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João Paulo Oliveira Goulart


Um conto sobre os sentimentos de um menino receoso ao inesperado e tímido que vai a uma festa e relata o que sente durante o evento.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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A mancha

Não era simplesmente uma mancha, era um resquício que contava uma história, uma história de como uma mexican mule de morango havia impregnado no agasalho de apenas mais um indivíduo na festa. Aquela mancha relembrava-o da tarde de domingo fria, pouco ensolarada no centro da cidade, mas especificamente na orla da lagoa, onde aconteceria uma festa. Ele estava tímido se sentia desolado como se estivesse ali inconvenientemente. Mas dentro daquele agasalho espesso havia um corpo, um corpo quente pelos batimentos cardíacos acelerados pelo desespero que o tomava conta. Era sua primeira festa. Nunca antes havia sido chamado para um evento social de tamanha magnitude, pelo menos para ele, mas para os outros era apenas mais uma festa. Várias coisas passavam pela sua cabeça. Será que ali viveria grandes momentos que marcariam sua vida com boas histórias e lembranças? Pensava. Seu desespero era evidente em seus olhos, qualquer um que o fitasse poderia ver o rapaz que mais se assemelhava a um cão acuado com frio, fome e penando pela sua morte. Subitamente levantou se do banco e se dirigiu à entrada, mas agora sem qualquer tipo de expectativa. Já lá dentro um terror ansioso lhe tomou conta, e ele se sentiu necessitado em encontrar um refúgio em meio aos risos, as vestimentas padronizadas com influência americana, as máscaras sociais, as garrafas de cerveja, taças de gim, drinks, coquetéis dos mais variados. Avista encontra uma mesa onde estava assentado a sua volta os sexagenários da festa, subitamente se rumando até lá, pronto, lá se estabeleceria durante todo o evento. Ele tinha um costume peculiar em qualquer dos poucos eventos sociais que fosse, procurava ficar em um lugar totalmente ou parcialmente livre de olhares. Poque fazia isto? Insegurança. Depois de cumprimentar todos na mesa com um balançar sutil de cabeça e um sorriso ainda mais, se assentou. Se acomodara, nada mais. De repente uma inquietação surge ao observar aqueles jovens vivenciando e se esbaldando com dança, bebidas alcóolicas e com amigos, este último era o que mais lhe atordoava. Desvia o olhar toda a vez que achava necessário para não acabar em lágrimas, era automático, quando ele via uma cena panorâmica insidiosa ao seu ser, abruptamente virava seu rosto a fim de evitar o que era inevitável na grande maioria das vezes, o reconhecimento da sua imensidão solitária. Em movimentos ágeis tirava o celular do bolso para verificar que horas era e no mesmo impulso colocava o de volta. Decidira aguardar 15 minutos, excedido este tempo iria se levantar e se dirigir ao bar para degustar um drink, pensava em algo doce. Depois de uma série de movimentos repetitivos entre pegar, verificar as horas e guardar o celular no bolso, finalmente o tempo havia se excedido. Não sentia tanta vergonha em passar pelas pessoas, porque ele tinha um objetivo e se alguém lhe perguntasse responderia que estava indo em direção ao bar, seu propósito o acalentava. Assim que fez o pedido se dirigiu ao barman mais mal se lembrava dos ingredientes que constituíra a bebida. Esperava pacientemente pelo seu mexican mule morango. Só havia escolhido esta bebida porquê imaginara ser doce. Depois de uma espera longa o barman lhe entregou uma caneca com chantilly no topo e então voltara ao seu lugar de origem para apreciar a bebida, até então com um gosto misterioso. Ao chegar em seu lugar parecia que todos estavam mais tranquilos com sua presença, ou pelos menos era isso que imaginava. Retirou o canudo do invólucro e então começou a degustar seu drink. No começo achara azedo, mas à medida que o chantilly se incorporava ao resto dos ingredientes o doce vinha à tona. Tomava-o em pequenos goles para desfrutar. Ao final da degustação ele aborda uma garçonete que passara ao seu lado e lhe pede uma água para poder repô-la em seu corpo, porque já se sentia desidratado, aliás lembrara que já não bebia tanta água como antes bebera, porque a sede se instalou-se em segundo plano dando o primeiro lugar à preocupação excessiva da vida que era interminável. O rapaz não conseguia fingir, aliás nem ao menos tentava, estava esgotado e pouco se importava. Inesperadamente um desejo súbito de ir ao banheiro havia o domado, então ardilosamente atravessou o campo minado de farsas, álcool e de coisas que ele ainda não sabia distinguir. O alívio repousou sobre ele, inclusive se deu conta da mancha em seu agasalho. Pouco se importou com esta afinal só uma lavagem resolveria ou não. Aquela mancha seria como uma lembrança daquele dia, talvez a mesma nunca mais saísse seu agasalho, ou talvez com uma simples mistura de água e sabão desapareceria, mas até lá teria que aturar sua presença. Já estava acostumado a suportar a presença de inconvenientes. Aliás se sentia como se fosse a própria mancha daquela festa. Aquela mancha assimétrica, irregular seria sua companhia naquela noite e em todos os dias de frio

24 de Junho de 2022 às 00:02 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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