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São Paulo, 13 de agosto de 1994, 8h. Sexta-feira.

Ser escolhido para fazer um pacto com o Diabo não é pouca coisa.

Ainda mais aqui, na DevilHorses, onde você pode dizer sim ou não. Aqui você pode escolher entre ter sucesso ou fracasso. Entre entrar para o time dos grandes ou, ficar aí onde você está, patinando na própria vida com aquela sensação de que pode ser mais, muito mais, no entanto, simplesmente não acontece. Não estoura. Talvez até já tenha tido "A" oportunidade, mas... não estava prestando atenção e deixou passar ou pior, ficou com medo.

Assim foi com Eva. A melhor letrista que já vi.

Quando a encontrei parada desde as 5h da manhã na frente daquela loja de discos, já não era a primeira vez que nos víamos.

O case do violão pendurado no ombro, a camiseta de banda, o jeans sujo, e o coturno de couro duro que tão velho que já tinha o formato de seus pés, eram um clássico para ela. Eva segurava o choro dentro dos olhos com tanta força que se piscasse as lágrimas cairiam sem dó, entregando o que sentia, ela só não queria chamar a atenção de ninguém, e nada chama mais a atenção das pessoas do que chorar em público. Tanto esforço já fazia sua garganta doer dos lados e o gosto de sangue na boca causava azia, isso porque estava rangendo os dentes e tinha simplesmente esquecido a bochecha entre eles. Eva parecia não movimentar nenhum músculo desde que empacou ali nas primeiras horas do dia. Ela também viu cada uma das mais de 600 pessoas que estavam ao seu lado já em fila chegando e esperando ansiosamente a abertura da loja para finalmente comprar o cd. Isso porque tinha empacado bem no meio da vitrine, e sabe como é, o pessoal adora uma fila, o segundo que chegou ficou parado atrás dela de depois todas as outras foram fazendo o mesmo até que viraram a esquina no final da rua. Eva era a feliz primeira pessoa da fila.

Ela admirava atônita até onde sua PUNK PARADISE havia chegado.

Uma cena surreal, uma única música, que ela escreveu sozinha no sofá de casa enquanto o namorado dormia. Uma música inteira escrita em apenas cinco minutos, e depois mais umas três horas de ajustes e pronto.

Quando Eva puxou o teclado, e tocou e cantou, e gravou, mal podia ela acreditar. Era boa, era “A” música. Sentiu que ali estava a sua PUNK PARADISE. Mais que rápido arrancou a folha com a letra do caderninho e dobrou 4 vezes, enfiou na caixinha da fita cassete e correu para a gravadora.

Chegando lá, Jonas, seu amigo de confiança ouviu a fita, e pediu para ficar com ela. Foi nesse exato momento que Eva sentiu no coração o ímpeto de dizer não. Mas preferiu não magoar o amigo e confiar nele, ou melhor arriscar nele. Principalmente por causa da sua postura firme e confiante. Quando ele quis ter certeza da vontade dela ser bem-sucedida.

- O que você quer mesmo da vida Eva?

- Como assim Jo?

- Até onde você iria?

- Oi?

- Aguentaria o sucesso? Ficar famosa?

Eva demorou para responder, e isso já deixou Jonas um pouco inseguro...

- Olha Eva, isso aqui é o máximo! Não aparece todo dia.

Ele balançava a fita com aquelas mãos cheias de anéis de caveira.

- Isso aqui vai estourar... quero saber se você aguenta.

Eva não falava nem sim nem não, ele continuou:

- Eu quero saber se você seria capaz de fazer um pacto com o diabo se necessário fosse.

- Não vejo por que não. Só preciso mesmo é saber quem é esse diabo aí.

Eva soltou uma risadinha no final da frase que fez Jonas brochar na hora. Mesmo assim ela continuou a falar e ele ouviu, mesmo estando já com os braços cruzados e com os olhos virando para o teto:

- Jonas, eu amo fazer isso, eu amo PUNK PARADISE. Eu já amo tocar a música dos outros em barzinho por uns trocados, adoro poder sustentar meus filhos assim! Imagina se eu vendesse a minha PUNK PARADISE e ganhasse uma bolada! Imagina alguém se divertindo com a minha PUNK PARADISE!

- Eu não imagino isso Eva, eu faço isso! É o meu trabalho lembra? Eu encontro essas PUNK PARADISEs por aí, de artistas como você.

- Foi por isso que eu vim aqui, e invadi sua sala.

- É eu notei.

- Desculpa pelo pé na porta, eu mesma posso concertar depois e...

- Tá bom então. Vamos fazer um teste. Me dá um mês.

- Um mês?

- É. É o que eu preciso pra mostrar pra todo mundo aqui. E convencer o pessoal a gravar.

Eva se encheu de esperança e Jonas ficou de retornar no tempo combinado dizendo se eles iriam bancar ou não. Talvez comprar os direitos caso, ela mesma não gravasse. Não era à toa que Eva saiu da gravadora naquele dia desconfiada de deixar o material para trás, sentindo que algo estava muito errado.

E adivinha? Ao invés do combinado, essa mesma gravadora soltou um single nas rádios com outra banda usando PUNK PARADISE como se fosse deles, e claro estourou. Apenas quatros semanas foram suficientes para a sua obra prima se tornar real.

E agora lá estava Eva, parada na frente da loja, depois de uma noite inteira tocando num bar, dando graças a Deus por ter descolado pelo menos a grana da feira da semana para alimentar seus quatro filhos que a esperavam em casa.

Quando o relógio bateu nove horas em ponto uma sirene foi acionada de dentro da loja e o pessoal da fila gritava enlouquecida: "Abre! Abre! Abre!"

Logo depois os funcionários mal puxaram as maçanetas eles avançaram.

Eva continuou ali parada com toda a força que seus coturnos podiam lhe dar para ficar com os pés grudados no chão enquanto aquele povo todo passava por ela correndo só para comprar cópias e mais cópias de cds. Quando, com seus passos pesados, resolveu se mexer e entrar, deu de cara com aquele caos de gente se estapeando e vendedores tentando organizar a bagunça.

Mas Eva não fazia parte disso, pelo contrário, ela já estava quase desmaiando de cólera, não disfarçava mais que até seu pulmão estava tremendo, e o resto do corpo nem se fala. Apesar do frio que descia pela nuca e do vômito eminente, Eva conseguiu, com muito custo, com a dor de quem está engolindo o orgulho, fechar os olhos e finalmente fazer aquelas malditas lágrimas caíram no chão, foi um alivio. Eva pode assim voltar a encarar a realidade do que estava acontecendo bem ali na sua frente.

Ela era a única pessoa sem pressa ali, a única que não estava gritando, a única que não queria comprar o disco. Mas assim mesmo, foi lentamente se enfiando na frente dos outros, empurrava e derrubava cada uma daquelas crianças no chão como se pesassem no máximo 2 quilos, e quando eles tentavam revidar parecia que estavam dando de cara com um muro e caiam também. Aquela mulher esquisita de cabelo moicano não dava a mínima pataca para as reclamações deles, afinal tinha mais o que fazer, que era pegar a PUNK PARADISE.

Depois que conseguiu alcançar uma das cópias e sair da ilha central da loja, ainda pisou nos pés de um ou dois sem dar tenência dos choramingos e lamentos de seus fãs. Eva seguiu firme e nem ligava que o barulho do caos ia e voltava de seus ouvidos, o que fazia que ela às vezes ficasse no mais absoluto silêncio dentro de seu próprio corpo. Era um alivio, para seguir andando enquanto admirava aquele cd de capa de papelão que tinha nas mãos, e sem perceber, chegou à porta de entrada. Mal havia passado cinco centímetros e o alarme começou a soar indicando seu roubo. Rapidamente duas mãozonas segurando seus braços e um dos caras educadamente lhe indicou o caixa... mas Eva apenas respondeu que ela não iria comprar nada:

- Senhora, ou você paga o cd ou vai embora.

- Essa música é minha!

- Senhora, o cd a senhora vai pagar?

- Essa porra dessa música é minha!

- Senhora, devolve o cd agora!

- É minha!

- Senhora, por favor me acompanhe.

- É minha!

Eva obviamente foi arrastada para uma salinha que ficava próximo aos caixas, presa por roubo. Pouco precisou-se apurar para os seguranças da loja terem certeza de uma coisa: Eva não estava batendo bem da bola. Ela não soltava o cd por nada. Nem o Jamanta conseguiu arrancar o material da mão dela. Jamanta e Junior vigiavam de perto aquela jovem senhora punk, Eva não ficou sozinha nenhum minuto e se comportava de maneira bem estranha, ela apenas ficava virando sua obra prima na mão, capa e contracapa, repetidamente.

Quando de repente parou, os seguranças se entreolharam e deram de ombros como se um esperasse que o outro dissesse como proceder. Mas Eva só começou a ler toda e qualquer letrinha que tinha impresso nele, na esperança inútil de ter seu nome lá, o que que encontrou foi o de Jonas levando os créditos de produtor.

Aliás, ele foi a primeira pessoa conhecida que teve o desprazer de reencontrar naquele dia. Nem você e nem Eva notaram quando ele entrou na sala e se sentou. Quando a letrista deu por si Jonas estava bem ali parado em sua frente, com os braços cruzados e com aquele sorrisinho irônico na cara!

- Oi Eva!

- Filho da puta!

Eva pulou na mesa e já meteu uma mãozada na cara de Jonas, os seguranças tiveram um pouco de trabalho para segurá-la, mas Jonas só ficou com a bochecha vermelha.

- Calma senhora, calma!

- Tira esse risinho da cara Jonas!

- Eva, calma!

- O que esse cabra tá fazendo aqui? Quem chamou ele!?

Eva questionava os seguranças como se eles tivessem que obedecê-la. Mas claro foi ignorada. Eles só obedeciam a Jonas:

- Segura ela desse lado da mesa Jamanta, não deixa ela pular não.

Eva se debatia tentando soltar seus brações musculosos e finos das mãos de Jamanta e Junior. Aqueles dois a seguravam com se ela fosse uma criança pequena fazendo pirraça no supermercado. Já Jonas, ficou ali parado virando os olhos e bufando, esperando ela parar. E nada, Eva não parava.

- Passa o clorofórmio nela.

Junior, tirou um lenço preto do bolso e pressionou na cara de Eva, mas não deixou muito tempo. Só o suficiente para ela, digamos, se acalmar.

Eva amoleceu na hora, sua respiração lerdeou, suas pupilas voltaram ao normal, os músculos amoleceram, e os dois a jogaram de volta na cadeira.

- Respondendo...

- Que porra é essa que vocês me deram?

- Eu estava na festa de lançamento do disco. Da sua música.

- Ladrão, eu aqui falida! Com quatro filhos pra criar e tu me rouba desse jeito!

- Não roubei. Tu deu pra mim...

- Cê ficou de me agendar uma reunião na gravadora...

Jonas apenas levantou os ombros e abriu os braços falando:

- Não prometi nada...

- Ladrão!

Junior teve que enfiar o lenço de novo no nariz de Eva porque o soco que ela deu na mesa derrubou até o café de Jonas, quando ela caiu novamente na cadeira e se acalmou Jonas passou a se defender:

- Opa ladrão não! Só te adiantei teu lado.

Eva foi apoiada rapidamente por Junior que por sorte notou que ela estava escorregando no encosto da cadeira de plástico.

- Adiantou como?

- Tudo o que eu posso te dizer agora, é que você foi escolhida.

- Como assim?

- Escolhida ué...

A voz de seu mais novo inimigo ia e voltava nos ouvidos de Eva, ele falava e falava, e Eva não entendia quase nada, porque novamente estava isolada em seu corpo. Aquele lenço foi forte demais. Jonas então no meio da conversa entregou a ela uma pastinha preta, que continha um contrato. Mas não era para gravadora. Eva ainda conseguiu ouvir o final da frase.

- Escolhida pra isso.

Eva pegou a pasta e abriu. Lá apenas uma única folha, à espera de sua assinatura e já com o seu nome completo onde deveria.

- Não tô enxergando nada....

- Deixa que eu leio pra você.

Dizia:

“Contrato de venda de alma...

Eu Eva Pritz fui escolhida e agradeço. Em troca de todo sucesso que eu puder aguentar e proteção ao fracasso que eu não quero nem pensar, entrego à DevilHorses a minha alma.

Este contrato terá validade de 10 anos e não será renegociado antes do fim do prazo. Ao assinar este contrato concordo em entregar meu tempo, meus esforços e energia ao trabalho que ser bem-sucedido exige, e em troca terei força, coragem e criatividade para vencer. Além é claro de sorte, muita sorte.

Caso a contratada não cumpra com sua parte, concorda em realizar o pagamento estando livre para escolher entre entregar sua alma antes do prazo, ou encarará o fracasso eterno.

Ass:

- Junior, traz um café para nossa amiga.

Eva devia estar com uma cara muito assustadora ao terminar de ler aquele papel.

- Mas que palhaçada é essa Jonas? Vai se fuder e me solta! Quero ir embora agora!

- Não é palhaçada... e você não está presa.

- Pacto com o diabo?

- Ué qual é a surpresa?

Eva começou a duvidar da sanidade de Jonas. Onde já se viu acreditar nessas coisas.

- Então quer dizer que eu passo dias e dias na igreja pedindo ajuda e ele manda o diabo?

- Uma Punk? Na igreja?

Jonas ria de propósito e continuou:

- Meu amor, foi você que chamou...

Eva tenta se segurar na cadeira, mas estava doidona demais para conseguir, até que Júnior chega com o café e o coloca na sua frente. Eva agarrou aquele copo mais rápido que sua sanidade poderia disfarçar, estava tremendo e engoliu cada gole com tanto gosto que dava até pena.

- Junior pega o seu sanduiche na geladeira da copa e traz pra ela...

- Mas senhor...

- Te pago um rodízio depois.

Junior saiu novamente da sala, e Eva parecia nem ter ouvido a conversa. Ela estava se sentindo culpada por poder tomar aquele café enquanto seus filhos não tinham nem isso em casa. Mas tudo bem, logo mais estaria lá com eles e tudo ficaria bem por uns dias.

Junior chegou com o sanduiche, era um pão francês crocante com umas 300 de mortandela fininha, tomate e alface. Eva não se fez de rogada:

- Covarde! Mas obrigada...

Jonas continuou a falar:

- Todas as vezes que você reclamou, chorou, enfraqueceu, se sentiu sozinha, abandonada, traída, teve medo, se fez de vítima, e praguejou: inferno!

Eva mastigava aquele pão com tanta força, e com a boca fechada, que fungava alto tentando respirar pelo nariz cheio de meleca seca. Apesar de estar grogue tentava com afinco deixar passar a raiva de ter sido roubada,

- Vigiai e orai

- Oi?

- Isso mesmo amiga. E nessa ordem, vigiai e orai.

Ficaram em silêncio por uns instantes, como se um anjo tivesse passado por ali, deu até de ouvir seu canto, e o vento batendo assoviando em sua aureola...

Jonas não teve pena de sua amiga:

- Eva cai na real... olha bem como você é... vai perder a carreira por causa de medo?

Sua letrista apenas engolia o pão sem dar muita importância ao amigo, ou pelo menos era essa a imagem que ela queria passar.

- Sabe como eu consigo encontrar os meus artistas assim tão fácil? Eu também assinei um desses... Eu não tive medo.

- Isso é mentira Jonas, isso não existe,,,

- Mentira ou não, o fato é que você já fez a fama... Olha lá fora!

Jonas tinha razão, dava para ouvir a barulheira que era aquele punk no volume máximo lá fora. Era incrível ser tão fácil, Eva tinha certeza que sozinha ela nunca faria tanto sucesso. Jonas continuou:

- É o Mainstream Eva, Punk Paradise já fez até o Ozzy fazer sinal da cruz quando ouviu.

- Me deixa em paz Jonas.

- Eva pensa bem! você foi escolhida!

- Fui escolhida pra que? Pra fazer um pacto com o chifrudo!

Jonas se irritou, mas com elegância. E deu um ultimato:

- É tudo ou nada Eva, sucesso ou fracasso.

- Não enche meu!

- Se não for você, vai ser outra! Você não é a única letrista da cidade.

Eva retoma a respiração, amassa o guardanapo do sanduiche e esfrega as mãos que já estavam rochas de tanto que soqueava a mesa. Já Jonas estava preocupado, afinal aquela mão de guitarrista e violeira parecia muito fácil de quebrar. Não valia a pena descontar a raiva por ali. Então, Jonas decidiu deixar a amiga ir embora:

- Olha pra você, um talento desses... fedendo desse jeito.

Jonas acariciou a mão de Eva e continuou como quem queria proteger aqueles dedos fininhos de anel n°11. Foi aí que ele resolveu mostrar o que poderia conseguir para ela. Eva ouviu um zumbido no ouvido e entrou num transe qualquer, num desses que já estava tendo desde cedo ficando surda. Só que agora, em apenas 10 segundos Jonas mostrou a ela tudo o que ela ia ganhar caso assinasse o contrato. E mostrou também como sua vida já estava ruim. Apenas mostrando em sua mente que seus filhos estavam em casa, perguntando quando ela iria chegar para ir comprar comida.

Em num estouro Eva voltou a si, já completamente sóbria. ainda se dignou a perguntar:

- Que merda foi essa!

E Jonas com os olhos brilhando na cor azul alertou:

- Como eu disse, não estou brincando! E não adianta fazer o sinal da cruz viu. Eu não sou diabo e não tenho medo disso!

Ela estava pálida e congelada, mal respirava ou conseguia falar alguma coisa.

- Eva? Quer de novo? Vamos ver o que mais tem aí para te ajudar a tomar uma decisão.

Jonas pegou na sua mão outra vez e foi fuçar mais lembranças. E essas fizeram Eva parar. Ele fez Eva se lembrar do dia que sua mãe se matou por causa das dividas da família. Isso ninguém no mundo sabia, só ela. Somente ela soube que aquele atropelamento não foi acidente, tinha tanta certeza porque foi ela mesma que encontrou a carta de despedida da mãe, e nunca mostrou para ninguém. Nunca! Eva queimou as últimas palavras da mãe antes que alguém visse. Depois do enterro dela todas as dividas foram perdoadas e Eva ainda herdou o kitnet e o fuscão velho dela.

- Jonas é verdade? É verdade?

- Meu amor, por hoje é só...

- Eu não posso Jonas. E tenho quatro filhos e ...

- Por eles!

- Jonas!

- Vai pra casa então! Volta pra sua vida, que deve ser incrível!

Eva se levantou sem nenhuma dificuldade e pegou suas coisas que estavam jogas no chão e saiu sem olhar para trás, e antes de a porta fechar Jonas gritou lá de dentro:

- Se mudar de ideia você tem até 3 da manhã pra me procurar!

Eva ignorou:

- E já vem com a música!

Eva tinha a exata consciência do que estava acontecendo. Aquelas imagens em sua mente eram aterrorizantes. Pareciam um pesadelo instantâneo de prazer e terror. E como Jonas esperava, Eva reconsideraria sua decisão muito mais rápido do que ela imaginava, logo que chegasse em casa e encontrasse seu marido gerente de loja na 25 de março, tentando fazer umas rabanadas com pão velho para as crianças e elas todas arrumadas chamando o banquete de “Torradas Francesas”, achando que aquilo era muito chic.

- De onde você descolou esses ovos amor?

- Fim de feira...

- Que merda, comendo resto. Lixo. É isso?

- Tem salada também. Quer?

Eva encheu os olhos de lágrimas e fez a garganta doer novamente.

- Mal-humorada do caralho! De nada viu! Vai dormir que eu vou trabalhar.

Ele saiu disfarçando para as crianças que estava tudo bem.

Sorte ter esse kitnet e o carro velho. Era lá que ela recebia os boletos e cobranças dos cartões de crédito que tinha, as dividas eram tão galopantes que ela não conseguia mais se livrar só com o salário de faxineira. Emprego que dava graças a Deus de ter conseguido. Realmente, limpar as nojeiras dos outros era uma lição de vida. Vida que ela não queria ter.

Eva encontrou então uma terceira alternativa além das que o diabo deu para ela. Uma alternativa que deixaria sua família a salvo, da mesma maneira que ela ficou quando a mãe morreu.

Eva decidiu resolver tudo, se matando.

Naquele dia, Eva não dormiu. Ao invés disso levou seus filhos para passear e se despedir. Seria essa a última lembrança que eles teriam para levar dela vida afora. João, Paulo, Pedro e Ringo. O mais novo adorava o próprio nome, apesar de os colegas de escola já iniciarem seu ritual básico de tirações de sarro. Eva os levou para o Zoológico e brincaram cada minuto com a mãe.

À noite, depois de entupi-los de açúcar e pizza, com os pequenos já capotados no sono dos anjos, foi a vez do marido, que também se divertiu com uma surra de buceta, não demorou muito para que ele adormecesse também. Assim, depois que ficou sozinha e em silêncio Eva começou a colocar em prática sua partida da vida.

Primeiro bebeu até ficar tonta e corajosa, depois acendeu uma velas e incenso. Fez umas orações e leu o salmo 91. Sentou em seu sofá, e começou a escrever a clássica carta de despedida:

Meus amores me perdoem, eu nunca pensei que isso seria possível, mas é. Eu parti. Eu falhei. Espero que vocês encontrem alguém que os amem tanto quanto eu. Espero que todas as dívidas que são minhas não alcancem vocês. Cuidem-se.

Fiquem com Deus.

Eva

Depois, sem desespero, pensou em se jogar do terraço do prédio que moravam, e foi para lá que correu. Sem dar um último beijo nos filhos, e antes de sair, foi arrancar a folha do caderno para deixar a carta em cima da mesa onde seria mais visível.

E daí Eva, a nossa letrista teve uma surpresa.

Uma surpresa sem explicação plausível, exatamente como já havia sido as últimas 24h de sua vida, Eva percebeu que nada do que ela havia escrito estava naquele papel. Ao invés de sua carta de despedida, estava sim, uma poesia. Dividida em estrofes, refrão e ponte. Assinado como: Eva Kiss.

Eva, meio bêbada de cachaça, começou a dançar do nada. Dançava lentamente, mas dançava. Não era ela que comandava o próprio corpo, e sem que quisesse foi levada para o canto da sala onde estava o case da viola caipira que sua falecida mãe tinha herdado do avô. Era uma viola vermelha envernizada e com desenhos de serpente negras, a correia era cravejada de botões redondos e prateados, e no prendedor de cima ostentava um guizo de jararaca que entregava que aquela viola já era enfeitiçada. Diz a lenda que quem tem um guiso desse na viola, tira seu som sem precisar aprender. Foi assim que Eva botou a letra e começou a tocar a música que suas mãos mandavam.

Eva abriu e fechou os olhos lentamente e se viu no reflexo da porta de vidro da varanda, era noite de lua cheia, mas a escuridão era tão profunda que mal dava para ver as luzes do centro de São Paulo lá embaixo. Viu o próprio corpo se movendo como quem pede por putaria a noite toda

Quando tocada era uma música capaz de tirar qualquer um da ociosidade da depressão, uma música que faz você largar o que estiver fazendo e ouvir. Uma música que te leva para o vórtice do hipnotismo e que te seduz. Assim como uma serpente que balança o guiso chamando a atenção da presa enquanto seu olhar fixo move o resto do corpo e dá um bote. E te envenena. Essa música tirou Eva do suicídio, e você também.

Ela se chama: Kings

Bom amigos, o resto é história. Eva entregou sua obra para Jonas à tempo e assinou o contrato. Desde esse dia já se passaram 25 anos. E é bem capaz de até hoje fazer você largar o celular e ouvi-la olhando para o nada. Eva ficou milionária e nunca apareceu, ela é conhecida apenas como Eva Kiss.

Sua música todos os dias é tocada em algum lugar, e todos os dias cumpre com sua missão.

A de fazer você querer ser um rock star.

Ass

Lady Edie

21 de Maio de 2022 às 20:11 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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