jn_silva Jaíne Silva

Minas Gerais, 1920. O jovem médico Bernardo Garcia só desejava independência pessoal e bom êxito em sua carreira profissional quando se mudou para Entre-Montes, cidade interiorana do triângulo mineiro. Para sua sorte, assim que chega à cidade encontra seu primeiro caso a atender: a filha do poderoso e influente coronel Linhares. O rapaz só não esperava uma coisa: enamorar-se da paciente. A moça, porém, já foi prometida a outro e o sistemático coronel Linhares não costuma voltar atrás em suas decisões.


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Capítulo 1

A maria fumaça balançava de um lado para o outro sobre os trilhos de ferro, percorrendo sua trajetória com destino a Entre-Montes, localizada no triângulo mineiro. A cidade interiorana, algumas décadas atrás pouco mais que um vilarejo, havia se desenvolvido consideravelmente nos últimos tempos devido à crescente produção do café e do leite. No dizer de certas línguas (com evidente exagero) a cidade já não estava longe de se tornar, em pouco tempo, uma metrópole.

De um lado e de outro da ferrovia, montes verdes se erguiam, ao encontro do céu claro daquela manhã de abril. Os sacolejos do trem, em certos momentos, quase faziam despertar o rapaz sentado junto à janela, que ressonava profundamente segurando uma mala junto ao peito. Havia sido uma longa viagem, desde Diamantina até ali.

O recém-formado doutor Bernardo Garcia havia voltado há pouco tempo de São Paulo, onde estivera uns bons anos metido nos estudos. Voltara para Minas trazendo consigo o tão sonhado diploma de Medicina, para o orgulho do pai. O Sr. Joaquim Garcia sempre fizera questão de que o filho se tornasse doutor. Doutor em Direito, como ele, ou doutor em Medicina, se o rapaz o preferisse. Embora não fosse um homem de grandes posses, dispunha de um patrimônio razoável, parte do qual fora investido na formação do filho. Da outra parte das despesas acadêmicas, se encarregara o padrinho do rapaz, que lhe tinha muito apreço e tanto quanto o Dr. Joaquim queria ter a satisfação de ver o afilhado bem formado.

Foi à procura de trabalho e de independência pessoal que o jovem médico deixara para trás sua terra e família e embarcara na locomotiva. O Dr. Joaquim considerou que a experiência poderia ser muito positiva para o filho, no final das contas. Afinal, já era um homem feito e estava mais do que na hora de tomar as rédeas de sua própria vida. Caminhar com as próprias pernas e conquistar o pão de cada dia pelo próprio esforço contribuiriam muito para o amadurecimento do rapaz. Não que este, alguma vez, tenha lhe dado algum desgosto; ao contrário: Bernardo soubera aproveitar muito bem a oportunidade que o pai e o padrinho lhe deram. Dedicou-se com afinco aos estudos, anos a fio, deixando (não poucas vezes) de participar dos divertimentos da vida social do qual desfrutavam os rapazes de sua idade. A medicina era sua paixão e o brilhantismo do mineiro logo fez fama entre os colegas paulistas.

Mas como dizia o velho Joaquim, maturidade e senso de responsabilidade nunca eram demais na formação de caráter de um homem. E se a experiência de construir uma vida nova longe dali viesse a somar positivamente no amadurecimento de seu filho, ele lhe dava total apoio e abençoava sua decisão. Foi assim, com a benção dos pais e algumas economias nos bolsos, que o rapaz deixara Diamantina e partira em direção ao triângulo mineiro. Sentia necessidade de construir sua vida por si mesmo, colocar em prática todo o aprendizado adquirido nos anos de faculdade e principalmente, cumprir seu principal objetivo de vida: servir às pessoas por meio de seu trabalho, aliviar suas dores, curar suas mazelas, devolver-lhes alegria e o gosto de viver.

O apito do trem soou alto e agudo ao chegar à estação. Bernardo acordou atordoado, tentando se localizar. Havia dormido por tanto tempo e tão profundamente, que havia esquecido totalmente da viagem. Um velho senhor sentado ao seu lado, notando a perturbação do moço, pousou-lhe uma mão no ombro e disse polidamente:

- Com licença, cavalheiro, já chegamos ao destino...

- Oh, sim. Eu lhe agradeço – respondeu o rapaz aprumando-se no assento e alinhando as vestes e o chapéu na cabeça, antes de apanhar a bagagem.

A estação ferroviária estava lotada. Bernardo desceu com as malas da locomotiva e, abrindo caminho entre as pessoas, seguiu seu caminho. Estranhou, a princípio, não haver ninguém à sua espera. Alguns dias antes, seu pai havia escrito para uma velha prima residente na cidade, avisando-a da chegada do filho e pedindo que o recebesse em sua casa por um tempo, até que o rapaz conseguisse se instalar em outro lugar. A carta ainda não havia tido resposta, mas nem precisava, pois Dona Matilde sempre fora muito hospitaleira e nunca negava favores a nenhum de seus parentes.

Sem se importar com a ausência da anfitriã, Bernardo seguiu seu caminho em direção ao endereço da velha senhora, lembrando-se das orientações que seu pai lhe dera. Saindo da estação, cruzou algumas ruas, dobrou algumas esquinas e depois de passar pela Praça Central, diante da qual uma catedral imponente se erguia, chegou a uma pequena casa cor de lavanda, com um portãozinho de madeira na frente, e floreiras sob as janelas, repletas de violetas. Colocando as malas na calçada, o rapaz bateu palmas e chamou:

- Ó de casa!

Alguns minutos depois, a porta se abriu e uma moça desconhecida veio até o portão, secando as mãos num avental xadrez.

- Pois não?

- Bom dia... – disse Bernardo amistosamente, tirando o chapéu da cabeça em sinal de respeito - Meu nome é Bernardo Garcia, filho do Dr. Joaquim Garcia, primo de Dona Matilde Loureiro. Ela está em casa?

- Matilde Loureiro? – perguntou a jovem senhora refletindo por um tempo, com ar de estranhamento no rosto. – O senhor me desculpe, mas eu não conheço ninguém com este nome.

Bernardo ficou desconcertado. Será que havia errado o endereço? Era provável, pois nunca havia vindo a Entre-Montes. No entanto, seu pai, alguns dias antes, havia lhe ensinado o caminho até o endereço da prima, e segundo ele, não havia erro. Até a aparência da casa se encaixava perfeitamente na descrição que o pai fizera.

- Ora, não é possível... – disse o rapaz bastante surpreso. – Meu pai me disse que ela é bastante conhecida por aqui. A senhora deve se lembrar dela, é uma mulher de idade, usa óculos, pelo o que sei é costureira...

Foi então que a expressão no rosto da moça foi se desanuviando e ela começou a rir.

- Ah, o senhor está falando da Dona Dedé... – disse ela, dando um tapinha na testa, como se se repreendesse por não lembrar.

- Sim, eu não sabia que ela tinha este apelido... ela está?

- Olha moço, ela não mora mais aqui já tem um bom tempo. Me parece que foi embora, morar com uma das filhas. Já têm uns três meses que meu esposo comprou esta casa e nos mudamos para cá.

- Compreendo... – respondeu Bernardo, ligeiramente desapontado.

Então era este o motivo pelo qual a missiva não tivera resposta.

- O senhor estava precisando muito falar com ela? – perguntou a mulher, com certa curiosidade.

- Na verdade eu vinha pedir hospedagem a ela por um tempo, até que eu conseguisse me organizar por aqui. Meu pai escreveu a ela alguns dias atrás, pedindo que me recebesse. Eu acabei de me mudar para a cidade e esperava contar com a ajuda dela.

- É, eu estou vendo mesmo... – disse a mulher, correndo os olhos pelas malas no chão. – Mas se o moço está precisando de um lugar para ficar, perto da praça ali atrás tem a pensão do seu Manoel Coelho. Dizem que o preço é salgado, mas vai lhe servir enquanto o senhor não encontra um lugar melhor. É o casarão verde, cruzando a praça, perto da barbearia.

- Está certo, eu lhe agradeço muito – respondeu Bernardo educadamente, colocando de novo o chapéu. – Tenha um bom dia!

E apanhando as malas na calçada, fez o caminho de volta, enquanto a mulher entrava em casa.

Enquanto caminhava, o jovem pensava em como faria para se adequar à situação imprevista e se o dinheiro que trazia consigo seria suficiente para se hospedar por algum tempo na pensão, até que conseguisse trabalho. Foi absorto nesse pensamento que o rapaz se colocou a atravessar a rua, em direção à calçada do outro lado, e nem percebeu que, a certa distância, uma charrete vinha ligeira e tresloucada de encontro a ele.

Não houve tempo para impedir o choque. O barulho da colisão foi alto o suficiente para se fazer ouvir na rua inteira. Imediatamente as calçadas se encheram de curiosos que cobriam a boca, cheios de espanto, e se acotovelavam entre si para conseguir um bom lugar onde pudessem assistir claramente à confusão. Bernardo foi arremessado para o lado, com a força do impacto, e as malas se espalharam todas pela rua. Quando olhou para cima, só conseguiu ver a sombra castanha de um cavalo que se empinava sobre ele, e apenas teve tempo de rolar para o lado antes que as patas do animal descessem e atingissem seu rosto. O cocheiro saltou da charrete, apavorado, amassando o chapéu de palha entre as mãos e bradando aos céus:

- Minha Nossa Sinhora! Minha Nossa Sinhora! Eu venho da fazenda pra tentá impidí uma disgraça e quase faço ôta! Me acode, meu Deus do céu!

E rapidamente correu para tomar o cabresto do cavalo, procurando acalmar o animal antes que a confusão ficasse maior. Ao redor, o burburinho das pessoas só aumentava.

- Mas o que é isso?! O senhor é louco?! – gritou Bernardo indignado, tentando se levantar do chão.

Estava com alguns arranhões no rosto e as vestes em completo desalinho.

- Me discurpa, me discurpa, sinhôzinho, pelo amor de Deus! Eu num queria atropelar o sinhô não, eu juro que num queria... - dizia o homem correndo para ele, tentando, com grande afobação, ajudá-lo a se colocar de pé.

- Me solte, estou bem – disse Bernardo se levantando, esquivando-se do homenzinho e batendo a poeira da roupa. – Já chega, não foi nada, já disse que estou bem...

O homem amassava o chapéu de palha entre as mãos e coçava a cabeça, olhando para os lados ou para o céu, com aflição, murmurando mil jaculatórias a Nossa Senhora.

- O sinhôzinho num machucou mêmo não? Óia que a batida foi feia... o sinhor me perdoa mais uma vez, eu num tive a intenção de machucar o sinhor não...

- Se acalme, homem, já disse que não foi nada! – respondeu Bernardo com certa impaciência, enquanto recolhia o chapéu do chão e batia a poeira, antes de colocá-lo de novo na cabeça. – Mas me diga: onde é que o senhor ia com tanta pressa?

- Eu sô empregado do coroné Linhares, lá da Fazenda Pedra Azul, sabe? – respondeu o homenzinho, ainda em tom apavorado, enquanto via Bernardo mancar pela rua, recolhendo seus pertences espalhados. - A fia do ômi num tá nada boa, tá adoentada já faz tempo, amufinhada em cima duma cama. Acontece que hoje a minina acordô pior e o coroné me mandô vim ligêro pra cidade, buscar um dotô!

Bernardo parou e voltou-se para ele, com uma expressão mais leve no rosto.

- Ora, pois eu sou médico...

- Num me diga! – disse o homenzinho impressionado, quase sem acreditar.

- Pois sim, acabei de me mudar para cá hoje mesmo, à procura de emprego. Estava justamente à procura de uma hospedagem, quando o senhor veio... – disse Bernardo, achando graça do assombro do cocheiro.

- Ara, e eu quase que mato o dotô! Mais num é pussíve...

- Uma feliz coincidência, apesar de tudo – disse Bernardo terminando de recolher as malas e estendendo a mão para cumprimentar o cocheiro. – Meu nome é Bernardo Garcia, muito prazer.

O homenzinho rapidamente tirou o chapéu da cabeça e estendeu a mão para apertar a de Bernardo, com certo ar de solenidade.

- O prazer é meu, dotô. Eu sô o Sebastião, mas o sinhô pode me chamar de Tião, é como todo mundo me conhece por aqui.

Após cumprimentarem-se, Bernardo rapidamente voluntariou-se:

- Bom, os meus préstimos estão à sua disposição. A não ser que o coronel tenha preferência por outro profissional em específico...

- Uai, se o dotô puder me ajudar, eu fico muito agradecido. A minina tá ruim de tudo lá, o coroné me mandô vortá o mais ligêro que desse.

- Pois vamos lá, vamos ver o que posso fazer.

O rosto do cocheiro rapidamente se animou.

- O dotô pode subir na charrete então, podexá que as mala eu mêmo ajeito...– disse Sebastião, pegando a bagagem das mãos de Bernardo e fazendo menção para que ele subisse na charrete.

- Mas espere aí Tião, antes o rapaz precisa de um copo d’água e tomar um fôlego, para se refazer do susto! - disse um homem, entre os muitos curiosos que espiavam das calçadas.

- Ara, Onofre, nóis num tem tempo pra isso não! – respondeu o cocheiro.

- Não há com o que se preocupar, eu estou bem – reafirmou Bernardo para as pessoas paradas na rua, que continuavam a olhá-lo com espanto.

O rapaz subiu na charrete, ainda mancando de um lado, enquanto Sebastião terminava de acomodar a bagagem. Depois, subindo também e se acomodando, o cocheiro tomou as rédeas e tocou adiante.

- Vamo, Diamante, que o coroné tá esperano o dotô.

A charrete foi seguindo e sumiu no final da rua, enquanto os curiosos a acompanhavam com o olhar.

3 de Abril de 2022 às 22:43 4 Denunciar Insira Seguir história
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Pedro L. Siqueira Pedro L. Siqueira
aaaaa que amor
May 11, 2022, 17:05

Nunu Wolf Nunu Wolf
MAS ESSE SOTAQUE MINEIRO TÁ ME MATANDO DE RIR KKKKKKK TODO MUNDO CONHECE UM TIÃO! Amei sua escrita! :)
April 24, 2022, 02:23

  • Jaíne Silva Jaíne Silva
    Hahaha obrigada! Como sou mineira, esse sotaque não deu trabalho nenhum para escrever kkkk só dei uma exageradinha, para ficar mais engraçado. Fico feliz que tenha gostado :D April 24, 2022, 14:29
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