neodracht Thiago Silva

Uma antologia de histórias diversas que podem te surpreender com os conceitos apresentados aqui. (S/T)= Suspense e Terror (DF)=Dark Fantasy


Microficções Todo o público.

#plottwist #apocalipse #terror #suspense #antologia
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Os cavaleiros (S/T) +14

Aconteceu bem ali, foi perto da prefeitura na rua dois. Naquela escola, a duas ruas do acontecido, um grupo de amigos ouvia a notícia que todos comentavam. Nenhum dos três tinha coragem ou curiosidade de ir até lá e ver com os próprios olhos. Em algumas versões da história, as pessoas diziam que demorou para que a vítima tivesse seu fim, mas nenhum chegava perto do quão prolongado e doloroso aquilo foi.


Um assassinato frio foi responsável por chocar aquela pequena cidade no meio da floresta. Até mesmo os idosos, as pessoas que nunca tiveram a ambição de ver o mundo, pareciam não acreditar.


Na escola, a porta de carvalho da biblioteca se abre causando um ruído incômodo. Um adolescente que abraçava um grosso livro preto anda depressa em direção ao fundo daquela sala. Incontáveis prateleiras de livros passam a seu lado, em uma delas, parecia que algo estava de pé, algo sombrio de olhos vermelhos. O Adolescente dá dois passos para trás e, mesmo com receio, se arrisca em olhar entre as prateleiras. Não havia nada além de uma bibliotecária que todos adoravam.


O Jovem se hipnotiza com os cabelos lisos e castanhos da bela mulher. Por fim, ele vira seu rosto envergonhado e segue em direção ao fundo. Fileiras e fileiras de estantes passavam a seu lado. Em seus ouvidos, o baixo som de cochichos que rodeavam as laterais daquela biblioteca redonda. Um frio na barriga surge, os pelos de seus braços se arrepiam e seu coração dispara com o bruto som da queda de um livro. Ele olha nas estantes que seus olhos alcançam, mas nada vê. "Está tudo bem", ele pensa. De fato, poderia ser apenas o descuido de algum dos alunos sentados nas mesas em volta da sala. O jovem apressa ainda mais seu passo e consegue chegar a seu destino. Distante de todos os outros, um grupo de quatro alunos se sentavam em volta de uma mesa redonda de madeira. Havia uma distância de quatro metros para as mesas aos lados.


-Amigos, eu preciso mostrar uma coisa. Disse o Jovem ao joga seu livro contra a mesa e assustar aqueles a sua volta. O chiado de pessoas pedindo silêncio ecoa pelas paredes, mas ele parece nem ouvir.


-É sobre o assassinato?. Questionou a menina a seu lado esquerdo. Ela tinha cabelos brancos com as pontas pintadas de preto. Seus olhos tinham um tom de castanho que, para muitos eram a coisa mais comum do mundo, mas o brilho de seu olhar fazia com que ela parecesse única. As cordinhas nas laterais de seu capuz estavam marcadas por seus dentes, sua camisa branca e seu casaco cinza pareciam ter acabado de sair da lavanderia. Sua calça jeans parecia tentar esconder suas pernas longas. Com o odor de morangos, o jovem retoma sua linha de raciocínio e a responde.


-Na verdade, sim. Não é um orgulho para mim, mas eu posso dizer que consigo ver o que outras pessoas não conseguem. Disse ele.


-Isso não significa que você é um...sabe, um tarado?. Questionou o jovem ao fundo da mesa. Tinha a aparência mais jovem de todos ali. Suas roupas eram escondidas por baixo de um casaco tão longo e escuro que chegava até seus joelhos. Seu cabelo era bem penteado, mas seu olhar era de tédio.


-Tecnicamente, não. Você chamaria um perito criminal de tarado?. Disse o Jovem.


-Ai que tá a questão, Você não é um perito criminal,Danny...fora que a sua mania de roer unhas me dá agonia.Disse a outra menina do grupo, seus olhos azuis eram inigualáveis.


-O ponto aqui é o seguinte, poderíamos tentar descobrir algo nesse livro que possa nos ajudar. Disse Danny.


-Afinal, que livro é esse?. Questionou o garoto de sobretudo negro chamado Peter.


-Esses dias eu estava aqui e descobri esse livro. Ele fala sobre crimes antigos que ocorreram na nossa cidade e quais são suas ligações com o sobrenatural. Respondeu Danny.


-Você não tem mais o que fazer?. Questionou a menina dos olhos azuis.


-A Mika acha legal esse seu estilo de vida. Disse o garoto de sobretudo.


-Eu não acho, não. Disse a menina de cabelos brancos. Sem ofensas, mas eu acho você meio solitário, morando sozinho e tudo mais. Você devia passar mais tempo com a gente. Disse ela com um sorriso simpático.


Danny abre a capa grossa do livro de couro e seu papel amarelado surge. Uma gota de sangue escorre do Nariz de Danny e mancha a folha. Mika se aproxima, puxa um lenço branco de um de seus bolsos e entrega para Danny.


-Obrigado!. Disse ele.


-Essa cidade sempre foi tão pacata, como esse livro é tão grosso?. Disse ela com seu olhar curioso para com o livro.


-Eu acho que os crimes descritos aqui são bem poucos, mas há muitas teorias em volta de cada um. O que me chamou a atenção, foram três crimes que aconteceram com uma distância exata de vinte anos. Ambos foram crimes idênticos, assassinatos que rodeiam aquela loja de conveniência perto da prefeitura. O terceiro assassinato foi semana passada, no período exato de....Dizia Danny.


-Vinte anos. Respondeu Peter com um tom de deboche.


-Exatamente. Respondeu Danny.


O Olhar daqueles que rodeavam o livro foram juntos em direção a única que não estava ali. Blue lentamente se levanta e se coloca atrás do trio. Peter vem por último, ainda com seu olhar de desinteresse.


-Alguna teoria sobre o que pode estar ligando esses crimes?. Perguntou Mika.


-Concidencia. Disse Peter.


-No mesmo período, no mesmo local e do mesmo jeito? Pelo amor, né. Até a posição dos corpos é a mesma. Disse Danny ao passar as folhas rapidamente até encontrar o capítulo de número dezesseis.


O nariz de Danny sangra novamente, sua cabeça fica tonta, mas o mesmo parece ocorrer com Mika.


-Vocês estão bem?. Questionou Peter.


-Você está bem?. Disse Danny a Mika.


-Eu...eu estou, não senti nada....Respondeu Mika ao limpar seu nariz.


-Isso já aconteceu com você antes?. Perguntou Blue.


-Na verdade, não. Disse Mika.


-Tem certeza de que você não está doente? Isso sempre aconteceu com você?. Disse Blue.


-Eu não estou doente. Preciso fazer uma cirurgia, na verdade. Vocês sabem do acidente quando menor. Aliás, só acontece quando eu fico nervoso. Respondeu Danny.


Peter olha para trás, como se sentisse algo às suas costas. Havia apenas a Bibliotecária que desvia seu olhar rapidamente ao ser notada.


-Certo...devemos parar aqui. Eu parei de ler a partir desta página. Disse Danny ao parar de folear na página seis daquele capítulo.


-O que vem agora?. Questionou Blue.


-Até aonde eu li...três assassinatos em sessenta anos...a partir daqui seria uma profecia do que vem por ai. Disse Danny.


Um arrepio na espinha surge em cada um dos presentes. As luzes começam a piscar e um forte tremor surge dentro daquela biblioteca. O piso de madeira se racha e o grupo de amigos tenta se proteger. Em um minuto, tudo para e o silêncio surge. Ao olhar em volta, todos os alunos que rodeavam a biblioteca haviam desaparecido


Mika começa a andar para trás, suas mãos tocam no livro e, no mesmo instante, as portas do local são brutalmente fechadas.


Danny fecha o livro violentamente e o som ofegante de seus colegas começa a substituir o então silêncio.


-Meu Deus, o que foi isso?. Questionou Blue histérica.


-Rápido, tentem encontrar alguém. Disse Danny.


O grupo se separa e Danny fica encarregado de encontrar a Bibliotecária.


Ao passar novamente por entre as estantes, Danny observa com cuidado, mas não parece haver ninguém ali. Até mesmo seus amigos desapareceram nas sombras.


-Olá?. Disse a voz de Danny que ecoava pelas paredes escondidas em algum lugar.


Ao dar mais um passo, sua caminhada é atrapalhada por Mika que corria de algo. Ao redor de seus olhos, algo negro a manchava. A coloração de carvão destacava o branco de seus olhos. Seu desespero era nítido.


-O que aconteceu?. Perguntou Danny.


-Eu vi...eu vi ele. O que fizeram com os olhos dele? O que fizeram com seus braços?!. Questionava Mika com as mãos trêmulas.


-Vem, precisamos voltar. Disse Danny ao deixar Mika passar a sua frente e observar a sua volta com desconfiança.


Ao chegar ao final da biblioteca, dois outros amigos já estavam em volta do livro. Ambos possuíam uma feição diferente. Peter não tinha mais seu olhar de tédio, agora, parecia possuir um ar de revolta, até mesmo de ódio. Blue já não parecia ser confiante. Seus lábios trêmulos indicavam o extremo oposto, ela tentava esconder suas unhas pintadas, era como se sentisse vergonha. Mika toma a frente e corre em direção de seus amigos. Após um abraço afetuoso, eles observam o livro como se compartilhassem os mesmos sentimentos pelo objeto. O clima era de medo, ódio e desnorteamento.


-O que vocês viram lá?. Questionou Danny.


Repentinamente, o livro lentamente se foleia de frente para os olhos nus daquele grupo de jovens. Uma por uma, as páginas amarelas iam passando.


Eles começam a sentir seus pelos arrepiarem, Danny tem mais gotas de sangue expelidas pelo nariz. A sala mal iluminada começa a ficar fria, após um curto período de tempo, já era possível ver o ar gélido que eles soltavam pelo nariz. O livro ia perdendo a velocidade, mas algo havia acontecido. As folhas que antes tinham palavras em várias línguas, simplesmente começou a folear folhas vazias.


-Tem...tem alguma coisa sendo escrita. Disse Peter.


Letra a letra, as palavras se formavam como se fosse rachaduras em uma tábua de madeira de carvalho. Sendo assim, Danny se aproxima da mesa e observa oque estava escrito.


-M...E...D...O...S....O que vocês viram lá?. Questionou Danny, novamente nervoso.


-Eu...Eu estava no shopping. As pessoas começaram a olhar pra mim...eu pensei que estava bonita...mas eu ....eu olhei no meu espelho quando vi os sorrisos deles. Começaram a gargalhar....Minha pele estava enrugada, minhas roupas rasgadas e uma palavra na minha testa...soberba. Disse Blue em meio a lágrimas impossíveis de conter.


-Eu...Eu vi um bebê. Eu estava no meu apartamento. Ele parecia estar tão mal cuidado. As minhas roupas estavam todas sujas e os meus móveis estavam quebrados....Mika falava enquanto tentava esconder sua feição triste. Foi tão real....tinha um...um bebê na minha cama. Eu não sei, mas ele não parecia vivo e também tinha....ele tinha....Dizia Mika até se virar e esconder seu rosto.


Ao olhar para o livro, soberba e Preguiça haviam sido escritos ali.


-Peter...o que você viu?. Disse Danny com os olhos arregalados.


-Cara, eu....Dizia Peter até ser interrompido pela palavra que se formava no livro.


-Luxuria....Escreveu o livro.


-Tinham mulheres.... tinham muitas mulheres. Suas roupas estavam espalhadas pela minha casa. Algumas roupas íntimas estavam sujas de sangue...algumas eram tão jovens...Merda, algumas pareciam a minha irmãzinha, cara. Disse Peter puxando os cabelos para trás.


Todos ali esperam atentamente enquanto o livro escrevia a próxima palavra.


-Ira....Disse disseram todos juntos.


Todos os olhos se voltaram para Danny.


-Eu...eu não vi nada...era um vazio. Eu senti como se minha alma tivesse sido jogada em um lugar isolado do inferno. Um lugar aonde sua punição é a solidão... como se eu tivesse afastado todos aqueles ao meu redor...Disse Danny com os olhos trêmulos.


-O medo e o pecado nasceram como irmãos. Cresceram juntos antes de se aventurarem pela sociedade. Para muitos neste plano, e nas épocas antigas, as pessoas passaram a acreditar que um é resultado do outro. Mesmo os temendo, ainda acham que estão separados... Até hoje, esses dois irmãos permanecem juntos. Aguardam a chegada do fim para fortalecer um dos quatro cavaleiros. O surgimento dos grandes sete pecados dará início ao final. Escrevia o livro a letras grandes.


-Apocalipse....Disse Blue.


Um terremoto estremece as paredes da biblioteca fria, mas o grupo de jovens nem se mexe.


-O que isso significa? Vamos para o inferno, é isso?. Questionou Peter nervoso.


Danny e Mika se olham e tentam manter a calma. Já próximos do livro, Danny tenta fecha-lo, mas sem sucesso. Em um momento silencioso, uma única gota de sangue escorrega pelo nariz de Mika e mancha a folha do livro.


As folhas voltam a se agitar e folear. Os alunos dão um passo para trás enquanto o ranger da mesa se partindo ecoava no local.


-O primeiro cavaleiro surgirá com a vida dos primeiros sete pecados. Descreveu o livro.


-A vida dos sete pecados....Disse Blue.


Um número surge grande na próxima folha do livro. O número 7 parecia ser feito de sombras.


-Nós somos os pecados?. Questionou Peter.


-Por que nós seríamos? Não fizemos nada. Disse Mika.


-Vamos tentar destruir o livro. Disse Danny.


-Como faríamos isso?. Disse Blue.


-Com isso. Disse Peter ao Puxar um revólver antes preso em sua cintura.


Ele retira algumas balas e lança a pólvora nas folhas abertas do livro. Danny lança um isqueiro para Peter e ele o pega no ar.


Mika o olha com um jeito de decepção.


-Eu vou parar, prometo. Disse Danny.


Mika olha para o bolso de Danny e percebe uma pequena caixinha branca de cigarros.


Peter acende a ponta do livro e as chamas se espalham rapidamente. A pólvora em chamas parece iluminar a sala tanto quanto a luz do sol. O fogo não parece causar nenhum dano as páginas amarelas. Peter sente seu sangue ferver e reage com um grande impulso. Com um chute no livro, a mesa rachada se quebra e o livro cai no chão. Inúmeros chutes são dados por Peter, mas nada acontece com o livro. Nem mesmo o tênis de Peter sofre danos.


-O cavaleiro vai surgir com a vida dos pecados... você disse que houveram outros assassinatos de vinte em vinte anos. Isso significa que o apocalipse foi impedido de começar...Disse Blue.


-Mas...Por que aqui? Por que nessa cidade?. Disse Peter.


-Vocês lembram da música que os idosos da rua dezesseis cantavam para assustar as crianças?.


-"Para as crianças levadas, deixe-me contar algo sobre as suas casas. Há muito tempo atrás, alguém foi expulso por Deus, ele foi um dos amigos meus. Quando chegou aqui, todos o saudaram, apesar de alguns o duvidarem". Recitou Danny.


-Como impediram o apocalipse?. Questionou Peter.


-Tirando aquilo que traria o cavaleiro a vida...se mataram. Disse Danny com os olhos arregalados. A população dessa cidade é feita de jovens e velho, ninguém quer ficar aqui pra sempre. Meus pais... fugiram quando meu irmão se matou e seu corpo desapareceu. Lembro de cada palavra da carta de despedida dele. Concluiu Danny.


-Vamos ter que...nos matar?. Questionou Mika.


-É oque vamos descobrir agora. Disse Peter ao apontar o revólver para Blue.


Peter engatilha a arma e, no giro do tambor, Mika e Danny se colocam na frente de seu alvo.


-Vocês acham que eu não atiraria em vocês também?. Questionou Peter.


-Se não faz diferença, atira. Disse Danny.


A mão trêmula de Peter lentamente se abaixa, mas os olhares de reprovação tomam o local.


-Eu não peço perdão. Disse Peter ao levar a arma até sua tempora e, com uma fração de segundo, dispara criando uma cratera na lateral de sua cabeça.


Todos ali se assustam com o acontecido e dão um passo para trás enquanto Peter caia de joelhos e, em seguida, seu rosto colide com o solo com um forte baque.


O clima de desespero começa a tomar o local. Todos estavam com os olhos arregalados para o sangue que escorria no piso de madeira falsificada.


-Oh, meu deus!. Disse Blue com as mãos tapando sua boca.


-Deus, Deus!!!. Disse Mika ao andar em círculos enquanto tentava não olhar para o corpo.


Danny cai de joelhos no chão e leva suas mãos até sua cabeça.


-Ahhhhhggggg. Ele gritava.


Blue e Mika se ajoelham em sua direção e, sem saber o que fazer, apenas o observam enquanto ele gritava.


-VOZES....MUITAS VOZES, AHHHHHGGGGG!!!!. Gritava Danny com os olhos fechados.


Quando sua mente, tem uma ideia, seus olhos se abrem abruptamente. O revólver ainda repousava na mão de Peter. Danny se joga no chão e, enquanto suas pernas escorregam pelo solo, suas mãos- agora manchadas de sangue- alcançavam o revólver prateado. Ele o aponta para sua cabeça, mas Mika chuta sua mão e lança a arma para longe.


-Porra! Eu não vou ver mais um amigo morrer na minha frente!!. Gritou Mika com um olhar de lágrimas virados para Danny.




Horas se passaram, o número no livro havia diminuído em dois. As tentativas de recuperar os celulares do lado de fora foram frustradas pela porta emperrada. Chegou um momento em que nem mesmo as paredes eram encontradas. Era como se todo o redor tivesse sido coberto por uma nuvem negra e densa. A procura pela bibliotecária nunca dava resultado. As pernas de todo já não aguentavam mais andar.


Eles se encontravam no chão. O calor que ele emanava parecia esquentar seus corpos que pareciam esfriar a cada minuto. O livro continuava impossível de se mover ou destruir. Mesmo com o passar do tempo, a fome não parecia surgir...afinal, mais um problema é o que eles menos gostariam de receber.


-Estamos adiando a nossa morte?. Questionou Blue.


-Sim...Respondeu Danny.


-Por que?. Disse Blue ao olhar nos olhos de Danny.


-Quantos problemas você já teve na vida? Quantas mancadas você deu?. Questionou Mika, seu olhar era calmo, mas seu tom de voz era firme.


-Não sei... foram tantas coisas de que eu me arrependo. Disse Blue desviando seu olhar e olhando pro chão.


-E, me diz, quantas coisas você se orgulha de ter feito?!. Disse Mika ao se por de pé.


-Bom... Teve uma vez que eu fui no Shopping e...era meu aniversário, eu pude comprar tudo que o meu cartão permitia. Minha família não me julgou por isso.


-Não...a gente está falando sobre orgulho de verdade, não sobre essa sua máscara de popular gostosa e patricinha. Respondeu Danny com os braços cruzados de frio.


Blue olha para as mãos e abaixa sua cabeça. Lágrimas começam a escorrer por seu rosto e molhar suas mãos unidas. Com os lábios trêmulos e a voz falha, ela começa a descrever uma se suas melhores memórias.


-Naquele mesmo dia...-Dizia Blue em meio a fungadas.-Naquele dia, eu fui saindo e encontrei um cachorrinho na rua. Ele parecia com fome. Sua pele caramelada parecia ser transparente de tanto que os ossos se exibiam. Eu corri pelo shopping a procura de um lugar que vendia comida pra cachorro. Me disseram que tinha um bom veterinário a duas ruas depois dali. Eu peguei o cachorrinho no colo e levei ele até lá. Acho que meus pés nunca andaram tanto...-Uma lágrima escorre de seu rosto e molha seu sorriso branco.-Eu alimentava ele e conversava com ele. Quando eu deixei ele lá, ele parecia sorrir pra mim. Eu queria tanto ficar com ele....voltei pra casa e meus pais me botaram de castigo. Eu nem liguei de ter que ficar no quarto...mas não me deixaram ir vê-lo...quando eu fui lá, já tinham adotado o cachorro. Eu fui até a casa daqueles que o levaram e o vi brincando com uma criança de uns dez anos...Senti um alívio e uma alegria incomparável ao ver ele bem e fazendo bem a outros. Concluiu Blue.


-Essa ação linda não foi grande o suficiente pra valer a sua vida?. Questionou Mika ao tentar dar um sentido para suas eminentes mortes.


-Qual foi a sua ação boa?. Questionou Blue em meio a fungadas.


-Acho que a minha boa ação não foi feita para mim, mas para outros. Quando meu irmão morreu... estavamos jantando. Parecia ser um dia normal. Minha mãe e meu irmão comiam carne e eu tentava ouvir o que a televisão dizia. Ouvimos um barulho lá fora. Sabendo de toda a nossa história, não era difícil de deduzir quem estava querendo problemas. Eu liguei para a polícia, como de costume, mas eles iam demorar pra chegar...minha mãe disse que nada ia acontecer, afinal, isso acontecia com frequência...este dia era diferente. As batidas na porta não pareciam soar igual a uma mão colidindo com a madeira. Ele veio a nossa casa com uma faca...-Mika olha para baixo, respira fundo e continua sua história.- Ele quebrou a ponta da faca quando tentava abrir a porta. Quando ele entrou...minha mãe se colocou entre nós e...mandou ele se afastar. O cheiro de álcool entupia meu nariz. Ele avançou em nossa direção, mas eu joguei minha mãe para o lado e me coloquei de frente pra ele...Eu fechei meus olhos e apenas esperei. Quando abri, minha mãe havia se colocado a minha frente. O sangue escorria na lateral de sua boca e a faca de ponta quebrada havia atravessado seu peito. Ele jogou ela com violência pra longe e eu abracei meu irmão. Ele apontava a faca pra nossa cabeça, mas eu ouvi um tiro e isso fez ele perder a coordenação. A faca fez um corte no meu suéter e não me feriu...mas acertou uma veia importante no peito do meu irmão. Eles prenderam ele e nos levaram para o hospital. Meu irmão foi separado de nós, mas eu pude ir com minha mãe na ambulância. Um paramédico perguntou meu nome e perguntou se eu gostaria de salvar uma vida naquele dia...ele pediu pra eu ajudar a minha mãe a respirar por um aparelho elétrico...ela ainda olhava nos meus olhos. "Minha heroína"...disse os lábios dela. Minha mãe sobreviveu graças aos médicos e...graças a mim...eu fiquei aliviada e feliz...mas perdi meu irmão naquele dia. Isso fez o homem ser preso pelo resto de sua vida. Tenho boas lembranças com o meu irmão...sinto falta dele, mas ainda esquenta meu coração saber que minha mãe está viva, bem e a salva. Concluiu Mika.


Blue e Mika olham para Danny. Ele parecia tocado pelas palavras de seus colegas, mas parecia nervoso.


-Uma vez eu...eu invadi um prédio que estava em chamas. Acho que houve um acidente com um vazamento de gás...Tinha uma pessoa gritando lá dentro. Eu procurei por horas, mas quando achei...fiquei aliviado desta pessoa estar bem. Eu peguei na mão dela e a puxei até a saída. Quando chegamos lá...a porta estava muito próxima...um bombeiro apareceu e disse que cuidaria dela. Eu senti medo por um minuto, mas eu confiava nele. Ela chorava e, com o corpo todo machucado, parecia ter agradecido a mim por tentar ajuda-la. Nunca mais a vi...gosto de pensar que ela está bem....Concluiu Danny.


-Bom, meus amigos...venham aqui, por favor. Disse Blue ao pegar nas mãos de seus colegas. Ela os abraça fortemente e, após uns segundos,lentamente se afasta de seus colegas.


-Amigos...eu tive uma boa vida. Dizia Blue ao se abaixar e pagar o revólver prata. Mika se vira e abraça Danny com toda sua força. Um disparo acontece e o peso de uma pessoa colide com o chão.


-Olha....Apontava Danny para o livro. O grande número era diminuído para cinco.


Repentinamente, o número se tornava pequeno e se colocava no canto superior direito da folha.


-Ira sobrar apenas cinco condenados e três deles serão demônios. Belfegor...o demônio ilusório. Ao retornar a terra com um corpo humano, suas ilusões se tornam cada vez mais fortes, mas seu corpo fraco expeli sangue a cada uso....chegará o momento em que os três demônios estarão livres de limitações humanas, momentos em que o apocalipse estará a beira de acontecer. Neste momento, suas ilusões irão se tornar reais e seu poder de indução florescerá.


Mika se afasta de Danny e começa a olha-lo de cima a baixo. Danny estava sério,sua postura ficava ereta e a íris de seus olhos pareciam tomar uma cor vermelha sangue. Suas mãos unidas as suas costas o davam um ar de imponência.


-Suas histórias foram comoventes...prometo que ficará no lugar mais confortável da minha casa. Disse Danny com a voz se tornando cada vez mais rouca e grave. Seus olhos ainda estavam fixos no livro. A seu lado, Mika já não controlava seu corpo. Ela pega o revólver e apenas fecha os olhos, como fez ao esperar sua morte no passado. O revólver é posto no interior de sua boca e o gatilho é puxado...nada acontece. O tambor da arma gira e o dedo no gatilho tremia. Belfegor fecha seus olhos e o disparo surge a ecoar. Com a unha de seu dedo indicado, Belfegor corta sua garganta com velocidade. Uma aura avermelhada surge quando o corpo encontra o chão. O contorno avermelhado e chifrudo parecia desaparecer lentamente.


O silêncio predomina o local, os corpos dos alunos enfeitavam aquele lugar escuro. Passos são ouvidos e uma mão fecha o livro de forma calma. A bibliotecária abraça o livro e o leva a prateleira mais próxima.


Um policial entra pela porta da biblioteca que era bem iluminada pelas lâmpadas conicas em seu teto.


-Com licensa, senhora. Eu ouvi um barulho vindo daqui...está tudo bem?. Questionou o policial.


-Não...está tudo bem. Disse a mulher docemente.


-Ah, certo. Se precisar de ajuda, pode me procurar. Concluiu o policial na intenção de se despedir.


-Sabe, senhor. Está bela cidade é muito antiga...mora aqui a muito tempo?. Questionou ela.


-Não, senhora. Cheguei a pouco tempo. Disse ele com as mãos no cinturão de couro.


-Pois bem...se prepare....acaba de começar. Concluiu a Bibliotecária com um sorriso amável.

20 de Novembro de 2022 às 01:15 0 Denunciar Insira Seguir história
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