lova LOVA ⊙.☉

8º conto da série HaloTales


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#sorte #azar #1996 #reveillon
Conto
0
213 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

1996

- 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1... Wellcome to 96!

Leandra Gomes Gonzaga contava apenas com 18 anos de vida na passagem do ano de 95 para 96. No momento em que botei o olho nela senti imediatamente que ali estava uma bela oportunidade de negócio. Naquele momento ela era apenas uma moleca sonhadora e rebelde de família rica. Muito rica. Muito rica mesmo. O que fez com que fosse mimada e cheia de estrutura na vida. Isso pode ser bom, quando e se você concorda com as regras da família que a acolheu.

O que não era o caso de Leandra.

Como já disse ela tinha planos diferentes dos da família para sua vida. Então a menina se viu forçada a largar tudo de bom e se arriscar na vida. Leandra era corajosa e bem-humorada demais para viver a tradicional vida burguesa e comum de seus pais, no fundo eu sentia o cheiro do medo todas as vezes que ela pensava nisso. Leandra sabia que seu destino era ser Star. Mais precisamente uma Rock Star. E mais exoticamente ainda uma Rock Star brasileira. Leandra era talentosa, forte e extremamente disciplinada, só por causa disso já conseguiria o mundo. A não ser por um probleminha.

Leandra, era uma azarada da porra. E tinha medo de pronunciar a frase “Eu quero ser uma RockStar” em voz alta.

A filhinha de papai, quando morava com sua família era protegida desse azar todo e seus pais estavam sempre por perto dando todo suporte que ela precisava. E consertando as cagadas que o azar a presenteava. Assim que Leandra foi se virar sozinha na vida, aos 16 anos, começou a perceber que tudo era muito mais difícil para ela do que era para outras pessoas. Para Leandra sempre dava mais trabalho e principalmente as coisas davam mais errado mesmo. Eram coisinhas simples do dia a dia, que ninguém percebe, mas que podem acabar com a paciência de qualquer um.

Leandra começou até mesmo a colocar em dúvida sua inteligência, até que desistiu de ter empregos chatos dos quais era sempre demitida por "incompetência" e foi assumir sua banda de vez. Na época esse conjunto de músicos ainda não tinha nome, e o pior é que seus colegas nem perceberam que depois que Leandra chegou para ficar de vez, as coisas começaram a demorar para acontecer.

Mas Leandra era queima filme. Havia sempre uma sombra negra rondando a energia dela e tudo sempre dava errado quando estava por perto. E por causa disso tinha que trabalhar sempre mais que todos para não dar nenhuma falha na hora do show. Mas não adiantava, A gota d’água aconteceu num show de merda, numa casa pequena.

Sua banda já estava conquistando fama de maluca e de shows explosivos, naquela noite além de seu pequeno público cativo (parentes), também estavam lá seus primeiros fãs e principalmente: o olheiro da maior gravadora do Brasil. Gravadora sonho de consumo de qualquer banda da época. Meu chefe.

Leandra se preparou de todas as maneiras que conhecia. Para não correr o risco de chegar atrasada, já estava na casa desde às 13h. Ficou testando o som e sua voz para a apresentação. Na hora do show tudo estava impecável.

Quando o grande momento chegou Leandra estava insegura. E ao entrar no palco levou um tombo bem na frente do diretor da gravadora, parando de quatro no chão. Já se sentiu uma titica ali. A garçonete ofereceu uma caipirinha e ela aceitou. Deu uns goles e colocou o copo ao lado da mesa de som, quando Renan começou a tocar a bateria, ninguém sabe como, acabou mexendo numa tábua solta do palco, o que fez com que levantasse o suporte da mesa de som e derrubasse a caipirinha de Leandra em tudo. A banda ficou com metade dos canais fudidos. Seus amigos pediam calma, mas ela não acreditava no que estava acontecendo.

Um amigo técnico tentou ligar o microfone dela na mesa reserva, mas o dito cujo travava e nada o fazia funcionar. O silêncio na casa já era constrangedor quando Leandra parou na frente da mesa escangalhada e chorou escondido. Ela só pensava que havia testado tudo mil vezes.

No mais, Leandra já estava tão cansada que cogitou em desistir ali mesmo e voltar para casa do pai. Pedindo arrego com o rabinho entre as pernas. Só de pensar nessa desgraça sentiu um enjoo fora de hora, vai ver era por causa do cheiro do limão azedo da caipirinha que espalhou pelo chão.

O cara da Gravadora começou a ficar incomodado com o atraso até que Pedro, o guitarrista, no desespero foi tentar resolver e deu umas porradas na mesa de som. E como num milagre tudo passou a funcionar.

Não era o som perfeito que ela tinha programado, mas a música da menina impressionou o cara mesmo assim. Tanto que, encantado com a banda ainda sem nome, mandou fazer um termo de compromisso de sigilo, até marcar uma reunião na DevilHorses para conversar sobre as possibilidades. Ele só precisava imprimir o contrato que estava num disquete. Leandra tinha trauma de disquetes, podemos imaginar o porquê, só que ela era a única que sabia mexer em computadores naquela época. E claro que a impressora da casa adivinhou que era Leandra que estava ali, e que aquilo era muito importante para ela. Por isso mesmo resolveu não funcionar.

Depois de uma hora tentando o cara da gravadora foi embora. Deixando Leandra exausta, sentada e imóvel da frente do computador. Olhando pela janela do escritório a Limo dele ir embora. Assim que o carro virou a esquina as folhas começaram a pular da impressora que parecia rir de sua cara. Leandra não podia fazer mais nada. A não ser dar um soco na mesa que fez ela ficar bamba.

Ficaram de assinar outro dia. Ele pensou melhor e cancelou a reunião com banda.

Ninguém ligou o azar a Leandra, só ela sabia que se não estivesse lá, teriam conseguido. Cansada e decepcionada com a situação, rezou um pai-nosso naquela noite, coisa que só fazia em caso de emergência. Pedro, até tentou tirar ela da fossa e convidou sua menina para passar o réveillon na casa do pai.

Alguns dias se passaram até a viagem ao litoral para que Leandra, enquanto isso, visse muita gente que não era tão boa assim ter mais sucesso que ela, e assinar o contrato que era dela na DevilHorses. Vivia deprimida. Tinha medo de não conseguir. Queria o sucesso. Que para Leandra se resumia a Fama e dinheiro, mais nada! Para isso convenceu a si mesma que precisava se livrar do azar.

Em 24 horas a vocalista procurou todas as religiões que conhecia e tomou seus benzimentos em todas. Toda e qualquer reza, mandiga, promessa, propósito, ritual, oferenda e o que mais fosse necessário para mudar sua situação estava valendo. Para tal missão, Leandra chamou sua melhor amiga, que era viciada nessas coisas. Jack até tentou alertá-la do perigo de se mexer com o livre arbítrio sem o devido conhecimento. Mas eu, no lugar dela, faria a mesma coisa.

E é assim que Leandra, e muitos de vocês começam a progredir. Nós encontramos pessoas como Leandra e você! Aliás não é à toa que você está aqui e agora. Mas vamos voltar para Leandra.

Quando a cantora estava na praia naquela virada de ano, no exato momento em que o relógio mostrou a meia noite, os atabaques e tambores soaram e ela pulou as sete ondas pedindo sorte. Leandra voltou do mar e acendeu sua vela junto com as demais oferendas aos santos daquela praia. Escreveu na vela branca seu nome completo, com o primeiro nome perto do pavio, sinalizando que queria pedir alguma coisa. O sinal final autorizando nosso contato foi dado. E agora era só esperar.

Porém, meses depois os shows ainda eram medíocres e o cara da gravadora nunca mais entrou em contato.

E numa dessas noites, Leandra voltava para casa sozinha com seu Maverick velho. E apesar do som no volume máximo com seu guitarrista favorito Dommark, se sentia mais deprimida do que nunca, até que foi interrompida por um estrondo já familiar ao seu corpo e que nem assustava mais. Por incrível que pareça mais uma vez alguém tinha batido em seu carro. Leandra nem desceu para ver o estrago. Apenas aceitou as desculpas do cara e pegou seu cartão de visitas, ela não acreditava que ele iria pagar, mas vai que...

Leandra só queria sair dali, até que o motorista acabou pedindo para ela descer. O cara percebeu que a moça estava pálida, depois ela mesma sentiu algo quente, gosmento e vermelho pingar em sua camiseta branca. Ela, que não podia ver sangue, deu uma tonteada e desceu com a ajuda do cara.

Do nada também desceram da Van que bateu nela, um monte de caras vestidos de preto. Um deles em especial chamou a atenção de Leandra. Era ninguém mais ninguém menos que James Dommark. Ele mesmo. O ídolo e sex symbol maior de Leandra. Bem ali na sua frente. Que a ajudou a sentar no chão para esperar uma ambulância. Como desculpas ele se ofereceu para pagar o concerto. Leandra não quis, dias depois ela preferiu mandar fazer um adesivo com os dizeres: Dommark bateu aqui. Mordam-se!

Dommark aguardou a assistência chegar e depois de alguns minutos Leandra já tinha um pequeno curativo na testa. Ele também a convidou para assistir ao seu show daquela noite. Mas com a condição de ir sozinha. Leandra que não é boba nem nada, entendeu a proposta e iria aproveitar. Já que ela tinha ouvido na MTV que ele era o mais novo solteiro do pedaço, tinha acabado de levar um pé na bunda da terceira esposa. Fazer o que. Tadinho.

Leandra estava mais animadinha, apesar de a perda daquele contrato e o azar que a acompanhava tirarem sua energia, pois os fatos não paravam de invadir seus pensamentos. No mais foram só três pontos na testa. Bem acima de outra cicatriz de três pontos que ela ostentava com orgulho. Essa aliás era mais um sinal de seu azar. Leandra estava saindo do Maksoud Plaza em 92, quando Axl Rose resolveu jogar uma cadeira lá de cima para espantar a imprensa e alguns fãs. A maldita cadeira se espatifou no chão e um dos pés de metal ricocheteou bem em sua testa, abrindo um corte no terceiro olho. Sorte que a imprensa não viu, estavam todos olhando para cima procurando por Axl, e ela conseguiu fugir. Não pergunte o que ela estava fazendo lá...

Agora as duas cicatrizes juntas estavam formando uma cruz. E a lembrariam todos os dias das noites mais deliciosas de sua vida.

Bom, continuando... Chegando ao show tudo estava dando certo e Leandra até esqueceu da tristeza. Era bom demais para ser verdade ela estar ali, até que um bêbado qualquer esbarrou nela e lavou a cantora de cima a baixo com cerveja. Pronto a chance que tinha de dar para o Dommark tinha acabado. As lágrimas já pulavam dos olhos e suas mãos tremiam loucamente. Era a oportunidade que eu queria.

Eu não perdi tempo, Leandra me deu um trabalho danado até chegar ao ponto de chorar e tremer de ódio, ou medo. Você já sentiu isso?

Fui em seu socorro e ofereci a ela um vestido preto que sempre levo no carro. Leandra agradeceu apenas e nem pensou no perigo que é acompanhar um desconhecido até o carro. O desespero faz coisa. Já no banheiro, Leandra me contou tudo, como se eu não soubesse de sua história, e depois eu expliquei o que acontecia da forma mais direta possível. Nessas horas sempre lembro que duvidei do meu chefe na primeira vez que ele me ofereceu um pacto para me livrar dos problemas. "Que cara doido!" Pensei. Mas não existe mesmo outra maneira.

Ofereci o pacto. E a lembrei dos pedidos de virada de ano que ela mesma tinha feito. Repeti cada palavra que ela falou em pensamento. Assim ela passou a desacreditar menos.

A espertinha antes de se comprometer me pediu uma amostra do meu trabalho. Eu falei que no dia seguinte seu telefone iria tocar e um cara chamado Mobi ofereceria um show fechado em Porto Alegre. Ela, óbvio duvidou. Mas me comprometi a dar a ela trinta dias de vida sem o azar que tanto fazia ela sofrer. Era só pronunciar a palavra.

Senti que ela não acreditava muito em mim, ou no mínimo não entendia o teor da palavra sacrifício. Mas Leandra não disse não. E finalmente, pela primeira vez na vida, pronunciou a frase de que teve medo. Ela disse: “Eu quero ser uma rock star”.

Assim, o combinado foi feito.

Mal tinha terminado a frase e Dommark apareceu atrás dela dizendo:

- Wow! I found you girl!!

Depois de uma noite memorável com Dommark, na suíte dele no Maksoud, às 6h da manhã o telefone tocou. Ele pediu:

- Can you answer please? I guess it´s our breakfast.

Leandra quase desmaiou, ainda não estava acostumada a ser bem tratada e bem servida:

- Alô?

- Quem fala?

- Leandra.

- Oi Leandra, meu nome é Mobi e você não me conhece mas...

Leandra deu um pulo na cama e ouviu imóvel a proposta dele. Sabia que estava livre do azar. Sabia disso depois de poucas horas que teve uma amostra do que é viver sabendo que tudo dará certo sempre.

Quando os 30 dias acabaram Leandra deu o braço a torcer e fechou conosco. Ela também sabia que era bom estar preparada para arrasar.

No dia 31 de outubro, Leandra e sua banda já eram o maior sucesso do Brasil. Assim feito e pago, Leandra teve seu caminho livre e fácil.

Como tudo deve ser. Sempre.

No Reveillon seguinte Leandra deve ter muito a agradecer.

E para você. Te espero em 2018. Feliz ano novo!

Ass.

LadyEdie

21 de Maio de 2022 às 20:47 0 Denunciar Insira Seguir história
0
Fim

Conheça o autor

Comente algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~