insano Carlos Magno Franco

Os assassinados serão esquecidos pelo mundo... Nenhum registro da existência dessa pessoa irá restar. O mundo ainda esconde muitos segredos, que precisam ser desvendados.


Fantasia Épico Todo o público.

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Capítulo 1 - A Primeira Engrenagem

Todos estão presos, alguns em grades físicas, outros em grades criadas pela própria cabeça. No fim podemos dizer que todos tem alguma forma de prisão. A minha, por mais estranho que possa parecer, é uma física. Não é composta de grades, mas de carne e osso. Estou em um corpo que não me pertence, ele não consegue enxergar, não pode ouvir e tampouco sente odores. Esses eram os sentidos que eu mais utilizava antes de vir parar nesta prisão carnal, agora sou cego, surdo e anosmático.

O que eu fiz antes de vir parar aqui entretanto, não importa. Preciso entender o que se passa, onde estou e como voltar a mim. Mas as limitações são muitas, sequer posso me mover, os músculos deste corpo parecem estar atrofiados, ele apenas fica deitado, sendo alimentado por algo ou alguém, sequer consigo dizer se é um homem ou mulher, talvez nem humano seja. O que me resta é olhar para dentro de mim, buscar nas memórias deste corpo e descobrir onde estou. Preciso me concentrar para isso, considerando a ausência total de estímulos fica fácil conseguir... Dessa maneira, eu me concentro e em pouco tempo sinto que agora estou dentro das memórias.

O lugar continua escuro, preciso buscar por luzes, cores, alguma referência. Se este corpo nasceu cego não terei nada disso... Finalmente uma luz se projeta a distância no escuro, a luz no fim do túnel como dizem. A passos leves uma criança se aproxima, parece jovem, uns doze anos eu diria, seu corpo está com um brilho dourado e é translucido. Conforme se aproxima olho na direção de onde deveriam estar minhas mãos, mesmo com a luz que cresce não consigo vê-las, significa que essa criança é incapaz de imaginar como é minha real forma, espero que consiga dar vida a minha voz, ou então não serei capaz de descobrir nada através de suas memórias.

— Garoto — digo na língua comum, utilizada por humanos normalmente, sua cabeça se move em minha direção — sabe quem eu sou?

Ele nega com a cabeça de maneira lenta, quase letárgica. Mas agora olha onde eu deveria estar. Se eu não consigo ver a mim mesmo, ele também é incapaz de conseguir. Preciso fazê-lo conversar para obter conhecimento do corpo onde estou e preciso fazer isso o mais depressa possível, não sei o que pode acontecer comigo enquanto estou preso a este corpo.

— Estou aqui para ajudá-lo — utilizo de uma voz macia, de maneira a deixar o garoto mais confiante em relação a mim — Me chamo Yang... — Antes de pronunciar meu nome por completo uma angústia familiar faz minha garganta travar.

— Yang? — Pergunta o garoto com uma voz baixa, quase parecendo um sussurro.

— Sim. Yang. E você? Como se chama? — O pouco tempo que o garoto me deu ajuda a afastar aquele sentimento angustiante.

— Irvin.

— E seu sobrenome?

Ele pensa por um momento, parece que suas memórias também estão confusas.

— Não tenho — ele aos poucos vai se esvaindo em cor, a luz vai desaparecendo, parecendo tragar Irvin. Suas memórias estão protegendo ele de alguma maneira, não vai ser fácil conseguir o que preciso. Mas o diálogo já foi iniciado, terei outras oportunidades. É melhor que eu não force as memórias de uma criança, principalmente por estar no controle do corpo.

Controle. Não posso dizer que tenha muito no momento.

Esse corpo não tem nenhum controle, ainda. Uma risada se repete pelas minhas costas, me viro para olhar, na completa escuridão, não vejo ninguém, mas sei de quem se trata.



Estou novamente a sentir o corpo. Me resta apenas o tato e o paladar. Apesar que ambos dependem dos estímulos que recebo sem controle algum — novamente o controle — do que está no meu ambiente. Eu espero sentir qualquer coisa que me permita dizer que estou vivo, sinto o calor de raios solares nos pés, é algo reconfortante, um pequeno calor que me permite receber o pouco de vitamina D que preciso. Quase penso em mim mesmo como uma planta. Alguém cuidando de mim, me dá água, me faz pegar sol. Desejo ver quem está me cuidando.

Meu cuidador segue uma rotina meticulosa. Eu consigo sentir e calcular o tempo que cada coisa acontece. Apesar de não saber dizer o horário eu uso o calor do sol e a forma que ele incide em minhas pernas para ter uma aproximação de tempo. Dessa maneira minha rotina inicia com um banho, sendo usado apenas alguns trapos, lentamente esfregando os braços e pernas, o toque suave da mão me faz pensar que seja uma mulher, mas poderia ser uma raça com um toque mais suave, talvez elfos. Eu consigo sentir o tremor na mão de meu cuidador, como se tivesse medo de quebrar o corpo do garoto. Pela maneira como passa o pano consigo sentir a espessura dos braços e das pernas, assim como as cavidades que marcam um corpo magro, quase desnutrido. Consigo contar os minutos que passa me esfregando, uma média de dez à quatorze minutos. Os panos acompanham uma água gelada que me faria tremer se eu pudesse, entretanto não consigo reagir a nada. Logo em seguida sou alimentado. A comida é líquida e insossa, de vez em quando sinto o gosto de legumes, uma fina rodela de cenoura, uma batatinha perdida entre o líquido. Devo dizer que o alimento tem poucos nutrientes e parece estar causando a má nutrição. Essa comida só surge após o banho, o qual eu julgo acontecer pela manhã. A tarde e pela noite as únicas coisas que recebo é água, uma quantidade pequena também, não mais do que uma quantidade suficiente para encher um copo pequeno.

Os dias passam, já fazem dez dias, posso contar como uma forma de saber quanto tempo se passa neste corpo, assim como pensar no melhor momento para voltar a pesquisar nas memórias de Irvin. Nesse tempo percebo que a comida e água não são suficientes para nutrir o corpo dele. O cuidador também não mexe muito no corpo, de maneira que os músculos atrofiados irão se manter por um longo tempo, mas isso terei que resolver depois. Me preparo para voltar as memórias, concentração é essencial, uso o que seria noite para esse momento e... De volta a escuridão. Só esperar desta vez, a luz virá com o Irvin.

A escuridão não me causa desconforto, nela se encontra o silêncio total. Muitos temem ela por causa do desconhecido, temem o que pode se esconder nas sombras, faz sentido, é uma questão de evolução. Mas quando você se torna a coisa mais temida na escuridão — segunda — ela passa a ser uma aliada importante. Por isso aguardo, até ver aquela pequena abertura de luz surgir e aos poucos formar a memória de Irvin, dando forma a sua imagem como se fossem vagalumes desenhando no ar. Me aproximo, de maneira a deixar meus passos serem ouvidos, eles são projetados pela imaginação de Irvin. Isso me indica que ele não nasceu cego nem surdo e nem mudo, algo causou isso a ele.

— Olá Irvin — sempre utilizo de uma voz mansa, a fim de deixá-lo confortável — é bom te ver de novo — faço uma leve reverência, mesmo sabendo que não irá notar preciso manter meus costumes intactos para quando voltar a ser eu mesmo.

— É bom ouvi-lo também Yang — a forma de falar, ainda baixa, denota uma falta de respeito, mas por se tratar de uma criança não dou muita importância.

— Podemos conversar um pouco... Estou perdido e... — Faço pequenas pausas, sempre observando como as luzes se comportam. É necessário ter cuidado quando se lida com memórias, elas podem se fechar muito rapidamente, ao menor sinal de trauma ou desconforto. Ainda mais de um garoto pequeno como esse — ...preciso de sua ajuda!

— Minha ajuda?

— Se for possível.

— Eu... Eu sou inútil — sua voz vacila antes de continuar, porém suas memórias se mantém inalteradas — as pessoas não precisam de mim para nada, sou apenas um peso na vida dos outros — sua memória começa a se agitar. Esse garoto deve ser puro trauma.

— Não se preocupe, se não puder ajudar está tudo bem também — tento contornar e ver como suas memórias reagem, mas ainda não se acalmaram. Mas não posso me arriscar a falar coisas que não conheço ainda sobre ele, ou pode se fechar para sempre, no momento o melhor é esperar.

Observo então as luzes se movendo, em um ritmo constante, ao redor de seus braços e do seu corpo, eventualmente entre esses brilhos é possível observar uma imagem se formar, essa imagem é desfocada mas consigo ver o rosto de uma mulher magra, cabelo castanho e seco, seu rosto parece cansado, mas seu olhar e sorriso conseguem transparecer um carinho que só uma mãe teria por um filho. Ainda espero que se acalme, e essa memória parece estar fazendo seu papel de acalmar.

— O que quer de mim? — Sua pergunta transparece o muito que esse garoto já perdeu, como se o tempo todo lhe tirassem tudo. Eu entendo disso, já me tiraram tudo, muitas vezes isso aconteceu, a única coisa que sempre me restou foi meu intelecto e minhas memórias, que mais do que nunca se fazem úteis de novo, pois aqui estou, sem nada de novo.

— Gostaria de conversar apenas — não minto.

— E o que quer perguntar?

— Conversar. Não perguntar. — Deixo suas memórias se moverem, sem agitação, percebo que ele estranha a situação. — O que conversa com seus amigos? — suas memórias se agitam novamente, leve porém demonstrando um certo desconforto. Esse garoto não tem amigos?

— Eu só tenho um amigo — ele diz enquanto uma de suas luzes novamente revela a imagem de um pequeno gato branco com manchas laranja, ainda um filhote. No momento da imagem o gato está lambendo de perto seu rosto — o nome dela é Sisa — sua memória novamente o acalma. Isso está indo bem para mim.

— E o que conversava com sua amiga, ela parece muito importante.

— Ela é — enche o peito para conversar pela primeira vez, dando um tom mais vivido a sua voz. Ainda é uma voz infantil, mas deixou os baixos sussurros de antes — ela é uma grande investigadora de Khandor — mais luzes revelam momentos com sua gatinha, a mesma dentro de uma caixa de papelão, depois andando por um fino ferro de uma estrutura, é possível notar que ele a persegue com um pedaço de madeira enquanto brinca com a mesma, suas memórias não revelam o som daquele momento, mas me atento a tudo. Na caixa velha tem letras que consigo ler, é a língua comum dos humanos, o restante do ambiente é pequeno, e parece que a construção é feita com retalhos de madeira e painéis de ferro, todos amontoados. Não há presença de outros objetos, talvez ele não tenha isso na memória ou esse local de fato não tem nada. Porém quando o gato anda pela estrutura consigo perceber outras construções no mesmo molde, uma do lado da outra, pequenas estruturas feitas com entulho, ferro velho, madeiras podres. É uma favela o local.

O que me chama a atenção é o local chamado Khandor, preciso investigar.

— Khandor? — Questiono.

— Sim. A maior investigadora de toda a nação. — Nação? Se é um lugar grande assim eu nunca ouvi falar, não estou nem mais no meu plano original. Devo questionar mais e sei como fazer com uma criança.

— Ah é? — Inicio. — Me conte mais das aventuras de Sisa por Khandor. Que locais ela passou? Quais mistérios desvendou?

Ele fica ruborizado com a pergunta. Acredito que ninguém nunca deve ter dado ouvidos para Irvin antes. Ao mesmo tempo ele se agita, suas memórias fluem, as luzes mostram várias coisas enquanto o próprio Irvin começa a contar animado como só uma criança poderia ficar. Não é difícil para mim prestar atenção no que ele fala enquanto observo as imagens se formarem, fiz coisas parecidas inúmeras vezes, dar atenção dividida. Essa habilidade eu usei muitas vezes, e aqui mais uma vez ela se faz útil.

— Ela já investigou um assassinato — começa Irvin. De maneira surpreendente para uma criança. Mas logo percebo que suas memórias mostram ele olhando para um livro, com gravuras, um senhor de cabelo grisalho e roupas desgastadas marrom parece mostrar esse livro para Irvin. Pela maneira que ele move seus lábios enquanto indica partes no desenho percebo que ele conta uma história. Sisa também está apreciando a aula junto de Irvin — ocorreu nas fronteiras com as terras neutras — mais informações que desconheço e que continuam a mostrar apenas no livro.

Entre as histórias contadas por ele, percebo que Irvin nunca saiu do local onde vive. Até por que ele parece preso em um lugar rodeados por grandes muralhas. Sei que não são para proteção pois elas possuem construções que indicam que estão mantendo eles afastados de algo, como animais. O menino então vive apenas em um grande — não há outras palavras para descrever — lixão. Pilhas de lixo por todo canto, estruturas de metais e madeiras velhas montam as casas, porém os muros são feitos de um material rochoso cimentado, existem torres de sentinelas que guardam todo o local, assim como câmeras que apontam para o lado de dentro. Em alguns pontos é possível ver instalações de luzes e até mesmo metralhadoras apontadas para dentro. É bom saber que existe tecnologia avançada onde estou, mas é péssimo saber que ela está contra mim.

Conforme Irvin narra suas histórias mais luzes revelam suas memórias, começo a conduzir a conversa conforme necessito de informação. Uma criança não poderia me vencer em um desafio como esse. É fácil conduzir as perguntas. “Onde você estava quando isso aconteceu?” “Quem estava contigo?” “O que comeram nesse dia?”. As perguntas fazem as memórias surgirem uma atrás da outra, é como estudar um livro, você olha uma informação e busca ela em outros livros que vão dizer mais sobre o assunto. Seguindo assim é possível criar uma rede de informação. Meu processo vai trazer ótimos resultados, sempre trouxe.

9 de Setembro de 2022 às 01:25 3 Denunciar Insira Seguir história
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Leia o próximo capítulo Capítulo 2 - Engate de memórias

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Caio Vinícius Caio Vinícius
Boa noite, Carlos, leitor Beta aqui. Pareceu uma história promissora, aposte mesmo numa narrativa para adultos que gostam de distopias. É o que parece o rumo do livro. A maneira como você começou o capítulo me fez querer seguir lendo, isso é bom. Parabéns 👏👏
October 25, 2022, 01:39

  • Carlos Magno Franco Carlos Magno Franco
    Agradeço o comentário Caio. Eu estou tentando melhorar a escrita, histórias não vão faltar que tenho muitas criadas ao longo de 20 anos, mas preciso colocar elas de uma maneira boa no papel heheheh October 25, 2022, 10:09
Carlos Magno Franco Carlos Magno Franco
Sugestões são sempre bem vindas! Críticas também.
September 09, 2022, 15:00
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Tear da Criação
Tear da Criação

Existem quatro entidades que são capazes de moldar o universo ao seu bel prazer. "O caminho" que é responsável por dar criar criaturas vivas e sencientes, deixando com que ela trilhem e forjando os caminhos possíveis de existência... Daí deriva seu nome. "A Vontade" capaz de dar sentido a tudo que existe. Permitindo que seres vivos consigam se expressar e tomar decisões que acabam se tornando seu livre arbítrio. Seu nome deriva do pensar e agir de todos os seres, aqueles que tem vontade de agir o fazem devido aos poderes desta entidade. "A Destino" é a entidade capaz de fazer com que o mundo receba diversas direções, onde escolhas do presente se ligam com eventos do passado e podem insinuar um futuro diferente cada vez que uma ação é feita. Muitos acreditam no destino, o que a torna uma das principais entidades. "O Tempo" entre todas as entidades, este detém o maior poder. É por causa dele que todas as entidades conseguem ver o maquinar de suas criações, é ele que faz o mundo fluir, não apenas em uma direção, mas para todas. Passado, presente e futuro são direções possíveis. Assim como saltar para o lado e escolher outra dimensão a qual explorar. Este multiverso existe e é criado através das linhas da criação, o chamado Tear da Criação. Onde todas as possibilidades de universos e mundos criados estão presentes. Porém apenas as entidades sabem quantas vezes os universos já foram criados e destruídos, quantos universos foram deixados e descartados. Mas cada universo existiu vida, pessoas que viveram e lutaram por eles. *Aos poucos receberão mais informações de cada universo presente e suas criações* Leia mais sobre Tear da Criação.

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