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Beatriz Góes Cruz


Alissa nunca quis ser herdeira de Thempesta, mas a vida não lhe ofereceu opção. Desde a morte de seu irmão, precisa carregar nos ombros a iminência de um trono que nunca desejou, além da culpa por seu envolvimento na tragédia. O ressentimento se transforma em desespero quando Alissa descobre que o futuro não lhe reserva apenas uma coroa pesada, mas um noivado arranjado que só lhe é comunicado horas antes da oficialização perante a corte – sem que lhe seja revelada a identidade do prometido. Acuada pela proximidade de sua coroação e a descoberta do casamento arranjado, a última coisa que Alissa precisa é Escórpio, herdeiro de um reino vizinho e antigo desafeto, lhe fazendo uma proposta tão inesperada quanto irresistível: abandonar suas responsabilidades como herdeira e fugir de Thempesta. Por um lado, é sua única chance de evitar um destino tão terrível quanto inescapável. Por outro… isso significa virar as costas para tudo o que conhece e destruir qualquer chance de reconstruir os laços com o que restou de sua família. Mas a voz interior que acompanha cada passo da princesa alerta: suas decisões podem levar a consequências mais sombrias do que ela pode imaginar. Alissa terá que fazer uma escolha que parece impossível – e se tornar quem deseja ser, de uma vez por todas.


Fantasia Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo 1 - Tratado

Uma princesa não deve correr.

É uma regra que já me foi repetida tantas milhares de vezes que sou capaz de escutá-la ecoando na minha cabeça no mesmo tom estridente da professora de etiqueta, enquanto desvio dos serviçais carregando vasos e louças para o baile de amanhã.

Uma futura rainha deve ser sempre pontual!

É outra regra que escuto com frequência, de meus pais principalmente.

E é por já estar uma hora e meia atrasada para a mentoria governamental que não posso obedecer à primeira regra – mesmo que meu coração esteja a ponto de sair pela boca, em protesto pelas vezes em que evitei uma derrapagem no chão liso de mármore, sem parar para descansar desde os jardins. Aturar os sermões de Thereezee é bem mais simples do que cumprir os castigos do meu pai, também conhecido como rei Aristides.

Viro à direita, no penúltimo corredor antes da Biblioteca Real. A respiração passa rasa e entrecortada entre os dentes. As panturrilhas queimam em cansaço e mais uma vez meus pés descalços vacilam no chão. Por muito pouco, consigo recuperar o equilíbrio a tempo firmando a mão na parede em vez de no grande vaso de porcelana ao lado.

O susto, entretanto, é suficiente para me fazer parar por um momento, me recostando à parede lisa. Solto a frente da saia e levo a mão esquerda ao peito, inspirando fundo. É insuficiente para estabilizar os batimentos e respiração ou diminuir o tremor nas pernas.

Já está atrasada. Não tem por que se arriscar correndo assim

A familiar voz do bom-senso sopra em meu ouvido, e solto a respiração pesadamente, num bufo. Em outras palavras: o castigo já está garantido, que diferença cinco minutos vão fazer?

Ao menos não há praticamente ninguém nesse corredor, boa parte da corte e empregados reunidos no Salão de Baile, ocupados com os últimos preparativos da festa. Rapidamente penteio o cabelo com os dedos e faço uma rápida trança, que jogo sobre o ombro – não vai durar sem um broche, mas com alguma sorte vai aguentar até que chegue ao gabinete de papai. Não há muito que eu possa fazer pela bainha do vestido oliva ou pelos pés descalços – nem sei onde perdi as sapatilhas.

Inspiro fundo uma última vez e, mesmo sem ter me estabilizado quase nada, retomo o caminho com passos largos e diretos; não mais uma corrida alucinada, mas também não um suave andar principesco.

Na última dobra para chegar ao corredor da biblioteca, entretanto, ignoro o bom-senso e volto a apressar os passos para chegar logo ao gabinete. Sinto o chão úmido apenas uma fração de segundo antes de meu equilíbrio vacilar. Estendo a mão para agarrar o primeiro borrão que vejo… ao mesmo tempo meu braço direito é segurado com firmeza.

— Senhorita, deve ter cuidado. Acabaram de passar… — A voz masculina desconhecida se interrompe com um ofego. Talvez reconhecendo que a pessoa que impediu de levar um tombo foi a herdeira ao trono.

O que menos preciso agora é de alguém se dobrando em mesuras ou me alongar em uma conversa.

— Entendi. Agradeço a ajuda. — Sem a decência de erguer o rosto, me desvencilho do suporte que a mão castanha-clara oferece… mesmo que meu coração martele num descompasso alucinado e eu não sinta qualquer firmeza nas pernas, com um estranho formigamento se espalhando como choque elétrico.

O primeiro passo quase me faz cair e, sem pensar, volto a me agarrar ao braço rijo. Ele solta uma risadinha nasalada e cerro os lábios, a mortificação escaldando meu rosto.

— Posso acompanhá-la até a porta, se quiser, Ali… Alteza. — Por breve segundo ele titubeia, como se fosse dizer meu nome, mas talvez tenha apenas a língua presa. — O chão está seguro lá.

Mordo a língua, me impedindo de recusar precipitadamente e cometer outro vexame. Mas ser escoltada até a biblioteca como se fosse incapaz de andar os últimos dez metros até lá sem cair de cara no chão é quase tão vergonhoso quanto.

— Apenas me ajude a chegar até a parede e consigo ir sozinha, obrigada.

— Se é o que diz… — ele concorda, mas a voz denuncia um sorriso divertido enquanto me ajuda a chegar à parede.

Aceno com a cabeça em gesto de agradecimento e retomo o caminho com o que restou da minha dignidade. O olhar do estranho prestativo permanece cutucando minha nuca, mas ignoro a coceira de curiosidade para virar o rosto e tentar um vislumbre – o vexame das duas quase quedas já vão ficar me atormentando, não preciso acrescentar o risco de outra e nem a lembrança de um rosto rindo.

O caminho para a biblioteca estava quase vazio, mas não a biblioteca – embora afirmar que esteja lotada também seria exagero. Sendo o local escolhido pelo rei para seu gabinete particular, sempre há um punhado de guardas e nobres bajuladores espalhados pelo amplo salão, além daqueles que estão no ambiente pelos livros, de fato. Como se carregasse sinos no pescoço, posso sentir os olhares convergindo para mim, vindo por cima dos livros e por entre as grossas estantes-pilastras; e até mesmo do mezanino. Olhares sempre vigilantes, esperando qualquer mísera falha minha para espalhar à boca-pequena pela corte como atestado de inadequação.

Na maior parte do tempo, sou boa em ignorar tais olhares e cochichos, por mais irritantes que sejam. Mantendo o olhar fixo na porta fechada muito adiante, atravesso o salão principal da biblioteca em passos firmes como se não estivesse mais de hora atrasada e num estado tão lastimoso.

Dou um breve aceno de cabeça para os dois guardas posicionados diante do arco que leva ao segundo saguão, que é circular e menor, funcionando como antessala para o gabinete. As estantes nessa parte são embutidas na parede, numa madeira mais escura – dando um aspecto mais sóbrio ao lugar, um contraste aos tons pastéis do saguão principal. Além das três mesas, há um pequeno semicírculo com poltronas e um sofá amplo, para quem espera uma audiência particular com meus pais.

Bernardo, o secretário de quase setenta anos, me cumprimenta fazendo uma mesura e dizendo:

— O rei ainda está a sua espera.

Respiro fundo ao girar a maçaneta e solto o ar ao entrar no gabinete.

Papai está em sua mesa, debruçado sobre um documento. A casaca jogada sobre o encosto da cadeira, os óculos de leitura quase caindo do nariz fino e o cabelo liso pendendo como cortina sobre o lado esquerdo de seu rosto. É o repetitivo som de tec-tec da caneta batendo rápido no tampo da mesa de mogno que denuncia seu humor antes mesmo de me dirigir a palavra.

Quando ouve a porta fechar, a caneta para. Ele ergue os olhos muito devagar, primeiro para mim, parada diante da porta aguardando sua reação; depois, para o relógio pesado sobre a mesa.

E então novamente para mim.

— Uma hora e cinquenta minutos. — Apesar do tom quase sem flexão, as íris de intenso castanho-avermelhado flamejam irritação. — Onde esteve metida todo esse tempo?

Sentado do outro lado da mesa, não tem como ver a bainha do meu vestido ou os pés, senão teria uma boa ideia.

— No jardim.

Ele semicerra os olhos para mim.

Onde no jardim? Mandei que a procurassem por todas as partes.

— O jardim é enorme. — E duvido que algum dos empregados que ele mandou atrás de mim cogitariam me procurar fora da trilha do bosque ou que sequer saibam onde fica a Toca, um de meus poucos refúgios. Entretanto, como respostas vagas testam sua limitada paciência, emendo cuidadosamente: — Thereezee estava para me enlouquecer por conta do último ensaio do baile. Então, depois da prova final do vestido, fui para o bosque espairecer um pouco e perdi a noção do tempo. Me desculpe pelo atraso, vim o mais rápido que pude.

É parte significativa da verdade. Ele não precisa saber da Toca. E nem que Thereezee não é a única de quem estive me escondendo – fugir dela, ao menos, não me renderá qualquer sermão sobre diplomacia e boa relação entre os reinos. “Distância de Thereezee = paz de espírito” é o primeiro lugar entre os poucos tópicos em que concordamos sem discutir.

Ele tira os óculos de meia-lua e expira numa mistura de cansaço e exasperação, segurando a ponte do nariz. Com os cabelos tão desbotados, mais próximos da platina do que do dourado natural, as olheiras profundas, a palidez e os ombros largos e curvados, ele parece pelo menos uma década mais velho do que seus reais cinquenta anos completos há somente um mês.

— Não deveria ter ido para um lugar tão escondido, perderam muito tempo lhe procurando.

— Diz isso porque ninguém o obriga a celebrar seus aniversários e nem participar dos preparativos. Me esconder da corte por um tempo era justamente a intenção.

— E achou que por isso seria um ótimo dia para sumir sozinha num bosque? Quando a corte já está cheia com os convidados para amanhã? Avisei que hoje seria um assunto importante, mas por conta do seu atraso não vai ser tratado como deve-

— Certo, certo. — Ergo as mãos com as palmas viradas para ele, em rendição impaciente. — Já entendi e já pedi desculpas pelo atraso. Continuar falando sobre isso só vai diminuir o tempo para falarmos do “assunto importante”. Posso me sentar para começarmos logo?

Mordo o interior da bochecha tarde demais e ele me lança um dos olhares fulminantes que cala até os cortesões mais irritantes. Provavelmente acabo de garantir um mês precisando passar a limpo documentos antigos – quase caindo aos pedaços – seguido por uma sabatina de perguntas minuciosas… ou algo mortificante do gênero. Não me espantaria se descobrisse que ele mantém uma caderneta com todas as tarefas mais inúteis e burocráticas existentes, só para delegá-las para mim como castigo.

Em silêncio exasperado, ele estende a mão para a cadeira diante de si. Suspiro em alívio quando me acomodo no assento de madeira que, a essa altura, é tão boa quanto uma poltrona.

— Certo, então. Qual a grande importância do assunto de hoje? — indago, tentando manter a petulância longe da voz; e, a julgar por seu olhar, falhando novamente.

O temperamento inflamável deve ter vindo no mesmo pacote genético que as íris avermelhadas. Em geral, só conseguimos ficar pacificamente perto do outro quando estamos em silêncio ou quando a conversa gira em torno dos assuntos governamentais – e ainda assim, depende. Mas hoje, além de estar cansada, não quero correr o risco de repetir o erro de quatro anos atrás e entrar numa discussão na véspera do meu aniversário; da última vez, a briga continuou após o baile e terminou numa tragédia que, além de mandar nós dois para o hospital, culminou no adiantamento da minha coroação.

Por isso, inspiro profundamente, determinada a me conter para falar o menos possível durante a mentoria, acatar a tarefa que passará como castigo pelo atraso e enfim me retirar para tomar banho e descansar para o jantar.

Simples, certo?

— Vamos continuar falando do Tratado, Alissa. Onde estão suas coisas? — ele retruca, parecendo notar pela primeira vez que entrei de mãos vazias.

Pigarreio.

— Na minha mesa… esqueci de pegar a caminho para cá. — Em minha defesa, não esperava adormecer na Toca e acordar tão atrasada. — Se puder me emprestar…

Ele me interrompe com um bufo e empurra a caneta prateada que esteve batendo quando cheguei, e então vasculha por sua mesa repleta de documentos e quinquilharias – o completo oposto à de mamãe, quase vazia de tão meticulosamente arrumada.

Mesmo havendo salas maiores e mais sofisticadas na ala legislativa do castelo, mais apropriadas para sala do regente, papai decidiu se fixar nesse gabinete da biblioteca, quase uma caixa de sapatos em comparação às outras opções – especialmente quando divide o espaço com mamãe. Por outro lado, as estantes e armários mais próximos, o pequeno mezanino e a vista para uma parte do jardim trazem um ar mais aconchegante do que as outras salas, que de tão desnecessariamente amplas nos dão a incômoda sensação de ser um grão de poeira…

O que não quer dizer que irei me fixar nesse mesmo gabinete no futuro… Na verdade, tento ao máximo não pensar nesses detalhes mais corriqueiros e práticos de quando for rainha, como a sala a me estabelecer ou assistentes. Faz o futuro parecer mais próximo do que eu gostaria, trazendo um senso de realidade palpável e sufocante. Se nem mesmo nove anos foram suficientes para me acostumar a um trono que não devia ser meu, me pergunto se algum dia…

Uma fina caderneta vermelha desliza pelo tampo da mesa, mas tenho o reflexo de pegá-la antes que caia no chão. E rapidamente, para não dar a ele mais escopo para reclamar de atrasos, na primeira folha que encontro em branco anoto a data de 21 de março e notifico o tema como continuidade sobre o Tratado – para me orientar quando for copiar para meu próprio caderno mais tarde.

— Ao menos lembra onde paramos da última vez ou também esqueceu no caminho?

Não responda no mesmo tom

O bom-senso torna a ecoar no fundo de minha cabeça e engulo a tempo a resposta incisiva.

Jogando a trança semidesfeita para trás com um suspiro cansado, recito sobre como o Tratado foi idealizado e assinado há quase quatrocentos anos pelos quatro reinos da Ilha Solluaria – Bérthia, Thempesta (nós), Gardemona e Lunagory –, consistindo não apenas num pacto de não-agressão, mas também colaboração em aspectos de saúde e conhecimentos acadêmicos-científicos, principalmente; ao mesmo tempo em que se preserva certo grau de independência política. Num continente tão minúsculo e isolado do resto do mundo, tal tipo de acordo é o que nos garante uma vida relativamente pacífica.

Além disso, a assinatura representou uma nova era para a Ilha: abandonando o calendário do mundo exterior no ano de 1616, passamos a contar os anos a partir do Tratado – significando que agora estamos no Ano 399.

— Certo. — Ele confirma, o tom menos rígido, e com muito custo resisto à tentação de revirar os olhos. Seria difícil não ter decorado essa parte tão básica do contexto histórico, repetido tantas milhares de vezes pelas tutoras anos atrás. — Então vamos ao que interessa por hoje, um dos primeiros termos.

Apesar do tom menos rígido, ele ainda está impaciente. Nem espera eu me acomodar melhor na cadeira e confirmar estar pronta para acompanhá-lo.

— Desde um século antes da idealização do Tratado a Ilha já tinha uma prática de colaboração por conta de todas as situações geopolíticas, mas, para tentar garantir que em gerações futuras um reino não tentasse se sobrepor ao outro, o rei de Bérthia à época propôs a formalização do pacto.

Papai se interrompe por um breve segundo com suspiro pesado, recostando a cabeça no encosto da cadeira – pela forma que passa a mão pelo ralo cavanhaque e a sobe para apertar a ponte do nariz, fechando os olhos, talvez seja um princípio de enxaqueca… é algo que reparo apenas pelo canto da visão, mas antes que possa pousar a caneta e perguntar se está bem, ele retoma o assunto.

— Uma das formas de garantir essa harmonia era através do casamento. Se baseando nas histórias de que Thempesta e Gardemona foram criados pelas herdeiras de Lunagory e Bérthia, ele acreditava que se todas as Casas Reais cultivassem esse parentesco, de alguma forma, haveria mais boa relação entre os reinos. E como a linhagem passava principalmente pela filiação materna, foi estabelecido que a Primeira Filha de cada geração de uma Casa Real seria prometida a um nobre de um dos três reinos vizinhos. Mas, para se resguardar de haver degenerações sanguíneas ou prediletismo de aliança entre os reinos, não se pode repetir por duas gerações consecutivas o reino de naturalidade do noivo, e tampouco ele pode ser tão próximo da linha de sucessão da coroa. Fora isso, o único requisito para escolha do noivo é que a família possua título de nobreza, mesmo que numa posição de baronato.

“Apenas se não nascer, por duas gerações, uma princesa no núcleo da Família Real é que a obrigação pode ser legada a uma herdeira de título mais baixo, como duquesa ou condessa; ou até mesmo passar a obrigação ao herdeiro de sexo masculino. Em geral, o noivado só é formalizado para o público quando a noiva atinge ou está para atingir a maioridade.”

Luto para anotar as palavras que voam de sua boca no impulso de um único fôlego, até que se cala de abrupto. Como não faz menção de voltar a despejar informações – ainda de olhos fechados, apertando a ponte do nariz – suponho que terminou, e suspiro de alívio ao enfim poder pingar o último ponto.

Como também quero terminar logo, me adianto para decifrar os garranchos apressados para podermos debater o tema.

Um tremor começa nas mãos conforme avanço pela página, enquanto leio e releio o que escrevi de forma mecânica.

Então a compreensão me atinge como flecha em chamas.

— Como pôde fazer isso?! — Salto da cadeira, que tomba com um estrondo. — Como pôde… e ainda conta dessa forma ridícula?! Nem sequer tem a dignidade de olhar pra mim? Qual é seu maldito problema?!

Ando de um lado para o outro em passos curtos, o coração trovejando e espalhando o incêndio que arde em meu peito e minha cabeça é um vespeiro caótico. Sempre soube que após completar dezoito anos começaria a não-tão-sutil pressão para me casar e “prover herdeiros”. Mas sempre tive um pingo de esperança – ou ingenuidade – de que ao menos nisso me permitiriam a cortesia de escolher com quem firmar o compromisso. Descobrir que isso nunca nem mesmo foi uma questão, que até mesmo essa liberdade de escolha me foi tirada…

A indignação ardendo em meu peito se inflama ao perceber como papai apenas observa, a expressão de quem espera uma criança parar de fazer birra.

Diga alguma coisa! — exijo, batendo uma mão na mesa. — Não fique apenas aí parado me olhando como se não fosse nada. Como puderam me prometer em casamento assim sem ao menos me avisar? Com ou sem tratado… como?! Especialmente o senhor, com toda a história da vo-

— Alissa Roxanne, já chega! — A voz sobe apenas um pouco, em aviso, e, ainda assim, assemelha-se a um trovão, sobrepondo-se a minha. — Que diferença teria feito contar antes? O Tratado continua lá, e com a exigência de ser cumprido. Deveria saber a essa altura que-

Que diferença?! Só que é minha vida! Deveriam ter me contado antes de me prometer a qualquer um! Pelo menos assim… — Me interrompo, sem saber como continuar, os pensamentos me aferroando.

Pelo menos assim já saberia que não tenho liberdade para nada e nem alimentaria a ilusão?

Pelo menos assim eu teria a “liberdade” de poder escolher entre um enorme grupo de nobres que mal conheço ou quero aprofundar laços?

Bufo em frustração para mim mesma.

— Está prometida desde que tem um ano; é uma das exigências. Então como exatamente iríamos consultá-la sobre isso antes?

— Desde… — Eu pisco, a informação se assentando sobre mim como pedra. — Mas eu nem era a herdeira nessa época! Era o Alexander! Então-

— Se era a herdeira ou não, não importa. Ainda era a primeira princesa, e tinha responsabilidade como tal — corta. — E agora que é a herdeira, deveria saber que um regente tem a obrigação de fazer tudo que for necessário para garantir o bem-estar no próprio reino. Nem que isso signifique certos sacrifícios pessoais.

— Falar isso é muito fácil quando não é você que está sendo submetido ao sacrifício — devolvo, com um sorriso de amargo desdém. — Quais sacrifícios você fez? Nenhum! Essa é a única parte do trabalho de governante que você sabe delegar.

Por breve momento, ele cerra a mandíbula e a mão esquerda, contendo um tremor, e os olhos flamejam antes de endurecerem em duas pedras de magma.

— Se é o que acha, e tudo o que tem a dizer sobre o assunto de hoje, já pode se retirar — declara, num fôlego brusco.

— O quê? Isso é tudo? — exclamo, quase engasgando com a indignação que sobe queimando, num só fôlego. — Joga em cima de mim que estou noiva praticamente a vida inteira e que nunca se deu ao trabalho ou consideração de me contar por conta de uma cláusula estúpida num documento e agora quer que eu saia sem nem me dizer com quem vou ser obrigada a casar?!

— Vai saber na hora certa.

— Na hora cer… O senhor é inacreditável! — Bato as mãos na mesa, alguns documentos próximos se espalham. — Tenho o direito de saber. Não pode me negar isso depois de já ter escon-

— Na verdade, eu posso — ele corta, a voz assumindo um familiar grunhido impaciente. — Se tivesse chegado na hora certa, já estaria sabendo. Pois então arque com as consequências de seu atraso e falta de respeito.

Quatro anos atrás, provavelmente ele teria gritado de volta comigo, mas desde a descoberta do aneurisma, após a discussão catastrófica que quase matou nós dois, ele tenta conter seu temperamento. O problema é que muitas vezes acaba cortando a discussão sem me dar as respostas a que tenho direito, como se fosse uma questão qualquer.

Como permaneço encarando-o, não querendo acreditar, ele estende a mão em direção a porta e ergue as sobrancelhas para mim. Sem dizer nada, apenas sustentando meu olhar, espelho do seu, num duelo de vontades. Mas sei que ele é perfeitamente capaz de permanecer nisso, sem revelar nada, por muito mais tempo do que sou capaz de suportar com a efervescência se espalhando cada vez mais por meu peito.

Insistir com ele é perda de energia que posso usar em outro lugar. Com outra fonte.

Sem qualquer reverência, lhe viro as costas e saio do maldito gabinete batendo a porta.

Atravesso o saguão pisando duro, sem me importar mais em como os fuxicos vão se espalhar. Só preciso encontrar mamãe e tentar conseguir através dela o que ele se negou a me contar – nem que para isso precise voltar ao inferno do Salão de Baile, onde ela ainda deve estar.

Pode não fazer diferença alguma saber agora ou mais tarde a identidade do sujeito a quem me prometeram, mas ao menos estarei fazendo algo em vez de ser apenas consumida pela ansiedade do que está por vir.

— Parece ter sido uma reunião animada.

Me sobressalto com a voz masculina e involuntariamente me viro para seu dono, a quem tentei evitar a tarde inteira:

Escórpio, o herdeiro de Gardemona.

30 de Junho de 2022 às 03:41 0 Denunciar Insira Seguir história
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