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10 de espadas

- Eu quero - te ver - de fogo!

Deixar as pessoas bêbadas, enquanto se permanece sóbrio, com certeza é uma das coisas mais divertidas da face da terra. É assim para o barman Renan. Ele sempre fazia um showzinho de dentro do balcão. Naquela noite ele gritou para o bar inteiro ouvir ao mesmo tempo que empurrou o copinho de shot pelo balcão para que ele chegasse deslizando até a mim. O povo todo berrou de volta mostrando finalmente que ele estava conseguindo embriagar o mundo com sua famosa Caipirinha Flamejante. Invenção dele.

O problema é que o malditinho do copinho tropeçou em alguma coisa no balcão e virou, derramando a cachaça e junto com ela levou a chama flamejante que dançava pela superfície do drink. Ela como se tivesse vida própria, como se fosse uma serpente, não se sabe como, alcançou Renan e o fogo grudou nele.

Sim, a mini caipirinha, servida num copinho de cachaça e com uma dose especial de, tã nã nã: fogo. Essa caipirinha se toma de canudinho longo e com o fogo ainda aceso. A mistura de gelo e fogo era mortal para a sobriedade e doce para a loucura. Renan, um moleque de não mais de vinte anos já tinha quase dois metros de altura, era meio branquelo e troncudo. Só que ainda tinha pouca massa muscular, mas sem problemas, já que ostentava uns brações que deixavam a camisa social branca dobrada até o cotovelo bem recheada. Além disso era cheiroso, esperto e sexy. Era estranho e curioso para mim como fora do Bar ninguém reconhecia ele, mas ok, isso acontece com várias profissões não é mesmo?

Renan, sem se desesperar muito, calmamente contemplou o pânico das pessoas que ali estavam gritando e buscando extintores. O álcool continuava a queimar em suas mãos e já começava a se alastrar por sua camisa novinha, e por fim caminhou lentamente pela calça de couro. Era mesmo assustador. O cheiro de enxofre dos pelos do braço queimando começou a se alastrar pelo pouco espaço que a fumaça dos cigarros deixava livre e quando aquilo começou a arder... bem... Renan enfiou rapidinho a mão na pia e apagou com a água suja mesmo aquele foguinho leve. A calça de couro não teve muitas avarias.

- Que bosta! Hey seu mané para de bater foto aí!

Coitado do Caio, o fotógrafo da casa nem tinha tanta culpa, mas devo confessar que comprei umas cópias dessas fotos. A gente nunca sabe quando vai precisar ter uma foto de Renan queimando não é mesmo? Bom, Renan pode até ficar bravinho por causa das fotos, já que em sua cabeça seu trabalho era entreter e não aparecer, que não iria adiantar nada. Caio era o paparazzi mais legal que eu já havia conhecido lá, e ele não iria perder uma imagem linda dessas. Caio parou, e Renan tocou a festa para frente levantando as mãos fazendo chifrinhos:

- Vamo ficar de fogo galera!

Quando sua plateia viu que Renan estava bem, a festa continuou como se nada tivesse acontecido. Renan era assim mesmo, e às vezes parecia um imortal vampiresco. Nunca se cansava ou ficava doente. No mais, trabalhava em silêncio, sempre com um sorriso trevoso e sexy para todos os clientes. As mulheres não o tiravam do sério, e nem ele mesmo as levava à sério então, nunca respondia com palavras quando lhe falavam alguma obscenidade. Ele só passava o olho de baixo acima na cocota que deixava a vítima se sentindo nua ali mesmo. Renan só precisou trocar a camisa, umas queimadurinhas não assustariam o meu gigante loiro.

Eu sempre ficava ali na pontinha do balcão, embaralhando as cartas do meu tarô. E como sempre tinha alguém curioso com o futuro, todas as noites eu conseguia uma meia dúzia de clientes distribuindo cartões de visita. Meu trabalho como cartomante já estava ficando bem chato naquela época e eu não aguentava mais as reclamações das pessoas carentes de amor ou ambiciosas demais... já estava na hora de mudar e eu precisava de um final. Um final grandioso que me fizesse querer evoluir e finalmente ser mais que a maioria da população. Eu queria mesmo naquela época sair da multidão e ser um deles, um daqueles que estavam na festa. Eu queria ser da elite.

Por isso me dei um prazo. Ao contrário dos outros, eu deveria procurar DomCooper, e não ele a mim. Assim, funcionaria meu pacto com o Diabo... se é que isso existe mesmo. O dia que eu previsse a desgraça de alguém, eu ia parar.

Renan em minha frente, vestindo uma camiseta pequena demais pra ele, me fez lembrar que eu estava ali para trabalhar e não ficar sonhando:

- Machucou?

Enquanto o moleque limpava a bagunça do incêndio eu continuava embaralhando as minhas cartas e usando os mesmos truques que aprendi na mesa de jogo de azar. E como nós estávamos em um cassino...

- Posso jogar pra você?

- Eu não jogo...

- Eu não disse com você, eu disse pra você.

Renan dignou-se a olhar com mais atenção e percebeu que as minhas cartas não eram do Poker. Eram de Tarot. Ok, eu não sou uma cartomante tradicional vestida de cigana ou com lenços na cabeça, eu uso as mesmas joias que herdei da família sim, mas, com jeans e camisa. Aliás as minhas joias parecem aquelas que vem nas fantasias de carnaval vendidas na 25 de março, a diferença é que as minhas são bem mais pesadas, claro. E sim, venho de uma família cigana.

Renan, descrente de tudo era um pouco grosseiro às vezes, mas sem perder o charme jamais:

- Então. Posso?

- Também não. Não acredito nessas idiotices

- Não precisa ofender.

- Desculpa, não estou habituado a falar com ninguém.

- Nota-se...

- Posso tirar?

Renan tentava ser elegante e fugir, mas nós dois sabíamos que ele precisava demais desse emprego para poder ser grosso com uma cliente como eu.

Quando eu aprendi a tirar as cartas, ainda criança, minha avó me deu vários e que claro eu desobedeceria cada um deles. Naquela noite o primeiro conselho que eu desobedeci foi o de só tirar as cartas se a pessoa te pedir.

- Então Renan... posso jogar pra você?

- Pode vai!

- Ok

Ele concordou se arrastando, e eu comecei meu ritual. Embaralhando as cartas. Quando coloquei as cartas no balcão meu menino estranhou:

- Não vai me perguntar o que eu quero saber?

- Não.

- Por que não?

- Não gosto de influenciar a verdade. Vamos apenas ver o que elas nos dizem. Corta.

Renan dividiu o monte de cartas com a mão queimada. Ela estava vermelha e com certeza eu vi uma bolhinha começando a aparecer entre os dedos. A pele parecia tão fininha que dava a impressão de que se ele fizesse qualquer movimento ela iria rasgar.

- Edie, por que você acha que um baralho pode saber alguma coisa da vida de alguém?

- Sou cigana ué! E quem sabe é a gente... não elas..

- Sei...

Comecei o jogo tirando apenas três cartas como era do meu costume.

- Então moça, o que você me diz?

- As cartas dizem, meu rapaz...

- Claro, claro... as cartas.

- O tolo. Adoro essa carta, coisa de gente bem-humorada e feliz. Mas também pode ser que seja um sonso quem sabe... ou descuidado.

- Sonso eu? Imagina!

- É um três de copas, muita festa. Quem sabe um amor?

- Isso eu já sei olha em volta...

- E tem também um cara, olha um valete de espadas... um menino, ou rapaz quem sabe? Que é um grande empecilho na sua vida...

Renan parou de limpar o balcão e congelou no ar...

- Como é que é?

- Tô sentindo que ele já te tirou muita coisa... vai levar essa mulher também.

- É o mesmo cara?

- Não sei... Mas ele vai aparecer a qualquer momento.

Renan ficou me olhando desconfiado, mas eu senti uma nuvem negra perigosa chegando. Estranho, aquilo já me deu medo. Preferi parar o jogo ali mesmo.

- Bom Renan, é isso...

- Isso uma pinóia! Agora eu quero saber desse cara.

- Certeza?

- Não me provoca Edie, com esse tipo de pergunta.

O Som da boate aumentou por que banda começou a tocar. Mas mesmo assim eu conseguia ouvir o coração de Renan batendo, dava de ver as veias das têmporas saltadas na cabeça dele. Achei prudente abrir o baralho de novo, como se fosse um leque no balcão do bar. Adoro esse efeito:

- Tira a última carta Renan...

E assim ele o fez, lentamente. Muito lentamente, e depois me entregou ainda virada. Quando eu desvirei a maldita para ver o final da história nós dois ficamos surdos para o resto do mundo:

- 10 de espadas Renan... Olha o desenho.

Essa carta, mostra um homem deitado de bruços no chão com 10 espadas fincadas nas costas...

- É a ruina. É Renan, esse cara não gosta mesmo de você...

Os olhos de Renan mudaram de cor, ele arrancou a carta da minha mão e depois ele começou a gritar e quase esfregando todas aquelas espadas na minha sua máscara sumiu:

- Joga de novo!

- Renan querido eu não posso! Não se joga duas vezes o tarô no mesmo dia!

- Joga a-go-ra!

Ele chegou um pouco mais perto de mim e me puxou pelo braço:

- Renan, calma! Se controla por favor!

- Chega de me controlar.!

- Tá bom eu jogo!

Renan ficou apoiado no balcão e chorou. E então eu fiz uma segunda coisa que uma cartomante nunca deveria fazer na vida. Repetir o jogo. Todo mundo sabe que não se joga o tarô duas vezes no mesmo dia. Mas mesmo assim eu embaralhei as cartas. Embaralhei mais do que de costume. Renan estava pesado e eu sentia cada molécula dele vibrando de forma pesada, triste. E isso eu nunca tinha visto em ninguém. Pedi pra ele cortar as cartas novamente e Renan cortou mais uma vez com a mão queimada e agora eu conseguia ver as veias azuis por baixo da pele queimada. Tirei a primeira carta, e a segunda, e a terceira...

Descobri rapidinho porque minha avó me aconselhou a nunca brincar com o Tarot.

Era o Tolo, o Três de copas, e cavaleiro de espadas.

E claro, o 10 de espadas.

Nesse dia me despedi definitivamente do oficio de Cartomante.

Ass.

Lady Edie

21 de Maio de 2022 às 20:26 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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