conter meu entusiasmo, minhas mãos suavam.

Eu estava no segundo lugar, perdendo apenas para Bruno.

Eu, o novato.

“E PARECE QUE SPOO ESTÁ REALMENTE TOMANDO POSIÇÕES!” Falava Sérgio Jiboia, até um tanto quanto admirado.

E eu estava mesmo tomando posições, estava em segundo lugar, na minha primeira corrida realmente importante.

“Talvez ele consiga o segundo lugar na Pista 145.” O narrador completou, nunca imparcial.

“Segundo lugar na Pista 145.” Eu pensava. O nome me soava bem, mas eu estava pronto para mostrar que eu merecia o título de campeão.

A chuva ficava cada vez mais forte, raios cruzavam o céu.

Conseguia ver Wade pelo meu retrovisor, ele estava perto de me alcançar.

A curva se aproximava, eu precisava virar completando a oitava volta e depois dirigir reto até a linha de chegada.

“Não vai ser fácil.” Eu pensava comigo. Me arrependendo de não ter trocado os pneus.

“Carl! A curva está vindo, você não vai conseguir virar! CARL ME ESCUTA!” Ed estava realmente aflito, mas eu não queria dar ouvidos. Eu queria ganhar.

O meu fone chiou novamente e uma voz surgiu.

Acelerei o ritmo.

“SPOO! EU NÃO LIGO SE VOCÊ GANHAR OU PERDER!” Era Enrico.

A fala dele fez eu ficar de boca aberta, incrédulo. Ele não ligava se eu não ganhasse?

“Mas eu vou ganhar.” Respondi, confiante. Eu apertava o volante, nervoso.

“SPOO VOCÊ NÃO ENTENDE!?” Enrico gritava, se estava nervoso ou furioso eu não sabia descrever. Os gritos dele irritavam minha orelha.

“O que eu não entendo?” Respondi, com um tom de voz controlado, um contraste entre os gritos de Enrico, a apreensão de Ed e um medo que eu tentava esconder. A curva era visível e o carro provavelmente derraparia.

Mas que escolha eu tinha agora?

Eu não poderia voltar atrás, eu tinha que vencer.

O som dos motores dos carros, o grito da multidão e a chuva eram uma combinação perfeita. Meus olhos pareciam me pregar uma peça, eu ainda não acreditava que estava pilotando um automóvel em uma estrada com os melhores. Eu realmente me sentia vivo.

Se tudo desse errado, pelo menos morreria como um corredor da Pista 145 e com a plena consciência de que meu sonho de ser piloto, tinha se tornado realidade.

“SPOO! QUE SE DANE A CORRIDA! SÓ PARE! VOCÊ PODE SOFRER UM ACIDENTE SE PROSSEGUIR!” A voz do meu chefe estava aflita.

“Me desculpe.” Eu murmurei, ainda com a visão focada na curva que vinha. Minha expressão estava séria, eu acelerava cada vez mais, tinha conseguido despistar Wade.

Gotas caiam no meu carro e também no meu capacete, conseguia sentir o vento gelado. Eu estava tremendo de frio.

Eu troquei a marcha. Parecia que meu pé ia quebrar o acelerador a qualquer momento, eu suava de nervoso, em contraste com a água gelada que entrava pela gola da minha blusa verde escura.

A multidão foi a delírio quando eu ultrapassei Bruno Hawe.

E eu também fui.

“SPOO AGORA ESTÁ NA PRIMEIRA POSIÇÃO!” Sérgio narrava, dava para perceber a surpresa na voz do homem.

Eu tinha ultrapassado o vencedor por 5 vezes seguidas, eu estava na primeira posição.

Era só torcer para tudo isso ser real, e não um sonho.

“Parabéns pelo primeiro lugar, Carl, mas será que você poderia...” Ed estava novamente falando comigo, a voz do mesmo estava empolgada, mas mesmo assim, estava aflita.

“Agora não Ed.” Eu o interrompi. “Tenho uma linha de chegada para cruzar!” Eu falei, determinado.

Bruno estava ficando bem para trás, acho que nunca estive tão rápido.

A curva estava se aproximando mais e mais. Respirei fundo.

E arrisquei.

Não tinha como desistir agora.

Apertei o “Controle do Piloto nas Curvas” e torci para que tudo desse certo.

Minha roda direita se encheu de água, depois foi a esquerda. Era muita água, a pista estava muito molhada e eu estava muito rápido.

Ouvi o barulho dos pneus, que pareciam querer se soltar do carro. Aquele som agudo e inconfundível de um pneu derrapando. Minhas mãos ficaram geladas e por um momento, achei que o mundo fosse parar.

Meu único pensamento na hora de fazer a curva foi aquela garota, que estava torcendo por mim.

Minhas mãos estavam tremulas, eu perdi o controle da direção e o carro começou a girar.

“CARL!” Enrico gritou.

Meu coração acelerava.

Eu bati na parede direita.

Mas ainda sim, o carro estava funcionando.

O estrago não foi grave, arranhou a pintura, minha cabeça latejava, meus lábios estavam com gosto de sangue. O espelho retrovisor esquerdo ficou em pedaços e meu banco se encheu de cacos de vidro. Mas, por uma sorte enorme, eu não tinha trombado muito forte com a parede direita, o que fazia tudo estar aparentemente bem.

Olhei pelo espelho retrovisor esquerdo, que tinha sido trincado, e vi Bruno pronto para terminar a oitava volta. Eu não tinha me arriscado tanto por nada.

Coloquei meu pé no acelerador e mexi no volante, pude perceber que minhas mãos tinham cortes com sangue e eu estava tremendo. O carro ainda estava em um bom estado.

Daria para vencer.

Era hora de mostrar para todos que eu poderia ganhar.

A oitava volta foi dada.

Bruno tinha recuperado o primeiro lugar, por causa do meu acidente. Wade ainda estava em terceiro, mas estava longe de me alcançar.

Mesmo assim, Hawe e eu tínhamos uma distancia considerável. Acelerava como nunca, e eu também, que se dane a chuva.

Na Pista 145 só existia um troféu para um ganhador, “segundo lugar” era só um título simbólico para te avisar que você foi “o primeiro dos perdedores”. Mas nessa corrida não existia nenhuma medalha de prata. Apenas um troféu de ouro com um lugar no pódio.

Somente uma pessoa poderia ganhar, e essa pessoa seria eu.

Correr contra Hawe era uma honra, Sérgio, mesmo não sendo imparcial, narrava tudo com uma empolgação fascinante, a multidão dava gritos animada e nessa hora, tinha certeza que várias pessoas já estavam apostando quem ganharia a primeira Pista 145 do ano de 2000.

“Então assim era correr contra os melhores?” Eu pensava, ainda pasmo por ser realmente real. Eu estava realizando meu sonho, correndo onde sempre quis correr. Me sentia um vitorioso só por estar naquela oportunidade em meio a tantos outros corredores que a Eruos poderia ter escolhido para patrocinar.

Bruno acelerava e eu também, a multidão estava apreensiva, ou pelo menos: eu estava tão apreensivo quanto quase toda aquela grande quantidade de pessoas reunidas nas arquibancadas. Ouvia o barulho dos motores, aquilo era mágico.

Eu estava atrás de Hawe, faltava pouco. Muito pouco.

A pista em linha reta, que dá na direção da linha de chegada, é mais espaçosa, enquanto a pista das oito voltas possuía largura para apenas um carro, a medida que eu e Bruno íamos em linha reta a pista ia ficando mais larga.

Conseguia ver a linha de chegada de onde eu estava.

A pista ficou larga o suficiente para dois carros correrem facilmente um do lado do outro.

Eu suava como nunca, minha mão estava vermelha, por causa do sangue e de segurar de forma rígida o volante da Eruos63a. Eu estava tenso, estava lado a lado com o favorito da torcida.

A linha de chegada estava se aproximando, conseguia ver a linha que determinava o ganhador. Também era visível o pódio e o troféu de primeiro lugar.

Mudei minha marcha e fui o mais rápido que podia, faltava menos de um metro para chegar.

A linha de chegada vinha se aproximando cada vez mais.

E mais.

E mais.

Faltava alguns centímetros.

Bruno e eu estávamos lado a lado, Wade vinha se aproximando.

Faltava realmente muito pouco.

Fechei meus olhos e pisei no acelerador.

Quando eu os abri pude ouvir os gritos estridentes da multidão e no grande telão aparecia:

“CARL SPOO: O VENCEDOR DA PISTA 145 DO ANO 2000.”

Eu perdi totalmente a fala, eu tinha vencido.

A multidão delirava, alguns aplaudiam de pé, outros balançavam os pompons verdes.

Eu abri a porta do carro e a plateia explodiu em vivas, retirei o capacete e me olhei no telão, meu rosto estava sangrando. Eu me Levantei e antes que pudesse fazer qualquer coisa, Ed foi ao meu encontro e me deu um grande abraço.

“Carl eu não acredito! Você podia ter morrido, por favor não faça mais isso, ok?” Ed falava, com uma voz pastosa. “E olha para você! Está péssimo, tem sangue na sua cara!”

“Ed, Ed. Está tudo bem.” Eu sorri, olhando para meu treinador nervoso.

“Não acredito que vencemos, Carl. Não acredito.” Ed murmurou, pude perceber que o mesmo tremia enquanto me abraçava. Ele sorriu.

“É, nós vencemos.” Eu murmurei, retribuindo o abraço.

“Parece que você ganhou, Spoo. Só não ouse fazer aquela loucura de não trocar os pneus de novo.” Eduardo disse, me parabenizando. “A Eruos é grata por ter você como piloto.”

“Obrigado.” Sorri honrado.

“Agora parece que alguém quer falar com você.” Eduardo apontou para uma multidão de reportes vindo até eu e meu chefe. “É seu momento, boa sorte.” Ele disse e saiu da pista, me deixando sozinho com vários repórteres.

“Olá, olá.” Chamei a atenção dos entrevistadores com um aceno.

“Então Carl Spoo, como você se sente ganhando a primeira Pista 145 dos anos que vão se seguir com 2000?” Perguntou uma repórter.

“É uma honra, é como se eu corresse para o futuro. Até ontem estávamos em 1999 e hoje estamos em 2000? Eu mal consigo acreditar.” Respondi, sorrindo.

“E como você se sente, senhor Spoo, sabendo que você ganhou a última corrida do século XX?” Perguntou outra repórter.

“Me sinto bem com isso, é como minha marca registrada.”

“Como é a sensação de derrotar Bruno Hawe? O detentor de 4 Pistas 145 consecutivas?” Perguntou um repórter.

“Eu ainda estou um pouco pasmo sobre isso, não acredito que ganhei de Hawe, o homem é um piloto fenomenal.” Confessei.

“Mesmo com um narrador de certa forma imparcial, como você se sentiu ganhando, mesmo com a falta de apoio dele?” Perguntava outro repórter.

“Olha eu me senti muito bem, meu símbolo é uma cobra, mas o Jiboia é ele.” Dei um sorriso largo, talvez Sérgio fosse entender a indireta.

“E quanto a essa sua escolha de não trocar os pneus, senhor Spoo? O que tem a nos dizer sobre isso?” Perguntou uma repórter.

“Foi algo arriscado, que eu acabei decidindo na hora.” Respondi.

“Você sabia que o carro poderia bater?” Perguntou outro repórter.

“Bom sim, mas eu tentei arriscar. Eu tive muita sorte e só tenho o que agradecer por não ter acontecido nada grave. Não tentem isso em casa.”

“Tem algo a dizer para seus fãs que te apoiaram e vieram torcer por você?”

“Bom, eu sou muito grato pela torcida de vocês, e é graças aos meus fãs que eu tenho uma motivação para prosseguir correndo. Obrigado a todos vocês.” Eu dei um sorriso e os telespectadores aplaudiram, alguns até gritaram.

“Você tinha esperança que fosse ganhar hoje, ou nem imaginava isso?” Perguntou uma repórter.

“Sinceramente? Eu tinha esperança que fosse ganhar.” Respondi, meio sem graça, dando uma risada.

“O que você acha da equipe que te patrocina a Eruos?”

As pessoas aplaudiram formalmente o nome da equipe.

“Eles são ótimos, fico contente de correr para uma equipe com modelos de carros tão bons.”

“Com licença mas, senhor Spoo, está na hora de receber seu prêmio.” Era Paul, um dos criadores e organizadores da Pista 145. Ele usava uma roupa social e tinha cabelos incrivelmente bem penteados.

“Claro.” Eu falei, explodindo de emoção por dentro.

Nós dois nos dirigimos até o pódio, contendo um único lugar, com um único troféu.

“Pode subir, garoto.” Paul disse.

Eu achei que fosse explodir de tanta alegria, honra e orgulho que eu sentia por mim mesmo. Paul me entregou o troféu que estava escrito “CAMPEÃO DA PISTA 145-ANO DE 2000” eu sorria como nunca.

Levantei a grande taça com orgulho e felicidade, a adrenalina ainda estava correndo forte por minhas veias. Olhei a multidão me aplaudindo e me senti vivo e feliz, achei que nada me tirasse do foco, que nada fosse desviar meu olhar da multidão que estava na arquibancada.

Até que eu recebi um beijo na bochecha.

Me virei para ver quem tinha me beijado e me surpreendi.

Era aquela fã.

A garota de chapéu e pintura facial, que agora trajava uma camiseta com minha foto estampada nela.

Dei um largo sorriso e percebi que as bochechas da jovem ficaram vermelhas.

“Olha, eu gostaria de saber seu nome.” Disse.

E a garota corou, sorrindo.

27 de Fevereiro de 2018 às 01:23 3 Denunciar Insira 4
Leia o próximo capítulo Eu só queria correr.

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Laura Colere Laura Colere
MER4ECEU DESTAQUE PQP MARAVILHOSO
2 de Março de 2018 às 12:00
H.J Coes H.J Coes
Buena narrativa, sin duda se siente la emoción del corredor y lo intenso de la carrera, no se puede esperar un mes para saber mas de esta historia T_T
1 de Março de 2018 às 17:01
Carla Alessandra Carla Alessandra
Ai, eu amo demais essa história, AAAAAAAAaaaAAaAAaaaaaAAAAAAA MERECEU DESTAQUE SIIIIM
27 de Fevereiro de 2018 às 09:38
~

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