joiarodrigues Joia Rodrigues

Uma nota curta que escrevi ao ouvir a versão de 1 hora de Field, de Evgeny Grinko. Não se trata de um conto longo ou uma história completa, mas sim do cenário que imaginei ao ouvir essa música pela primeira vez :)


Conto Todo o público.

#melancolia #capítuloúnico #músicaclássica
Conto
1
64 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Apostila única

Em seu quarto, Elisabeth tocava gentilmente seus dedos macios nas teclas do piano. Ao sentar-se em seu banco escuro e empoeirado, ela sentiu a frieza que outrora não existia, quando suas irmãs ainda estavam com ela.

Ajeitou-se, arrumando a postura da mesma forma que Anika havia lhe dito anos atrás, e iniciou a doce melodia melancólica que transmitia de maneira suave e delicada o âmago de sua saudade. De forma artística, a moça de cabelos cacheados pincelou sonoramente a ideia da falta, quando, antes o som, moldados pelo piano, violoncelo e acordeão, havia a quentura da música que alegrava o coração de sua família.

O tecido branco rendado do vestido da mulher caía de forma delicada por suas pernas e, sob o denso pano marrom que devia teoricamente a aquecer, havia uma pele arrepiada, enquanto se recordava das notas que agora, neste momento, ansiavam pelos dois instrumentos, um mais robusto que o outro, e que juntos integravam a mais doce das melodias. Ela sentiu por seu rosto vazar a primeira lágrima, escutando com atenção cada timbre lançado pelas cordas e, viajando pelas memórias, percebeu sua nuca esfriar com a leve brisa que vinha da janela aberta à sua esquerda.

Acima do piano havia um quadro que sua irmã mais nova, Celeste, a fez como presente de 21 anos: a casa branca com os telhados marrons no fim de uma colina; ao fundo, os pinheiros ao pé da enorme montanha; com o céu azulado da imagem que registrava o calor da fazenda que continha o nome das árvores que circulavam a região. O retrato do chalé que em sua infância servia de forte para as três irmãs: Anika, a sábia; Elisabeth, a guardiã; e Celeste, a Maga. O trio era responsável pelas mais agitadas histórias de aventura, onde lutavam contra dragões, salvavam príncipes — ou princesas — das torres e prendiam reis tiranos que perturbavam as aldeias — o que, inconscientemente, as faziam jovens contra as leis da época. Elis sempre se fascinou com os dons artísticos da irmã, que vivia sendo chamada de "mini Da Vinci" pela família. Por mais que suas pinturas não eram tão técnicas quanto Mona Lisa, naquele quadro em específico havia nas árvores que contornavam o pasto esverdeado o mistério que formava o sorriso sigiloso da modelo; e o mesmo sentimento de vazio que faziam os olhos dela queimar quem olhasse na escuridão da janela que escondia o interior do chalé. Celeste realmente era boa no que fazia.

Guardado na parte superior do piano estava a caneta em forma de pena de Anika, descansando em seu tinteiro preto. Elis sempre admirou sua mais velha, lendo seguidas vezes as poesias que ela fazia e tentando entender cada palavra, por mais que nunca conseguisse compreender de fato o que elas significavam. A sábia, como era chamada na infância, tinha a mania incansável de escrever sempre que sentia coisas que não conseguia proferir — havia inclusive uma lenda entre as crianças da avenida que dizia que Anika inventara um idioma próprio, de tão complexo que eram seus poemas, e sinceramente, ninguém de sua família duvidava disso. A primogênita era reservada, protetora e, como o próprio apelido já diz, a mais sábia das três. Apesar de serem poucos anos de diferença, algo aconteceu com Anika que a fez se tornar tão inquieta; não em conversas nem em debates, mas em ações e palavras. Elis sempre quis saber o que simbolizavam seus poemas, pois eles mostravam uma fração da mente de sua irmã, aquela parte desconexa que nunca foi clara pra ninguém além da própria dona daquele cérebro genial. Ela nunca teve certeza, mas tem a impressão de que os papiros contavam uma história, algo que talvez acontecera com a primeira quando foi ao Internato dos Anjos, em outra cidade, quando tinha por volta dos 11 anos. Aquela foi a última vez que Elis vira sua mais velha tão agitada. O conto que Anika descrevia nos seus papéis marrons e envelhecidos é algo que foi para o túmulo com ela.

Elisabeth então soou as últimas notas, mais graves e lentas, lembrando dos dias quando o trio estava completo. Em sua imaginação ela viu Celeste de pé sendo docemente coberta pelos raios solares da janela; a mais nova, mais esperançosa, mais ligada aos sentimentos e ao seu coração, proferindo os sons suaves e finos de seu acordeão amarronzado. E em sua direita ela enxergou Anika e seu violoncelo; a mais velha, mais protetora, mais ligada a realidade e a parte racional da vida, por mais que o seu lado artístico ainda estivesse consigo em seus papiros misteriosos. E ao meio ficava Elis, a mais indecisa, a mais simples, a mais ligada as imagens em sua cabeça, e a única que sobrou. Ela nunca se sentiu tão boa quanto suas irmãs, mas tinha ciência de que somente o trio completo conseguia matar dragões, lançar feitiços e até mesmo conquistar a alma dos homens.

Novamente a brisa gelada abraçou a nuca de Elis, fazendo ela finalizar a música com um leve sorriso. Onde quer que elas estejam, nos olímpicos lares ou sentadas ao lado de Deus, dançando com as deusas dos panteões pagãos ou até mesmo aguardando no purgatório da vida, prontas para retornar, Anika e Celeste estavam bem — talvez até mesmo tocando entre si a mesma canção em forma de dueto.

Ela descansou suas mãos em cima das teclas, abaixando seu tronco e relaxando sua cabeça sobre seus braços, se permitindo chorar o luto que nunca pudera viver até aquele momento. Passou alguns minutos sentindo suas lágrimas quentes escorrerem pelo seu rosto, até ouvir os passos incansáveis subirem as escadas de seu casarão. Naquele momento Elisabeth sorriu novamente, ansiando pelo abraço das irmãs que a esperavam. Sem poder dizer uma única palavra, a moça, com os olhos embaçados e vermelhos, olhou outra vez para o quadro e para o tinteiro, e consolou a si mesma lembrando que, dali alguns minutos, o trio estaria unido novamente.

5 de Julho de 2022 às 20:29 1 Denunciar Insira Seguir história
2
Fim

Conheça o autor

Comente algo

Publique!
Lyne Gomes Lyne Gomes
O final me deixou na dúvida aqui, e espantada kk. Ela foi...? De qualquer forma, adorei o conto. Linda sua escrita e lindas as personagens🌻
July 08, 2022, 21:07
~

Histórias relacionadas