wonhoutboy Madu Dourado

A vida, mas principalmente a morte, de Renato Fortaleza.


Conto Todo o público.

#pós-vida #fantasma #família
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A primeira pessoa que ligar agora para o telefone da Rádio Renascença e me disser quantos anos ela completa hoje vai ganhar um prêmio surpresa! Imperdível, viu? Então liga aí, dois nove…

— Onze dois zero dois cinco — Renato recitou o número, que era o mesmo há quase uma década, junto com o locutor, balançando as pernas na beirada do telhado, vigiando a rua lá embaixo.

…dois cinco!, ecoou o rádio, finalizando a sequência um pouco mais tarde, já que tinha escolhido dizer um um no lugar de onze. Quantos anos a Rádio Renascença completa no dia de hoje? Você consegue me responder? Quem acertar leva pra casa um prêmio sur-pre-sa!

Quarenta e dois anos. Renato sabia porque era a mesma quantidade de tempo desde que ele tinha morrido.

No mesmo ano, os dois maiores acontecimentos da vida e da morte de Renato Fortaleza: primeiro, ele morreu; depois, a Rádio Renascença nasceu.

Ele gostaria de poder ligar e dizer exatamente isso ao locutor, mas já não se lembrava do nome do homem e nem queria se dar ao trabalho. Renato tinha visto — ou melhor, ouvido — dezenas de locutores com o passar do tempo. Também tinha morado com uma considerável quantidade de famílias no decorrer das duas primeiras décadas da sua morte, nenhuma delas sendo importante o suficiente quanto a última.

///

A casinha branca no final da Rua dos Milagres podia ser pequena para os padrões da região, mas era aconchegante, bem localizada, arejada e muito em conta. Só tinha um probleminha: era assombrada.

Em 1980, quando os primeiros donos da casa se mudaram e colocaram a residência para alugar, o primeiro interessado no imóvel foi um fantasma alto, jovem e meio perdido que, apesar de nunca ter passado por aquela rua, se encantou pela casa mais simples da Rua dos Milagres. Renato se mudou para lá antes de qualquer inquilino, e o melhor era que nem precisava pagar aluguel.

Mas ninguém realmente sabia que a casa era assombrada até que uma família de gente viva passasse a morar lá. Um casal, esposa grávida e uma filha adolescente, muito religiosos e quietos, ligavam o rádio todos os dias às sete da manhã e ouviam atentamente as notícias. Desligavam o rádio às oito, mas deveria haver algum defeito com o rádio, porque ele sempre ligava de novo, espontaneamente, às dez horas da manhã — quando Renato, o fantasma folgado, acordava.

A família rapidamente abandonou a casa, uma vez que não importava quantos rádios substituíssem, sempre teriam o mesmo problema. A casinha branca rapidamente ganhou fama pelas redondezas.

Os donos chegaram a alugar para mais três ou quatro famílias, de 1982 a 1990, mas depois disso, só conseguiram outros inquilinos em 2002. Ninguém queria morar ali, mas, de vez em quando, alguns turistas pagavam uma entrada para ver o fantasma em funcionamento. Todos os dias, religiosamente às dez horas da manhã, Renato ligava o rádio.

Era a única coisa da casa em que podia mexer, tocar, manusear. Então, se estivesse fora da tomada, ele mesmo ia lá e ligava, depois ajustava o volume e a estação da sua preferência. Durante todos aqueles anos em que a casa ficou desabitada, ele se acostumou a uma rotina diária que relacionava o rádio, a cozinha, o quarto e a sala: vivia como uma pessoa viva, fingindo ter preocupações, tarefas e momentos de lazer. Em certos momentos, realmente esquecia de sua condição: era um homem morto, e não tinha nada. Além, é claro, do rádio.

Mas, em 2002, uma família finalmente se interessou pela casa. Isso fez Renato ficar possesso, ou melhor, ficar doidinho para possuir alguém, mas essa era uma habilidade que ele não tinha ainda. Como ousavam, aqueles estrangeiros sem modos, invadir o seu cantinho dessa forma?! Isso só podia ser brincadeira…

Ele ficaria sem quarto, sem cama, sem rádio, sem nada… Já não tinha nada, mas também não precisava ficar lembrando disso toda hora.

A família que ocupou a casa em 2002 era enorme; um casal, três filhos, um tio, dois cachorros, depois uma tia, depois uma tia grávida, depois três crianças e um bebê, depois um cachorro e um gato, depois só o gato, depois três crianças e um adolescente, depois só adolescentes, depois adultos, depois… Bem, acho que fui longe demais. Vamos desde o início: a família que ocupou a casa em 2002 era enorme, mas nenhum dos membros falava o idioma de Renato.

Na verdade, até falavam, mas fora dos limites da casinha branca. Ali dentro, enrolavam a língua e deixavam o fantasma por fora de todas as fofocas de família. Na primeira semana, Renato achou que seria fácil assustá-los: era só usar o rádio como costumava, diariamente, e eles iriam embora como os outros.

Então, às dez da manhã de um sábado, ele ligou o rádio num volume altíssimo. O seu programa favorito já estava começando na Rádio Renascença: um quadro em que o locutor contava as histórias que os ouvintes enviavam por cartas. Renato adorava ouvir sobre as vidas alheias — já que a sua mesmo tinha acabado vinte e dois anos atrás —, mas gostava ainda mais de ouvir sobre as mortes.

Dito e feito: assim que ligou o rádio, que ficava em cima de uma mesinha na sala, e sentou ao lado do aparelho a fim de passar horas ali, o marido da família surgiu. O homem saiu do quarto, andou até o rádio, então olhou em volta e disse, como se para as paredes, num sotaque forte:

— Assim, alto, não. — E então abaixou o volume. — Hoje, sábado. Descansamos. — Olhando outra vez para todo e qualquer canto do cômodo que não para o rosto de Renato, o chefe de família reiterou, com um dedo sobre os lábios: — Baixinho.

Renato achou graça, depois aumentou o volume todo outra vez. O vivo suspirou, foi até o sofá e pegou duas almofadas para cobrir os ouvidos.

O rádio já estava velho, manco, cabisbaixo. Quando chegou àquela casa, já era usado e estava trabalhando havia mais ou menos a mesma quantidade de tempo em que Renato estava morto. Era barulhento, áspero, meio rouco e abafado, mas era o único que tinha.

No dia seguinte, Renato fez a mesma coisa: dez da manhã, rádio. Mas era domingo e, no domingo, a família que não falava sua língua sempre fazia um almoço caprichado.

Enquanto mulheres que ele nunca tinha visto na vida saracoteavam pela cozinha, ele ouvia o rádio. A esposa da família sempre ia abaixar o volume para conseguir ouvir as outras, e Renato sempre aumentava de volta. Precisava estar naquela altura ou ele nunca entenderia o que o locutor estava dizendo.

Aquelas mulheres e as crianças que elas carregavam já estavam dando nos nervos dele. Silêncio!, ele gritava, mas era um fantasma. Eu quero ouvir o fim da história! Silêncio! Silêncio, seus imigrantes sujos! Silêncio!

E, numa onda de fúria, Renato derrubou a mesinha do rádio, que foi para o chão e quebrou em mil pedaços. As mulheres ficaram horrorizadas, mas acabaram concluindo que o episódio seria o fim das manifestações fantasmagóricas.

Renato olhava para o que tinha feito, também ele horrorizado. Era tudo culpa deles, os estrangeiros! Eles eram os responsáveis pela morte do rádio!

Durante o resto do dia, Renato tentou mexer com outros aparelhos, eletrônicos ou não. Tentou desconfigurar a TV, ligar o fogão, explodir a caixa d’água, derrubar a geladeira, mas não fez mais do que alguns ruídos e vibrações esquisitas que ninguém conseguiu ouvir, porque a casa toda estava mergulhada em converseiros altos numa língua que ele não compreendia.

Renato estava irado. Ele se sentia excluído, impotente, alheio, como o fantasma que era. Não tinha mais rádio. Pela primeira vez, compreendeu a extensão do seu problema: era um homem morto. Não tinha livre arbítrio.

Não queria abandonar a casa na qual morou desde a sua morte. Aquelas pessoas precisavam sair dali.

Para Renato, a casa não era deles; ela era uma entidade, um órgão desconectado do mundo; o seu umbral, o seu lar. E a sua única companhia — o rádio —, era o único dono legítimo do local.

Insatisfeito, rancoroso e triste, se dirigiu para um dos dois quartos da casa: o das crianças. Os dois mais velhos compartilhavam um beliche e a mais nova dormia numa cama extra. Todas as noites, os pais batiam na porta para desejar boa noite aos filhos. Um costume curioso, para dizer o mínimo. Renato sempre assistia, invejoso, enquanto as crianças balbuciavam coisas inteligíveis — provavelmente contando histórias mentirosas sobre o dia que tiveram — e os pais, fracos como eram, ficavam ali, ouvindo, prestando atenção. Não tinham mesmo o que fazer.

Renato ia dormir tarde, e para evitar maiores incômodos, o fazia na sala, olhando diretamente pela janela fechada, imaginando um cenário distante, passado e familiar. Só assim conseguia fechar suas pálpebras de fantasma e sonhar com um mundo diferente.

Naquele domingo enfastiante, contudo, não estava planejando dormir quando deitou na cama da menina e encarou o teto, os pés em cima do travesseiro dela e a cabeça descansando na peseira do móvel pequeno demais para seu corpo comprido. Não se preocupou em tirar os sapatos porque sabia que não ia sujar a fronha. Era um homem morto. Não existia mais.

— Paaaai — um dos meninos, talvez o do meio, gritou quando avistou Renato na cama da irmã. Para Renato, que não entendia o idioma, tinha soado mais como um pedido de socorro, mas não achava que seria sobre ele. — O fantasma do rádio tá na cama da Verônica!

Nessa hora, Renato olhou para o garoto, que arregalou os olhos e pôs a mão na boca, como se tivesse sido pego no pulo. Renato não entendeu nada. O pai do garoto gritou alguma coisa da sala e o garoto saiu correndo, deixando o homem morto para trás, matutando os problemas de sua pós-vida conturbada.

///

Uma semana depois, a casa ainda estava sem rádio, e Renato começava a questionar o funcionamento do Universo. Estava morto, mas vivia, e a sua única razão de vida tinha acabado de morrer, mas, diferente dele, não tinha continuado a existir num plano fantasma. Objetos inanimados não viram fantasmas. E Renato pensava: se eu estou morto, mas não tenho razão de vida, para onde eu vou? E a resposta, todas as vezes, era: lugar nenhum. Continuava ali: naquela casa, naquela terra, naquele lugar onde o rádio costumava morar também. Era solitário morrer.

Contudo, para a sua surpresa, o marido da família de estrangeiros que Renato tanto detestava, compadeceu-se do fantasma sem entretenimento. Compreendeu a mensagem claramente: todos os ruídos na madrugada; todas as vezes em que o morador extra derrubou a mesinha onde ficava o rádio; todas as vezes em que ele fez alguma gracinha fantasmagórica com a luz só de pirraça; foi tudo parte de um pedido não muito silencioso: precisava de um rádio novo.

Numa terça-feira à noite, o homem entregou para Renato — ou melhor, deixou em cima da mesinha — um radinho de pilha que não precisava ficar colado na tomada para funcionar.

Renato ficou surpreso e mesmo que, hoje, se isso acontecesse de novo, ele fosse se sentir meio grato, na época, ele odiou o presente. Não sabia como o apetrecho funcionava, não gostava dos estrangeiros, não gostava de ter pessoas na casa, não gostava do barulho da rua, não gostava de existir e não ser vivo, não gostava de nada. Derrubou o radinho da mesinha e virou de costas para o Marido. A Esposa sugeriu que deixassem o aparelho no chão, já que não podiam se comunicar com o fantasma. Ou podiam?

///

O menininho era tão mirradinho que Renato sentia pena. Não parecia que fosse dar conta do serviço, uma vez que já tremia e gaguejava enquanto falava com os pais, posicionados atrás dele, junto com os dois outros filhos, para fiscalizar a interação que aconteceria.

O pequeno via o fantasma do rádio: todos da família sabiam. O tio dele, que morava na casinha branca de favor, já tinha sugerido milhares de vezes antes que deveriam usar esse poder para se comunicar com o hóspede.

O Tio era contra Renato e achava um absurdo que uma entidade exterior ao plano material pudesse viver lá, sem pagar aluguel, e ainda exigir tratamento especial. Aparentemente, para ele, esse comportamento só seria válido se você fosse de carne e osso e parte da família, já que ele era exatamente como Renato, mas vivo.

— O-Oi — o garotinho, que deveria ter uns nove anos, no máximo, cumprimentou o fantasma. Renato olhou para ele, espantado por ter compreendido.

— Finalmente alguém que fale o meu idioma por aqui — respondeu, mesmo que seu plano inicial fosse ignorar o menino até que ele começasse a questionar se tinha virado um fantasma também. Mudou de ideia porque achou que desdenhar de uma criança com menos de uma década de vida, sendo que ele já tinha duas de morte, seria algo interessante e maduro a se fazer. — Essa sua família é um estorvo na minha vida. Eu quero que vocês vão embora e levem a sua tralha junto.

O rapaz deu um passo para trás e suas costas bateram em algo sólido: sua mãe, que pôs uma mão no seu ombro e perguntou se estava tudo bem. Ele não respondeu: seus olhinhos se encheram de água e ele abraçou a mãe, tentando se esconder atrás dela. A família desistiu de tentar se comunicar diretamente com Renato depois disso. Apenas aceitaram, silenciosamente, os ruídos de protesto do fantasma mimado.

///

Algumas semanas mais tarde, Renato não conseguia mais dormir. Não tinha mais a visão de sempre, a sua imagem ideal. Não tinha mais seus pensamentos, suas ideias, nada; estava se desfazendo por dentro. Os dias eram lentos a passar, as noites eram longuíssimas e as manhãs eram frias. Aquela gente nunca ia embora, não importava quantas vezes ele derrubasse a mesinha do rádio e qualquer coisa que colocassem lá.

O radinho de pilha ainda estava por ali, em algum lugar diferente da sala todos os dias, mas sempre à vista, caso o fantasma irritadiço decidisse usá-lo. Mas como faria isso? Se não tinha um fio, Renato não sabia usar. Só que, um dia, resolveu tentar.

— Por que não fala? — Renato berrava para o radinho, as sobrancelhas juntas, aborrecido.

O Irmão do Meio, que daqui alguns dias completaria dez anos, ao ver o fantasma tendo problemas, tentou oferecer uma mão para ajudá-lo. Renato se assustou e afastou o radinho da mãozinha enxerida da criança.

— O que você quer?

Mas ele não era mais forte que uma pessoa viva. O garoto — o completo oposto do menininho que chorou na primeira vez em que conversaram — tomou o rádio da mão do morto e mexeu em alguma coisa que Renato não enxergava direito. Pôs as pilhas no lugar.

— Ah, claro — Renato comentou, fingindo costume. — Tirar o plástico das pilhas. Sim, eu pensei nisso. É que as minhas unhas não entravam direito nessa coisa e eu não consegui puxar o…

— De nada — o menino o cortou.

— Ei! — Renato bradou. — Nunca mais fale comigo assim!

E, mais uma vez, tinha feito a criança chorar. Pelo menos agora poderia ouvir o seu rádio.

///

Estava nas nuvens. Tinha perdido inúmeros episódios do seu quadro favorito da Rádio Renascença, aquele em que o locutor contava histórias da vida de pessoas desconhecidas. Os episódios favoritos de Renato eram, contudo, aqueles em que o locutor contava histórias de morte.

Para Renato, era algo extremamente pessoal, o modo como morreu. Tinha sido cruelmente levado por algo que ele desconhecia: não sabia como tinha ido parar no além, mas suspeitava que tivesse sido assassinado. Para ele, fazia muito sentido. Era o primogênito de uma família muito rica; seu pai tinha uma empresa grande e muitos rivais. Ou, talvez, tivesse sido envenenado por algum dos seus irmãos invejosos. Nunca saberia.

Para compensar pelo tempo perdido, passou a ouvir o rádio todas as horas do dia, do amanhecer ao pôr-do-sol ao amanhecer de novo. Levava o radinho para o telhado da casa e ficava lá, a madrugada toda, olhando as estrelas e ouvindo a Rádio Renascença. Os moradores da casinha branca experienciaram paz pela primeira vez desde que se mudaram.

— Pra onde foi o fantasma do rádio? — perguntou o Marido, na mesa de jantar. A Esposa deu de ombros.

O Filho Do Meio respondeu:

— Ele leva o rádio pro telhado e fica lá.

— Ele ainda ouve aquela mesma estação? — o Tio inquiriu com comida na boca.

— Sim — o Filho Mais Velho respondeu. — Às vezes eu escuto por aí. O mesmo ruído de sempre.

— Credo — o Tio comentou. — Não sei por que vocês deram outro rádio pra essa assombração. Ele não vai embora.

— Nós sabemos disso — o Marido, irmão do Tio, respondeu. — Mas ele está nos deixando ter um sossego, não está? Além disso, ele mora aqui há mais tempo do que nós.

No quintal dos fundos, um dos cachorros da família latia para o fantasma no telhado. O animal tinha se afastado da casa a ponto de quase encostar no muro dos fundos, local de onde podia avistar o inquilino extra. Olhava para cima e se comunicava com o morto utilizando seu refinado dialeto canino.

— O que é, hein? — Renato balbuciou, de saco cheio do vira-lata. — Eu já falei que não vou brincar com você!

O cachorro latiu de novo. E de novo. Renato quase não conseguia mais ouvir o rádio, então pegou seu único bem e mudou de lugar no telhado, posicionando-se no lado da frente, de onde conseguia ver a rua. Não gostava de olhar para a rua, então fixou os olhos no céu estrelado e prestou atenção na sua história.

///

Com o tempo, os vizinhos começaram a perguntar se a família de estrangeiros tinha, por algum acaso, esquecido um radinho pifado em cima do telhado. Todas as noites, ouviam o ruído que escapulia do radinho e se perguntavam se estava chovendo ou se estavam apenas alucinando.

O Marido precisou dizer que uma das crianças tinha atirado o radinho para cima enquanto brincava e agora não arrumavam tempo para tirá-lo de lá, o que não explicava o fato de o aparelho ligar e desligar, sumir e reaparecer em lugares diferentes do telhado. Com o tempo, a vizinhança aprendeu a não perguntar mais nada sobre os detalhes da casinha branca amaldiçoada do fim da Rua dos Milagres.

///

Num belo dia, o radinho de pilha não quis mais ligar: a pilha tinha se esgotado. Então, o mais educadamente possível, Renato jogou o radinho no meio da sala, com a pilha antiga solta ao lado dele. Era um folgado, mesmo — mas, alguns minutos depois, o radinho já estava com uma pilha nova e pronto para ser reutilizado.

Seguiu sua vida após a morte por vários anos dessa mesma forma. Viu as crianças crescerem, o Tio arranjar uma namorada, depois uma esposa, depois uma esposa grávida, viu um dos cachorros morrer, viu a Esposa arrumar um gato — tudo isso sem ainda entender uma palavra sequer daquilo que eles diziam.

///

A Rádio Renascença completa hoje trinta anos!, o radinho de pilha enunciava, de cima do telhado, enquanto que, no chão, Renato brincava com o cachorro que tinha sobrado, jogando uma pedra pelo quintal e correndo atrás do bichinho. A primeira pessoa a adivinhar qual foi a primeira música tocada pela rádio no dia da estreia, trinta anos atrás, leva pra casa um prêmio surpresa!

Renato ergueu a cabeça e fitou o rádio lá em cima. O cachorro pulou na sua direção, latindo para chamar a atenção do fantasma, mas ele não sentiu nem cócegas — estava morto, afinal de contas. Pensou no que o radialista disse; naquilo que repetia, como todos os radialistas fazem. A primeira música, hein? Qual foi a primeira música que nós, aqui da Rádio Renascença, tocamos na primeira transmissão? Alguém lembra? Foi só há trinta aninhos!

Renato lembrava. Ele se lembrava da música, mas não tinha certeza do título. Sabia que era sobre amor e que era a sua favorita quando ainda era vivo, mas suas lembranças daquele tempo eram tão frágeis quanto a saúde do seu radinho de pilha, que a cada vez que precisava ser recarregado, levava um tombo — Renato não era dos mais cuidadosos, nem dos mais educados.

— Renato — chamou uma voz conhecida. Ele olhou para o rosto de Carlos, que faria dezoito anos no dia seguinte. — Tá tudo bem? Você tá com uma cara esquisita.

— Eu estou ótimo — respondeu, como se fosse óbvio, fazendo o Filho do Meio rir.

Conversava com o menino de vez em quando. No tempo em que ele ainda estava na escola, Renato costumava ajudá-lo, esporadicamente, com alguns deveres de matemática. Outras vezes, fazia o papel de um amigo desinteressado que ouvia o que o rapaz tinha a dizer, e quase sempre lhe dava conselhos duvidosos que Carlos aprendeu a ignorar.

— Você não parece ótimo — o vivo disse para o morto, mas nessa altura, Renato já não lembrava mais sobre o que estavam conversando. Olhou para o radinho outra vez. — Será que você pode me fazer um favor amanhã? — Carlos perguntou, imaginando que seu amigo fantasmagórico pudesse ajudá-lo com um truque, mas Renato não olhava mais pra ele. Carlos não sabia se Renato estava apenas ignorando o vivo ou se estava agindo como um fantasma outra vez, o que não era raro. Renato não tinha uma cabeça boa, principalmente porque não tinha uma cabeça. — Só preciso que você apague as luzes ou faça elas piscarem na hora do parabéns. Não sei, pode ser outra coisa também. Você pode ligar o radinho! — Então, quando disse isso, Carlos finalmente viu Renato pôr seus olhos mortos nos dele. — Ou outra coisa. Só pra assustar meus amigos um pouco.

O fantasma não respondeu, mas disse uma coisa:

— Você deixa eu usar o seu telefone?

Carlos encolheu os ombros.

— Bem, eu não sei — disse o adolescente. — Acho melhor você perguntar pra mamãe.

— Eu não vou falar com a sua mãe — Renato sentenciou, voltando a olhar para o radinho em cima das telhas. Carlos achou melhor ir embora do quintal. Não queria ser o único da casa a presenciar o arco de loucura de um hóspede fantasma.

///

No dia seguinte, Renato pensou sobre o que Carlos lhe tinha pedido. Não pretendia fazer nada, nenhum truque especial de gente morta, mesmo que fosse o único desejo de aniversário da única pessoa com a qual ele podia conversar naquela casa; porém, o rapaz insistiu mais uma vez.

— Por favor, Renato! Eu vou embora daqui uma semana. Só isso, por favor!

O fantasma não conseguiu negar. No meio do parabéns, fez a única coisa que sabia fazer: ligou o rádio. Não pareceu deixar os convidados muito assustados, então ele piscou as luzes, derrubou pratos, ligou a televisão, e abriu as janelas.

No fim das contas, Carlos e os amigos mais próximos estavam se divertindo, mas as mães e tias e irmãs e primos presentes odiaram o presente de aniversário. Crianças saíram correndo, chorando. Pessoas se desesperaram e também saíram correndo, chorando.

Quando a festa acabou, a Esposa perguntou se Carlos tinha alguma coisa a ver com aquilo. O Marido, decepcionado ao ouvir a resposta do filho, o pôs de castigo, mas Carlos já tinha dezoito anos — não poderiam obrigá-lo a nada, o rapaz pensava. Então, no lugar de esperar uma ou duas semanas antes de ir embora de casa, Carlos juntou suas coisas e saiu pela porta naquele exato momento. Não se parecia em nada com o menininho que chorou na primeira vez em que conversou com o fantasma do rádio.

Renato assistiu a cena, pela primeira vez desejando poder intervir numa situação dos vivos. Não queria que Carlos fosse embora daquele jeito, mas estava vendo o Irmão do Meio fazendo as malas e não achava que ele fosse mudar de ideia espontaneamente. Também não queria ouvir o Marido gritando com o filho, mesmo que não entendesse nada do que ele dizia, sabia que eram duras palavras. Sabia que o Marido e a Esposa se arrependeriam disso mais tarde.

Mas Renato estava morto. Não poderia fazer nada a não ser ligar o rádio.

— E desligue essa droga de rádio! — a Esposa gritou para o nada. — A culpa disso tudo é sua! Fantasma maldito!

E saiu correndo para o quarto, para longe do barulho de estática na sala. Renato não tinha entendido nada, já que ela não tinha falado em seu idioma, então nunca pôde realmente se sentir culpado pela fuga de Carlos até o dia em que soube que o garoto tinha morrido.

Na verdade, a culpa não era um sentimento familiar para Renato. Ele estava morto havia trinta anos — já não sentia mais nada da mesma forma de quando vivia —, mas mesmo quando estava vivo, não era de se culpar por nada: nem o que fez, muito menos o que não fez.

Ele não tinha matado Carlos. Não tinha puxado o gatilho. Só tinha feito o que o garoto tinha pedido. Não era sua culpa. Ele era um fantasma, não tinha nada a ver com o que acontecia com os vivos. Então, por que sentiu um aperto no peito se já não tinha coração?

Até hoje, Renato não sabe exatamente explicar como tinha se sentido tão mal com a morte de alguém se ele mesmo era um homem morto. Será que alguém se sentiu assim quando eu morri? Se sim, essa pessoa deveria mesmo me amar.

Mas como iria saber se alguém tinha chorado sua morte se nem mesmo sabia como tinha morrido?

Até um certo ponto, Renato realmente achou que fosse ver Carlos. Que ele fosse fazer uma visita, em forma de fantasma, para conversar de igual para igual pela primeira vez, mas ele nunca apareceu. Talvez soubesse, muito antes de Renato, que ter a habilidade de observar todos sem ser observado não era uma bênção, mas uma maldição. Talvez tivesse encontrado o caminho da luz muito antes de Renato. Ou, talvez — e essa teoria era a menos provável —, talvez ainda estivesse vivo por aí.

Nenhum vivo que morava na casinha branca contou a Renato como foi o funeral. Ninguém lembrou de avisar o morto. Não havia ninguém que pudesse conversar com ele como Carlos podia.

Renato só tinha, realmente, o rádio.

///

Depois que Carlos morreu, a família de estrangeiros começou a ficar mais silenciosa, o que agradava o fantasma. Ele ainda ouvia o rádio no telhado, e raras vezes descia para a sala. Passou a observar a rua com mais frequência, menos desconfortável diante do seu formato.

Tinha aprendido a procurar as pilhas por si só, então não incomodava mais os moradores e nem era mais incomodado. Ainda se irritava nos momentos em que não conseguia entender o que eles diziam, mas já não tinha mais vontade de odiar nada, então ficava por isso mesmo.

A Filha do Tio tinha nascido, crescido, começado a andar, falar, e o Tio ainda não tinha saído da casa. A Esposa do Tio lavava a roupa no quintal toda quinta-feira, e Renato, de cima do telhado, a ouvia cantar.

O Marido tinha adoecido há algumas semanas, tossindo sem parar, mas não achavam que aquilo era grave. A Esposa sempre fazia uma sopa ou um chá quando o Marido reclamava bastante. Nunca mais foram feitos aqueles almoços de domingo gigantescos. O dia era apenas vazio e silencioso, um reflexo de como os moradores se sentiam por dentro.

O Irmão Mais Velho, que já tinha saído de casa muito antes da morte do Irmão Do Meio — Carlos —, voltou à cidade para passar um tempo com os pais. A Irmã Mais Nova não saía do quarto para nada.

O Fantasma ainda ouvia a mesma estação de rádio todos os dias.

A vida continuou assim durante muito tempo — durante doze anos, na verdade — até que, um dia, Renato ouviu uma coisa no rádio que mudou completamente a trajetória da sua morte.

///

Quantos anos completa a Rádio Renascença hoje?, o rádio repetia. Renato tinha, num raro acontecimento, sentado sobre a mesinha do radinho novamente, preenchendo a sala com o barulho que nenhum vivo conseguia compreender. Para o fantasma, eram palavras; para os moradores, era apenas estática.

— Será que dá pra diminuir o volume dessa droga? Eu tô tentando ler! — a Irmã Mais Nova exigiu, no idioma do hóspede, olhando para cima como se Renato fosse estar colado no teto. O Fantasma revirou os olhos e estalou a língua, mas fez mesmo assim.

Quem souber nos dizer vai ganhar um prêmio surpresa, repetiu o rádio.

— O que foi, Verônica? — a Esposa perguntou em sua língua nativa.

— Nada, mãe — a mulher respondeu. — Esse fantasma idiota resolve ligar essa droga de rádio justo no dia que eu passo aqui. Ele não tinha mudado pro telhado?

Renato suspirou, incomodado com o falatório que não conseguia compreender, mas não o suficiente para fazer pirraça e aumentar o volume o máximo que conseguia. Tinha aprendido uma ou duas coisas sobre convivência — se ficasse insuportável, a Irmã Mais Nova roubava o radinho dele, e era muito difícil pegar de volta.

Hoje, no nosso quadro especial Histórias da Minha Vida, vamos fazer uma edição especial em comemoração ao aniversário da Rádio Renascença, o locutor narrou. Renato imediatamente se levantou da mesinha, que estremeceu com o movimento súbito. Uma edição especial! Finalmente! Ah, Renato tinha sentido tantas saudades das edições especiais, raras nos últimos dez anos.

Vamos ouvir agora um episódio de Histórias da Minha Morte contado por um convidado de honra. Mas antes, gostaria de lembrar que você — sim, você mesmo, aí de casa! — pode ganhar um prêmio surpresa se nos ligar hoje, até as seis, dizendo quantos anos a Rádio Renascença completa no dia de hoje. E aí, sabe a resposta? Então liga aqui pra gente! E agora, vamos de história?

Renato pegou o rádio e correu para o telhado. Aumentou o volume, deitou nas telhas e encarou o sol, que não machucava seus olhos de fantasma nem queimava sua pele de espírito. Deixou-se absorver pela história.

A história de hoje é algo de muita importância pra mim, disse a voz do convidado de honra. Renato estremeceu: ele conhecia essa voz. É a história de como o meu amigo de infância morreu.

Renato fechou os punhos, depois os olhos. Quis rezar pela primeira vez em quarenta anos, pensando que aquilo fosse um milagre. Até porque, como poderia Carlos estar, naquele momento, falando no rádio, se ele tinha morrido havia doze anos?

E o Irmão Do Meio continuou contando a sua história.

O Meu Amigo morreu aos dezessete anos de idade. Ele era o mais velho de quatro irmãos e viveu uma vida muito confortável na rua mais bem localizada da cidade. O pai dele era um empresário bem sucedido na carreira profissional, mas nem tanto na pessoal, e a sua mãe era uma mulher silenciada que sucumbiu ao alcoolismo na sequência de sua morte.

O Meu Amigo não era a mais compreensível das almas. Ele estava perdido, irado e magoado. Na primeira vez em que nos falamos, ele me fez chorar. O Meu Amigo não foi o melhor amigo, mas foi um bom filho e um irmão decente. Ele tinha suas qualidades.

Ele morreu dormindo, em paz, sem consciência da sua dor, mas, como todas as pessoas que morrem dormindo, sem consciência também da sua situação. Tinha morrido, mas não se sentia morto. Vagou pela cidade e se instalou na casa que, um dia, viria a ser a minha casa. Quando nos conhecemos, ele já era um homem morto, e eu, um garoto que via fantasmas.

Mas a sua morte não tinha sido tão simples quanto uma falha natural de um corpo humano. A real causa da sua partida foi uma combinação de catástrofes iniciadas no mesmo dia do seu nascimento, de modo que toda a sua vida tinha sido um ensaio para o momento em que o seu coração parasse de bater e a sua alma se desprendesse da matéria.

Renato, Meu Amigo, foi morto pelo próprio pai, envenenado e depois asfixiado. Ninguém chorou em seu velório, porque ele foi privado de um, e sua mãe viveu em agonia durante longos quarenta e dois anos após a sua morte, ainda na esperança de encontrar o filho perdido. Dos seus outros três irmãos, apenas um continua vivo. O seu pai não é visto há duas décadas.

E, agora, os Céus aguardam a sua presença para uma cerimônia digna. Eu, Meu Amigo, estou esperando a sua ligação.

Dois nove… Qual era o número? Renato sabia! Ele sabia de cor! Não era possível que tivesse esquecido… Dois nove… onze… dois… E o que mais? Quais são os outros?!

Ele largou o telefone fixo da casinha branca no fim da Rua dos Milagres. A Irmã Mais Nova observava, confusa, enquanto o telefone velho tremia ao lado das fotografias de seu pai e seu irmão, os falecidos.

— Não sei o que você quer com esse telefone, sendo que ele não funciona — ela comunicou o Fantasma na língua dele. Renato a encarou nos olhos e, pela primeira vez, percebeu que sabia o nome dela.

— Eu vou embora, Verônica — ele respondeu. Ela não ouviu, é claro, mas ele sim. — Mas você pode ter certeza que eu volto.

E, milagrosamente, se lembrou do número da Rádio Renascença.

Dois nove um um dois zero dois cinco.

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O radinho de pilha do Fantasma do Rádio nunca mais foi ligado às dez da manhã. A Esposa, única moradora remanescente da casinha branca no fim da Rua dos Milagres, até que chegava a sentir saudades da barulheira do fantasma e dos ruídos que preenchiam o ambiente, mas também sentia falta das crianças correndo pelos cantos; dos cachorros latindo; do gato miando; e até do cunhado e família dele, que passaram tanto tempo por ali que até construíram um cômodo extra só para eles.

A Esposa também sentia falta do Marido, mas sabia que não precisava chorar demais pela sua perda. Ele tinha vivido uma vida longa e morrido uma morte curta, rápida, ainda que dolorosa.

E, hoje, ela tem a honra de segurar o seu primeiro neto nos braços. O filho da Irmã Mais Nova nasceu no dia dois nove do mês um um do ano dois zero dois cinco, numa casinha branca no fim de uma rua milagrosa, no mesmíssimo momento em que o rádio cantava uma música sobre amor.

Renato veio ao mundo para ser muito amado. E também pra levar uns cascudos de vez em quando.

24 de Setembro de 2022 às 21:14 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Madu Dourado 19, psicologia, pseudodesigner e fanfiqueira nas horas vagas.

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