pedrolsiqueira Pedro L. Siqueira

Quando um menino descobre que ele é o herdeiro de um reino mágico, ele tem que lutar contra o rei do reino inimigo para salvar as peças sagradas de sua infâmia. No meio do caminho ele tem que lutar contra si mesmo pela vontade de ter ao seu lado o seu grande amor para salvar a todos.


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Em progresso - Novo capítulo Todas as Sextas-feiras
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Correndo para a Morte

A senhora Antunes falava aos quatro ventos que era a mulher mais perfeita do mundo. Tinha um pescoço duas vezes maior do que o normal, o que era muito útil, pois passava boa parte do seu tempo o espichando pelas janelas.


O senhor Antunes era um total desligado do mundo, e sua mulher com uma quase que tradicional diária passada de notícias sobre a região, o deixava apar de todas as confusões e coisas importantes demais para deixarem de serem ditas.

O tema da atualização de notícias hoje foi a mudança da nova vizinha, com que teriam um encontro no outro dia. Enquanto comiam, viam pela janela da cozinha os móveis sendo carregados do caminhão até a casa da mulher. O gato do Sr. Antunes, Pitucho, na sua cadeira reservada na mesa. Procuravam até o último motivo aparente para falar maldades. Estava decidido, decidiram não gostar dela.


O Sr. e a Sra. Antunes tinham um filho, Lucas, que era tão desobediente às regras tanto quanto o pai era desligado do mundo. Eles guardavam um segredo terrível do garoto. E fariam de tudo para que ninguém descobrisse nada sobre isso. O menino era herdeiro do trono do reino mágico de Electorum. E esperavam que um arauto, um mensageiro, vinhesse pega-lo e levá-lo para as terras distantes. Eles choravam só de pensar nessa possibilidade.


O garoto há uma semana atrás havia sido suspenso mais uma vez do colégio por não querer pedir desculpas ao professor de biologia. Ele o havia chamado de boboca e lesado por dizer que mulheres nasciam para procriar e lavar louças. Ele não ligava muito para as consequências dos seus atos. Justiça, era o que importava.


A mãe de Lucas, a Sra. Rosa, dizia que mulheres nasciam sim para procriar e cuidar dos seus esposos e filhos, e também falava que o professor Glauber tinha cara de sapo. Ele concordava com esse ponto.

Lucas estava trancado no seu quarto, olhando as crianças brincando pela janela. Ele sentia que algo em sua vida tinha que mudar.


Podia ouvir gritos de excitação vindos da TV na sala de estar, lá embaixo, o comentarista do tempo do jornal da noite dizia que amanhã as pessoas poderiam ver à noite no céu uma aurora boreal. Lucas imaginava a mãe com os olhos arregalados enfrente à TV tentando ver o que nem ao menos alí havia. O comentarista ainda falava que ainda não se sabia o real motivo para o aparecimento dessa aurora, mas que seria divertido vê-la com a família.


A mãe desligou a TV e subiu a escada. Seu pai, o Sr. Bernardo, já deveria estar dormindo. Lucas abriu a porta do seu quarto com um friso escondido, e espiou com a cabeça pelo corredor. As sombras tremeluzentes que saiam do quarto dos seus pais denunciaram que sua mãe discutia abaforada com seu pai. A mãe abanando as mãos como que pedindo por socorro e o pai, aluado, com as mãos na cintura.


Ele tentou chegar mais perto da porta do quarto para ouvir o que eles diziam.


- Chegou a hora, Rosinha. - Escutou seu pai falar.


- Não, não pode ser. - Falou com lamúria sua mãe. - A resposta dele. Não tem nenhum amigo. Mas ela vai fazê-lo ficar! - Disse como se tivesse achado uma solução para seu problema. - Daniel não vai ter o que quer mais uma vez.


- O deixe ir. É a única forma, e você sabe disso. A decisão é dele. - Concluiu ele reprimindo uma gargalhada.


- Não...


- E fazer o quê? Contar a ele mais uma vez aquela história? - Ele a entrecortou.


Lucas tentou procurar em sua mente que história seria essa que seu pai falava com tanta repulsa. E se lembrou que sua mãe lhe contava uma história e que toda vez que a contava, seu pai revirava os olhos. Pouco se lembrava desta história, mas ainda se recordava que consistia em um homem que saiu de casa e nunca mais voltou e que agora andava pelas ruas chamando crianças para a escuridão. "Torturava", pensou Lucas. A palavra não era muito bem essa, mas no fim de tudo a história passava a idéia de morte. Uma história de terror que o fez perder várias noites de sono, apesar de já ter 16 anos. Ele assumia, tinha muitos medos. E um deles era o da morte. Tinha toda certeza que se tivesse que lutar contra o fantasma dela, perderia.


- Ela fez efeito até agora. - Disse Rosa, se referindo ao conto de terror.


- Porque o momento ainda não havia chegado. Não há o que fazer. - retrucou o senhor Bernardo com rancor.


Lucas não entendia muito bem que relação uma história de terror, que sua mãe lhe contava, tinha haver com uma decisão sua, mas parecia ser algo importante. Muito importante. Seus pais nunca descutiam assim.


- Não, a decisão é minha. Eu que sou sua responsável. Eu que sou sua mãe! - Disse a mulher com emoção.


Por um momento tudo ficou em silêncio, até que ele ouviu sons de passos para o corredor. E saiu correndo sorrateiramente de volta para o quarto.


Se deitou na cama e fez que dormia, a mãe entrou no quarto, foi até ele e lhe deu um beijo na testa.


- Ela não estava trancada? - Estranhou o pai.


- Eu te amo, meu filho, mais que tudo. Você vai ficar comigo para sempre, não é? Filho? - Insistiu a Sra. Rosa aflita.


Sem resposta, deu meia volta e saiu do quarto. Por reflexo, Lucas abriu um olhinho para ver o que acontecia. O pai espreitava pela porta com uma cara de grande satisfação no rosto, mas que mudou assim que a esposa focalizou seu rosto, uma raiva contida. Lucas pensou ter visto uma frase escrita com letras verdes maiúsculas atrás da porta "É chegada a hora", ele não entendeu, devia ser o sono o fazendo imaginar coisas. Ele o pegou com força e não teve escolha. Somente dormir.


O outro dia foi monótono. Para não ficar de castigo, Lucas foi forçado a armar a árvore de natal e a lavar o carro para o pai. O que era irônico, pois ele já estava proibido de sair de casa por algum motivo que ele não sabia bem o porquê. Sentiu que alguém o observava. Teve quase toda a certeza do mundo que um cachorro falou com ele enquando passava. "A escolha será feita", pensou ter ouvido.


- Oi. - Escutou alguém dizer. Lucas deu um pulo, bateu sua cabeça no capô do carro. Sabia exatamente de quem era essa voz.


- Oi? - Disse ele se aprumando.


O pai de Lucas olhando tudo pela janela da cozinha.


- Eu sou o novo vizinho. - Lucas viu que o menino tinha olhos muito azuis. Era Henrique, um idiota da escola. Eles nunca se falavam, mas por incrível que pareça, o menino sempre estava por perto. Às vezes chegava a pensar que ele era um fã não declarado.

- Oi. - Ele não sabia o que falar. Como ele tinha tanta cara de pau para falar com ele depois de tudo o que fez?

O menino riu.

- Está lavando o carro? - Ele disse, por algum motivo procurava um motivo para falar com ele. Com toda certeza estava aprontando alguma coisa. A mão de Lucas se fechou em um punho, tinha ódio dele.

- Sim. - Lucas falou cautelosamente.

- Olá. - Era o pai de Lucas. O menino não tinha visto ele chegar. - Lucas, entre. - Falou com a cara amarrada.


- Até mais, Lucas. - Se despediu o garoto.

- Ok. - Disse ele agradecendo ao pai em silêncio.

Foi para a cozinha. Estava morto de fome. Um cheiro bom no ar.


- O que é o almoço? - Perguntou ao pai que cozinhava.


- Como assim, qual o almoço? - Perguntou ele com um grande sorriso no rosto. - Pegue, Pitucho. - Disse chamando o seu gatinho.


- E o que eu vou comer, então? - Falou o garoto vendo o pai depositar toda a comida que cozinhava para a panela do gatinho. Ele grunhiu para Lucas. A comida parecia saborosa.


- Mas o que eu vou comer?


- Tem pão e água. - Disse o homem com uma alegria incontestável no rosto. Lucas comeu os poucos pães que haviam e em seguida o pai veio lhe avisar com felicidade que teria de limpar o banheiro. Sentia uma raiva sem tamanho dele, mas não dizia nada para não deixar a mãe triste. - Encare isso como um castigo, não fale com estranhos.


Agradecia a todas as divindades que logo, logo iria completar dezoito anos e iria para a faculdade. Teriam visita naquele dia e o rabugento de seu pai falara que a mãe dele não queria que fosse tratada de qualquer forma. A mulher passara o dia inteiro no cabeleireiro.


Sem dúvida alguma a mãe nunca falara isso, mas ele respeitava o pai, por mais que o achasse insuportável e sem graça. Neste momento ele gostava tanto da idéia de ser adotado, mas logo se desfez dela. Porque não suportaria pensar que sua vida, até agora, fora uma completa mentira. Ele continuou o seu trabalho. Quando terminou de fazer tudo estava tão cansado e já era a hora do jantar. Tomou um banho, trocou de roupa e desceu para a cozinha a luz do pisca-pisca enchendo a sala de estar. Olhou a volta e viu uma mulher, com um grande sorriso e de olhos muitos castanhos como o seu, no sofá da sala junto com um menino. Ela também exibia um colar muito brilhante, que chamou muito a atenção de Lucas. Ele já tinha visto essa mulher em algum lugar.


Ele não gostava muito de conversas chatas de adultos ou qualquer coisa do tipo, então se sentou na mesa. A mulher teve um visível desapontamento no rosto. Lucas não ligou, adultos eram chatos.


Os pais conversavam energeticamente com a mulher sobre a vizinhança. Dizendo quais vizinhos eram bons ou maus. "Dizem que somos uma referência, pode contar conosco" disse com uma piscadela a Sra. Rosa. Depois de alguns minutos esperando eles irem para a mesa de jantar, ele resolveu tirar um cochiclo, o dia havia sido cansativo. Não seria problema algum tirar um cochilo por alguns instantes. E ninguém perceberia, afinal, estavam todos conversando entretidos. Então, pôs um óculos escuro no rosto e se endireitou na cadeira para fingir que estava acordado. Antes acenou para o pai, que respondeu com um sorriso amarelo. Enfim, dormiu.


Ele teve um sonho anormalmente estranho dos que já tinha tido. Havia um grande salão com tapetes finos e grandes quadros de pessoas penduradas nas paredes. Um imenso lustre pendia do teto que era tão iluminado que seria impossível só um daquele tamanho ilumina-lo daquela forma. Com um susto, Lucas ouviu uma voz um tanto familiar.


"Chegou sua hora, garoto", ele olhou para o local e havia um homem de cabelo caramelado com vestes largas muito brancas o olhando do trono no fim do salão.


"Quem é você?", Lucas tentou dizer. Mas as palavras não saiam.


"Você tem uma grande escolha a fazer", continuou o homem que tinha roupas largas demais para ele. "Uma escolha que mudará a sua vida" falou com tanta rispidez que Lucas pensou em estar falando com seu pai.


O homem se levantou do trono.


"Faça essa escolha com sabedoria. Você não poderá voltar atrás."


Lucas acordou com garfadas do seu pai. Quando acordou, tentou se lembrar do sonho, lembrava-se claramente das palavras do homem, "escolha com sabedoria"."sim", pensou. Não tinha nada a perder. Percebeu que o menino que havia visto era Henrique."Docinho, você não ouviu nada do que nós falamos pelos últimos trinta minutos?" Perguntou a mãe. Acenou em desaprovação. "Insolente como..." Ouviu o pai dizer, mas não se importou. Olhou pela janela da sala e viu que chovia. E teve uma vontade enorme de ir lá fora. Ele tinha que ir lá, isso que importava. Era como uma missão. Sentia que nesse momento a única coisa que tinha que fazer era isso.


Saiu da mesa, com a mulher estranha, a Sra. e o Sr. Antunes e Henrique o olhando sem reação. "Querido, temos que conversar", escutou a mãe falando. Caminhou até a porta, "para onde você está indo, filho?". Um murmúrio passou entre os sentados à mesa. Abriu a porta da frente "para onde você pensa que vai?" Falou o senhor Antunes. "NÃO, NÃO PODE SER." gritou Rosa. Lucas correu até a porta e a escancarou. Pitucho enroscou no fio do pisca-pisca e saiu arrastando a árvore para a frente da casa. O vento frio enchendo a casa.


Ele sentia uma alegria inexplicável por fazê-lo. Como se tivesse tomado uma grande dose de serotonina. Nunca havia sentido isso. Caminhou pelo gramado. Botou os pés na terra molhada, ainda podia sentir o cheiro do mormaço. A aurora boreal agora cintilando no céu com os mais diversos tons esverdeados. Via com facilidade as várias estrelas no céu.


Correu pela terra até chegar ao asfalto, ocorreu-lhe um pensamento, enquanto seus pais e as visitas olhavam da sala de estar sem saber o que fazer. "Será que estou fazendo a coisa certa?" Mas ele tinha que fazer isso, ele sentia. Nunca tinha sentido tanta felicidade assim. Tinha prazer nisso. Nada mais importava. Continuou a correr pelo asfalto molhado e escutou os gritos estridentes de sua mãe, a chuva caindo sob a sua cabeça. Olhou para a casa e o que viu o intrigou ainda mais, não entendia porque, seu pai ria e chorava ao mesmo tempo, pela janela. Enquanto a mãe estava desesperada correndo ao seu encontro, mas ela nunca conseguiria o alcançar. Ele corria como em uma maratona olímpica. Não sabia como, mas corria muito rápido. Ele cogitou voltar, mas seus pés estavam fora do seu controle. Alí sua felicidade estava acima de tudo. Deixou a casa para trás. Henrique corria para a floresta.


- Lucas, meu filho, por favor volte aqui. - Os cachos perfeitos da mãe se desfazendo na chuva.


Continuou a correr e os gritos dela se tornaram mais fortes. As pessoas nas casas, em suas janelas com suas xícaras de café emanando fumaça olhavam curiosas para o céu. Sua mãe no asfalto, seu pai a segurava por trás pelos braços. Ele acenou com a cabeça como que dando permissão. Ele agora chorava. E sua mãe também chorava descontroladamente, fazendo seus joelhos cederem, parecia que ela segurava um grande fardo em suas costas.


Por um segundo ele conseguiu dar alguns passos para trás, mas depois continuou a correr. "Adeus", tentou dizer. Pensava em ser uma despedida. Ele sentia isso. Não sabia explicar, mas ele tinha que dizer isso. Ele ria tanto que suas bochechas doíam pelo esforço de sua boca estar tão escancarada. "Será que eu estou fazendo o certo?"


- Adeus - falou. E sentiu um grande peso de suas costas cair. A aurora boreal cintilou mais forte dessa vez e emanou como se fossem raios verdes em várias direções.


Entrou na floresta e sua mãe ajoelhada chorando no asfalto, e seu pai a consolando junto à sua casa, que morou toda a sua vida, foram deixadas para trás e deram lugar a um vazio.


Poucos pingos de chuva conseguiam passar por entre as folhas das árvores. Andentrou mais entre a mata. Correu ainda mais. Passou por um grande ajuntamento de coelhos. Pontinhos brancos em sua visão pulando para todas as direções. Passos vindos da vegetação. Sentiu medo, se lembrou do conto de terror que sua mãe lhe contava. Continuou a correr para longe. Um gosto em sua boca. Gosto de morte. Seus pés doíam. Até que ele tropeçou. Os vagalumes, usando as árvores como proteção da chuva, emitindo sua luz verde permitiram com que ele exergasse um pouco as coisas pela escuridão ao seu redor.


A floresta era um vazio. Nenhum animal ou vento. Tudo parado. Sem vida alguma. Há não ser no céu, com a aurora boreal, que parecia dançar ao ritmo de uma música agitada, soltando raios verdes nas mais diversas posições. Por um momento ele pensou que estava sozinho ali, mas então ficou em estado de choque, quando viu uma sombra preta se mover como um raio em sua direção e algo bater com força em sua cabeça.

13 de Junho de 2022 às 02:06 0 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Pedro L. Siqueira Um estudante qualquer de engenharia com um bolso cheio de sonhos doido por contar histórias. Ler e escrever são minha salvação.

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