valdir-junior1566867685 Valdir Rodrigues Bassouto Junior

Daniel é considerado um dos alunos mais problemáticos do Colégio Estadual Educador Estácio Meira, e passa grande parte de seu tempo no colégio na diretoria. Um dia, ao encontrarem material para um explosivo caseiro nas dependências do colégio, as suspeitas caem sobre ele. Na busca pelo verdadeiro responsável, descobre que as relações entre os alunos é mais conturbada do que aparenta e há problemas não resolvidos que podem ter consequências trágicas.


Suspense/Mistério Para maiores de 18 apenas.

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CAPÍTULO 1

Daniel levantou a cabeça ao ouvir as batidas na porta da sala de aula. Três batidas fortes intercaladas com uma fraca era sinal conhecido para os alunos do Colégio Estadual Educador Márcio Meira. Esfregou os olhos e bocejou. Aproveitando a demora da professora em responder ao chamado, verificou a matéria no quadro e viu que nada perdia, as fórmulas desinteressantes de sempre. Manteve a cabeça deitada nos braços sobre a mesa, observando a pessoa que apareceria na porta. Ele se vestia com o uniforme escolar, camiseta cinza e calça preta. Seu rosto mostrava os sinais de uma noite mal dormida e as olheiras destacavam-se mesmo em seu rosto moreno. Sempre acreditou não se destacar de seus amigos, um adolescente comum em tudo, ouviu muitas vezes e concordava intimamente, sentido raiva e nojo de si mesmo.

Nem ele ou seus colegas de sala surpreenderam-se ao ver a inspetora e caseira do colégio, dona Marta, entrar. Era uma senhora nos seus cinquenta anos, de cabelos loiros curtos, olhos azuis e o rosto que lhe dava o semblante de buldogue. Usava uma blusa roxa e calça jeans, com um avental branco por cima. Ninguém jamais a viu usando outras roupas.

— Com licença, professora. O aluno Daniel Marques foi chamado na diretoria. Pode liberá-lo?

Uma risada estridente, irônica e parecendo excepcionalmente exagerada veio da frente da sala. Daniel ficou de pé, e iniciou a caminhada assim que ouviu a inspetora dizer seu nome. Afastou o cabelo que caia pelos olhos e pela janela viu o céu acinzentado da manhã. Semana começando uma bela bosta, pensou. Aline termina comigo por mensagem no celular, perco vinte reais na rua, chego atrasado na escola e agora diretoria.

— Leve o material também. —Dona Marta disse.

Olhou nervoso para Diana, a loira patricinha dona da risada, o encarava com desdém e ria de satisfação. Xingou-a mentalmente de piranha a enésima vez em sua vida e abriu caminho entre as carteiras dos alunos, ouvindo-os cochichando e rindo baixinho, apostando qual seria o motivo que o fazia ser chamado a diretoria dessa vez.

— Dez minutos da primeira aula na segunda-feira é um recorde, não é? — Rafael, vizinho de mesa, sorriu ao perguntar.

Daniel mostrou o dedo do meio ao amigo, pegou a mochila pela alça e seguiu a inspetora até a sala da diretoria. Os dois se olharam no corredor apertado e ele não conseguiu perceber o que teria causado sua mais recente convocação. Diminuiu a velocidade dos passos e deixou a inspetora ganhar a frente dele no corredor do pavilhão que mal cabiam duas pessoas lado a lado. Olhou o chão de tacos na péssima iluminação que provinha de uma janela quebrada no fundo do corredor. O vento da manhã do inverno curitibano entrou e Daniel se arrependeu de ter deixado a blusa na mochila. Algum dia se interessariam em arrumar a infraestrutura da escola da mesma maneira que o perseguiam?

Entrando na sala da diretora, reparou primeiro nas fardas marrons, depois nos rostos das pessoas e deu de ombros. Atirou a mochila em cima da mesa, fazendo a diretora saltar para trás na cadeira, quase caindo. Eliane Andrade tinha os cantos do rosto chupado talhados a facão, olhos pequenininhos que ele nunca vira aberto por completo. Ela puxou a jaqueta preta com despeito e acenou positivamente aos dois policiais.

— Se levanta, piá. — Um dos policiais falou.

— Bom dia para você também, senhor. — Daniel disse se levantando e erguendo as mãos na altura dos ombros.

Ser revistado pela Patrulha Escolar da Polícia Militar lhe era natural igual respirar. Cabo Lúcio apalpou seu peito, costas, cintura, e calças, inclusive o saco, procurando qualquer coisa que o incriminasse. Pediu a Daniel que tirasse o tênis e batesse no chão. Nada caiu. Covarde, Daniel pensava. Um dia o policial o encontraria em uma situação desfavorável e não teria a proteção da farda. O outro policial, tirou os materiais de dentro da mochila e abriu todos os bolsos. Retirou uma carteira de cigarro amassada de um dos compartimentos.

— Você não aprende, né? — Cabo Arnaldo sacudiu o Marlboro na frente do garoto. Abriu a carteira e derrubou um isqueiro verde. Balançou a cabeça negativamente e jogou o material apreendido na mesa da diretora.

Assim que os policiais autorizaram, ele tornou a sentar na cadeira. A cabeça esfriou e ele reparou que ao lado de sua mochila e dos cigarros, além dos materiais de escritório, a tela do computador da diretora, e o porta canetas lotado de canetas e clipes, também havia matérias estranhos àquele ambiente. Uma garrafa verde de refrigerante vazia, um saco cheio de cal e outra sacola plástica com materiais que ele não sabia o que era.

— Entendi, entendi. — Ele sussurrou.

Sentiu um aperto no ombro. Era o cabo Lúcio. O policial tinha o tamanho aproximado de uma geladeira. Daniel não se lembrava de ter visto ele sem os óculos escuros, dando a impressão de gostar de ser o policial maldoso. Tentou resistir ao aperto o máximo que pode, mas a pressão era forte, então ele bateu de leve na mão do policial, que a retirou.

— O que você falou, piá? — Lúcio disse, voltando ao lado da diretora.

— Nada, senhor. Eu falei foi nada. — Daniel disse, esfregando o ombro esquerdo, agradecendo mentalmente por ele não ter sido esmigalhado.

A diretora sentou-se outra vez em sua cadeira e pediu ao outro policial, soldado Arnaldo, que ele fizesse a gentileza de verificar mais uma vez a escola. O policial saiu da sala sem dizer palavra, apenas os olhos pregados no aluno.

— Mais um dia, Daniel. — Elaine falou. Pegou uma gaveta de uma folha e puxou a caneta. — A gente não consegue passar uma semana sem que você venha aqui. Toda semana é a mesma coisa. Ligamos para sua mãe e ela está a caminho.

Cabo Lúcio puxou a sacola de cima da mesa e o volume dela concentrou-se no fundo, Num olhar rápido, Daniel confirmou a suspeita de que eram bolas de gude. Além das bolas de gude, uns pregos enferrujados rasgavam o plástico aqui e ali e ficavam enfiados sacola afora, quase caindo.

— Cigarro é de praxe achar contigo, piá. Teve aquela vez da maconha…

— Aquela maconha não era minha. — Daniel pulou da cadeira, indo na direção do policial.

— Não era sua. — Lúcio riu. — Não era sua. Tava na sua mochila e não era sua. De quem era, então?

— Sente-se agora, Daniel! — A diretora falou com a voz firme. — Você sabe para que serve esse material?

Daniel obedeceu à ordem, mas ficou em silêncio após ouvir a pergunta. Olhou com pouco interesse ao material e encarou o chão, contando o número de tacos que havia na sala.

— Piá, piá, faz tempo que você anda pisando fora dos limites. — O policial colocou a sacola com os pregos e bolas de gude no colo de Daniel e pegou o saco cheio de pó branco. — Você sabe o que é isso aqui?

— Não sei não, senhor. — Daniel falou. Ergueu o saco e admirou a quantidade de material na sacola. A pessoa que fez isso não veio para brincadeira, ele pensou. Veio para machucar sério.

— É cal, piá. Cal virgem. Sabe para o que usam, não sabe? — Lúcio falou, se agachando e ficando com o rosto na altura dele.

Daniel balançou a cabeça em negativa. Sentia o coração batendo mais rápido e o cheiro da cal subindo ao seu nariz, o policial balançando a sacola.

— Sabe sim, aposto que sabe. Você é um cara esperto. — Lúcio disse.

— Sei não, senhor. Minhas notas em química e biologia são uma bosta.

— Maneire a linguagem vulgar, Daniel. — Elaine disse.

— Desculpe, senhora, mas tenho notas ruins.

O silêncio caiu na sala. Ficaram os três se encarando e Lúcio ergueu-se outra vez, tirando a sacola com o pó e o material perigoso do alcance de Daniel, colocando outra vez na mesa. Daniel sentia o policial emanando agressividade para ele e acreditava que se não fosse o ambiente escolar, já teria levado uma coça. Mas ali havia testemunhas, a diretora e a mãe dele estava para chegar. Lúcio não se arriscaria.

— Se você fosse maior, teria te levado sob custódia já. — Lúcio encostou-se na mesa e cruzou os braços na frente do peito. — Com esse material, dá pra construir uma bomba. A cal gera gás, explode a garrafa e lança as bolas de gude longe. É um atentado terrorista. Coisa de gente que vem armada pro colégio e atira nos colegas.

Daniel riu. Ah, o problema de ser o alvo. Obviamente ele sabia para que o material servia. Era um piá jovem ainda, no final das contas, mesmo que algumas preocupações de adultos se metem-se na vida aqui e ali.

— Acha graça na ideia de machucar os amigos? —Lúcio continuou falando baixo, ajustou os óculos na cara. — Você mostra desrespeito pelos outros mesmo. Vive fumando naquele canto do colégio, junto com os outros irresponsáveis. Qualquer dia que a gente venha aqui é só ir até lá, sem pensar. Está lá você e os outros já te pegamos com droga e agora no local favorito seu…

Deixou a voz morrer e apontava para os materiais da bomba. Silêncio novamente.

— Você trouxe esse material para o colégio? — Elaine disse.

— Não, senhora.

— Se esse material não é seu e você sabe de quem é, está sendo cúmplice. Entende? — Lúcio disse.

— Entendi, mas não é meu e não sei de quem é. — Daniel disse. Encolheu-se na cadeira e bocejou.

Cabo Lúcio ergueu as mãos abertas. Nesse momento, as três batidas familiares de dona Marta interromperam a tensão. Ela pediu licença e disse que a senhora Bárbara, mãe de Daniel, chegou.

A mulher entrou na sala com a irritação impressa no rosto, olhos e lábios tremendo, e fuzilou o filho com o olhar. O garoto virou o rosto para o outro lado e esperou. Esperou o policial se apresentar, a diretora cumprimenta-la pela enésima vez, esperou eles contarem o histórico para a mãe dele, como se fosse alguma novidade e esperou eles falarem a nova acusação que tentavam pesar nas costas dele.

— É um absurdo um negócio desses, dona Elaine. Estão acusando meu filho disso?

Daniel não acreditou nas palavras que ouviu saindo da boca de sua mãe. Virou-se na direção dela e viu a cena da senhora que precisava pintar os cabelos e utilizava uma combinação de roupas escolhida à pressa levantar-se como ele fizera há pouco. Reparou que os dois não tentaram intimidá-la como fizeram com ele.

— Ninguém acusou nada, senhora — cabo Lúcio interveio — apenas devido ao histórico do seu filho, nós…

— E agora o menino é terrorista? Vocês estão loucos?

A diretora abriu a boca, mas a mãe levantou a mão interrompendo-a.

— Deixe eu terminar, por gentileza. Olha, sei que ele dá problema direto. A gente se entende nisso. Mas bomba? E no mais, acharam isso com ele, pelo menos? Nada disso. Foram claros em dizer que estava jogado num canto do colégio. Não, não me interessa se ele, ou amigo dele, fulano ou beltrano vão lá, é uma área onde qualquer um tem acesso. É área comum, não é área comum?

— É sim, mãe, mas…

— Mas nada, dona Elaine. Alguém escondeu lá. Meu filho chegou atrasado no colégio hoje e foi direto para a sala de aula. Ou vocês mentiram para mim? Porque recebi mensagem avisando que ele chegou atrasado em uns vinte minutos. Que tempo ele teve de ir lá esconder?

— Ele pode ter largado outro dia, ontem, por exemplo, ou sexta, depois da aula. Teu filho costuma aparecer aqui no colégio visitar o pessoal da noite a senhora sabe…

— Sim, senhora, eu sei. — Olhou para Daniel. — É assunto pra depois, mocinho, não pense que esqueci de você. Mas voltando ao nosso assunto, dona, choveu ontem. Choveu. Como que essa cal tá seca? É óbvio que foi alguém hoje e vocês perdendo tempo acusando meu filho.

A diretora, o policial e o aluno ficaram com o queixo suspenso, observando a mulher colocar a mão no peito, puxar o ar e voltar a sentar-se. Cabo Lúcio e Elaine desmancharam-se em desculpas, frisando a parte problemática do comportamento de Daniel e o liberaram para a aula.

— Em casa teremos mais conversa. — Bárbara falou, logo que ele se aprontou para sair da sala. — Não pense você que eu me esqueci das presepadas.

— Sim, senhora.

9 de Maio de 2022 às 16:43 0 Denunciar Insira Seguir história
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