Conto
0
51 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Terceira dentição

Andrei e Lizzy acordaram naquele dia sabendo que suas vidas iriam mudar, e muito. Os dois formavam uma dupla sertaneja que estourou depois que viraram youtubers. Andrei era um jovem senhor de 20 anos, pois sua alma parecia já a de um velho de 100, criado na roça era sábio, superior e sempre contido. Já sua parceira Lizzy, a mais extrovertida, se escondia atrás do microfone com desenvoltura durante os shows. Os dois se conheceram numa festa de Barretos, eram amigos e só. Repetindo isso milhares de vezes, tentavam disfarçar a profundidade do sentimento que tinham um pelo outro.

Eram jovens e do interior, com os hábitos livres de quem se sente em casa e à vontade o tempo todo. Por isso estranhavam um pouco quando alguém lhes encarava com olhares de desaprovação e intolerância. Apesar desta seleta plateia não falar nada, deixavam claro com os olhos seu descontentamento em se misturar, além disso, não se atreveriam falar uma única palavra estando a dupla na companhia de quem estavam.

O Hotel de luxo, o carro blindado, o restaurante... nada combinava com eles. Mas com a naturalidade que viviam, nada daquilo tinha o mínimo de valor para eles. Os dois gostavam mesmo era se esbaldar na vida que lhes apresentava na próxima linha de chegada. E a linha de hoje era esse jantar.

Estando tão perto de conquistar seus maiores desejos, que era viver de cantar e tocar viola, suas cabeças ocas não pensavam em outra coisa. Para Lizzy, bastava falar dos seus sonhos:

- Andrei, essa noite sonhei que todos os meus dentes tinham caído.

- Isso significa morte.

- Credo, Andrei! Vira essa boca pra lá!

- Tá bão... Como foi o sonho?

- Eu tava num lugar, que tinha uma pia, daí o colar de pérolas que eu tava no pescoço arrebentou.

- Colar de pérolas, Lizzy?

- Isso! Lembra? Eu tinha um.

- Nunca vi.

- Bom... daí quando eu vi eram meus dentes caindo no chão.

- Eita, que nojo!

- Eu passava a língua e tava tudo lisinho na minha boca.

- Credo, Deus que me livre.

- Daí veio uma mulher pra me ajudar, e quando ela foi falar... eu acordei com a maior dor de dente, acho que rengi a noite inteira.

Lizzy se recostou novamente no banco de couro do carro e ajeitou o chapéu no colo. Só depois respirou fundo, porque de tanto falar acabou ficando sem ar. Os dois ficaram um pouco em silêncio porque o carro começou a parar e o motorista avisou que tinham chegado. Andrei se alinhou, pegou a viola antes de descer, já Lizzy, voltou à realidade invocando a simpatia do parceiro:

- Bom, chegamos. Vamos ao jantar. Espero que você seja mais simpático hoje. Precisamos desse contrato, é a nossa grande chance.

- Sou tímido, ué. Cê vê se me larga.

- Largo nada, cê para de ser fechado desse tipo, se precisar enche a cara, mas vende teu disco hoje!

Andrei e Lizzy entraram no restaurante munidos apenas com toda a segurança que tinham acumulado em vida. O que não era muita coisa. Estavam num restaurante pequeno, mas muito elegante. Um homem de fraque veio e perguntou quem eles eram:

- Somos Lizzy e Andrei, o pessoal do festival e da agência tá esperando a gente.

- Ah sim, me acompanhem.

E enquanto eram guiados até o andar superior do restaurante, reservado somente aos mais importantes, Andrei continuou a conversa:

- Lizzy, vai ver, você acha seus dentes feios...

- O que?

- O sonho, vai ver você acha seus dentes feios.

- Não acho mesmo!

- É, mas eles são feios pra caralho! Aliás espero que você tenha dado uma escovadinha hoje.

- Dei nada!

- Que merda Lizzy! Agora vai ter que ir na reunião assim mesmo. Sua porca.

- Vai a merda meu!

Lizzy ria do amigo, a vaidade realmente não a incomodava. No fundo até gostava de causar certos incômodos nas pessoas, no momento era propositalmente chamar a atenção com o barulho das botas. Queriam deixar muito claro quem eram para os rockers que os aguardavam. Mais alguns passos, e se sentaram à mesa indicada pelo homem de fraque, depois mal se acomodaram e já foram servidos de petiscos e espumante. Foram deixados sozinhos por alguns minutos até que uma velha conhecida apareceu do nada. Andrei a reconheceu de longe:

- Acho que hoje não vamos falar com o andar de cima não Lizzy, olha lá

Era Elizabeth, apenas para avisar que Otavio iria se atrasar, mas que eles poderiam ir jantando na frente. Bom, não era todo dia que um rango desse caia do céu assim e por isso aproveitaram cada grama daquela comida que eles nunca tinham comido antes na vida. Otavio, não chegava nunca, bom para eles, se esbaldaram no camarão e uísque às custas da DevilHorsesProduções.

Otávio tinha feito uma proposta ruim até, mas... melhor que nada. Andrei e Lizzy sabiam que estavam começando na carreira e não iriam reclamar de absolutamente nada que conseguissem para tocar naquele que era maior festival de rock da américa do sul. Muito menos de conseguir um contrato com a agência de artistas mais aclamada na internet. E tinha mais uma coisa:

- Eu também quero grana...

- Boa escolha meninos! Vamos ao que interessa então.

Era Otavio, um sujeito com cara de esperto que sempre estava atrasado para tudo. Lizzy já havia se mancado que ele fazia isso de propósito, pois ele sempre ouvia um pouco da conversa antes de se apresentar, e dava tempo dos artistas beberem muito antes de assinar qualquer coisa. Assim, alcoolizada, ela também o recebeu:

- Aoba! O senhor demorou, pensei que tinha desistido da gente.

- Nunca! Vocês me lembram Willie Nelson, misturando com Milionário e José Rico, fazendo música como Evidências... Vocês não são de se jogar fora não.

- E por que tão pagando tão pouco pra gente ir pro Festival sô?

- Porque Andrei... porque eu quero contratar vocês pra minha agência. Quero que vocês venham fazer companhia pra Halo, pra Adriana Mirtes, pra Lita Ree, pra João do Porão e todos os outros...

- Eu não entendo... vocês são só do rock. Por que tão buscando a gente assim?

- Êpa peraí, - interrompeu Otavio - vocês são mais rockers que todos eles juntos. Ouçam a música de vocês, quebram tudo!

- Andrei, vamos lá! Assina logo isso.

Lizzy já estava batendo o garfo no prato, o homem de fraque veio tirar, vai que quebra.

- Meninos. Eu preciso ir... vocês querem ficar com o contrato e me entregar depois? Não mudou nada desde que nos falamos. A não ser o agenciamento.

- Sei não viu. Acho melhor a gente entregar o contrato depois então.

- Vocês que sabem... eu já assinei. Mas prefiro que me entreguem em mãos. Eu tô indo pra Los Angeles ver minha namorada... não volto em menos de dois meses.

Lizzy que já estava batendo a espora no chão ao ponto de todos estarem se irritando, resolveu de uma vez por todas, resolver as coisas...

- Ah... Vai a merda Andrei. Me empresta essa caneta aí.

Foi quando Otavio ofereceu sua caneta tinteiro vermelha, herança de família. Segundo reza a lenda foi de Dom Pedro I, mas você sabe, era só uma lenda. Lizzy não queria nem saber. Só assinou. E entregou a mardita da caneta para Andrei que também o fez. Otavio deu a reunião por encerrada dizendo:

- Ok, o contrato começa a ter validade a partir da meia noite de hoje, se eu fosse vocês aproveitaria essa última meia hora de liberdade pra aproveitar a vida como um simples e reles mortal que vocês deixarão de ser quando o primeiro segundo de amanhã começar...

A dupla ficou espantada com a poesia do que Otavio falou, e voltaram a respirar segundos depois. Lizzy mais uma vez quebrou o gelo:

- Que tal pedir uma bebida antes de você ir Otavio.

- Não posso hoje... tenho que ir. Podem botar tudo na minha conta.

- Bom eu vou pedir uma bela sobremesa então.

- Faça isso até meia noite Lizzy. Andrei.

Otavio saiu acenando com a cabeça para os dois e foi contando os minutos no relógio para o horário combinado. Ele sempre ficava de longe, escondido, camuflado, só para ver mais um cliente se transformando em cavalo bem na sua frente. Era adorável. Como ele nunca sabia o que iria acontecer, sempre se surpreendia. Não botava muita fé em Andrei mas, com Lizzy seria diferente.

Lizzy deu uma colherada no sorvete de creme do Petit Gatout e enfiou com gosto na boca. Acostumada a cair de boca em tudo na vida não esperava a dor que na mesma hora explodiu sua cabeça. Uma dor aguda que lembrava o dia em que levou um soco no nariz. Esperou um pouco aliviar a nevralgia que não incomodava há anos, porém antes que ela acabasse Lizzy sentiu algo duro misturado meio ao sorvete. Nessas alturas ela já estava pálida e tentando não deixar a baba de sorvete escorrer pela boca. Percebendo seu desespero, Andrei se apressou:

- Lizzy o que aconteceu?

- Preciso ir no banheiro Andrei!

- Nossa! Que coisa vermelha é essa caindo da sua boca?

- Meu Deus! Andrei!

- Calma Lizzy, vamo rápido pro banheiro.

- Meu deus o que tá acontecendo!

- Levanta a boca tá saíndo muito sangue.

- Eu tô sentindo o gosto Andrei!

Os dois correram para o banheiro e nem perceberam Otavio em seu caminho. Quando chegaram Lizzy estava com a cabeça pra trás.

- Cache a chia?

- Hã? Caralho mais sangue! Cospe aqui na pia.

“ plim plim plim plim pipippi,”

- Se-segura, segura!

- O que é isso amiga.

- Shão meushs dentes!

- O quê?

- Segura! Segura! Meush dentesh!

- Ai que nojo, mulher!

- Vão cair pelo ralo! Shocorro pelo amor de Deus!

- Calma amiga. Vou chamar alguém.

Andrei sai correndo do banheiro feminino para pedir ajuda deixando a amiga Lizzy sozinha e em choque no banheiro. Ela levantou a cabeça e se encarou no espelho. Abriu a boca e viu que a gengiva ainda sangrava pelos buracos que os dentes deixaram lá. Primeiro foram os de cima, e depois os debaixo começaram a se soltar também. Não era dor, apenas uma nevralgia insuportável que fazia os dentes soltos serem um incomodo dentro da boca. E quando eles caíam era um alívio completo. Porém, quando Lizzy via os ossinhos brancos na palma da mão, mergulhados em seu próprio sangue, o choro vinha aos soluços.

De repente, um monte de gente começou a chegar no banheiro e cada um que entrava lá, saia correndo, disfarçando seu apavoramento com a cena ou gritando.

- Acho que é castigo.

Concluía Lizzy em meio ao sangue e lágrimas de sua desgraça:

- Também acho. Seu amigo bem que falou pra assinar depois...

Respondeu aquela mulher. Lizzy não demorou muito para perceber quem era. Era a mulher do sonho, apesar de não ser muito de crendices Lizzy sabia que elas se conheciam do sonho.

- Lizzy querida, você achava seus dentes muito feios, não achava?

- Shim mashs eu prechijo deles não?

- Nossa que agonia que dá quando se fala sem os dentes não é Lizzy?

A jovem vaqueira se apressou a cuspir de novo na pia. Plim plim plim....

- Eita mais um...

Alertou a mulher com os braços cruzados, rindo.

- Ai che merdja. O que eu fui fajer Liz?

- É, você pediu pra melhorar sua vida...

- O que isso tem a ver com os meus dentes?

- Tortos, amarelos, vários tratamentos de canal, cáries, abcessos, enfim, muito mal cuidados. Você fuma escondido desde criança, bebe pra carai, não escova e não passava o fio. Sempre com essa polenta grudada neles...

Lizzy lamentava, mas era verdade.

- Você falou outro dia pra uma amiga.

- Que “Não ria muito e quando esquecia percebia a cara das pessoas com nojo dos seus dentes”

- É falei mesmo... como você sabe?

- Também falou que prefere microfone grande pra esconder da plateia.

- Espera tá ouvindo conversha agora?

- E eu como sua nova produtora – fez aquela reverencia de apresentação que era sua paixão, o palco – acredito que sua voz poderia ser muito mais alta se você... não tivesse vergonha dos dentes.

- Como você sabe disho tudo?

- Não interessa, eu só sei.

- O que é você? Um fantasma?

- Sempre escondendo os dentes. Você nunca conseguia se soltar de verdade.

- E agora vou ter que usar dentadura?

- Não meu amor... tenha paciência. Nada que um ótimo dentista não resolva. Já tenho vários artistas que passaram por dentistas. A que eu escolhi pra você é especial, o nome dela é Aline.

Plim, plim, plim.

- Mas, vem Lizzy, me dá um abraço, o mais importante é que você conseguiu deixar o que é ruim pra traz e seguir em frente! Até a vista.

Lizzy sentiu todo o medo e nervosismo se esvair pelo ralo. Era meia-noite e o relógio cuco soava lá fora. Aquele abraço parecia o da sua mãe, pelo menos era o mesmo perfume, e o mesmo colar de pérolas dela. Quando percebeu a menina soltou de supetão aqueles braços tão gostosos.

Quando Andrei chegou com o Samu, Lizzy estava agora com os olhos saltando da cara, com a boca toda escorrida de sangue e sem dentes.

- Calma Lizzy, o pessoal da ambulância chegou, mas tem uma moça que é dentista no restaurante.

Por isso junto aos socorristas de vermelho, veio uma senhora, muito linda e parecida com aquelas artistas de Hollywood, com o sorriso perfeito e artificial, igual a de uma boneca. E enquanto eles enfiavam um bela agulha em sua bunda e injetaram algo que fez sua alma flutuar, Lizzy ainda conseguiu ouvir:

- Boa noite Lizzy, Eu sou a Aline.

CONTINUA...

21 de Maio de 2022 às 20:38 0 Denunciar Insira Seguir história
0
Fim

Conheça o autor

Comente algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~