igordeaguiar Igor de Aguiar

A última guerra causou à humanidade problemas das quais as pessoas não estavam habituadas a resolver. Isso modificou tudo: o modo de vida, as crenças. Agora, a única coisa que resta é esperar a solução para o Furta-cor.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#guerra #ficção #381 #301
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Furta-cor

Uma cor

A cidade de Ônix foi pintada de negro-fosco, por causa de um grande acidente nuclear que acabou tirando a vida de 80% da população mundial. As pessoas já não enxergavam a verdadeira cor de tudo que existia no mundo. Alguns procedimentos ajudaram a amenizar a confusão causada pelo furta-cor que atingiu a retina de todos os olhos.

Cientistas e filósofos se uniram para ajudar a construir um novo mundo. Tudo simplesmente mudou. Demorou mais de 30 anos para conseguir voltar de onde pararam. Muitos anos sem celular e computador. As pessoas começaram a trabalhar somente para ajudar sem trocas. Precisavam construir um mundo novo, antes de voltarem a vender e a comprar.

As pessoas ficaram com aspecto alaranjado e amarelado. Não que tenham ficado alaranjadas de fato. Ainda era incerto sobre o motivo de a radioatividade ter modificado a forma como as pessoas enxergavam as cores. Ao chegar mais perto de uma pessoa era possível ver as veias de forma clara. Essa confusão criou um caos momentâneo. Até porque nas primeiras horas ninguém conseguia enxergar nada.

Descobriram que a cor negra equilibrava a confusão de cores na cidade. Então, todas as cidades começaram a pintar casas e estabelecimentos comerciais de negro-fosco. De certa forma a cidade ficou com aspecto interessante embora muito minimalista. Os letreiros das lojas precisavam ser simples. Só continha o nome do tipo de produto que ofereciam.

O costume das pessoas também foi modificado. Naturalmente, era quase impossível ver pessoas casadas. O cenário ficou um pouco confuso e nada romântico quanto a isso. Tudo era visto como diversão para, possivelmente, diminuir o senso da realidade, porque a mesma era extremamente incômoda.

As pessoas faziam mais sexo. As pessoas usavam mais drogas. E todo o tipo de drogas. O caos colorido despertava, insanamente, muitos desejos. Não era difícil ver jovens amanhecendo em festas, todos os dias. Todas essas mudanças aconteceram após mais de 40 anos do acidente.

Duas cores

“A oscilação de cores inexatas, fazia de tudo ser o doce que dilata".

Cerca de um bilhão de pessoas sobraram. De início, a vida só foi possível em lugares mais extremos: deserto, gelo, montanhas. A extinção de animais não poderia ser diferente. Um país resolveu se explodir pelo fato de não ter conseguido dominar o mundo. Todos os segredos monstruosos desse país foram revelados, e isso apressou a sua cartada final. Sabendo que não iria vencer a guerra contra todos os países, resolveu ativar o último protocolo de guerra. Autodestruir-se.

Depois do pior ter acontecido, houve um grande período de paz que se perpetua. Os conhecimentos do passado em relação à tecnologia se mantiveram e as pessoas foram reorganizando a forma de governar. A única moeda que existia era a criptomoeda. E as pessoas do mundo todo resolveram usá-la para facilitar as trocas de trabalhos durante essa grande confusão e, também, para evitar falsificação de moedas, já que era quase impossível identificar a cor de qualquer coisa.

As cores das peles eram um fator muito interessante. Apesar das cores mudarem conforme o ângulo e luz de quem observava um objeto, as cores das peles eram estáticas. Só as extremidades do corpo tinham um aspecto alaranjado, todo resto era um amarelo suave. Dava para ver as veias de uma forma mais clara e, raramente, alguns órgãos, sem precisar de equipamentos para isso. Era quase uma visão térmica. Os habitantes fizeram muitas piadas a respeito disso.

O negro-fosco era a principal cor, e a pedra ônix era a mais usada para ilustrar e construir ambientes. Praticamente todas as pessoas tinham japamalas, que eram usadas periodicamente para meditações em todos os locais nas ruas. Virou algo tão importante que se tornou o nome de uma das principais cidades: Japamala, no interior do que restou dos EUA. Era possível ver a alteração de cor nas pessoas após uma meditação completa.

Bem no começo da tragédia, milhares de pessoas se suicidaram ou sofreram graves acidentes por não conseguirem viver diante dessa nova realidade. O caos das cores que oscilavam era um convite perpétuo a respirar fundo e respirar pensamentos positivos para dias melhores. Alguma cura ou cirurgia que pudesse resolver esse problema para sempre. Ou, talvez, óculos melhores. Sim, era impossível viver sem óculos, assim como era impossível viver sem água. Mas mesmo assim não era o bastante.

Conviver nesse caos colorido fazia com que as pessoas tentassem relaxar de diversas maneiras. O hiperestímulo fazia com que as pessoas nunca tivessem tédio, que elas sempre ficassem querendo fazer algo. Usar narguilés tornou-se uma das principais atividades para passar o tempo quando terminava o horário de trabalho e nos finais de semana. Existiam diversas mesas com cadeiras construídas para as pessoas se relacionarem mais, e, em todas essas mesas, narguilés e psicoativos, de forma gratuita. E sem falar, é claro, nos vários motéis espalhados na cidade. Tinham mais motéis que lugar para dormir.

Todas as cores

As cores dos objetos oscilavam freneticamente. Azul, roxo, amarelo, rosa. Preto, branco, lilás, azul, preto de novo, branco.

Mas eles se acostumaram. Parecia.

Numa casa de show, um DJ muito conhecido tocava as melhores músicas. Miguel, depois de sair do trabalho, tinha planejado ir a essa casa. Quando ele entrou viu que a casa estava lotada e com praticamente todas as pessoas usando drogas. De alguma maneira as pessoas se divertiam mais que nos velhos tempos. Não demorou muito para Miguel tomar LSD. Ele ficava observando tudo, dançando e bebendo.

Miguel estava de roupas escuras, camisa de manga longa. Por todos os lugares da casa era possível ver as marcas na parede de mãos e de braços. As pessoas dançavam freneticamente. Parecia que o clima de exaustão por conta da mudança constante de cores, ali, não fazia sentido. Miguel só queria se divertir. Então, ele viu uma moça. Ficou extremamente a fim de conhecê-la. E ela estava respondendo, sem um pingo de sombra, aos seus olhares.

As drogas em suas correntes sanguíneas deixavam tudo ainda mais frenético. Os olhos dilatados como a lua cheia, o nariz vermelho, as picadas de agulhas; não faziam questão de disfarçar. Não existiam possibilidades de sair daquele local sem sentir o cheiro de clorofórmio. O perfume dos deuses, segundo a nova crença popular, era encontrado facilmente em qualquer loja.

Miguel dá de cara com Vanusa — moça que trocava olhares com ele.

Eles dançam, bebem e usam outras substâncias.

Quiseram sair dali. Foram para o apartamento de Vanusa. Estavam a pé. Começou a chover. Quando chegaram, começaram a se beijar e tirar as roupas bem antes de entrar no apartamento. Quebram objetos. Dava para enxergar as paredes com marcas de mãos e de costas. Ele a coloca no sofá. Transam. Passam um tempo descansando um em cima do outro, com a mente completamente fora do planeta. Fora do furta-cor.

Enquanto Vanusa tomava banho, Miguel estava se arrumando.

Ele saiu sem dar satisfação. Vanusa percebeu o movimento, mas nem ligou. Ameaçou ficar triste, mas não ficou.

Continuou a tomar o seu banho tranquilamente depois de uma longa noite de sexo. A água roxa caía sobre o seu corpo, enquanto ela passava o sabonete. Era possível ver as suas veias, que pareciam correntezas de rio. E as marcas em seu corpo das mãos de Miguel, que pareciam tatuagens.

A lua parecia o sol, porém, negro. Parecia um eterno eclipse.

Miguel foi aproveitar essa vista enquanto carregava, em sua mão esquerda, uma japamala, e na direita, um pequeno narguilé.

E ficou ali até o amanhecer.

Então, o sol chegou e tomou os aspectos da lua. O sol parecia ser três vezes maior que o normal.

E a luta dos restantes continuava, para continuar a reorganizar o mundo e a vencer o furta-cor.

22 de Junho de 2022 às 19:45 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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