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Fade out (Apagão)

Marcão, mais uma vez, acordou embaixo da escada da porta da frente da HaloHouse. Era lá que ele dormia quando ficava na casa de seus chefes e companheiros de banda. A Halo.

Estava sem camisa e com as costas ardendo, levemente, mas ardendo. Parecia que alguém tinha arranhado muito ali, ou queimado. A noite deve ter sido boa de certo, mas, ele não lembrava de nada. Levando-se em conta seu Life Style aquilo não era a coisa mais esquisita que já tinha acontecido com ele.

Em sua caminha de solteiro acompanhada de um pequeno criado mudo, que foi transformado em bar e também local mais adequado para se cheirar, Marcão sentou e desesperadamente pegou seu Marlboro vermelho e acendeu um deles. Em seguida, soltando a fumaça pelo canto da boca levantou e foi catar sua camiseta, não a encontrou. Era uma camiseta antiga do Nirvana com a qualidade dos anos 90, dessas que não se fazem mais. Ficou puto. Revirou seus lençóis e achou a relíquia enfiada embaixo do travesseiro meio marrom de sujo. E quando conseguiu enxergar melhor, pois seus olhos iam ganhando foco aos poucos, Marcão deu de cara com uma enorme mancha de sangue que estava impressa onde havia passado a noite capotado, como se estivesse em coma.

- Mas que merda é essa?

Suas costas ardentes o lembraram que esse sangue, que nem era muito, só poderia ter vindo de suas costas. Será que tinha apanhado? Levado uma facada? Ele não lembrava de nada.

Marcão se desesperou a ponto de puxar o ar para dentro dos seus pulmões e ainda assim sentir a falta do ar. Saiu correndo do jeito que estava, só de calça jeans. Foi para o banheiro da piscina que ele sempre usava, atravessando o quintal só para ir direto para o espelho que ficava pendurado na parede em frente à pia. Virou como pode para conseguir enxergar suas costas, que passaram a queimar mais depois do que viu no espelho.

- Puta merda!

E de dentro de um dos vestiários alguém chamou o seu nome.

- Marcão?

- Quem é?

- Sou eu Leandra.

E sai a vocalista de sua banda, terminando de vestir seu biquíni. Depois de um inverno rigoroso ela iria aproveitar o primeiro dia de sol do verão que se anunciava. Era uma das melhores amigas de Marcão.

- Puta que pariu Leandra que merda é essa na minha costa?

- Costas.

- Caralho como tu é chata!

- Uau! Uma tatuagem gigante! Que linda!

- Que linda o caralho, quem fez isso? Porque eu não fui.

- Como assim não foi você?

- Não sendo eu, ué! Acordei já tava aí.

- Ih! Já vi que você não se lembra. Lembra?

- Não eu nunca faria uma caveira de diabo na minha costa!

- Parece mesmo que não. Eu também tenho uma dessas misteriosas. Mas a sua ficou linda parabéns! Pensei que nunca ia fazer.

- E não ia mesmo! Que bosta.

- Passa vaselina, assim não sangra tanto e cicatriza com menos dor.

- Puta merda quem fez isso?

Marcão tentou respirar mais lentamente para acalmar, assim como tinha aprendido com sua namorada riponga da feira Hippie do centro. Não estava com nenhuma outra parte do corpo ardendo. Pelo menos isso.

- Qualquer hora vou pegar uma doença, tenho que parar com esse bagulho.

Marcão foi para o banho. O banheiro da piscina tinha um chuveiro quente, coisa rara para um banheiro de piscina. Era assim porque que todos da Halo, da qual ele era um dos baixistas, quase que moravam na HaloHouse. Àquela altura, viajavam muito, tanto literalmente quanto quimicamente. Marcão passou a usar bagulho mais pesado por curiosidade mesmo, nunca teve grandes problemas, era muito natural assim como se usa o café para acordar ou o vinho para relaxar. Só que para Marcão era coca e heroína, apesar de muito difícil de encontrar eram as suas favoritas. Uma dava as mãos a outra e o levava para outra dimensão, a que ele chamava de dimensão do grave, onde tudo que ele ouvia virava uma nota musical em sua mente. Certa vez, em 1997, passando por uma turbina de avião com problemas, ele identificou as notas do barulho que ela fazia e depois compôs o melhor Intro de baixo que foi criado no rock. Música premiada várias vezes e que foi o principal motivo que levou a Halo para uma única reunião com o presidente certo da gravadora certa e que fez com que eles saíssem de lá com mais um contrato assinado. Era isso que o grave lhe traria na vida? Sorte? Ser viciado então seria um pequeno preço a pagar.

Ao entrar no chuveiro e a água morninha pipocar em seus ombros e fazê-lo lembrar da pior maneira possível da tatuagem que apareceu em suas costas, passou a desconfiar de sua sanidade mental e da qualidade do bagulho que estava usando.

Será que seu corpo está finalmente dando sinais de falência? Ficou um tempo sentindo a água escorrer pelo corpo e ver que ela descia marrom pelo piso branco de mármore. Pegou um sabonete qualquer para se desinfetar. Foi revigorante para ele, parecia que estava carregando uma semana de suor ao ponto de não sentir mais o próprio fedor.

Já mais acordado, não teve coragem num primeiro momento de se olhar no espelho de novo, e então foi para dentro da casa de Leandra. Entrou pela porta dos fundos e disfarçadamente roubou uma camiseta qualquer na lavanderia, estava limpa e cheirosa, assim como nos tempos que morava com sua mãe. Marcão rastejou silenciosamente para uma das salas da casa, que ele nem lembrava qual era, mas, tinha um espelho e era o que bastava. Tirou a camisa virou de costas, e "vois la".

Em sua mente começou a tocar Falling to pieces. Sua primeira tatuagem era realmente linda, e enorme. Ia de ombro a ombro, e descia até o meio das costas. No centro uma caveira com os ossos das sobrancelhas cerrados fazia parecer que ela era naturalmente má, dela saiam duas adagas que ostentavam punhais de ossos. E surgiam por traz duas asas de morcego, mas que tinha penas pretas também.

- Que merda! Como se explica isso?

Saindo da salinha Leandra o esperava no corredor e convidou Marcão para tomar café da manhã antes de entrarem no estúdio para ensaiar. Ele concordou, não gostava de comer de manhã, mas a partir daquele dia iria começar a criar hábitos mais saudáveis.

Marcão antes de se juntar a Halo, depois da morte do baixista John, era estudante de Psicologia. Frequentava a noite e tocava em barzinho para complementar a renda, depois passou a ensaiar com a Halo e foi ficando até ser contrato por Leandra como baixista oficial. Até aquele momento ele fez isso só por causa da grana, mas não demorou muito para se seduzir à vida no rock e com o sucesso repentino que a banda teve. O que o fez abandonar sua vida saudável como estudante natureba da área de humanas da USP. Era catarinense, e estava ali por que não conseguiu passar na UFSC. Sempre quis Psicologia, ou ser professor, tinha uma vida regradinha na casa de sua família. Família aliás que ele não falava há meses depois de uma briga terminal com sua mãe que lhe custou o último relacionamento dessa época. Também abandonou os amigos catarinenses e sua noiva, tudo por causa de seu trabalho na banda.

O lado bom foi que ele construiu uma carreira sólida como músico. Era pão duro e se permitia gastar apenas 30 por cento do que ganhava por mês o que já era muita coisa. O resto ele guardava. Era trabalho duro, muito trabalho. Quando não estava no palco, estava se preparando para o palco. Ele fazia a conta assim: para cada hora de palco, eram gastos mais de 200 horas só de criação, gravação, ensaio e divulgação. Juntando tudo eram em média mais de 14 horas de trabalho por dia. Hoje não seria diferente, não é por que não lembrava de uma tatuagem gigantesca que apareceu no seu corpo que ele não faria seu trabalho.

- Halo! Acho que o nosso riponga caiu na nossa garra de vez, mostra aí Marcão!

Marcão não acreditava que não pediu pra Leandra não contar nada para ninguém.

- Mostrar o que cara?

Um sonolento Dom Pedro, marido de Leandra e líder guitarrista da banda quis saber.

- A tatuagem maneiríssima que ele fez.

- E o pior é que eu não lembro de nada, acordei com a costa ardendo e ela já tava lá.

Quando Marcão levantou sua camisa todos na sala ficaram suspensos no ar, em silêncio ou eufóricos por demasiado. Menos Dom.

- Puta que pariu meu cê tá louco?

- Meu que hora tu fez isso a gente saiu da Feira era 10 horas passada! E tu não tinha nenhuma tatoo.

Renan, o baterista, foi quem começou o interrogatório. Eram íntimos todos eles, já conviviam há mais de dez anos, sabiam demais um do outro.

- Pois é. Me lembro de ter ido pra Feira, mas não de ter saído. Acordei aqui já, na minha cama lá fora.

- E o resto tá inteiro?

- Tá sim

- Quer dizer não tá ardendo em nenhum outro lugar? Hahahaha.

Renan também não perdia uma oportunidade dessa. Ele era o baterista e o que tinha de timidez no palco tinha de gente fina fora dele.

Leandra por sua vez lembrou o amigo:

- Será que vai parar na primeira? Acho que dá azar.

- Quem disse?

- Ué todo mundo sabe, não pode parar na primeira dá azar, e também não pode ser número par.

Marcão não queria dar muita trela e cortou o assunto com navalha.

- Que merda, vamos ensaiar.

O dia passou tranquilo e eles fizeram o que sempre fazem. Haviam terminado de compor uma música na semana anterior e hoje iriam tocá-la ao vivo repetidamente em estúdio até se cansarem. Era assim que chegavam a perfeição. Nunca colocavam o melhor no álbum, deixavam para o palco e lá sim detonavam. Já era quase meio dia quando começaram a tocar seriamente, como se estivessem no show. Repetiram a “Free pass, oh yes” em looping até às duas da tarde, até que Marcão largou o baixo. Era assim que a coisa funcionava, o primeiro que largasse o show pagava as bebidas da noite. Marcão nunca em hipótese alguma parava de tocar. Podia estar com os braços tremendo e com câimbras que ele seguia sem reclamar ou fazer caretas de cansaço.

O resto da banda se entreolhou e foram atrás perguntar:

- Você tá bem?

- Minha costa tá doendo demais.

E aconteceu, Marcão finalmente uma vez na vida largou o trabalho porque estaca cansado. Quem mais comemorou mesmo foi Renan. Sua função de baterista tomava muita energia física e na grande maioria das vezes era sempre ele que desistia por pura exaustão e o tomavam para pagante da noite. Ele ou Leandra que poupava sua voz.

Mas Marcão sucumbiu ao cansaço.

- Vamo trabalhar gente.

- Preciso dormir um pouco, tô com muito sono. Tô até ouvindo um zumbido no ouvido.

- Tá bom. Mas não vai furar com a gente.

Marcão pediu arrego a Leandra e queria um quarto na casa dela, ele nunca fazia isso. Ela deu o de hospedes que fica no terraço, o lugar mais silencioso de lá. Marcão sentiu o sono chegar e ele se entregou sem discutir e sem se preocupar com a hora de acordar. Aproveitaria cada minuto do sono autorizado por ele mesmo. De tão caxias nunca conseguia dormir direito, estava sempre preocupado com as coisas para fazer. Para ele era uma responsabilidade gigantesca se apresentar para uma pessoa, talvez o único show de rock da vida dela, e era comum ter mais de 40 mil em sua frente. Para um cara como Marcão era mesmo um tormento.

Mas Marcão não pode aproveitar muito da sua soneca. Logo depois que dormiu, uns cinco minutos talvez, foi acordado por Sonia, a empregada doidona de Leandra.

- Cara tão te chamando pra sair,

- Meu, acabei de dormir eles já vão?

- Já são 9 da noite.

- O quê?

Marcão quase chorou quando viu que dormiu quase 6 horas. Ainda com sono e com a sensação que capotou por apenas alguns instantes.

- Vamo cara te mexe hoje é você quem paga, e isso eu não perco por nada.

Era mesmo um evento, Marcão nunca tinha pago a conta da bebedeira de ensaio. Ele se levantou, se arrumou e saiu, com as costas ardendo ainda, resolveu dar uma conferida na sua tatuagem e aquela caveira sorrindo com a cara de braba já estava lhe parecendo legal. Mas uma coisa estava estranha, de manhã ela não tinha a mandíbula, e não estava sorrindo

- Deixa pra lá, devo tá ficando louco de tanto bagulho. Amanhã mesmo vou ver a Jane e me tratar.

Jane era a médica que a banda costuma correr para cuidar de fissuras. Diferentemente agora ele pretendia parar de vez, já estavam acontecendo muitas coisas estranhas. Era dinheiro sumindo, mulheres que ele nunca viu o chamando pelo nome, acordava em lugares estranhos. A amnésia já tomando conta. E além disso, ele já estava começando a ficar viciado e sofria muito quando não usava.

- Meu Deus já estou virando um escravo desses aí.

No mais Marcão nunca pensou que viraria ou chegaria ao ponto do vício onde se usa droga para poder ir trabalhar de manhã ou para ficar normal.

Não demorou muito e lá estavam eles na Feira. Era um bar perto da feira hippie no centro de São Paulo, não se sabe hoje sua localização exata mas preenchia um dos porões dos prédios antigos da região. Era escuro, fedido, discreto. Marcão pediu uma caipirinha, coisa que nunca fazia pois pensava ser essa um drink, e drink é coisa de criança. Mas ele bebeu com gosto, estava bem gelada e o limão era muito bom. Cachaça é bom. Tão bom que foi a última coisa que sua memória preservou quando ele acordou no mesmo lugar de sempre.

Embaixo da escada.

Levou um susto com o despertador do Paraguai que Leandra tinha colocado ali junto a um bilhete dela:

- Você pediu para te acordar as 8h. Botei esse despertador porque odeio acordar tão cedo, ainda mais pra te chamar.

Ele estava nervoso. O medo e a dor tomavam toda a sua atenção, principalmente porque a bomba de adrenalina que corria por suas veias depois de acordar com um susto o deixou alerta o suficiente para saber que estava com o braço direito ardendo da mesma maneira que suas costas.

- Ai, de novo não.

Mas era sim, mais uma tatuagem apareceu. Dessa vez uma serpente, que se enrolava em seu braço junto a uma roseira em chamas. Ainda coberta de sangue era mais maneira e incrivelmente linda que a caveira. Ela subia pelo braço se juntando com a tatuagem das costas, formando uma só. Marcão não se lembrava de nada, a não ser da caipirinha.

- Alguém tá colocando alguma coisa na minha bebida. Só pode. Depois descubro quem é.

Marcão era uma raposa. Calmo, frio e observador. Não é à toa que era baixista, ficava em segundo plano, mas não tanto. Tinha sua voz tão grave quanto do baixo que tocava a lá Kilmister. Parecia uma trovoada de chuva de verão.

Marcão tremia por dentro, sentia uma dor nas laterais da garganta que o impedia de engolir até a saliva. Tentava respirar mas o medo já tinha virado ódio e o fez ficar mais inteligente que nunca. Seus pensamentos eram claros e rápidos. Depois que entrou na HaloHouse, fez tudo como no dia anterior, essa característica ele tinha, poderia ser o estado mais caótico da bebedeira que Marcão matinha o seu lado sistemático intacto. Durante o café da manhã não pronunciou uma palavra sequer, apenas ouviu dos amigos a mesma história da noite anterior, que todos saíram de lá antes das 10 da noite e ele ficou.

- Vamos ensaiar? Vai que tu perdes hoje de novo.

Renan convoca o amigo. Mas ele recusa e explica aos colegas de banda.

- Não vou perder por que hoje não vou ensaiar. Preciso ir na Jane. Acho que fiz merda.

Dom como patrão já estava preocupado com o amigo, ele não era de se perder assim. Ele mesmo era, mas Marcão sabia beber. Sabia quando parar e perder o controle não era assim tão fácil para ele. Por isso ele o aconselhou:

- Tá bom, tira o dia de folga hoje. Não tô gostando mesmo de você por aí saindo sozinho e chegando aqui desse jeito.

- Eu também não.

Marcão em momentos como esse acabava ficando paranoico, e a essa altura do campeonato já estava desconfiando até deles. Assim sendo achou por bem procurar outro médico, no caso médica e também a sua antiga namorada, Clara Cristal. Esse era mesmo o nome dela. Era filha de um professor e vinha de uma família hippie, assim como Marcão, moraram os dois a vida toda numa comunidade dessa em Florianópolis. Cresceram juntos, seus pais eram amigos. Não custava para ele pegar um avião e dar uma volta por lá. Rever a família, se é que ainda tinha alguma consideração de algum deles. Ao chegar lá descobriu depois de duas portas na cara que não, a única que o recebeu foi ela.

- O que o sistema está fazendo em meu consultório de medicina ayuverda?

- Senti sua falta Cristal.

- Fala sério.

- Tá bom. Acho que estou alucinando. Muito bagulho. Apaguei duas noites e acordei cheio de tatuagem. Não lembro de nada.

- Vamos ver.

Marcão tira a camisa e mostra suas obras de arte a ela. Que por sua vez fica maravilhada como todo mundo. Nunca tinha visto algo tão bem feito e vivo assim.

- Nossa Marcos, isso não é trabalho de um dia só.

- Foi feito em algumas horas

- Não é possível.

- Foi no meu porre.

- Bom vamos colocar algumas medicações, nada psicotrópico tradicional. Vou te aplicar Reik e receitar uns florais. E uns chás. Você faz hoje e toma o que eu vou fazer agora. Vai ser no mínimo duas semanas de fissura. Não tem problema em sofrer um pouquinho.

- Vou para casa Cristal. Brigado pela ajuda.

- Fica aqui hoje.

- E o seu marido?

- Ele não vai nem saber.

- Não quero mais atrapalhar a vida de ninguém.

Ela ficou chorando e Marcão, com um novo objetivo na vida se foi. Dessa vez seria para sempre. Ele nunca mais iria voltar. Marcão pegou suas medicações e foi para o aeroporto. Tinha dinheiro suficiente para fretar um jatinho, e foi isso que fez. Era um jatinho superluxo com aquelas cadeiras confortáveis, serviços de frigobar e aeromoça. Mas ele não pretendia usar nada disso, queria só chegar em casa e pronto. Marcão tomou seu chá de ervas que ele não sabia quais eram exatamente, e tomou seu floral. Ele não acreditava muito nessas coisas mas vai que dá resultado. Pensou em estar ficando maluco em acreditar que essa água com açúcar iria dar algum efeito e por isso decidiu aguentar as crises de fissura bravamente. Sem se drogar.

- Vai doer me limpar, mas eu tenho que aguentar.

Fechou seus olhos e só os manteve assim fazendo força. Seu corpo não queria dormir, mas estava tão cansado que precisou forçar suas pálpebras uma na outra. E ia ficar assim até dormir. E conseguiu, mas não um sono bom e profundo, ele ainda tinha sensação de estar acordado. Acordava e voltava a dormir a casa solavanco da aeronave. Foi acordado pela aeromoça que o acompanhava para que colocasse o cinto para decolar. Ele se sentou de forma correta seguiu as orientações exatamente como lhe foi mandado. Fazia isso sem se dar conta do quanto tinha facilidade em seguir certas regras. Mas tinha. Então depois de alguns minutos o avião já estava no ar, e o silêncio era maravilhoso, quebrado apenas pelo dó maior dos motores, que lhe fornecia um urro constante, mas calmante a sua mente agitada. Já tem outra música em sua mente.

Marcão sentiu suas mãos chacoalharem sem que ele quisesse e claro estava vindo uma intensa dor de cabeça. Sua mente logo o lembrou que se usasse algum bagulho qualquer ele se acalmaria. Era assim que era uma crise de abstinência? Nunca tinha tido uma. Marcão ficou tão apavorado que ficou com medo de enlouquecer, e descobriu rápido demais que não teria força para passar por aquilo a seco.

- Sou um cagão mesmo! Se no começo já está assim imagina depois.

Por isso, e pelo fato de estar dentro de um avião não quis arriscar, não teria onde pedir ajuda lá do alto então tomou um calmante e um anticonvulsivo. Sentiu rapidamente alguém tirar seu sofrimento com as mãos. Fechou os olhos, cruzou suas mãos na barriga e dormiu, seu corpo dormiu. E sua mente também.

Menos quando o avião dava solavancos por causa do tempo ruim, mas sem problemas Marcão acordava e voltava a dormir. Assim repetidas vezes, enquanto a medicação ainda segurava seu sono. Mas, num desses solavancos o avião perdeu altitude e Marcão sentiu um frio horrível na barriga comparável a estar numa montanha russa ou num orgasmo. Ficou grudado no banco só por causa do cinto. O avião voltou a estabilizar e ele continuou forçando seus olhos a ficarem fechados. Mas algo estava muito errado.

Marcão tentou mexer sua mão e não conseguiu e pela primeira vez na vida soube o que era a falta de ar. Tentou abrir os olhos e suas pálpebras estavam grudadas. Ouvia tudo, a tripulação falava sobre ele e a Halo como se ele estivesse dormindo, mas não estava. Tentou se levantar, mas o corpo não obedecia. Era um pesadelo?

Estava preso.

Sentiu alguém se aproximar, sentar ao seu lado.

- Deve ser a aeromoça que deve ter percebido que eu não tô nada bem.

Ela se aproximou com um perfume de mulher delicioso que o acalmava e sussurrou baixinho em seu ouvido.

- Vamos trabalhar no braço esquerdo hoje?

Marcão entrou em pânico e aí mesmo é que não conseguia se mexer.

- Me falaram que você está tentando fugir de mim. Que foi procurar médico e tudo!

Ela estava deitada em seu lado esquerdo, definitivamente era uma mulher, e com o melhor perfume de mulher que Marcão teve a honra de sentir. Ela tirou sua camisa bem devagar, e depois começou. Começou a terminar sua tatuagem.

- E Marcão espero que eu não te incomode hoje. Não vai doer muito, e mesmo que doa, você é um ótimo cliente.

Marcão respirava com a velocidade do seu baixo Kilmister. E com a mesma intensidade.

- Pena que você não lembra dos nossos encontros. Foram ótimos.

Marcão imóvel só pensava em sair correndo, mas nada que ele fizesse surtia algum efeito. Nada!

Restava gritar em pensamento e como no pesadelo repetitivo que ele tinha desde criança sua voz não saia e quem olhava de fora apenas via um homem dormindo e tendo algum pesadelo.

- Não Marcão ninguém pode me ver, nem você, assim com os olhos fechados.

Marcão não conseguia se acalmar. Ela continuou.

- A viajem para são Paulo vai demorar um pouco, por causa do tempo ruim. Mas não se preocupe no tempo certo ele vai pousar. Por hora estamos só nos dois aqui.

Marcão chorava e suas lagrimas escorriam até chegar nas orelhas. Mas a mulher não tinha pena.

- A primeira, a das costas, mostra a sua fidelidade ao nosso chefe.

Marcão agora tentava empurrar a mulher de seu peito. Mas ela lhe fez um favor mais apavorante. Ela lhe fez um carinho muito rente a pele, o que ele causou um arrepio de prazer. Depois ela abriu seus olhos. E Marcão pode se deliciar com a beleza em forma de gente bem ali na sua frente.

Era uma brunette de olhos verdes e com o cabelo pelos ombros. Estava de lingerie vermelha e com o mais belo sorrisinho que ele podia lembrar. Mas isso não amenizava o medo.

- A segunda, no braço direito mostra uma serpente e fogo.

Marcão começou a sentir a agulha desenhar sua pele. Era a primeira vez que sentia isso. Estranho, não doía muito mesmo, mas também não era algo que pudesse ignorar.

- A terceira meu anjo, será a morte. Com foice e rosas vermelhas. Montada no meu Mustang preto. E vai levar o braço inteiro. Gostou?

Marcão só movia os olhos e se desesperou. O que era aquilo? Uma alucinação uma brincadeira ou sacanagem de alguém? A única coisa que sabia é que iria matar um depois que descobrisse quem o estava drogando e fazendo essas tatuagens.

- Ninguém me mandou Marcos. Olha pra frente.

E assim ele fez.

- Olha lá na frente, por acaso você me vê no reflexo do vidro da cabine?

O homem entregue e congelado de tão tenso respondeu que não com a cabeça.

- Mas você sim, sabe que estou aqui. Então por favor, não fale como se eu não estivesse aqui.

Marcos sentia o choro vir sem dar trégua, não era mais medo somente, era a certeza de estar ficando louco.

- Não tenha medo Marcos, você não está ficando louco não. Você me pediu ajuda e eu estou aqui. Mas pra isso preciso que você faça tua parte. E só ficar quieto.

E assim ela foi fazendo mais desenhos, que surgiam na sua pele às custas de uma dor irritante. Ele não conseguia tirar as mãos da barriga, e ninguém no avião estava vendo aquilo?

- Não, não estão. Eles até poderiam se prestassem atenção.

E o pior é ele nem lembrava o que tinha pedido. Será que era o capeta?

- Pronto terminei. Não foi difícil foi? Essa terceira, foi a última. Ficou linda não? Tá parecendo uma armadura.

Marcão tentava olhar mas seus olhos não alcançavam.

- Olha eu vou indo, mas sempre que você precisar meu lindo. É só chamar. Agora você também tem um DevilHorse tatuado. Todo mundo na Halo tem uma.

Marcão voltou a dormir quando sentiu a mão fina e delicada da tatuadora misteriosa sobre seus olhos. E assim como nas outras tatoos ele voltou a dormir como um anjo. Não se sabe se um anjo dos céus ou os do tipo que não são de lá, mas ela deu a ele um sono gostoso e profundo.

Ele só acordou mesmo depois que o avião pousou, e a aeromoça o chamava baixinho em seu ouvido oferecendo toda a sua sensualidade para ele. No nível de sentir o cheiro da pasta de dente que ela usou.

- Marcão, chegamos. O senhor pode acordar agora.

- Opa moça! Perto demais?

- Desculpe senhor, como sua fã, para mim é uma oportunidade que não quero desperdiçar.

- Desperdiçar o que Linda?

- Ah isso eu tenho vergonha de falar Marcão, mas não tenho vergonha de mostrar.

- Preciso ir no banheiro me mostra lá?

E assim a moça com o coração aos pulos arrasta seu ídolo para o banheiro. Tira a camisa dele revelando mais uma tatuagem, exatamente como brunette falou. Agora sim, ele tinha um DevilHorse e isso explicava muita coisa da banda. Agora sim ele era realmente um deles.

Marcão sentiu-se o cara mais macho do mundo com sua tríade. A caveira, a cobra e o cavalo do diabo. Não era tatuagem de criancinha, era coisa de homem. E daquele dia em diante era isso que ele seria. Não precisaria mais de drogas e não precisava mais procurar por mulher. Já achou a que aguenta.

- Não sei não garota mas acho que isso não vai prestar.

- Tô nem ai, foda-se!

Viveram loucos para sempre.

Ass. Lady Edie

21 de Maio de 2022 às 20:18 0 Denunciar Insira Seguir história
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