Conto
11
6.8k VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Capítulo Único


Near sabia que aquilo não normal. Sentir aquele palpitar no peito, a respiração acelerada. Não... não era normal. Era asma.

Sentou-se, arrastando-se no chão por entre os dados enquanto apertava o peito. As mãos agarravam o tecido do pijama como se assim pudessem tocar os próprios pulmões e se obrigar a respirar devidamente, em vão. Sabia que era inútil, tinha noção de que tinha que achar sua bombinha antes que aquilo se agravasse e faltasse oxigênio ao cérebro.

Afastou-se da parede, engatinhando pelo chão enquanto os olhos corriam pelos dados, cartas e brinquedos no chão.

Tinha sido irresponsável mais uma vez. O que L pensaria se o visse naquele estado? Se soubesse? O detetive se zangaria, ao modo dele, é claro. Iria o repreender e fazer com que alguém vigiasse Near novamente para evitar situações daquele tipo.

Ar, ar, ar.

Gemeu dolorido, ouvindo o chiado do peito, aquele barulho tão característico da doença, sentindo a dor se alastrar naquela região enquanto os olhos se umedeciam. Bateu em sua construção de dados, destruindo-a, passando a mão pelos cubos a fim de ver se sua bombinha estava ali entre eles. Mas a verdade era que Near sabia que não estava.

Havia esquecido o aparelho no quarto, sobre o criado mudo, do lado do ursinho branco, a quatro centímetros da quina.

Arfou sem que o ar entrasse em seus pulmões, as lágrimas escorrendo quentes. O corpo tremia enquanto se deitava de costas no chão encarando o teto e sentia a garganta arder; a vista ficou turva.

Falta de oxigênio.

Não demoraria a perder a consciência.

A visão escurecia, o corpo doía, mas o desespero que sentia não era pela possibilidade de morrer, mas sim pela falta de ar, uma resposta puramente biológica. E foi assim que, de repente, não viu mais nada.

x

Acordou na enfermaria com o silêncio e o nada como companhia. A enfermeira apareceu em pouco tempo, obrigando-o a fazer inalação enquanto o repreendia severamente.

Os olhos negros miravam o chão sem interesse pelas palavras que ouvia. Murmurou um agradecimento baixo e indiferente ao ser liberado e caminhou para seu quarto. Trancou a porta, indisposto a ouvir Roger, o diretor do orfanato, vir lhe passar outro sermão. Coçou os olhos e, de repente, pendeu a cabeça para o lado ao ver o urso de pelúcia caído no chão. Enrolou uma mecha do cabelo branco, analisando a cena.

A bombinha para asma estava ali no criado mudo como previra, mas o urso estava caído perto de sua cama. Os lençóis estavam bagunçados como deixara, mas a coberta estava caída parcialmente como ele nunca deixaria. Alguém estivera em seu quarto.

Mello? Matt? Com certeza, um dos dois. Só eles tinham cara de pau o suficiente para invadir seu quarto e ainda por cima mexer em suas coisas. É, provavelmente eles tinham ido ali para verificar se ele havia mesmo sido levado à enfermaria, já que era muito mais fácil invadir seu quarto do que convencer as enfermeiras a uma visita fora do horário e sem autorização de Roger.

Aliás... Há quanto tempo não via Mello? A última vez tinha sido na sala de brinquedos quando ele estranhamente não destruíra seu castelo de cartas.

— Presente de aniversário. — Foi o que Mello usou como justificativa.

Near sorriu de leve com a lembrança. Mello podia ser explosivo e violento, mas ele nunca esquecia seu aniversário. Mesmo que fosse para simplesmente irritá-lo mais ainda no dia, o que não acontecera aquele ano. É... Seu aniversário de quinze anos havia sido mesmo diferente. Mello simplesmente aparecera com uma barra de chocolate e a deu a Near — “jogou” seria o termo mais adequado — enquanto deitava no sofá e ignorava o castelo de cartas.

Abaixou-se, pegando o ursinho no chão e o colocando de volta no criado-mudo. Seu estômago roncava de fome, mas sabia que já havia perdido o horário do café da manhã. Olhou o relógio. Duas horas até o almoço ainda. Não tinha jeito, teria que apelar a Matt novamente. O gamer sempre assaltava a cozinha do orfanato junto de Mello, e os dois possuíam uma vasta reserva de comida escondida em uma das gavetas do guarda-roupa no quarto deles.

Dessa vez pegou a bombinha e a colocou no bolso da camisa antes de sair do quarto e trancá-lo. Os monitores do orfanato estranharam ao vê-lo se dirigindo para o quarto de Mello, e Near pode sentir a preocupação deles. Quantas vezes os monitores o tinham socorrido nos meses anteriores? Várias. Mas há quanto tempo Mello já não o confrontava como antes? Três semanas. Desde seu aniversário.

Parou com a mão na maçaneta, voltando-a ao cabelo para enrolar uma mecha enquanto refletia. Alguma coisa estava errada com Mello, algo que aconteceu antes de seu encontro com ele em seu aniversário, algo que mudou seu comportamento.

Não haviam tido nenhuma visita de L naquele mês e também Mello não havia recebido nenhuma bronca séria de Roger e muito menos brigado com Matt, mas algo estava o atormentando. Sim, algo tinha que estar deixando Mello perturbado demais para que ele se esquecesse até mesmo da rivalidade que tinham e deixasse de ir todo dia perturbá-lo.

Alguma coisa estava roubando a atenção de Mello de si, e não gostava nada disso.

Sua feição foi de indiferença para desagrado em poucos instantes, e foi a movimentação do outro lado da porta que o fez voltar ao normal (ou teria sido seu estômago roncando?). Bateu três vezes como era de seu costume. Batidas leves e com o mesmo intervalo entre elas.

Ouviu passos apressados e a porta se abriu rapidamente. Os olhos azuis expressavam certa dúvida ao encará-lo ali, na porta, aquela não era uma cena rotineira. Near percebeu Mello encarar os monitores no corredor antes de abrir passagem para que entrasse. E assim o fez. Entrou quieto, sentindo o olhar dele em suas costas.

— O que você quer? — Mello perguntou direto e o tom irritado da voz não passou despercebido por Near.

— Comida — respondeu indiferente, sentando na cama que identificou sendo a de Matt pelo controle de vídeo game sobre o colchão.

— E? — Mello bufou. — Isso aqui não é a cozinha. Fora.

Near não se mexeu. Cruzou as pernas na cama, sentando-se em posição de índio enquanto mordia o polegar e analisava a cena à sua frente.

Mello não gritou. Mello não havia nem gritado nem demonstrado qualquer sinal de que o tiraria à força do quarto, como tantas outras vezes tinha feito.

— O que houve? — perguntou, sereno.

Mello revirou os olhos, ignorando a pergunta e se deitando na cama de bruços, fingindo que Near não estava ali.

— Armário da esquerda, terceira gaveta. Pega e some.

Near continuou parado. Mello estava deitado olhando para o armário à sua esquerda e não para ele à sua direita. Estava sendo evitado. É. Aquilo fazia sentido. Mello, por algum motivo, o estava evitando de todas as maneiras possíveis: fosse brigando, fosse conversando normalmente. Ultimamente, nenhum de seus castelos de cartas tinha sido destruído, a competição por notas havia sido deixada de lado, os dados permaneciam onde Near os deixava na sala de jogos, e tudo parecia pacífico demais...

Por quê?

Levantou-se, caminhando até onde o outro havia indicado. Inclinou-se para abrir a gaveta, sentindo o olhar de Mello acompanhar cada movimento. Era observado atentamente, desde seus dedos passarem pelas comidas, indecisos, escolhendo com cuidado e verificando o prazo de validade.

E, na verdade, Mello realmente prestava mais atenção do que deveria naquela cena tão simples. Querendo ou não, dava para perceber os olhos negros de Near se movendo de um lado para o outro, caracterizando o movimento de leitura, e os lábios se abrindo minimamente quando ele achava algo que gostava de comer. Tentou disfarçar quando Near pegou dois pacotes de bolacha e um suco de caixinha, demorando-se nessa escolha.

Engoliu em seco, apertando o travesseiro abaixo de sua cabeça com força e percebendo tarde demais que aquele gesto chamou a atenção do rival. Near não esboçou reação. Apenas continuou ali, parado, olhando o modo como os fios loiros do cabelo de Mello estavam um pouco maiores do que se lembrava, chegando agora até os ombros. Enxergava nitidamente o conflito nos olhos azuis, a tensão nos músculos dos braços e a rigidez do corpo. Mello estava nervoso. Aquilo era fácil de ler.

Por quê?

Fechou a gaveta, sentindo-se estranho por ter cada movimento analisado ao se levantar e ficar ereto.

— O que houve? — Near perguntou.

Ouviu o estalar da língua no céu da boca enquanto Mello lhe direcionava mais um de seus olhares raivosos.

Mal acompanhou quando ele se levantou da cama e o empurrou com violência contra o guarda-roupa, socando a madeira ao lado de sua cabeça. Suspirou, percebendo que derrubara a comida no chão. Mais dois socos contra o guarda-roupa. E Mello não parecia querer parar.

Os olhos estavam fechados, apertados, e as mãos tremiam enquanto as apoiava no móvel. Sentiu uma delas se fechar em volta de seu pescoço, trêmula, mas não se moveu. Mello xingou baixo, colando sua testa na dele enquanto fazia certa pressão com a mão, mas sem machucar o outro.

— Eu te odeio...

Near franziu o cenho. Os olhos azuis que mergulhavam nos seus contradiziam as palavras. Não entendia de emoções, mas certamente não era ódio que percebia no outro.

Respirou com um pouco de força. A sensação de falta de ar do dia anterior não era algo que gostava de lembrar e, por isso, se mexeu incomodado na mão de Mello.

Contudo, de repente, a falta de ar foi causada por outra coisa: pelo choque. Arregalou os olhos quando sentiu o nariz de Mello tocar o seu, deslizando com extrema lentidão. Viu a maneira relutante com que os olhos dele se fecharam e sentiu a mão em seu pescoço tremer.

Engoliu em seco, paralisado. A respiração de Mello batia em seu rosto enquanto parecia que o ar que ele exalava entrava em seu organismo e causava uma série de mudanças em si. Sim, porque certamente essa era a única explicação para o coração começar a acelerar gradualmente, para a respiração ficar mais pesada e difícil, para sentir as mãos suarem.

Silêncio. A situação exigia o máximo da capacidade de seu cérebro. Toda a sua atenção convergia para o que estava acontecendo, tentando buscar uma explicação lógica para a atitude repentina de Mello. As crianças correndo e gritando do lado de fora do quarto não existiam mais, o ventilador que fazia barulho ao completar uma volta havia sumido, a noção de tempo e espaço tinha sido alterada. Parecia que estava dentro de um lugar apertado, escuro e silencioso onde só via Mello, só o sentia, só o ouvia. Tudo se resumia a ele.

Estremeceu quando o nariz dele deslizou por sua bochecha e a mão tocou sua cintura sem que a outra abandonasse seu pescoço. A pele se arrepiou. Seu corpo pareceu fraco e quis culpar a falta de comida no estômago, mas era mentira e sabia bem disso.

Os lábios se moveram para chamar o nome do outro, porém a voz não os acompanhou e, antes que fizesse uma segunda tentativa, os lábios mornos de Mello tocaram sua bochecha, arrastando-se com leveza até os seus.

Mornos. Com gosto de chocolate, óbvio. Macios. Suaves como nunca esperaria que fossem.

Apertou o tecido da calça com ambas as mãos, fechando os olhos assim que Mello movimentou os lábios e encaixou-os aos seus novamente.

A mão que estava em seu pescoço foi à nuca, adentrando as madeixas brancas como se estivesse pedindo permissão para tal ato.

Arfou.

Mello deslizou a língua pela sua boca, introduzindo-a nela sem pressa.

Medo. Near percebeu. A tensão dos músculos, a lentidão, os tremores, Mello estava com medo.

E ele também.

Abriu um pouco mais a boca, curioso. Soltou a calça, deixando que as mãos pousassem receosas sobre os ombros de Mello. Os dentes dele rasparam em seu lábio inferior antes que ele o chupasse para então voltar a beijá-lo. Deus, Mello o estava beijando. E era tão doce...

Arrepiou-se quando o corpo se juntou ao seu, eliminando qualquer distância que antes existia. Moveu a língua na direção da de Mello, ouvindo com satisfação inexplicável o som de satisfação que o ele emitiu com aquilo.

Suas pernas tremeram. Suas mãos não tinham força para segurar o tecido preto que Mello vestia. Sua mente entrara em curto. Seu coração disparava. Sua respiração não existia mais, fazendo seus pulmões agonizarem pela falta de ar.

Lamentou baixo quando os lábios de Mello se afastaram dos seus e quase não resistiu em puxá-lo de volta para perto de si a fim de retornar ao beijo. Manteve os olhos fechado, ouvindo a respiração de Mello em seu ouvido enquanto podia sentir as batidas do coração dele contra o próprio peito, competindo com as suas próprias.

— Eu te odeio...

Near o ouviu sussurrar antes de se afastar e sair do quarto apressado. Olhou a porta, vendo-a bater com força enquanto ele escorregava até o chão com a respiração acelerada. O ar entrava em seus pulmões com dificuldade e, mesmo com a bombinha no bolso da camisa, Near sabia que era inútil. Afinal, não era com a maldita asma que estava lidando... Tocou os lábios, fechando os olhos inconscientemente. Não, não era asma que estava lhe tirando o fôlego daquela vez... Era algo bem mais perigoso.

Era... Mello.

26 de Fevereiro de 2018 às 21:43 0 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Alice Alamo 23 anos, escritora de tudo aquilo em que puder me arriscar <3

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~