tessaolivier20 Tessa Olivier

Pordebaixo é um distrito pobre, sujo de fuligem e que fede a fumaça. É o lar dos mineradores que enviam o carvão vital para a manutenção da opulenta cidade de Ladoalto, pináculo da tecnologia e arte de todas as eras. E Pordebaixo é o lar de Ritoca, a espevitada líder de uma turminha de crianças arteiras que tem uma brilhante ideia: parar o trem que carrega carvão a Ladoalto. Mas tal façanha pode lhe custar a vida. Ou significar a glória em Pordebaixo. E Ritinha não tá nem aí. Ela quer parar o trem.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo Único



Lá no distrito abandonado por Deus de Pordebaixo, havia Ritoca, a pirralha maltrapilha líder da ganguezinha de pirralhos arruaceiros, que numa feia tarde que fedia fumaça, reuniu sua turma de crianças malcriadas e lhes disse:

— Eu vou parar o trem!

O grupinho, a princípio só arregalou os olhos, coletivamente. Impaciente, Ritoca apontou para os trilhos do trem, alguns bons metros de distância de onde os diabinhos estavam reunidos.

— Aquela bosta de trem, que passa toda a tardinha. Eu vou pará-lo.

A reação das crianças foi dividida. Os moleques mais velhos, da mesma idade de Ritoca, deram risadas descrentes de escárnio, enquanto as crianças mais novas e impressionáveis apenas encararam sua líder de boquinhas abertas, num misto de de assombro e admiração.

— E como você pretende fazer isso, espertinha? —disse Jão.

O moleque preto como carvão e de sorriso branco, talvez a única coisa que fosse branca e brilhante em Pordebaixo, apesar dos pesares, era como o tenente naquela patota. Ritoca deu um tapão no ombro de seu tenente de pouca fé, por ter lhe questionado.

— Parando o trem, ué!

Tatu Bola, outro menino mais velho, porém um pouco mais novo que Ritoca e Jão, sacudiu a cabeça.

— Só pode ter endoidado de vez, Ritoca. Mas fácil aquele trambolho te esmagar que nem manga podre debaixo do sol.

— E, mesmo que consiga, por quê faria isso? — disse Lette — Tipo, qual a necessidade?

Ritoca olhou mal humorada para a garota, mas não lhe aplicou um tapão como deu em Jão. Lette, de todas aquelas crianças perdidas, era a única que tinha um pai declarado, isto é, um velho patife dono de um ferro velho da região. A pequena havia sido um fruto de suas puladas de cerca, mas o patife teve o mínimo de decência de batizar a garota e dar uma mesada para sua mãe, uma rameira de vinte cruzetas que teve alguma sorte. Por isso, Lette tinha um pouco mais do que aquelas crianças. Ao menos, não passava fome ou andava tão suja.

Mas, como as gatas borralheiras que sentem uma sedução inexplicável em deixar o conforto da casa para explorar vielas escuras atrás dos gatos vadios, Lette gostava de fazer parte daquele grupinho de crianças arruaceiras. Principalmente, de Ritoca, longe de ser uma daquelas meninas que abaixavam a cabeça e de tinha voz fininha e assustada, como as demais de Pordebaixo.

— A necessidade, Lette, é que quero parar aquela bosta e pronto.

— Tá, mas como você fará isso? —quis saber Jão.

Ritoca deu aquele seu sorriso arteiro ao ouvir a pergunta, o tipo de sorriso que atraía aquelas crianças pequenas como numa espécie de heroína. Ou do tipo que faz os moleques e molecas perdidos a seguirem, mesmo que pouco acreditando em suas loucuras.

— Dando o susto da vida no cara que controla aquele bagulho fumacento.

— O maquinista — disse Zoínho, um moleque com pinta de intelectual com aqueles óculos de fundo grosso como uma garrafa de vidro e que adorava corrigir os outros na falta do que fazer.

— Foda-se como aquele puto se chama. Escutem aqui, nunca se perguntaram porque aquele trem nunca para aqui, só atravessa direto?

— Não tem estação, ué. —disse Tatu Bola, dando os ombros — Como um trem vai parar, se não tem estação?

— Na verdade, —retomou Zoínho, que nunca se deixava abater pelas broncas de Ritoca — até tem uma estação sim.

— Mesmo? —exclamou Vivi, umas das pirralhas mais pequenas.

— Sim. É aquele casarão abandonado, que fica bem no começo do túnel, de onde o trem saí.

Tatu Bola olhou boquiaberto para o metido a sabichão da galera.

— Aquilo era uma estação? Onde um bando de bebum mija e caga aquilo tudo?

— É sim, parece. —disse Jão — Minha vó disse quando ela era garota, o trem parava ali sim.

— Ué, então por quê o trem não para mais lá?

— Eu explico o porquê, caro Tatu Bola — disse Ritoca — Porquê o povo de Ladoalto caga e anda para Pordebaixo. Aqui é apenas o esgoto deles. Que diferença faz se o trem parasse aqui? O que importa é que o trem segue até eles, com o carvão que eles nem para dividir com a gente, mas que nos matamos para extrair.

Ao dizer isso, um gosto amargo veio a sua boca. Lembrou-se de Marvin e seu coração deu uma pontadas de dor em seu peito.

— Se eu parar o trem, vou mostrar para aqueles putos de nariz empinado que existimos, aqui de baixo. — Ritoca tornou a sorrir — Será nosso singelo recadinho para eles.

Lette franziu o cenho.

— Sério que é só isso? Enviar um recado?

— E tem motivo melhor do que esse?

Jão e Lette trocaram olhares sombrios. Os dois conheciam bem Ritoca o suficiente para saber que esse não era o único motivo. Com aquela menina tão travessa, o buraco era sempre mais embaixo.

— Certo, Ritoca — disse Urubu, outro membro do grupinho, um que não seguia Ritoca pelo seu carisma, mas sim pela falta de uns dois dentes que ela lhe causou com os punhos — Se vai mesmo tentar parar o trem, vamos deixar as coisas mais interessantes!

— Interessantes como, ô, Urubu? — questionou o desconfiado Jão, pois o moleque estava sempre aprontando alguma.

— Apostas! Vamos apostar!

— Se a Ritoca vai parar o trem?

Ritoca riu.

— Urubu, eu já estou fazendo uma aposta grande. Se eu errar, é como nosso estimado Tatu Bola disse: o trem vai me esmagar igual a uma manga podre.

Isso fez todas as crianças se calarem. Bom, as pequenas e impressionáveis como Vivi abriram foi o berreiro. Lette se apressou em acalmá-las, mas seus lábios tremiam, com raiva de Ritoca e medo. Por Ritoca. Jão fez um sinal da cruz e Tatu Bola procurou alguma madeira para bater, mas em Pordebaixo, só havia latão, carvão, sucata e fuligem por tudo quanto é lado. Urubu limpou a garganta, para manter a pose:

— O que será que vai acontecer com a gente se o trem partir você ao meio?

— Nada demais, ué. Vou estar motinha da silva. Pra mim, não fará mais diferença alguma.

Era meio estranho ver uma menina tão jovem ser tão desapegada em relação a própria vida.

— Ok, que tal pararem de falar nisso? — disse Lette, que segurava Vivi no colo.

— Se Ritoca virar uma manga amassada — Urubu inflou o peito magrelo — Serei o novo líder!

— Vá sonhando… — resmungou Jão.

— Meio óbvio que o novo líder será o Jão, né — disse Tatu Bola.

Metade das crianças concordaram, enquanto a metade ficou dívida e a outra - amigos mais chegados de Urubu - só olhou para o moleque, que cerrava os punhos, irritado. Pensou que uma vez que maldita Ritoca tivesse batido os coturnos, seria fácil controlar aquela turba, mas já viu que ainda morta a pirralha arrogante lhe daria trabalho. Pensou em outra maneira de desmoralizar a líder e o seu legado:

— Certo. Certo. Bom, então, vamos apostar peças.

— Peças? — disse Tatu Bola.

— Exato. As peças que todo mundo aí tem, mas se fazem de sonsos.

As crianças ficaram tensas. Peças eram algo mais valioso do que ouro em Pordebaixo. Algumas crianças tinham próteses em seus braços, pernas ou até mesmo olhos ou mandíbulas substituídas pelos aprimoramentos mecânicos, portanto, ter peças sobressalentes era essencial. Fora as próteses de suas famílias, e como Ladoalto fazia questão de fingir que Pordebaixo não existe, as peças descartadas do povo de cima faziam parte do sustento do povo de baixo. Brigava-se com violência por boas peças até, coisas que faziam do pai de Lette quase um barão naquele lugar esquecido por Deus.

Vendo que havia atingindo o grupinho infame, Urubu com um largo sorriso tirou uma reluzente engrenagem do bolso:

— Peguei isso da gaveta da minha mãe, era do meu velho. Isso aqui era uma peça sobressalente da perna dele e vale uma semana de farinha, se trocada lá no mercado. Se a Ritoca parar o trem, essa engrenagem vai virar farinha e dou tudo para vocês, bando de babões. O que acham?

— Acho ótimo! — exclamou Zoínho, que tirou seus óculos do rosto — Aposto isso aqui. Foram feitos pela minha mãe, cês sabem, que é ótima em ajeitar os parafusos da cabeça de todo mundo. Ela fez esses só para mim e são os melhores de Pordebaixo: me fazem enxergar com perfeição em meio a uma tempestade de areia ou de fumaça. Deve valer três meses de cesta lá do Mercado. Aposto que Ritoca irá parar o trem com certeza!

Jão pensou em mandar os dois acabarem com aquela palhaçada absurda, mas viu que as crianças estavam animadas e já pensavam nos espólios que as peças dariam, independente de quem ganhasse ou perdesse. Então, o pretinho resolveu entrar na dança: ergueu o reluzente antebraço direito de bronze a vista de todos e proferiu:

— Se a Ritoca virar de fato uma manga amassada, minha mola de tração é de vocês. Se negociar com o cara certo, ela irá valer uma peça de pernil ou uns seis frangos bem gordos no mercado de carne.

Foi a primeira vez que a expressão confiante de Ritoca desmanchou um pouco.

— Jão...

Mas o menino de sorrio branco apenas piscou para sua líder.

— Vê se não me quebra, hein, Ritoca. Sabe que sem essa mola de tração eu não passo de um fracote.

Jão não queria dizer que se a melhor amiga virasse de fato uma manga amassada nos trilhos do trem, não faria mais sentido algum sair batendo em moleques ou em Escudeiros que ousavam desafiar sua líder e amiga.

As crianças perderam a respiração. Era uma aposta bem alta que Jão fazia. Não só pela carne de verdade que dava para trocar por sua mola de tração, mas também pelo que a peça podia fazer: a retenção dela no braço do garoto o faziam ser capaz de quebrar pedras quando ele bem entendesse. Por isso, era tenente e costas quentes de Ritoca.

— Tá certo, Urubu. — disse Ritoca, que limpou a garganta para recuperar a pose. — Se eu partir dessa para melhor, você e seus amiguinhos, podem ficar com tudo o que tem na minha casa. Inclusive, as coisas que eram do Marvin.

Urubu sorriu com malícia. Era isso o que queria, os espólios de Ritoca e de Marvin, os infames irmãos encrenqueiros de Pordebaixo. Marvin, que havia liderado uma rebelião nas minas de carvão anos atrás, havia sido morto pelos Escudeiros de Ladoalto. O pai de Urubu tivera o mesmo destino, deixando a família na merda. A mãe só não vendia a engrenagem do marido pela lembrança, mas Urubu sentia raiva que Ritoca nem para lhe dar algumas das peças de Marvin, já que por causa deste, não tinha mais pai.

E, se os boatos forem verdadeiros, Marvin tinha muita coisa interessante, que ele havia contrabandeado de Ladoalto. Até máquinas inteiras, coisa que Ritinha ainda deveria ter e que valeriam muito.

— Ritoca… — murmurou Jão.

— Ora, todos vamos apostar algo aqui, né? Então tá fechado. Amanhã, cambada, nesse mesmo horário e local, poderão ver a minha façanha de camarote. Ou o meu fracasso. Enfim, isso é tudo, cabeçada. Voltem para suas mães antes do toque de recolher dos Escudeiros.

— Só isso? — disse Urubu, cético. — Nenhum discurso de despedida?

— Vou poupar fôlego para amanhã, já que vou precisar. Mas, pode escrever o meu… hã… ô, Zoínho! Como é o nome daquela parada que gente chique escreve quando morre?

— Epígrafe.

— Essa merda aí. Você pode escrever uma parada dessas para mim, caso dê ruim. Vou nessa, cabeçada!

Ritoca se despediu de todos com um aceno, de um tapinha no ombro metálico de seu tenente e foi embora antes que Jão pudesse dizer algo. Não era dada a melodramas. Chorou tudo o que havia para chorar quando Marvin se foi e desde então, poucas coisas a comoviam de fato. Seu coração era tão duro quanto uma peça bruta de ferro e seu sangue fervia como vapor. Deixou seus amigos para trás decidida. Tinha que estar totalmente focada em sua missão.

— Ei, Ritoca!

Lette a havia seguido. A menina corria na sua direção esbaforida. Estavam quase na porta do barracão de Ritoca.

— Demorou, viu?

— Ah, não ferra! Foi difícil despistar o Urubu e os outros…

— Trouxe ou não trouxe?

Bufando, a garota jogou uma bolsa no peito de Ritoca, que produziu um ruído metálico. A menina arteira olhou seu conteúdo e sorriu.

— Valeu.

Ritoca entrou dentro de seu barracão e não fechou a porta, uma deixa para que Lettie a seguisse. Ainda carregando a bolsa, Ritoca ligou as luzes, revelando todo o seu espólio: uma verdadeira oficina, repleta de peças e engenhocas que dariam inveja a qualquer mecânico ou cientista. Marvin havia começado aquela oficina, mas Ritoca a aprimorou. Juntos, os irmãos reformavam ou construíam coisas do zero com as peças que Marvin furtava ou contrabandeava de Ladoalto. Ele era um ótimo mecânico, mas Ritoca… Ritoca é genial. A garota olhou para um trambolho coberto por uma lona manchada e se lembrou quando o irmão trouxe aquilo.

— Saca só:

— Uau!

Ritoca estava boquiaberta. Pensava que aquela coisa só existia nas lendas.

— Onde conseguiu isso?

Marvin piscou para a irmã e bagunçou seus cabelos:

— Cê sabe, né, maninha. Um amigo do amigo de um amigo meu.

— Lá… eles usam essas coisas?

— Avançado até demais para eles. Essa belezinha aqui… deve ter sido descartada por algum babaca de visão curta e perícia de menos. Mas acredito que nós podemos fazê-la funcionar.

— Acha?

— Tenho certeza. Bom, você pelo menos irá achar uma maneira de fazer essa belezura andar!

Ritoca passou os dedinhos sobre o tanque de metal polido, ainda fascinada com a engenhoca semi pronta.

— Cê coloca muita fé em mim, mano…

— Porquê é a minha pequena gênio. — Marvin enlaçou os ombros da irmã e a puxou para si. — Vem, vamos começar com esse carburador de combustão. Acho que conseguimos vedar esse vazamento com o que temos…

Mas o carburador foi a única coisa que Marvin e Ritoca conseguiram consertar juntos antes de Marvin morrer. Ritoca viveu seu luto se dedicando ao projeto e a fazer da vida dos Escudeiros um inferno com as traquinagens de sua galerinha. Agora, ia pregar a maior peça de todas: Ladoalto ia notar a pequena gênio de Pordebaixo. E Marvin ficaria orgulhoso. Ou, ela se juntaria a ele.

— Puxa… — suspirou Lettie, quando Ritoca descobriu a máquina. — Vai funcionar?

— Claro que vai.

— Só não entendi porque você precisa dessa peça. Meu pai vai ficar furioso quando perceber que sumiu…

— Não que você lamente, né…

— Claro que não. Só que…

— Ei, relaxa, princesa. Todo mundo apostou uma peça hoje, né?

— Então, um apito pneumático de trem é a minha aposta?

— A cereja do bolo.

Ritoca instalou a peça na máquina. E o projeto estava finalmente pronto. Era só botar para funcionar amanhã.

— Ei, Lette.

— Quê?

— Quero apostar outra coisa.

— O que?

Ritoca deu de novo aquele sorriso travesso novamente. O coraçãozinho de Lette chegou até mesmo a bater um pouco descompassado, como pistão que perdia o ritmo dos demais. Ritoca lhe provocava aquela sensação.

— Bom, se eu voltar viva, eu vou lhe cobrar um prêmio.


***


— Olha só, que merda de lugar… — resmungou o maquinista.

Franziu o nariz quando o ar apodrecido de Pordebaixo o atingiu, um odor que nem o cheiro de carvão queimado conseguia bloquear. Era da periferia de Ladoalto, mas ainda assim se considerava acima de qualquer tipinho daquele distrito imundo de graxa e marginais violentos. Sua locomotiva era como uma fortaleza diante daqueles bárbaros. Só queria ir mais rápido, para sair logo dali.

O som da buzina o tirou de seus pensamentos.

— Ué? Não acionei essa porra…

Mais uma buzinada e o maquinista derramou seu café pelando nas calças de susto. Nem deu tempo de xingar a queimadura nas partes íntimas. Uma figura se aproximava a todo vapor e velocidade na sua direção.

— Aquilo… é uma motoneta??

Só havia visto aquele tipo de bicicleta motorizada a combustão de vapor em Ladoalto, mas só protótipos que ou explodiram a si e seus pilotos ou disparavam com os infelizes na garupa até quase a lua e aí sim explodiam. Veículos de duas rodas e movidos a vapor eram instáveis demais. Mas aquela motoneta estava bem estável sobre os trilhos. E veloz também.

O maquinista enxergou uma pirralha de cabelos ruivos na garupa, o rosto atravessado por um sorriso insano sob os grossos óculos de piloto surrados. A garota acionou mais uma vez a buzina em seu guidão para assustar o homem.

— SAIA DA FRENTE, MALUCA!

A garota da motoneta não obedeceu. Parecia decidida a se chocar contra o trem. Desesperado, o maquinista acionou os freios. Não queria chocar o trem contra uma motoneta movida a combustão de vapor, pois era incapaz de mensurar o estrago. Dele, não sobrariam nem um esqueleto carbonizado. Acionou todos os freios possíveis, sentindo as rodas protestarem sob as toneladas de ferro dos vagões. Mas tinha que parar. Por Deus, não queria morrer por causa de uma maluca de Pordebaixo montada numa motoneta.

O pobre homem fechou os olhos, rezando para parar a tempo. O trem foi parando, em meio aos gritos de suas engrenagens e chuva de faíscas. Ao abrir os olhos, viu que a motoneta estava há centímetros do bico do trem. Sua ofegante piloto dava gargalhadas de triunfo.

— ORA, SUA…

Antes que o maquinista conseguisse sair da cabine, Ritoca mais uma vez acionou a buzina, quase fazendo o coração do homem sair pela boca. E saiu disparada em sua motoneta, descendo o barranco dos trilhos e atravessando como um raio as ruelas de Pordebaixo, sob os olhares assombrados de seus habitantes, que mal podiam acreditar que uma pirralha maluca havia parado o trem de Ladoalto.

As fofocas se formavam tão rápido quanto a motoneta de Ritoca, que passou diante do bando de crianças, que ovacionavam a audaciosa líder. Inebriados pelo feito, mal se lembravam das apostas do dia anterior, só queriam ver sua heroína e líder de perto. Ritoca finalmente freiou a motoneta e levantou uma nuvem de poeira, que fez Urubu engasgar, pois havia ficado de boca aberta o tempo todo.

Ritoca nem desceu de sua máquina, orgulhosa em receber os tapinhas nas costas e os abraços de seus amigos. Jão, Tatu Bola e Zoínho bradavam a coragem de sua líder, enquanto Lette abria caminho entre as crianças eufóricas.

— Meu Deus! Você é louca!

A gênio de cabelos ruivos como brasa sorriu diante da menina assustada de cabelos loiros sujos de fuligem que veio correndo na sua direção, empurrando os meninos para lhe abrirem espaço.

— Ah, quanto ao meu prêmio…

Antes que Lettie pudesse perguntar, Ritoca se inclinou e lhe roubou um beijo. Vermelha das cabeças aos pés, Letie só pode olhar Ritoca se afastar as gargalhadas, empinando sua motoneta e disparando rumo ao horizonte, onde entre as nuvens imundas de fuligem, a pirralha podia enxergar o sorriso orgulhoso de Marvin.

O trem levaria uma hora para voltar a andar. E Ladoalto ia se atrasar em horas a produção de suas fábricas, uma vez que o carvão estava preso em Pordebaixo, o terrível distrito de marginais, lar de uma menina levada, mas gênio, que tem uma motoneta movida combustão de vapor e era capaz de fazer loucuras.

O porquê? Não se sabem. Só sabem que a meninada de Pordebaixo se provou ser mais perigosa do que imaginavam, tanto, que não podia ser mais ignorada.




24 de Maio de 2022 às 16:37 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Tessa Olivier Quando criança, eu brincava de escrever: com folhas de sulfite dobradas ao meio, grampeadas e um punhado de canetinhas coloridas para criar meus primeiros livrinhos. Quando mais velha, resolvi estudar jornalismo, pois o jornalista não apenas documenta os fatos cotidianos: participa da história também. Mas, como a realidade é um lugar assustador, resolvi dar vida a histórias da minha própria cabeça. Sempre a Resistência me faz beijar a lona, mas vez ou outra venço uns rounds e vou publicar aqui.

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