lova LOVA ⊙.☉

2º conto da série HaloTales.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#amorproibido #ofensivo
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O amor ao fogo

Eu morri porque estava entre uma bomba de gasolina e um Maverick vermelho. Este carro foi a última coisa que eu vi antes de explodir. Sim eu explodi. Não no sentido figurado, literalmente mesmo. Meus pedaços se espalharam em chamas pelo posto de gasolina que eu trabalhava e depois não encontraram nada do meu corpo, absolutamente nada.

Na hora eu estava pegando um regador vermelho que eu ia usar para limpar um para-brisa. Ouvi o estrondo da pancada do carro partindo o poste na calçada em dois, e depois, aqueles dois faróis altos vindo em minha direção. E eu, não pude fazer nada. Não deu tempo nem de me levantar, quiçá me arrepender dos pecados.

Eu esperava que na hora de morrer fosse me sentir desconfortável ou com medo, pelo menos um pouquinho, mas não. Na minha vida inteira, que durou apenas 20 anos, eu nunca tive medo de muita coisa, nunca tive grandes emoções. E eu adorava sentir alguma coisa, nem que fosse medo.

Comecei o último dia da minha vida pensativa e cansada. Também, eu estava gorda demais para quem tinha 20 anos, pesando 20 quilos de banha a mais do que recomendava Organização Mundial de Saúde. Acho que foi por isso que eu fritei tão fácil e virei uma mistura de carne ossos e ferro. Levei apenas três horas para virar cinzas e desaparecer, e para não dizer que não deixei nada para trás, um dos meus brincos ficou grudado no para-choque do carro, que depois derreteu com o fogo e acabou cravando o diamante lá, o outro brinco eu já tinha perdido. Nunca fui muito vaidosa e cuidadosa, eu sempre perdia minhas joias. Sempre fui apreciadora da boa mesa, e da boa cama, minha mãe também, ela até tentava me fazer mais lady me dando essas joias, mas éramos enormes, famintas e desleixadas. Tanto que ela morreu aos 34, na época eu tinha 15, e foi bem no dia em que me deu aquele brinco. Morreu de porre.

Assim, decidi que chegou minha vez de morrer, planejei me matar naquela noite mesmo. Eu estava indo para casa e me entregar ao ceifador para que ele, por sua vez, me levasse para o lugar reservado aos suicidas. Assim como eles, eu não via muito perspectiva pra mim. Não queria mais trabalhar, estava sem família, não via sentido nos amigos. Já tinha vivido coisas que você não imagina. Mas o pior mesmo era a minha viuvez.

Meu grande amor tinha morrido na cadeia e eu tenho certeza que ninguém iria me fazer sentir o que ele me fazia sentir: medo. É uma história estranha. Eu o conheci numa festa, nestes inferninhos que se vê por aí. Era uma festa privê onde, amigos se encontravam para transar. Eu ainda era magrinha mas nem tanto, era bem gostosa nas partes que tinha quer ser, ou seja, peitos e bunda. Ainda uns centímetros a menos de altura do que tenho hoje e com 16 anos de idade, minha cabeça já tinha 30. Então imagine você o que eu não fazia por aí. Isso porque eu já tinha visto, sofrido e vivido tanta coisa que aquela altura não existia mais novidade pra mim. A comida perdeu o gosto e a bebida não fazia mais efeito, os homens não me surpreendiam mais. Era só mais uma festa que todos estavam amando por ser novidade, mas eu não via graça. Então eu, na empolgação da música e do pó, subi no pau, quer dizer pole, para dançar um funk. Era a despedida de solteira de uma amiga mais velha e nós estávamos digamos, botando pra fuder. Comecei a dançar do meu jeito normal, apesar de ser um pouco obsceno pra quem não estava acostumado com a nossa rotina. Quando dei por mim, tinha aquele cara que estava me encarando de um jeito que iria me partir em dois caso me pegasse. E eu dancei mas, só pra ele, fazia tempo que alguém me fazia ferver daquele jeito. Eu estava acostumada com caras com pegada, mas era misturado com um certo romantismo e respeito. Do tipo que se você não gosta do que eles querem fazer e diz não, eles param numa boa. Naquela noite, eu tive um problema, quando fui buscar mais uma bebida eu senti aquela mão enorme me puxando pra dentro de uma sala. Quando dei por mim eu estava sozinha com aquele cara. Ele começou a me agarrar e eu mandei parar, e diferente dos outros caras ele não parou. Eu insisti e ele meteu a mão na minha cara me derrubando no chão. Nessa hora eu descobri que ele era alguém grande na boate, já que eu estava no escritório, e que e já tinha deixado dois capangas lá fora vigiando. Fecharam a porta e ele me jogou na parede e me prensou. Já “tava” no ponto e eu não podia negar que pela primeira vez na vida eu senti medo de verdade, era fato eu estava sendo estuprada. Entrei em pânico por não saber o que ele podia fazer, e me envergonho em dizer que eu me entreguei. Não tentei fugir, e eu podia sentir nele a hesitação de quem nunca tinha pegado nenhuma mulher a força na vida. Realmente ele estava com mais medo do que eu mas, não conseguiu desistir e foi em frente.

De repente ele parou e ficou me encarando, tão fundo nos meus olhos que pareceu ler minha alma. acho que queria saber algo de mim, se eu queria ele também. Foi nessa hora que eu ele. Era uma agonia no meio do meu peito que me fazia pular entre o medo da dor e o tesão. Ele não rasgou minha roupa, mas me pegava com tanta força que finalmente eu descobri o que era bom na vida. Depois ele me virou de costas e tapou minha boca pra não gritar. No fim a gente sabia que não tinha escapatória, nos apaixonamos. E eu iria deixar ele fazer o que quisesse comigo. Como um cordeiro entregue pro abate.

Ficamos juntos por três anos, ele era casado e eu não quis assumir o papel de esposa na vida dele. Mas a esposa dele não aceitou bem a ideia de ele ter outra bem mais nova. Mandou me matar, não conseguiu, botou a culpa nele que foi preso e lá na cadeia ela conseguiu mandar dar um fim nele.

De um ano para cá então minha vida ficou assim, sem sal.

Tinha perdido minha mãe e meu amante. Meus amigos não passavam de bebuns, nada que pudesse aproveitar. Sozinha, apenas na companhia do streaming e das redes sociais. Posso dizer que procurei por novos namorados, mas tenha a santa paciência meus padrões ficaram elevados depois “dele”.

Demorei a perceber a depressão, acho que comecei a desconfiar da presença real dela na minha vida quando numa noite sem querer eu acho, entrei numa página onde as meninas se cortavam. E eu achando que isso era apenas uma mania minha. Quando eu começava a ficar nervosa também usava minhas unhas, sempre extremamente afiadas, pra sentir mais e mais aquela dor fina de uma navalha entrando na minha pele. Também bebia sempre e muito, e acabei por me enfurnar em casa e no trabalho.

Então eu concluí que não tinha nada de mais interessante nesse mundo para mim e que ninguém substituiria ele, nem mesmo eu.

Resolvi me matar. Primeiro pensei em me dar um tiro, ao melhor estilo Kurt Cobain, daí lembrei que não tinha uma arma e não saberia por onde começar a adquirir uma. Depois pensei em tomar veneno, mas daí eu lembrei dos filmes e das pessoas vomitando sei lá, odeio vomitar, já passei muita vergonha por causa disso. Depois tentei me jogar embaixo de algum veículo na avenida onde o posto fica, mas os carros diminuem quando eu chego perto. Me jogar de algum lugar alto nem pensar, morro de medo de altura.

Então li nos grupos de suicídio das redes sociais que eu poderia morrer com prazer. Drogas e cortes, meus favoritos. Cortar os pulsos na banheira, chapada e com os jatos ligados… até deixei escapar um sorriso. meu chefe-crush viu e logo me interpelou:

_ Com essa cara só pode tá pensando em safadeza, né?

_ Não deixa de ser. Preciso sair agora, você permite?

_ Mas ainda falta meia hora pro seu horário!

_ Só hoje vai? preciso ir na farmácia antes que feche à meia noite.

_ Tá bom vai...

Saí para comprar meu calmante e minha anfetamina. Gostava do barato dos dois misturados, eram os melhores me faziam sentir o mundo em câmera lenta, depois com os cigarros e com a 51 tudo ficava colorido e com mais sabor.

Estava saindo e dei de cara com a turma da noite indo para a festa de halloween. Eram tão jovens e limpos, e eu tão velha... Tínhamos a mesma idade e eu já estava pronta pra morrer, talvez eles levem a vida inteira pra viver o que eu já havia vivido até aqui.

_ Adri, termina de atender aquele carro pra mim?

Claudio me pediu com aquela carinha de cachorro. E eu não sei dizer não.

_ Mais alguma coisa Seu Otávio?

Quis ser simpática com meu cliente favorito.

_ Seu Otávio o que Adri! Tô velho não! Lava o para-brisa? tá um nojo.

_ Claro lavo sim.

Fui pegar o regador que sempre fica do lado da bomba, mas claro estava vazio. Eu já havia desistido de reclamar disso, os meninos do posto nunca colocavam a água, quando eu estava indo para o tanque repor eu pensei, foda-se, vou pegar o da outra bomba senão vou me atrasar. Meu último dia mesmo...

Fui para a bomba 3 que ficava bem próxima à rua, tinha caído um aguaceiro desde às seis da tarde e por isso uma poça gigante se formou na avenida. Pensei: perigo alguém derrapar. Já que os carros passavam num pau lascado por ali.

Então me abaixei pra pegar o regador da bomba e ouvi a pancada do Maverik no poste.

Nao deu tempo de nada, só fechei os olhos…

Juro que foi bom, não senti dor e felicidade maior não houve na minha vida até o momento em que ouvi meu homem chamar meu nome de novo.

E eu voltei a sentir medo.

21 de Maio de 2022 às 20:30 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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