lova LOVA ⊙.☉

13º conto da série HaloTales


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fantasma #bar
Conto
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Caverão

Sexta-feira, 13 de julho de 2018. A última noite do CAVERÃO.

- Hey Gringo, que porra é essa que o Caverão vai fechar?

O proprietário do bar mais bem frequentado do rock já tinha respondido essa pergunta umas mil vezes desde que postou no Twitter a decisão mais difícil que já tomou em sua vida. Em plena crise de meia idade o tiozão que se sentia novinho desistiu de lutar contra os gigantes que apareceram ao seu redor e fechar seu negócio. Seus inimigos eram bem definidos em sua percepção. O primeiro deles eram os bares sofisticados que se auto intitulavam “Pub”, mas que cheiravam melhor que pescoço de vó, e o segundo deles, a Internet, fez o jovens preferirem ficar em casa. Assim, seu bar fedido de mijo, cerveja e fumaça não era mais o palco necessário para bandas novas desabrocharem ao mercado brasileiro da música. Que também está mais cheiroso que os Pubs.

Gringo não queria mais responder o porquê, só queria terminar aquela semana com os amigos e tomar o último porre no balcão que se criou, e estava no comando até a próxima sexta-feira 13, dia mundial do rock.

Na parede do Caverão, Gringo ostentava uma parede cheia de quadros com fotos que tirou com os artistas que já haviam tocado ali, ou que fizeram seus primeiros shows. Iniciantes ou consagrados o nome Gringo era sempre uma referência. Era tanta banda que nem cabia mais nenhum quadrinho lá, as fotos foram invadindo a casa inteira, corredores e até o banheiro.

Diante de tanta gente famosa e bem-sucedida, Gringo não escondia que tinha um apreço especial pela primeira banda que estourou de lá e que nunca esqueceu dele. A Halo, ainda na sua primeira formação com Jhon – dado como desaparecido ou morto - tinha o menor porta-retratos de todos. Leandra nem imaginava, na noite que pousou essa foto, que ia se tornar tão grande.

É, mas esse tempo acabou, a casa que tinha fama de pé quente, e que sempre recebia os olheiros que os donos das gravadoras viviam mandando para lá, tinha perdido o jogo para a modernidade. E quando às 6 da tarde adentrou ao recinto André, vulgo Mosca, e Marcinho, vulgo Marcinho mesmo, Gringo já estava em pleno luto e bêbado:

- Fala Gringo! Por que vai fechar essa merda meu! Onde que a gente vai beber agora?

- Tô falido meus amigos, tô devendo pra lá de 300 milhas.

- Muita banda vai deixar de existir se você fechar meu.

Tentava argumentar o aspirante a baterista Marcinho que ainda tinha esperança de ter uma vida mais divertida que ser um civil. Gringo estava irredutível e com razão:

- Pois é, mesmo assim tanta gente que saiu daqui e me virou as costas... E eu tô na merda. Eles não...

- Isso aqui não pode fechar Gringo! Essas bandas todas aí poderiam ser menos mal agradecias e te dar essa grana isso sim.

- É concordo Mosca, mas se cê me pagar os 100 que tá pendurado já ajuda.

- Cara não cobra na frente dos outros, cê sabe que eu sempre pago no fim do mês... cê sabe!

- Pois é, mas esse fim de mês não vai existir. Nesse mês o fim do mês é hoje!

Foi nesse exato momento que o movimento planetário regrediu, a realidade caiu como um tijolo na em sua cabeça e Mosca não se aguentou. Ele se achou no direito de dar um bom soco no balcão e acabar com Gringo de vez:

- Cala boca meu! Esse bar não vai fechar! Aqui é a minha casa!

- Já fechei meu! Que casa é o caralho!

- Ahhhh!

Mosca pulou no balcão pra dar umas merecidas porradas em Gringo, afinal ele não estava nem lutando pelo Caverão. A porrada estava comendo como era de costume. Gringo levou a primeira, mas não deu muita importância, já que desta vez só abriu o lábio de novo. E no mais foi fácil de segurar o Mosca pelo cabelo comprido e dar-lhe umas belas joelhadas que acertavam sem muita mira a barriga e as bolas. Mosca parecia um boneco de posto tentando acertar alguma parte da carne de Gringo, que nem era muito maior que ele, só uns 30 centímetros, por isso mesmo o Gringo segura o cara pelo cinto do cara, o levanta do chão como uma boneca e fácil joga seu melhor cliente pra fora do balcão como se fosse um saquinho de lixo. Foi assim que sem querer Mosca chutou o Chope que tinha pedido e derramou todo em cima do cara que estava na outra ponta do balcão.

Um cara muito quieto, que estava por lá sem ninguém ter percebido que ele chegou. Mas que assistia a cena se divertindo muito.

Gringo ficou congelado com aquela cara de “fudeu” porque tinha acertado o cara mais esquisito da história do Caverão, enquanto Mosca rolava pela pista quase vazia. Marcinho ainda estava tentando separar a briga, afinal todo bar tem um representante da turma do dexa-disso. Gringo não tinha muito mais a fazer mesmo, mas fez questão de tratar bem os clientes das últimas noites do sonho da sua vida.

- Cara, foi mal aí...

- Deixa pra lá. Tô acostumado, venho aqui desde cedo!

- É, muita gente vem.

- Sabe, o Mosca tem razão, essas bandas todas devem muito pra você. Devem a vida deles.

- Cara desculpa aí, mas no fim... não devem nada não. Cê não sabe da missa um terço.

- Por que?

- Olha bem... metade desse pessoal tá morto ou aposentado, se meteram foi em roubada isso sim... a outra metade trabalha que nem uns loucos...

Lá de longe, Mosca se metia na conversa com uns lamentos de dor que mais parecem um zumbindo. Mas nenhum dos dois deu muita atenção.

- Olha, eu concordo com o Mosca, isso aqui não pode fechar.

- Por mim eu não fechava, mas não tenho mais crédito com ninguém, e o movimento tá uma merda também. Não tenho mais cerveja pra vender e a cozinha já tá fechada há meses, e os impostos...

Enquanto listava seus problemas o distinto frequentador pegou um pedaço de papel do bloco de comandas do Gringo e rabiscou alguma coisa. Quanto terminou arrancou o papel com um movimento firme e devolveu ao dono do bar. Mas antes que conseguisse ler, do nada Mosca agarrou seu antebraço e gritou encarando o cara misterioso que também não queria que o Caverão sumisse do mercado roqueiro brasileiro:

- Porra meu! Tu é o Jhon! Cara!

O cara misterioso olhou para baixo, afinal qualquer um era mais alto que o Mosca e ficou pálido, mais do que já era. Mesmo assim conseguiu entregar o papel ao Gringo que também quase desmaiou quando leu o valor que ele estava oferecendo. O valor de 1 milha:

- Meu isso é muito dinheiro meu!

- Tenho 25% disso aqui na mochila. A gente faz um contratinho de venda e tu me transfere depois, na mesma hora te faço uma transferência.

Mosca mesmo cambaleando das pancadas insistia em interromper a conversa dos adultos:

- Gringo! É o Jhon!

Mas ele o ignorava sistematicamente:

- Então Gringo, vai me vender ou não?

- Cara, tenho que falar com a minha mulher.

- Ah meu caralho Gringo, cê não me ouve não!

Gringo se encheu do Mosca novamente e pediu um favorzinho ao colega de balcão:

- Marcinho, larga esse bagulho e tira o Mosca daqui?

- Claro, claro! Vamos lá Gringo, vamos juntar esse sangue!

Enquanto Marcinho cuidava de Mosca, Gringo tentava entender quem era aquele cara pálido que estava oferendo 250 milhas de cara pelo Caverão e ainda estava oferecendo um emprego de gerente pra ele.

- Olha, você só vai ter que obedecer ao dono, que é o cara que represento!

- É o mesmo cara que compra as bandas Jhon?

- É!

Liso como era Mosca, conseguiu escapar dos braços de Marcinho e se jogou no balcão de novo, o sangue do nariz quebrado não era um grande empecilho para cumprir sua missão que era dizer pra todos pela milésima vez.

- Gringo, não reconhece ele? É o Jhon, da Halo!!

Gringo e Marcinho finalmente admitiram que o reconheceram, mas já era tarde. O cara esquisito perdeu de vez a paciência e deu última porrada que faltava no nariz do Mosca para fazer ele girar e cair sem sinais de vida.

Mas Mosca não ficou totalmente inconsciente, viu o mundo emudecer e ainda girar umas duas vezes antes de o chão encontrar sua cabeça com muita força, e ainda morder a língua. Mas tudo bem, apesar de não conseguir se mexer nem para fechar os olhos arregalados, ainda conseguiu ver Jhon entregar uma mochila para Gringo e sair do bar levando um papel meio manchado de sangue antes de a luz se apagar de vez.

Mas não por muito tempo, alguns segundos depois a luz voltou. Fraca, como era normal num lugar como o Caverão. Sua cabeça inteira doía e o estômago não estava lá essas coisas.

Tanto que sem que pudesse controlar, uma gorfada de sangue e vômito saiu de sua boca, só que antes que alcançasse o chão surgiu em sua direção um balde de plástico contendo vômitos anteriores e o mais estranho, alguém segurando sua cabeça pela nunca. Essa mão, também o ajudou a volta a deitar. Obviamente falando um pouco fofo, coube a Mosca agradecer ao cara que fez algo que nem sua mãe fez um dia sequer na vida. Esse cara resolveu começar a conversa depois que voltou ao sofá:

- Mosca! Belo nome...

- Pô cara, brigado! Tô fudido e ...

- Foi você que viu o Jhon?

Mosca não acreditou num primeiro momento, ou só podia estar sonhando... ou a Halo estava o seguindo. Agora era a vez do dono da porra toda. A voz, o letrista, o grande marido da Leandra. Podia jurar que se estivesse em condições, já estaria de joelhos reverenciando o mestre.

- Dom! Cara sou teu fã.

Mas, mesmo depois do seu amor declarado, Dom descruzou as pernas, levantou devagar até ficar com quase cinco metros de altura deu dois passos para andar uns 5 metros que o distanciava do sofá que convalescia e sentou na cama. Mosca fez jus ao apelido perto daquele rock star, que se fosse pequeno como ele já chamaria atenção, gigante ele fazia os outros sumirem. Mosca ainda emocionado não sabia direito o que estava acontecendo, tinha acabado de acordar, e realmente a dor de cabeça e o gosto na boca, não era dos mais gostosos. Mas Dom não tinha nojo. Ele tinha pressa e foi direto ao assunto. Antes de enforcar o pequeno Mosca com suas mãos cheias de anéis e veias saltadas, ele acariciou sua testa. Repetindo pacientemente o que já havia perguntado antes:

- Foi você que viu o Jhon?

Wesley, seu amigo policial e que procurava por Jhon assiduamente junto com Dom por esses anos todos, salvou Dom de um assassinato, que talvez nem percebeu que ia cometer. E no lugar dele foi usar sua experiência em depoimentos com Mosca:

- Olha o meu amigo aqui é nervoso, cara você sabe. A gente tá procurando o Jhon há anos! Era ele?

- Era sim meu.

- Tem certeza?

- Um pouco mais velho e pálido, mas era ele sim!

- Ele deixou algum telefone? Alguma pista?

- claro ele comprou o Caverão!

- Já falamos com Gringo, ele tem um comparsa...

- Que bosta.

- É.

Os três ficam em silêncio. Dom já estava do lado de dentro do balcão, congelado na frente da foto de sua banda. Eram eles, tão jovens e sem rugas, pobres e anônimos. Não tinha nenhuma saudade dessa época.

O silêncio só foi quebrado quando o Mosca zumbiu novamente pra fazer uma pergunta simples:

- Vocês já olharam nas câmeras de segurança?

Como não pensaram nisso antes? Era tão fácil! Nem teria que ter ficado dois dias inteiros esperando aquele maluco acordar. Mas compreensível afinal as câmeras estavam disfarçadas. Alguns minutos depois Wesley, com a ajuda de Gringo, acessou tudo pelo computador do caixa. Eram apenas duas câmeras que dividiam espaço naquele monitor. A primeira estranhamente apresentava apenas uma imagem tremida que não formava nada. Já a segunda, mostrou tudo o que eles precisavam saber, claro e firme como deve ser uma câmera de vigilância:

- Passa pra frente Gringo, só quero ver a parte que ele aparece...

- Acho que é depois que eu jogo aquele ali do balcão Dom.

- Agora!

- O que é isso? Falhou?

- Que merda! Como assim falhou Gringo que merda!

- Deixa que eu dou um jeito nisso!

- Não bate no computador Dom, isso aqui não é televisão velha não!

Wesley segura a mão de Dom no ar como era de costume o policial fazer. Mas ele continua a reclamar:

- Que bosta! Não aparece nada Wesley!

- Não acredito Dom.

- Ó voltou!

Gringo chama os dois para ver o monitor novamente:

- Olha! Foi nessa hora que eu peguei a grana, a mochila.

- É parece que mostrou o teu queixo caindo depois de ver tanto dinheiro.

- Que bosta!

Dom dá um soco no computador que faz o monitor partir em pedaços como se fosse feito de lego. E diante de mais esse fracasso em encontrar Jhon apenas restou a ele ir chorar no banheiro, isso porque não gostava de chorar na frente dos outros. Sozinho, e sem conseguir segurar os soluços do seu desespero, o telefone tocou. Era sua mulher.

- Não, não achamos ele! Nada! Nenhuma pista ainda. Espera.

Dom parou a conversa porque ouviu uns passos atrás de si, mas não se preocupou pensando que seria Wesley ou Gringo. Então continuou a conversa com Leandra ao mesmo tempo que molhava o rosto e a nuca com a água de origem duvidosa da pia, que parecia mais uma patente:

- Eu tô calmo Le! Mas porra! Eu achei que ia ver ele de novo.

O outro cara foi até o mijadouro, mas não fez nada. Só ficou lá paradão.’

- Pensei que ia achar ele Le... hey não fala assim, não acho que ele tá me enganando. Quando você fala assim...

Falando com a esposa Dom sempre conseguia se acalmar um pouco. No momento em que desligou já estava até respirando, e imitando o discurso dela com a voz fininha.

- Jhon, Jhon, Jhon... Sei...

- Queria me ver então?

Dom levanta a cabeça no susto, entrou em pânico quando ouviu depois de tantos anos a voz do seu melhor amigo, o antigo baixista da Halo, há anos desaparecido depois de um acidente de trem. Ele estava lá, parado atrás dele e Dom o via pelo espelho da pia:

- Tá gostando do sucesso Dom?

Dom se vira e dá de frente com ele, de braços cruzados e com sangue nos olhos. Não conseguia se mexer e nem falar de tanta emoção:

- A Leandra tá te fazendo bem? Aquela puta?

Jhon empurrou o amigo e deixou o vocalista gigante grudado no espelho:

- Eu fiz o ritual Dom, eu vou voltar!

Dom abriu a boca pra começar a falar alguma coisa, mas o que ganhou foi a pata de Jhon bem no meio do nariz. Além de ter espancado o espelho com a nuca os dois dentes da frente despencaram da boca e rolaram por algum lugar ali para nunca mais serem encontrados. Jhon derrubou mais um no chão do seu CAVERÃO.

- É meu amigo, quem tem a traição nas costas baixa a cabeça quando anda perto de mim. Não me encara não.

Jhon não tinha a mania de falar sozinho, e nem com pessoas desmaiadas, mas hoje abriu uma exceção. De joelhos encontrou no pescoço de Dom a prova da traição que há tanto tempo guardava em seus pensamentos. Agora sim ele poderia encontrar quem estava procurando de verdade. Sendo assim:

- Permita-me amigo, mas vou ter que levar isso.

Jhon arrancou com tanta raiva o crucifixo daquele pescoço que até chegou a puxar a cabeça de Dom, que bateu no chão outra vez. Até mais meu irmão, a gente se vê quando o trem passar de novo. E foi embora à tempo de cruzar com Wesley na saída do banheiro, ele claro não tirou o ombro do caminho.

- Dom! Dom! Dom! Acorda! O que aconteceu?

- Puta merda, quebrou meus dentes! Olha!

Dom mostra nas mãos os dois dentes da frente que acabou de encontrar na própria barriga.

- Meu! Quem fez isso? Que nojo!

- Justo eu que não tinha nenhuma cárie.

- Tua cabeça também tá aberta! Pega esse pano aqui e segura essa sangueira... depois a gente vê isso. Vem ver uma coisa no vídeo da segurança, achei mais uma coisa.

Wesley levou o banguela cambaleante até o computador que agora funcionava com o monitor anterior, de tubo. Dom não sabia se gritava de dor de dente, ou se segurava o sangue que saia da nuca.

- Me leva pro hospital Wesley por favor?

- Antes olha isso:

Ele virou o monitor para mostrar que tinha recuperou 13 segundos da gravação da noite.

- Prepare-se.

O que aquela gravação mostrava não era coisa normal. Apesar da cadeira se mexendo sozinha, do copo voando sozinho, e no fim o Mosca levando um soco de ninguém mas que fez seu nariz entortar, dente voar e sangue jorrar, ou seja, tudo exatamente igual ao que Mosca e Gringo tinham falado, o mais assustador ainda foi aquele cara de chapéu preto chegando perto demais da câmera e ficar lá parado, olhando para o chão, sem movimentar um musculo sequer até a gravação acabar de vez.

Restou apenas a Dom se levantar e pedir um uísque:

- Então vamos Gringo, Vamos que o Caverão voltou!

21 de Maio de 2022 às 20:14 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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