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matildaleao Matilda Leão

Ramos não tem certeza se viveu um reencontro com uma antiga amante na noite anterior, e fantasia sobre os vestígios encontrados em sua cama.


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POST COITUM


Para ler ouvindo “Tocata e Fuga em Ré Menor”, de Johann Sebastian Bach


O cheiro da porra seca grudada no lençol misturado ao da cinza velha dos mil cigarros apagados dentro de um copo d’água em cima do criado-mudo numa noite eterna não permitiu mais que Ramos dormisse. Inspirou fundo aquele hálito quente de passado que pesava no quarto escuro de janelas trancadas. Olhou do lado. Ela não estava. Há quanto tempo? Era verdade que, depois de tantos anos, passaram ali uma noite juntos? Era verdade que seus corpos há poucas horas haviam acabado de reproduzir aquela velha e conhecida sequência eufórica de movimentos de encaixe/desencaixe, atrito e rotação entre duas máquinas lubrificadas de excitação, suor e saliva, duas máquinas cujo funcionamento os dois conheciam muito bem, que botões apertar e desapertar um no outro para ter eficiência na produção de êxtase e então caíram exaustos como dois peões ao fim de uma longa jornada de trabalho pesado, os dois esticados na cama tão indiferentes, sem se tocar? Era verdade que desde que entraram naquele quarto até o fim da mirabolante ideia de se embolarem novamente até se confundirem quem sou eu, quem é você, eles evitaram se olhar nos olhos e dizer qualquer palavra? Ramos não acreditava. Tateou a cama procurando um indício. Uma prova qualquer de que ela estivera lá e de que ele não estava nu e melado em vão. Acendeu um cigarro. Enquanto o fogo queimava ritmadamente os anéis de pólvora, imaginou que tipo de vestígio gostaria de encontrar ali para não ter dúvidas de que tudo aconteceu, pelo menos, mais uma vez. Um sutiã preto esquecido de propósito? Não, isso não faz o gênero dela. Se ela tivesse estado ali, o que sua personalidade teria possivelmente deixado seria um bilhete-confissão embaixo do copo que ainda guarda um gole de uísque em cima do aparador, talvez com algumas marcas de gotas manchando suas letras manuscritas e trêmulas. E provavelmente ela teria escrito:


“Eu fujo de você. Eu fujo de você o tempo inteiro. Não foi por acaso que te deixei. Não foi à toa que te deixei para viver. Foi e é, como dizem, uma aventura. Uma aventura em espiral que insiste e me fere. E vai, e vai, e não se acaba, até agora, até não sei quando, não sei quando para, não sei quando será o próximo segundo, quem será o próximo ‒ o próximo da minha coleção de não-você. Eu mudei de cidade, eu mudei de casa, eu troquei de cama várias vezes, de pele, de cabelo, de cor, de perfume. E, desde que tudo isso, já senti por você repulsa, nojo, desprezo, pena, culpa, ternura, atração, dor, idolatria, confusão, mas sempre foi uma quase vontade de voltar, uma quase vontade de sair correndo, uma quase vontade de jogar uma bomba, uma quase vontade de te apagar. Mas quando quase retorno ao meu eixo, latitude/longitude, longe-tu, eu me lembro de você (a minha casa bagunçada) e penso se isso não é amor e me dói. Lembra daquele mapa-múndi imaginário que construímos das nossas posições geográficas ao longo do tempo? Quantas vezes estivemos separados por um oceano? Quantas vezes estivemos perto sem nos encontrar? Quantas vezes nos encontramos sem nos tocar? Quantas vezes nos tocamos sem sequer estarmos no mesmo lugar? Eu fujo. E, a cada salto, voo mais longe. Mas quando olho, estou de novo perto, como se estivéssemos presos por um elástico tão fino e frágil que não se rompe por mais que eu dê mil voltas e um nó. E é por tudo isso, meu amor, que hoje eu não estive aqui.”


O cigarro se apagou no copo d’água ao mesmo tempo em que Ramos terminava de ler palavra por palavra da carta deixada por ela em sua mente. Suspirou mais uma vez e olhou para a janela trancada. Não sabia se manhã ou se tarde. 

21 de Fevereiro de 2018 às 19:41 0 Denunciar Insira 0
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