Nada é o que parece Seguir história

matildaleao Matilda Leão

Uma voyeur. Da janela, ela observa o mundo, cria hipóteses, antevê. No trabalho, monitora câmeras. Seu olhar perspicaz é capaz de enxergar o que muitos não veem. Mas sua visão é turva sobre si mesma e pode negar o óbvio: seu amor por meninas. A história se passa no início dos anos 90, quando câmeras, computadores e códigos de barras ainda eram uma grande novidade.


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A promoção

   Eu tenho certeza. Não porque eu seja do tipo que se acha sempre certa. Não, isso seria falta de senso de realidade. Mas ter certeza é uma questão objetiva, que se resolve com observação e lógica. Porque por mais que as pessoas tentem esconder qualquer coisa, tudo o que acontece ou deixa de acontecer está ligado a uma cadeia de fatos. Não dá para mover nenhuma peça sem mudar o tabuleiro. E também não é possível ficar imóvel, enquanto tudo anda, sem provocar arrasto. Por mínimas que sejam, atitudes deixam vestígios, e a falta delas abre lacunas. Basta saber ligar os pontos para perceber as relações entre as coisas. E eu nem preciso me esforçar muito. Na realidade, às vezes tudo é tão óbvio para mim que me espanto de as pessoas não verem. E o engraçado é que as pessoas também se espantam quando mostro o que desde sempre esteve na cara delas. Já perdi amizades assim. É que para algumas pessoas é constrangedor admitir a própria dificuldade de enxergar o que está evidente, a própria ingenuidade, ou a própria tolice. Tem gente que rejeita a realidade, que nega até o fim seus enganos, e cai num buraco sem fundo de justificativas, preferindo deixar tudo como está. Okay. Eu sigo dizendo o que vejo sem me importar porque, infelizmente (ou felizmente), é isso o que tenho para oferecer às pessoas: a minha noção clara, prática e objetiva da realidade. Eu acho uma dádiva. Se tenho essa visão do mundo que pode ajudar as pessoas, ou até mesmo libertá-las, não acho que devo guardá-la comigo. O curioso é quando elas, além de não encararem de frente os fatos, resolvem se voltar contra mim, como se eu tivesse alguma culpa do mal em que elas mesmas se meteram. Eu não entendo. Eu não sou assim. O que tiver de enfrentar, eu enfrento. Não consigo dormir. Já faz um tempo que não consigo dormir e venho aqui para esta janela toda sagrada noite. Me acalma olhar para fora. Ver gente indo e vindo pelas ruas. Luzes se acendendo e apagando nos apartamentos. Cortinas se abrindo e se fechando nos lares. Já sei quem trabalha e deita cedo, quem é notívago, solteiro, casal, família, que só divide espaço. Eles brigam, eles amam, eles descansam, festejam. Cada um em sua rotina própria tocando suas vidas. Eu assisto a essa novela. E o sono chega. 


   Mas hoje alguém me viu. Enxergou em mim um talento, um talento de verdade. E me promoveu no trabalho. Como sempre, fechei o meu caixa pontualmente e subi na central de monitoramento para encontrar o Nando, antes de a gente ir embora. Eu gosto de ficar observando o movimento do supermercado pelas câmeras antes de acabar o expediente dele. É como num filme futurista. É curioso e ao mesmo tempo absurdo olhar o que as pessoas estão fazendo na tela, sem elas se darem conta. Elas sabem que estão sendo filmadas, mas não devem se lembrar disso o tempo todo. E então são flagradas em suas manias mais cruas. A gente fica reparando como cada pessoa se comporta ao escolher o que comprar. Tem gente de todo tipo. Me sinto uma mosquinha. E eu gosto. A gente brinca de adivinhar o que cada pessoa vai levar: produto, marca, quantidade. Quase sempre ganho esse jogo. O chefe dele já me conhece, e às vezes entra na brincadeira. Ele me chama de “zoiuda”. Mas hoje não houve tempo para isso. Apareceu na câmera uma velhinha que eu nunca tinha visto antes no mercado. Enquanto o chefe e o Nando se preocupavam em monitorar um moleque negro de boné, que visivelmente só estava interessado em comprar artigos de higiene para bebês, a velhinha que estava na ala dos utensílios domésticos fez um movimento estranho. Tinha escondido um volume embaixo do casaco. Eu notei e avisei. O chefe já tinha ordenado à equipe do salão atenção total ao moleque, mas resolveu me dar um crédito e pediu para um dos seguranças acompanhar a velhinha mais de perto. Quando percebeu que estava sendo observada, ela se desfez de uma frigideira, que já estava dentro da saia, jogou na gôndola de queijos ralados e foi embora sem comprar nada. Enquanto isso, o moleque levou todos os itens escolhidos para o caixa, e ainda teve que esperar um tempão para pagar, coitado, porque entrou na fila da Claudinha. E foi assim que o chefe me ofereceu a promoção na hora. Fazia um mês que abriram uma vaga no setor de segurança, ele disse. Bem no cargo que eu sempre sonhei: analista de monitoramento de câmeras. O Nando sabia dessa seleção desde o início, mas não me avisou. Diz que achou que não era para mim. E agora eu tenho certeza de que esse namoro não vai mais durar. Começo na segunda. 

26 de Fevereiro de 2018 às 21:52 0 Denunciar Insira 0
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