lova LOVA ⊙.☉

5º conto da série HaloTales


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#moto #acidente #estrada
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Fatos reais.

Laguna/SC, Sábado, 02 de novembro de 1996, 6:00.

Fatos reais.

"Eu sei que vocês todos estão nervosos, mas a gente precisa averiguar o que houve. Agora."

Explicou o Policial Rodoviário Wesley aos jovens envolvidos naquela intercorrência estranha, já que era o responsável pelo plantão e por colher seus primeiros depoimentos. Diziam que seu amigo sumiu depois que um trem o atropelou na estrada de ferro Tereza Cristina, que até onde consta, estava abandonada e apenas recebia muito raramente o passeio de Maria Fumaça do museu do trem de Tubarão. Wesley chegou ao local do acidente e encontrou aqueles motoqueiros, roqueiros, metaleiros malucos de São Paulo alguns ainda menores de idade, pilotando motos poderosas, caras e importadas, em mais um feriadão de finados vindo de Porto Alegre, fazendo shows de rock acompanhados por uma Kombi que levava os equipamentos da banda. Naquele fim de semana estavam comemorando seu primeiro contrato com uma gravadora. Era um grande feito pois tudo era difícil e ter uma chance dessas era o resultado de centenas de horas de trabalho.

Nos primeiros procedimentos rotineiros Wesley quis saber quem eram eles, pelo nome. Começou com Mobi e Leda a cunhada gostosa de Dom que iam na Kombi. Depois Dom com sua namorada mais gostosa ainda Leandra iam na sua moto Ninja. Assim como Renan e Jane que pilotava a outra moto Suzuki. E sozinho em uma Harley estava Jonathan. O rapaz desaparecido. Wesley escolheu o que parecia o mais sóbrio deles, Dom:

"Me fala o que aconteceu"

"A gente só tava indo pra São Paulo, e paramos um pouco na beira da estrada."

Respondeu falando rápido, arregalado e desesperado, muito jovem ainda, pelo RG, 21 anos.

"Era umas três da manhã e a gente já tinha combinado na ida de parar aí, Leandra pediu por causa da ponte quebrada e do trilho de trem do lado da estrada."

Wesley conhecia seu trecho como a palma da mão, e sim lá tem um lugarzinho que se entra pela direita de quem vai ao sentido norte da estrada, uma pequena ponte que dá acesso a Estrada Geral, e embaixo passa um belíssimo trilho de trem.O maluco de cabelo comprido continuou:.

"Ela cutucou minhas costas para parar, eu rezando que ela tivesse esquecido e desistido, mas não, ela me encheu o saco pra parar ali. Deixei minha moto na frente daquele bar tava tudo fechado, apagado, e em silêncio. Leandra foi esperar nossos amigos"

Wesley pediu calma ao cara, mas ele falava como louco, estava desesperado mesmo, pediu pelo amor de Deus que encontrasse o John.

"A Leandra, ela é meio médium, ela viu que ele ia morrer."

Ela falou para o namorado Dom pouco antes dos outros chegarem que tinha tido uma visão.

"Eu sonhei com isso aqui agora Dom"

"Eita lá vem ela com mais premonição. Quem vai morrer agora?"

"O John."

Wesley incrédulo segurou a risada, não dava pra levar a sério.

"Garoto, por favor vamos nos ater aos fatos do que aconteceu aqui hoje, por favor, se ele está desaparecido, precisamos ser rápidos."

Wesley tendo a certeza que o nosso rapaz estava doido da droga pediu que ele contasse a verdade.

"Mas é a verdade! Ele sumiu"

"Como?"

"Na hora que o trem bateu nele"

Wesley começou a perder o pouco da paciência que tinha.

"Vamos fazer o seguinte. Vou ver como estão seus amigos e já volto para falar com você."

"Fala com a Leandra, ela tava comigo na moto e viu tudo"

Chegando lá, Leandra estava sentada na escadinha do bar do Bananal, com os braços cruzados nas pernas, balançando o tronco para a frente e para trás, para a direita e esquerda, falando repetidamente.

"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo".

Sua irmã Leda e Jane não estavam muito diferentes. Mobi e Renan estavam medicados. Na ambulância onde estava Dom, Wesley foi chegando de voadora"

"Dom o que vocês usaram? Tô aqui tentando imaginar quanto pó precisa pra isso."

"Não Sr. a gente tava bem. Tava feliz! Não usamos nada é sério"

"Então me conta o que aconteceu!"

"Saímos do show e só tomamos umas cervejas, foi só! A Leandra queria parar aqui, pra ver o lugar. Eram quase três da manhã. Daí a gente parou e logo depois o resto do pessoal chegou."

"Vou pedir de novo pra você começar a falar sério"

"Eu tô falando sério!"

Dom perdeu a paciência e deu um soco na maca.

"O John não gostou que a gente parou. Ele não gosta muito da Le, acho que é ciúme de amigo, eu meio que abandonei ele depois que comecei a namorar. Daí ela falou que a lua estava linda, e chamou a gente para ir lá embaixo nos trilhos. A Leda até perguntou se não era perigoso, mas como não tem nenhuma placa avisando que não pode ué, a gente foi."

"Todos?"

"Não, Leda e Mobi ficaram na Kombi, e nós descemos pelo barranco. O lugar mais sinistro que eu já tive o desprazer de estar. Mas é legal pra caramba."

Wesley começou a dar corda para Dom.

"O que veio depois?"

"A Leandra disse que era ali que a gente devia prometer lealdade e fazer o pedido."

Wesley descobriu com Dom que Leandra sempre passava por louca, a doida que acreditava em energia, a maluca que via o futuro e que falava com fantasma e exus.

Dom continuou:

"Daí veio o Renan aquele sem noção com a ideia mais cretina do dia. Pegar as motos e descer na estradinha do lado para ir para os trilhos"

Wesley achou graça dele imitando o amigo.

"Foi o que a gente fez, as motos pulavam loucas nos batentes da estrada. No fim comecei a me divertir rindo pra caramba. John com a Harley não conseguiu subir nos trilhos, e fomos ajudar.

"Até aí ele estava bem?"

"Até alí todo mundo tava bem, até que a Leandra começou a ficar esquisitona, em transe. de repente ela acordou e me perguntou o que eu daria em troca."

Wesley anotava tudo freneticamente em seu bloquinho:

"Achei que ela tava me tirando, o olho marrom dela tava quase amarelo, e me perguntou de novo.

- Vamos querido, o que você me dá em troca? O trem já vem chegando. Chamei por ajuda, o mais perto de mim era ele. Gritei: John!"

Dom respirou um pouco e Wesley pode fazer o mesmo. Até retomar:

"Leandra me perguntou: Sério? ele?"

E daí Dom?

"Chamei o John pra me ajudar com a Le. Ele e Renan conseguiram subir a Harley que estava um pouco à frente da gente, mas são tão burros que colocaram ela virada para o sul e a gente já estava voltando no sentido norte"

Wesley quis saber o que houve com Leandra, mas Dom estava tão concentrado na história que continuou:

"Mandei eles virarem aquela merda pra vazar dali o mais rápido possível! A Le não tava bem não, delirando legal, ela falou: Fechado então, você me oferece John! Mandei aquela besta, parar de viajar. Ela desmaiou na minha mão. Os caras vieram me ajudar correndo e largaram a moto do jeito que tava. Ainda bem que aquela lua cheia ajudava um pouco, tava muito escuro. Jane gritava me perguntando o que estava dando, tava todo mundo nervoso do nada. A única coisa que eu sabia era que eu tinha que sair dali."

"Onde estavam os outros?"

"Ainda na Kombi. A Le começou a berrar, botando a mão nos ouvidos e mandando a gente calar a boca, ela estava transtornada. Eu nunca bati nela, mas foi preciso pra ela acordar seu guarda. Dei um tapa na cara dela e depois ela começou a falar umas coisas"

"Você sempre bate nela?"

"Nunca, e não adiantou nada ela continuou a falar um monte de coisas sem sentido. Que queria desistir do trato, que eles iam levar o John no trem. No trem! Mandei ela parar de viajar, mas ela repetia isso, dizendo que eles entenderam errado não era o John era a alma dela."

Aos poucos Dom foi diminuindo sua velocidade, já que um dos paramédicos aplicou uma medicação no acesso do soro.

"De repente a Jane pediu silêncio aos berros. A gente tava mesmo ferrado, do nada surgiu uma luz iluminando as rochas da curva e um barulho de trem, onde a gente estava era mais baixo que a estrada, as paredes se levantavam por uns 5 metros do chão. Daí veio aquele apito, era um trem vindo mesmo. Nós lá naquele buraco, não tinha como ir pro lado, era muito apertado, eu e o Renan conseguimos subir nas motos com as meninas e sair, sorte nossa estarem na direção certa. Mandei aquele merda do John deixar a moto lá, mas se ele corresse também não ia conseguir, era isso ou se jogar pro lado e ser esmagado na parede."

Wesley viu que Dom aos prantos assistiu pelo retrovisor seu amigo John ainda conseguir subir na moto, mas que o trem avançou em cima dele. Quando chegaram ao Bananal, e conseguiram voltar para a estradinha fugindo da máquina que não teve clemência.

O trem passou, era uma Maria Fumaça toda iluminada, linda e com uma festa rolando lá dentro. O maquinista era muito estranho, com a cara vermelha.

Os seis saíram para correr atrás de John, e apenas encontraram a moto ligada, na mesma posição que ele tinha deixado. Intacta.

Wesley duvidou da existência de John, se não fosse pelo fato de a carteira dele ter sido deixada no banco da moto. Também estava lá uma corrente com crucifixo de ouro que ele ganhou da mãe em sua primeira comunhão.

Muito anos se passaram e John nunca foi encontrado. Esse mistério permanece até hoje. A banda de seus amigos desfruta de um sucesso estrondoso.

Leandra não lembra de nada do que aconteceu, acordou sete dias depois da internação, com a notícia de que havia conseguido colocar seu single nas paradas das rádios e principalmente da MTV. Eles estavam famosos, ricos e poderosos apenas sete dias depois do pagamento do trato que Le ela tinha feito.

Dom gosta do sucesso, e nunca se mancou do que fez, talvez na hora de sua morte ele entenda.

Wesley guarda uma montanha de anotações. Vez por outra ele senta em sua cadeira giratória sempre quebrada e puxa uma pasta arquivo, onde guarda as de John, junto com todos os outros casos semelhantes que que ele mantém em segredo até hoje. Todo ano. essa gaveta ganha um novo arquivo. Sobre a Maria Fumaça que aparece sempre na noite de finados, na estrada de ferro Tereza Cristina, em Laguna, bem embaixo da pontinha do Bananal.

Dom e Wesley nunca desistiram de encontrar por John.

Ass: Lady Edie

21 de Maio de 2022 às 20:45 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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