wesleydeniel Wesley Deniel

No Japão de fins da Segunda Guerra Mundial vivia Sachiko Yamazaki. Seus quase cem anos permitiram que visse muito (não que o mundo tivesse coisas boas a lhe mostrar por aqueles dias), experimentasse muito e se tornasse uma luz para os que ainda soubessem onde olhar em meio à devastação. Vivendo somente com seus animaizinhos, tudo o que lhe restava era aguardar e orar pelo futuro. Acompanhe sua história de luta e amor e descubra como a bondade pode estar presente mesmo no mais terrível dos eventos de nossa história.


#2 em Drama Todo o público.

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UM SOL NASCENTE E UM SOL DE ADEUS

Ondori quase nunca conseguia acordar Sachiko. Por mais que alguns acreditem que pessoas idosas vivam cansadas, não perdendo uma oportunidade de tirar um bom cochilo assim que se recostam numa rede ou poltrona velha, quando seu galo ranzinza começava a cantar, por volta de quatro ou quatro e meia da manhã, do lado de fora de seu quarto, Sachiko Yamazaki já tinha os olhos bem abertos.

Levantava-se, acendia o fogão de lenha, colocava a água de seu chá para ferver e logo apanhava o saco de quirera para suborná-lo a se calar.

— Pronto. Encha esse seu papo e pare com o cocoró-cocócó. Não vai querer que alguém te escute, não é?

Abriu a persiana de junco e estudou o céu lá fora. Estava estrelado e exibia um riacho róseo (em sua simplicidade, ela não imaginava ser a Via Láctea nem que existia um infinito além dela, mas amara contemplar sua enigmática beleza por toda a vida) que acariciava a cada pontinho de luz, prometendo mais um dia sem chuva.

Muita gente com 40 ou mesmo 30 anos faria uma careta ante a ideia de ter de molhar a hortinha à base de baldes com pelo menos dez idas ao poço, ainda que este não ficasse mais que cinquenta passos da casa e menos da metade disso dos mirrados pezinhos de tomates, nabos e cenouras que ainda conseguia manter escondidos por trás de algumas moitas de bambu, mas para a anciã, com suas 95 primaveras, aquilo não passava de rotina e um meio de distrair sua mente anuviada.

A cidade lá embaixo ainda dormia. Bem, nem todos: Sachiko sabia que Koda, o padeiro; Hiroshi e sua filha Yumi, que distribuíam o leite das vacas que lhes restavam nos bairros próximos a sua pequena propriedade ou Hayato, o guarda que revezava a vigilância entre a Catedral de Urakami e o Santuário Sanno estariam despertos iguais a ela (talvez Hayato-san nem tanto, imaginava tentando afastar o medo que crescia à noite e jamais ia de fato embora).

Aquele lá deve estar tão apagado quanto Kato, pensava enquanto ali mesmo na cozinha jogava um punhadinho de ração às suas duas galinhas que a disputavam com o velho Ondori, mostrando-lhe que nem todo galo reina em seu galinheiro. Hayato Fuji tinha seus 70 anos e fazia parte daqueles idosos que não podiam ver um canto macio para se acomodar. Sachiko sempre achara graça em seu nome, uma vez que o homem jamais soubera o que significa prontidão. O sobrenome, por outro lado, caía-lhe bem: ele realmente fazia lembrar um espantalho.

Kato ao menos poria medo em alguém, cogitou a velha, voltando os olhos negros e praticamente escondidos pelas rugas e bolsas arroxeadas para o Tosa-Inu que sabia estar deitado com a barriga para cima junto à fusuma que dava para o terreiro. O cão lá fora já impusera respeito quando jovem e ninguém que não o conhecesse como ela se arriscaria a chegar perto da fera amarronzada de quase 80 quilos, mas hoje em dia era só mais um idoso, magro como a própria dona, com pelancas caíndo por sobre as bochechas e um olhar que parecia sempre dizer “Mama, só me faça levantar daqui se for para me dar comida”.

Ou não.

Quem sabe Kato apenas não tomasse de Hayato seu sofá todo esburacado que sempre deixava convenientemente escondido num arbusto próximo ao portal Torii do santuário xintoísta e disputasse com ele quem roncaria mais alto.

Como se para mostrar que ouvia seus pensamentos, Kato soltou um grunhido mal-humorado e um peido alto. Sachiko cacarejou uma risada que, mesmo não sendo mais tão bela quanto antigamente naquela boca quase sem dentes, ainda conseguiria alegrar qualquer um que a ouvisse.

E eram tão raros sorrisos hoje, como se o mundo todo estivesse sendo drenado até sua última gota de alegria.

A mulher achou que as galinhas a imitavam e continuou seu “róróró” para elas enquanto amarrava a boca do saco quase vazio. Então colocou-o sobre uma prateleira e deslizou a porta de madeira para que Kato pudesse entrar. O cachorro a fitou por um instante e tornou a tombar a cabeça de lado.

Sachiko considerou-o um caso perdido. Voltou-se para a cozinha (Ondori enfim conseguira espantar suas duas concubinas e bicava faminto a quirera) sem lembrar muito bem o que mais tinha de fazer ali. Achava ainda ter uma memória razoável, mas às vezes o peso dos anos se fazia presente. Aquele longo minuto, parada olhando para o vazio, era uma dessas ocasiões, pois a água deixada sobre o fogareiro por pouco não se evaporara por completo.

— Ora essa! — disse para si mesma, e outra vez para Ondori. — Você bem que poderia ter me avisado.

Depois, enquanto misturava um pouco de konacha à água que restara na chaleira, considerou se o bater de asas incessante do galo perto do fogo não fora exatamente a maneira que tinha para alertá-la do som chiante da água secando.

— Vou comer um pedaço de pão — avisou ao cachorro. — Vai querer também?

A voz de Sachiko era áspera e entrecortada, e a não ser que precisasse mesmo usá-la, soava quase como um sussurro; mas surtiu efeito imediato em Kato, que se levantou com ar renovado. Tinha cinco anos novamente, bem como quando Yoshida, o neto caçula de Sachiko o entregara para ela dias antes de acompanhar o pai e a mãe rumo à província de Hiroshima, levando consigo sua esposa e filhos.

— RUULF.

— É. Eu sabia que isso iria te animar — disse dando ao cão um naco de pão.

Koneko (pois é, nem Ren nem Katsumo, os bisnetos de Sachiko, tinham muita imaginação para dar nomes aos seus animaizinhos), o gato rajado que também ficara sob seus cuidados, em um instante resolveu sair do esconderijo onde dormia e vir se juntar à mulher e seu companheiro canino não tão apreciado.

Kato rosnou sem muita vontade para Koneko e cobriu seu pão com as patonas já meio sem pelos. Sachiko sabia que o gato não deixaria o cachorro em paz com seu petisco e não demoraria aos dois se estranharem como de costume. Nunca se feriram, era verdade, mas faziam uma bagunça onde se engalfinhavam e assustavam ao galo e as galinhas, que por sua vez, aprontavam um rebuliço de cócócós.

— Aqui, Koneko. — Ela mostrou ao gato um pedacinho de peixe seco que tirara do varal de carnes que nunca estivera tão desguarnecido quando o vira chegando com aquele ronronar despretensioso. — Vai preferir isso.

Tinha de manter tudo longe do alcance daqueles dois, ou terminaria só com os definhados legumes que às vezes conseguia colher.

Lá fora, alguém a chamou.

Sachiko não se assustou realmente; eram tempos difíceis, relatos preocupantes chegavam de províncias não muito longe dali, mas sua vizinhança ainda preservava-se relativamente intocada.

A velha fez deslizar a fusuma, apesar de já ter visto pelo tecido leve da porta a silhueta magricela de Shimizu, o ‘faz-tudo’ das redondezas. O garoto esperava por ela perto da horta e Sachiko não duvidava que em seu embornal encardido o safadinho não carregasse uma ou duas de suas cenouras – sabia da hortinha secreta e de seus animais. Ele usava uma calça feita de sacos de estopa que terminava pouco abaixo dos joelhos e um quepe roto de soldado na cabeça, encontrado sabe-se lá onde.

— Bom dia, Yamazaki-sama! — disse o rapazinho abrindo um sorriso.

— Não precisa me bajular, menino.

— Ah, longe disso! A senhora merece. É nossa princesa... rainha por aqui.

A velha fez um gesto de que não engolia sua conversa fiada com a mão livre.

— Quer entrar para um chá? — disse mostrando sua caneca ao garoto. — Eu posso pôr mais água esquentar.

— Agradeço muito, Yamazaki-sama, mas estou indo para a cidade.

— E eu que pensei que poderia ficar para conversar um pouco.

— Perdão! — disse Shimizu fazendo uma reverência exagerada. — Posso entrar por uns minutos se for para alegrar a senhora.

Shimizu, sabiamente, como pensou Sachiko, deixou seu embornal recostado ao degrau da varanda, aproximou-se ainda todo sorridente, tirou os chinelos surrados e entrou cheio de modos.

Ela o conduziu devagar, um tanto curvada, por entre algumas sacas murchas de grãos e cordas de onde pendiam uma réstia de alho e algumas ervas. A cozinha cheirava a palha, fumaça adocicada de lenha e especiarias.

— Por favor, não se incomode com o chá. — Claro que não; seu olhar de gatuno esfomeado corria era pelos dois peixes secos do varal.

— Pode pegar um pedaço se quiser — disse a velha. — E falando em comida, eu quero que você leve os legumes também. A hortinha já foi melhor, mas acho que posso compartilhar um pouco. Pode ser que suas irmãs estejam precisando mais dos nabos e cenouras do que eu.

— Oh, Yamazaki-sama...

Sachiko fez outra vez aquele abanar de mão de “deixa isso pra lá”.

— É um bom rapaz. Sempre ajudando a todos. Sei que alguns legumes e grãos não são muito a oferecer como pagamento, mas...

— Ora, é o suficiente! Muito obrigado!

— Esqueça. Como vão elas? E seus sobrinhos?

— Estão bem — disse Shimizu, mas sua voz o traía. — Misaki tem feito jornada dupla na fábrica de capacetes; Hoshi está cuidando sozinha de Hiro e Toshio.

— Hummm — murmurou Sachiko balançando a cabeça demoradamente. — E você veio ver se eu precisava de algo, não foi?

O garoto tornou a sorrir, a boca cheia de peixe e do pão preto que rapidinho aceitou quando lhe fora oferecido. Era ele quem supria os moradores da área rural da cidade de mantimentos e notícias. No caso da senhora Yamazaki, o jornal (quando ele conseguia algum de dias atrás) não era de interesse algum: Sachiko jamais aprendera a ler e suas imagens mais traziam tristeza que algum entretenimento. O que Shimizu podia fazer então era contar-lhe tudo o que se passava até onde conseguia descobrir e o quanto ela suportasse ouvir.

Estavam sentados em tamboretes, um de frente para o outro; era uma casa de extrema simplicidade a da senhora Yamazaki, e o comportamento que aprendera com sua mãe quando jovem: como uma mulher deve agir com seu marido, com as visitas e quanto as tradições, era tudo passado, não significavam mais nada. Não encontrariam ali ritos para o chá, refeições ou no tratamento para com quem se dispusesse vir vê-la.

Viver, é só com o que podemos nos preocupar agora, pensou fitando Shimizu.

— Sente-se bem?

— Sim... Sim — disse Sachiko, que na verdade olhava para além dele, voltando até quando achava tudo ter começado a perder o sentido. — Coma seu peixe.

Sachiko Yamazaki deixara de se importar com frivolidades havia muito tempo. Hoje era só uma velha cansada. Tinha 33 anos quando Kintaro, seu marido, fora dado como desaparecido com o restante da tripulação do barco de pesca em que trabalhava após durante uma tempestade, não muito longe da costa de Takashima. Aos 60, dois de seus filhos também foram levados pelo mar. O mais jovem era solteiro, o do meio, casado e pai de uma garotinha. Sua esposa, Ichi, tornara-se filha de Sachiko e as três viveram juntas por algum tempo.

Sozinhas na lida com uma casa, não tinham exatamente tempo e condições de se ater à coisas como antigas tradições.

Deixando para trás a vila costeira de Okino, tentaram se estabelecer na cidade, acreditando que pior não poderiam ficar. A matriarca conseguira emprego num hotel e Ichi em um mercado, ambos no distrito de Nameshi, e logo viram que a realidade era outra. No vilarejo pesqueiro, ao menos as obrigações não as afastavam da pequenina Minori, enquanto ali mal podiam se revezar em cuidar da criança.

Lhes cortara o coração, mas em menos de um ano, arrasadas, decidiram que a pobrezinha estaria melhor na casa de seu tio, filho mais velho de Sachiko, o único a sobreviver ao naufrágio e que, por súplicas da mãe, prometera jamais subir a bordo de um barco de novo.

Tadashi as acompanhara com sua própria família, deixando para trás a vida no mar, apesar de viverem não muito longe de um movimentado porto; mas também não quisera seguir com elas para a dita ‘civilização’. Era um homem simples e que preferia continuar em comunhão com a natureza. A mãe não o censurava; lhe acalmava saber que os netos e a neta cresceriam afastados do desiquilíbrio que vinha se instalando no país. A miséria e a maldade que a acompanha mostravam sua face, e aquilo... aquilo não era algo que crianças deveriam ter de enfrentar.

Embora não estivesse muito melhor que a mãe e a cunhada, Tadashi acolhera à sobrinha com todo amor. Quando o arrozal rendia um pouco mais, enviava-lhes a menina para visitá-las junto de algum mantimento; quando vinham as entressafras, eram elas que tentavam ajudá-lo. Seguiram assim, até que um dia aquele sentimento frio e sufocante de que, sim, as coisas poderiam piorar e muito, se abatera sobre a família Yamazaki; sobre o país todo... sobre o mundo.

Um acidente durante o beneficiamento da colheita de arroz de 1913 fizera do primogênito de Sachiko um homem aleijado e amargo, mais recluso e taciturno que as perdas do passado já lhe haviam transformado. Mas também salvara sua vida quando o país entrou para a Grande Guerra Mundial. Foi a falta de uma mão que o livrara de voltar para o mar quando homens mesmo já com certa idade, porém em condições de lutar foram convocados, e o permitira seguir com seu trabalho no campo.

O conflito veio e se foi, mas o Japão não se reerguera; não como prometiam em suas propagandas. A modesta plantação de Tadashi fora reduzida a pouco mais que a horta que Sachiko agora cultivava em segredo, e em 1938 o então fazendeiro tivera de contar à mãe que uma vida melhor talvez os esperasse longe dali, não em um arrozal

como havia se proposto a labutar até seu último suspiro, mas rendendo-se enfim ao mundo industrial.

A nordeste, num novo polo que crescia alavancado pela corrida armamentista que tomara o país durante a disputa por territórios com a China, o homem poderia fazer uso de sua vergonhosa deficiência. Iria para Hiroshima. Getsu Takeru, um amigo que tivera de ceder ao império toda a safra de feijão no conflito sino-japonês fora quem lhe dissera que estavam contratando crianças (por suas mãozinhas) ao preço de meia saca de arroz por quinzena e também aleijados, que com seus cotos pudessem limpar cápsulas de artilharia pesada por dentro – estes, adultos, com um salário uma fração mais digno – meia saca de feijões verdes e uma dúzia de batatas a mais – contanto que trabalhassem os sete dias da semana.

Getsu se mudaria para lá com suas três filhas e as alocaria na fábrica de uma família conhecida de seu pai; ele próprio trabalharia para os belicosos industriais, na área de fabricação de pólvora. Tadashi, que mesmo com a ajuda dos filhos mal podia alimentar aos netos, não teve outra escolha além de mudar outra vez de vida; do mar para o campo e de lá para a maldita civilização – para as sombras de uma fábrica de instrumentos de morte.

Àquela altura, Ichi havia falecido fazia três anos e Minori, que nunca se casara, passara a servir ao exército do Império Japonês como enfermeira e a última notícia da neta que Sachiko havia recebido era de que embarcaria em breve num grande porta-aviões que partiria para o longínquo ocidente; para algum lugar pertencente aos Estados Unidos da América.

Uma segunda guerra devastadora infelizmente caíra sobre o mundo e a anciã, para sua tristeza, ainda estava aqui para testemunhá-la.

Mudara-se para para o pequeno sítio onde seu filho, netos e bisnetos moraram e lá vivia, sozinha, cuidando de seus afazeres, olhando certas tardes para a Nagasaki lá no fundo do vale. Nunca a vira tão cinzenta, entregue à decrepitude, à desconfiança e ao sofrimento como agora. Às vezes a sensação era de que carregaria para sempre na alma parte daquela corrupção humana só por ter estado em contato com ela.

Nunca mais descerei até lá, prometera para si mesma, sentindo um arrepio em sua espinha ao imaginar seus entes queridos num lugar talvez pior que aquele.

Não que ali se sentisse totalmente a salvo. Ninguém o estava por aqueles dias. Os relatos eram de que a selvageria se alastrava como uma onda gigantesca e que os homens tocados por ela tornava-se bestas. Ouvia sobre sua própria gente, roubando, estuprando e assassinando tanto o inimigo quanto os pobres civis entocados em suas casas, terrificados e famintos.

Um dia, ladrões tinham surrupiado todos seus mirrados legumes no silêncio da noite, bem como de outros coitados próximos. Tão logo os homens foram identificados por um agricultor, oficiais os decapitaram na praça principal, espetando suas cabeças em estacas, como nos antigos tempos feudais, para que servissem como exemplo aos que tencionassem seguir por aquele caminho.

Sachiko não ficara de modo algum satisfeita. Tinha sido privada de sua comida e passara dias alimentando-se do mesmo farelo que dava às galinhas e goles de chá, mas compreendia o desespero dos saqueadores diante a fome e a de suas famílias.

— Yamazaki-sama?

A anciã estava ali, mas seu espírito vagava longe.

— A senhora que saber sobre a guerra, não?

— Hein?

Shimizu teve de perguntar uma segunda vez até tirá-la de suas lembranças.

— A guerra — disse Sachiko, voltando ao presente, levantando-se com esforço para retirar a chaleira do fogareiro e servir o garoto com seu chá. — Não tenho muito a querer saber sobre ela. A não ser que tenha acabado. Sabe se acabou, Shimizu-kun? Tenho procurado não olhar muito para a cidade lá embaixo.

O menino negou com a cabeça, triste.

— Ouvi de outro garoto, Kento, o engraxate, que recebeu uma carta do exército, que estamos passando por dificuldades contra os invasores. Contou também que seu otousan morreu numa ilhazinha chamada Iwo Jima, a senhora conhece?

Sachiko fez que não. Só sabia que ficava no meio do nada. Hideo, seu neto mais velho escrevera para ela de seu navio dizendo ter avistado a ilha quando passaram por Ogasawara há alguns meses. Ambos atualmente serviam na guerra e não havia um só dia em que ela não chorava ao receber suas correspondências que lhe eram lidas por Shimizu ao entregá-las.

— E seu papa?

— Dele não temos notícias tem um bom tempo. — Shimizu aceitou cabisbaixo seu chá, como se lembrar daquilo lhe dilacerasse.

— Acredite que ele voltará, Shimizu-kun. Ore e acredite. É o que eu faço.

Era possível que nem ela acreditasse muito naquilo. Ren mesmo, seu bisneto mais velho, nunca chegara a pisar na fábrica de panelas onde seria contratado. Certo dia uma vizinha que deixara a cidade junto de Sachiko viera contar-lhe que seu rapaz havia sido convocado às pressas enquanto se preparava para começar nova vida em Maebashi e que Ren, seu amigo, embarcaria junto dele. Mais um ente querido lançado ao mar traiçoeiro.

Seria a sina dos homens de sua casa perecerem todos nas águas?

— Eu preciso ir, senhora — disse o rapaz levantando-se e limpando os farelos e o chá da boca na manga puída de sua camisa. — Vou procurar por jornais, buscar um fardo de sal para o senhor Masanori e depois ajudar minhas irmãs.

— Vá sim, menino — concordou a anciã. No fundo sentia falta de ter com quem conversar, rostos jovens, principalmente, que não a fizessem pensar em coisas tristes como as milhares de almas não muito mais velhas que Shimizu que morriam todos os dias naquele conflito lamentável. — Também preciso voltar ao trabalho.

Era, claro, uma mentira; não tinha muito mais o que fazer lá por volta das dez, a não ser passar o resto do dia esperando que notícia terrível alguma viesse sobre sua família, não imaginando seque quão longe realmente estavam dali. A verdade era que achava não ter mais condições de esconder sua tristeza e, por Buda, Shimizu-kun já tinha preocupações o suficiente para ter de aguentar uma velha amedrontada...

O garoto parou junto a porta.

— Não deveria viver aqui sozinha, Yamazaki-sama. Tenho medo que alguém...

— Tolice — interrompeu a velha com outra pequena mentira. — Aqui restaram apenas os pacíficos, como eu ou você, meu rapaz. A maldade seguiu em frente. Cuide-se você lá embaixo.

— As pessoas desesperadas podem se tornar ruins, e todos estão cada dia mais assustados, senhora. Sua hortinha, seus animais...

Ela caminhou até ele, recurvada, procurando em vão pelo cajado que deixara lá fora. Pousou uma mão nodosa e gentil no ombro do garoto.

— Fala como um homenzinho. Seu papa deve estar orgulhoso de você (sem ter ideia de que Nobuo Fujiwara estava morto; o Kawanishi H8K que transportava a tropa a qual integrava fora alvejado sobre o Pacífico cerca de dez dias atrás) —, e suas irmãs têm sorte por contar com um rapaz tão bondoso.

Shimizu pareceu voltar a ter seis anos ouvindo aquilo, corando e entrecruzando as mãos encabulado.

— Deus a abençoe. — Fez outra daquelas reverências rijas como se estivesse de fato na presença da verdadeira realeza. Sua família havia adotado o catolicismo e ele nunca se esquecia de louvar ao Senhor sempre que possível. — Que olhe pela senhora e sua casa.

— Que esteja com todos nós — respondeu ela, ainda que suas crenças fossem no xintoísmo e o budismo. Sabia que no final, todos eram um só e que Deus, Buda ou quem pudesse olhar por aquele mundo em tribulação, seria mais que bem-vindo.

Quando o rapaz sumiu ladeira abaixo, Sachiko retomou seus afazeres. A dúzia de idas ao poço fora adiada por tempo demais. Logo o sol se faria presente e fazia dois dias que suas plantinhas não viam água.

— Vocês fiquem aqui — recomendou a Kato e Koneko. — De preferência em paz e sem bagunçar muito a casa. Logo volto para comermos mais um pouco de pão. Que tal? Ah, por suas caras, vejo que gostam da ideia.

...

Ao terminar de aguar a horta (aproveitou para reunir as achas que Kai, o lenhador lhe havia entregado na semana anterior em troca de uma de suas galinhas, acomodando parte no armário da varanda onde guardava as ferramentas de jardinagem e levando outras menores para dentro) e cuidar das poucas criações que agora lhe restavam – o seu jumento chamado Ganko, a porca Chika e seu leitãozinho, Cho –, o calor de junho já incomodava.

Todos ficavam num pequeno galpão construído por Tadashi para guardar sacas de arroz, bem junto à casa e tinham aprendido a conviver uns com os outros melhor

que os seres humanos lá fora; e em silêncio também, como se soubessem o que serem encontrados poderia significar.

Passou o resto da manhã trabalhando a terra, plantando novas mudas com a esperança que vingassem e colhendo pouco mais de uma dúzia de legumes maduros; descansou (melhor seria dizer ‘se apagou’ numa soneca) mais à tardinha em sua velha cadeira de balanço e ao anoitecer pôs-se a preparar um caldo meio ralo. E era evidente que Kato e Koneko, tão alheios ao mal como bebês, começaram a rodeá-la quando o cheiro de peixe e arroz encheu o ambiente.

Por volta de oito horas, Sachiko e seus companheiros já tinham se alimentado. A anciã havia orado e acendido incensos e dois tocos de vela que vinha economizando diante o altar com as fotografias emolduradas do marido e dos filhos, bem como duas conservadas estátuas de Buda – Ebisu, que olha pelos homens do mar, e Hotei, o Buda da benevolência – e uma da deusa Amaterasu, esta mais antiga, que pertencera à sua mãe. Às nove, todos na casa dormiam.

Assim eram seus dias. Por vários deles Sachiko mal via outras pessoas e toda a companhia que tinha era de seus bichinhos. E estava tudo bem; ela gostava daquilo. Havia um motivo para agradecer não ver gente cruzando a estradinha diante sua casa: era sinal de que ninguém morrera.

Mas nem sempre tinha essa bênção. Havia tardes em que dois ou três cortejos fúnebres passavam por lá. Com o infindável curso da guerra, esses números cresciam a cada dia, como numa quinta-feira no comecinho de agosto, quando viu um grupo subindo a íngreme ladeira que dava acesso aos sitiozinhos e ao cemitério que ficava no final da estradinha, pouco antes que ela se bifurcasse e seguisse para outros vilarejos acima. Uma procissão vinha da cidade, ao menos dez grupos, cada um com uma criança de rostinho encovado à frente segurando um cartaz com fotografias do falecido e pais, mães e esposas sendo amparadas por parente e amigos.

As pessoas em diversas das fotos eram jovens – soldados abatidos no conflito. Se alguma família tinha corpos ou vasos com cinzas, outras só portavam objetos que um dia pertenceram ao morto. Sachiko não conseguiu evitar chorar. Aquelas sequer teriam o direito de enterrar ou cremar seus entes, desaparecidos para todo o sempre no Pacífico ou nalguma floresta escura.

Conhecera quatro das pessoas que seriam enterradas, dois senhores tão idosos quanto ela que trabalhavam perto do hotel em que ela cozinhara por anos, uma jovem que vendia esterco nos limites da cidade e uma mulher que vez por outra limpava com seu menino as fossas das casas e estabelecimentos. O rapazinho seguia com passos e olhar perdidos à frente de seu grupo, segurando uma foto antiga da mãe. Agora seria mais um órfão que, se não contasse com mais ninguém, terminaria nas ruas – ou em breve acompanharia a mãe em seu descanso.

Fazia sua papa de arroz quando ouviu a lamentação que vinha pelo caminho; o gato havia subido na janela, curioso, e Kato uivava como se triste. Ela tirara a panela do fogo e fora se juntar aos dois. Koneko miou em protesto: há dias o peixe seco já não fazia mais parte de sua refeição e ele tinha de se virar com camundongos, insetos ou o pouquinho de papa que Sachiko podia despender a ele e ao cão.

A velha acariciou suas cabeças e pediu que esperassem. Conversava com seus bichinhos como se fossem pessoas; por dias a fio eram só eles ali e mais ninguém. Até Shimizu diminuíra suas visitas, pois tinha cada vez mais coisas a fazer.

— Tenho que ir até a estradinha — disse-lhes enquanto pegava seu cajado. — Não mexam na comida. Todos vão ganhar um pouquinho depois; prometo.

A fila ia terminando de passar diante o passeio que levava à sua casa quando a senhora Tanaka, que seguia com o grupo do menino segurando a foto da mãe, viu sua amiga e ficou um pouco para trás.

— São tantos hoje — disse Sachiko depois de se saudarem.

Eiko Tanaka enxugava os olhos, concoradando com a cabeça.

— E nunca sabemos quando seremos nós — disse com a voz embargada. — Mi Shio... Alguém a enforcou por um pacote com meio quilo de carne de porco. O que seu filho fará sozinho agora? Nós da vizinhança poderemos acolhê-lo por alguns dias, mas já não temos o bastante nem para nossas crianças.

— Passe aqui quando voltar do funeral, Eiko-chan — segredou Sachiko. — Só peço que venha sozinha e não comente com mais ninguém de sua visita. Vou ver o que posso fazer para te ajudar.

— Oh, não se preocupe Yamazaki-sama! A senhora...

— Eu insisto. Pelo menos alguns legumezinhos pra você e o menino. Para que ele não precise dormir de luto e com fome.

A mulher a agradeceu com um abraço. Mais costumes deixados para trás. Uma saudação, por mais respeitosa que fosse, jamais teria o consolo que certos momentos exigiam. Sachiko se desculpou por não poder seguir com ela e Eiko a perdoou dizendo que muitos nem teriam saído para fora de casa. A anciã lhe sorriu:

— Já perdi demais nessa vida, menina — disse recebendo o calor da tarde no rosto enrugado, sentindo a brisa que balançava o bambuzal do outro lado da estrada —, para deixar que tomem até o sol ou o vento.

Eiko Tanaka secou as lágrimas, assentiu suas palavras com um firme aceno de cabeça, virou-se e apressou os passos para se juntar outra vez ao triste séquito. Sachiko os acompanhou por mais um tempo, lamentando cada alma viva e morta, então rumou devagar para a casa onde, achava ela, nunca mais se ouviria um sorriso.

De volta à cozinha, cumpriu com sua promessa de aplacar a fome de Kato e do manhoso Koneko, sempre gulosos. Passava das seis e um sol vermelho sangue descia sobre o vale ao redor da cidade enlutada. Sentou-se com o apoio de seu cajado no tamborete onde costumava roer seu pão. Lançou um pedaço seco para cada um dos esfaimados e também um pouco de papa.

Todos comeram em silêncio, como se os animais sentissem eles mesmos o peso da tristeza e morte no ar. Assistiram juntos o findar daquela tarde bucólica e o nascer de uma lua cheia carmim.

Um desfile de fantasmas iluminados por velas e lamparinas, cada um tendo deixado parte de si para trás com os mortos no cemitério, regressava pela estradinha, com os grilos cricrilando entre seus murmúrios de dor. Desta vez Sachiko observou-os somente de longe.

Eiko Tanaka separou-se do resto dos sofredores e foi até o limiar da varanda da anciã. Sachiko, que já a esperava, abriu a fusuma e arrastou para fora uma sacola de palha com tomates, nabos e cenouras.

— Aqui, tente escondê-la debaixo de seu xale, Eiko-chan — disse passando-lhe os alimentos. Sentia envergonhada por dar aquele conselho. — Os céus sabem como gostaria de ter mais para dar um pouco a cada um dos outros, mas não posso, e você também não ajudará a ninguém se lhe tomarem essa sacola.

— Irei preparar uma sopa com isso. Se não seu coração, ao menos o estômago de Masao ficará aquecido por hoje. — disse Eiko Tanaka com uma reverência — Farei render com um tantinho de farelo e lámen que tenho em casa e irei distribuir para as outras crianças também.

— Sei que fará. Boa noite, Eiko-chan.

— Que os céus a recompensem, Yamasaki-sama.

— Oh, será muito em breve, filha. Posso ouvir Kintaro chamando por mim às vezes. E meus meninos.

A senhora Eiko a fitou com carinho e pesar. Talvez tenha pensado em lhe dizer algo, afastar aquele pensamento triste da anciã, mas manteve-se em silêncio. Não era um devaneio agourento e sem sentido; somente a constatação de uma verdade que a pobre velha e todos entendiam muito bem. Viver quase cem anos, sozinha e em meio a todo aquele sofrimento? Era de se espantar que Sachiko-sama tivesse sobrevivido por metade daquele tempo.

— E olhará por nós, vovó? — disse Eiko com uma voz muito fraca.

— Se houver um sol em minha nova morada, pedirei a Amaterasu que ela me acompanhe com ele, para fazê-lo brilhar sobre todos os que necessitarem de sua luz; eu prometo.

Em seu tablado, coberta com uma fina manta, Sachiko não conseguia deixar de pensar que a iluminação, de fato, era a única esperança que tinham. Ou os homens a encontrariam ou as trevas seriam o futuro do mundo.

Os sons que vinham de fora, da cidade abaixo: alguém gritando; um alarme; o choro de uma mulher em desespero trazido pela brisa, deixaram-na lá, segurando sua coberta bem junto ao pescoço, feito uma criança assustada.

As noites de sono profundo e de sonhos que a carregavam para perto de sua família ficaram para trás. Quando muito, Sachiko cochilava por pequenos períodos e despertava tateando o vazio ao assustar-se com qualquer ruído lá fora.

Cinco horas. Levantar-se e ir cuidar de Ondori e sua única amásia restante com as minhocas que agora tinha de cavoucar em sua horta (a quirera havia acabado há dias) e de seus outros bichinhos era melhor que ficar deitada, pensando em tudo o que estaria acontecendo lá fora.

Foi pouco depois de dar algum capim a Ganko, enquanto afagava suas orelhas e observava a leitoa Chika aconchegada ao seu filhote, pensando que, infelizmente, ela teria de trocá-la em alguma comida e remédios com o mercador ambulante que talvez viria na próxima semana, e em como não desejava saber que ela se tornaria toucinho – mesmo compreendendo que seria para saciar a fome de muitas pessoas – que Shimizu Fujiwara chamou por ela ao pé de sua varanda.

...

Havia um mês que não o via? Achava que era possível. Quando fez deslizar sua porta para recebê-lo, o coração de Sachiko tornou-se apertado. Aquele boneco de madeira e vestes esfarrapadas não era o menino que conhecera. Provavelmente, por nunca olhar no espelhinho dependurado sobre o altar da sala, a anciã não fazia ideia de como ela própria tinha se tornado um galhinho seco e encurvado. Se estudasse a si mesma, não ficaria tão triste; era velha, não era errado que definhasse – ainda mais nas condições em que vivia –, contudo, um menino de onze ou doze primaveras, naquele estado?

Āmmegamisama-tsu! — murmurou ela, tão baixo quanto o vento. Por todos os sete Budas, por Amaterasu-Okami, o que era aquilo?! — Entre, entre aqui, menino. Venha, saia desse relento.

Shimizu manquitolou pelos degraus e até a cozinha de Sachiko. Parecia mais velho que ela, se é que algo assim fosse possível. Não. Ainda é um rapaz aí por baixo de todo esse sofrimento. Mas a impressão de estar diante a dor e a fome personificadas em sua mais terrível forma não a abandonava.

— Pensei em ver como a senhora estava — disse Shimizu, e desta vez sua tão rígida revêrencia era fraca e lenta, como se eles estivessem debaixo d’água. — Sinto muito não ter podido vir antes. Estava muito ocupado.

— Tenho certeza que sim. Não se desculpe, meu menino. Aqui, sente aqui — A velha o guiou como ele muitas vezes já havia feito com ela até os tamboretes perto do fogo e o fez sentar-se. — Não tenho mais konacha, mas vou te fazer uma caneca bem quentinha de bancha. Encontrei outro dia algumas folhinhas em meio a uma touceira de mato do outro lado da estradinha.

— Não se...

— Eu... — Sachiko não sabia quanto tempo aguentaria sem desabar; orava aos céus para que fosse forte. Seria horrível se o deixasse notar o quão pesarosa estava. — Não tenho mais pão, só alguns legumes; aqui: coma uma cenoura.

O menino a pegou com aquelas mãozinhas submersas e levou-a até à boca.

— O que aconteceu com você, Shimizu-kun? — Serviu-lhe o chá, tão devagar quanto ele, a idade e a estupefação tornando tudo pesado. — Faz dias que sumiu. Orei por você todo esse tempo. Vi Masanori-san semana passada, perguntei a ele se o tinha visto, mas me respondeu que não sabia de nada.

— Não tenho saído de casa, vovó Yamazaki. Hoshi morreu, sabe. — Os olhos de Shimizu, remelentos e vermelhos ficaram marejados; chorar talvez tivesse se tornado sua vida agora e as lágrimas já eram escassas — Dividíamos a comida de nossa parte com as crianças para terem um pouquinho mais; eu aguentei, ela não. Estava fraca demais, mas não quis comer mesmo em seus últimos dias. — O rapaz olhou direto para aquele rosto gentil cercado por pintas, manchas e rugas. — Ela morreu sorrindo, vovó, sabia?

A velha sentiu algo quebrar-se dentro dela.

— Esteve com ela em seus...?

— Sim. Ela estava com a cabeça em meu colo. Pedi que Hiro e Toshio ficassem na cozinha. Dei a eles meu mingau e o de Hoshi, como ela me pediu. Ouvíamos eles os devorando e ela sorriu satisfeita, depois sua respiração diminuiu; não demorou muito até parar. Ela se foi de olhos abertos, sorrindo para mim por saber que as crianças se alimentaram por mais um dia.

— Ah, meu filho.

— Misaki cuidou de seu corpo ao chegar da fábrica e nós a enterramos tem uns oito dias. Cavei embaixo da cerejeira preferida dela, aquela perto da casa da senhora Sakura. Agora sou eu quem cuido dos meninos. Não tenho podido mais ir até a cidade fazer serviços para ninguém. — Shimizu acabou de sorver seu chá e se calou; tinha o ar cansado, o esforço em falar minava o pouco de forças que lhe restava.

Sachiko foi até uma prateleira e apanhou um tomate para o garoto, tinha um aspecto murcho e meio escuro.

— Vamos, coma.

— Todos os dias eles me perguntam por sua mama — disse o garoto, a mente a meio mundo dali.

A anciã insistiu, lhe colocando o tomate nas mãos.

— Vá em frente, precisa comer.

— Não — disse Shimizu. — Mas se eu puder levá-lo para minha família...

— É claro que pode, meu menino. Vou pegar mais alguns. E leve as folhas de chá também; prepare bacha para vocês. Tem lenha para aquecê-los?

Shimizu olhou para os gravetos que sobraram empilhados ao lado do fogareiro da anciã. Não daria para que ela própria cozinhasse por mais três dias. Então fez que sim com a cabeça.

— Temos, sim — disse. — Não dão um cheiro muito bom, mas queimam bem. Tudo tem estado tão seco, não?

— Bastante — respondeu Sachiko.

— Mas veja — disse ele, enfiando uma mão esquelética dentro dos trapos que eram sua camisa e puxando um pedaço de papel. — Não vim só comer.

— E mesmo que tivesse vindo! — ralhou ela. — O que me importa é sua visita.

O rapazinho estudou o panfleto todo amassado; cheirava mal e teve vergonha de entregá-lo à velha amiga. Explicou-lhe que tivera de escondê-lo no fundo de uma saca de esterco. Era considerado crime por aqueles dias portar qualquer propaganda contrária à guerra ou as insistentes exigências do inimigo por rendição das forças do Japão e avisos de ataques aéreos nas cidades.

Sachiko evitava perguntar sobre as batalhas e o caos que corria cada vez mais ao seu encontro, mas sempre acabava chegando a ela notícias dos vilarejos e grandes centros em chamas, da morte e da destruição trazidas por bombardeiros. Houve uma tarde, enquanto lavava algumas roupas, em que cinzas começaram a vir pelo ar, como num sinistro inverno fora de época. Mesmo nunca tendo entendido muito de coisas complexas, ela soube que eram os restos de algo que já não existia mais, de casas, de lavouras... e de vidas.

— Precisava avisá-la disso.

— Do que ele fala? — quis saber a velha. Ainda que não entendesse as letras no papel, fazia ideia do significado das imagens: maldade.

— Também quase não sei ler — disse Shimizu sem jeito. — Pedi para Misaki me ajudar. São um aviso, uma lista de alvos dos bombardeios americanos. Não fala sobre nossa cidade, mas algumas bem perto daqui já foram incendiadas.

— Que os céus nos guardem!

— As pessoas estão fugindo para lugares mais afastados.

— Tem certeza que não tem nada daqui?

— Tenho. O Sr. Yamato outro dia falava em como era estranho estarmos de fora dos ataques. Mas talvez seja a vontade de Deus.

Sachiko meneou com a cabeça, os pensamentos longe dali.

— Diz algo sobre Hiroshima? — perguntou numa voz temerosa.

— Não.

Sachiko rendeu graças.

— Estamos com medo. As pessoas têm ouvido aviões; nos vigiam de muito alto, mas alguns escutam seu ronco. — Shimizu tinha o olhar de um garotinho apavorado por histórias de yokais. — Minha irmã quer nos levar daqui.

— Para aonde vocês iriam?

— Eu não sei. Há gente vivendo em algumas cavernas na floresta. — O menino se deteve. Então disse: — Por favor, queria que viesse comigo.

Ela bebia devagar seu ralo chá de folhas muito passadas. Mirou o pequeno com a calma típica dos velhos. Shimizu a estudava por cima de sua caneca, esperançoso. A velha atirou dois ou três galhinhos no fogareiro.

— Não posso — disse Sachiko, sabendo que aquilo o entristeceria. Era mesmo um bom garoto; tinha-o como seu próprio neto. — Esse lugar é tudo o que tenho; eles também: Ganko, Ondori, Koneko, Kato, Chika... — Miza, a galinha soltou um pópópó que a comoveu. Sempre achara que eles a compreendiam.

— Não pode mais viver aqui assim, vovó Yamazaki.

— Enquanto Amaterasu me der de sua luz, poderei, sim.

Viu que Shimizu chorava outra vez. Que triste ver aqueles olhinhos que jamais deveriam ter testemunhado tanto sofrimento, agora sempre marejados.

— Não quero perder a senhora, vovó.

— Meu menino... Não chore por alguém que já viveu tanto.

O garoto ficou de pé e a abraçou, escondendo as lágrimas nas dobras do velho quimono de Sachiko. Ela afagou seus cabelos que tinham ficado finos como os de um

idoso, aquele pensamento persistente de como o rapazinho tinha se degenerado em tão pouco tempo a remoendo.

— Me perdoe! — Shimizu afastou-se devagar, tentando se recompor. — Não vim para deixá-la ainda mais triste. Só tinha que...

— Sua visita me faz bem. Podemos não ter muitas coisas boas do que falar, mas fiquei satisfeita em saber que ainda se lembrava desta velha.

— Sempre, vovó Yamazaki.

Quando ele se foi, o dia já estava claro. Sachiko desceu com seus passinhos cautelosos até a beira do riacho que corria trilha abaixo no bosque nos fundos da casa. Cada ida agora era mais dolorosa que a anterior, mesmo com a ajuda de seu cajado. Poderia ter pedido a Shimizu que checasse a armadilha de bambu que sempre deixava submersa junto à margem, porém o garoto também já não o conseguiria. Tornara-se mais um inválido, como ela. Tinha de resguardar suas forças para cuidar de sua própria família.

As águas cheiravam mal de longe. Um fedor de putrefação que nunca pensou que sentiria naquele regato onde costumava molhar o rosto e os cabelos quando ainda conseguia sentar-se nas pedras. A água tornara-se turva, os restos de casas e de seres que viviam nos vilarejos córrego acima. Tinha certeza de que a armação estaria vazia. Os peixes e até os pequenos lagostins se haviam rareado com a poluição crescente.

Puxou a corda e deu um suspiro ao sentir como a armadilha subia leve. Então se afundou mais ainda em tristeza quando percebeu que a única coisa que fora parar em seu interior era uma mãozinha cortada no pulso, branca e flácida. Murmurou um lamento, uma prece a quem lhe pertencera e deixou a armação de bambu descer para sempre. Também não voltaria mais ali.

No caminho de volta, enroscado num galho, estava outro daqueles panfletos de guerra. Ela levou a mão para pegá-lo, mas desistiu; seu desenho quase apagado era só mais do que já sabia: ameaças. Um avião com suas comportas abertas e despejando a morte dos céus.

Se o tivesse pego, se soubesse lê-lo, teria visto que a bomba que aquele lançava era diferente das dos outros avisos.

...

Sachiko havia deixado de acompanhar pela janela os cortejos que passavam em maior sucessão pela estradinha rumo ao campo sagrado. Eram dezenas por dias, um número impensável de mães, pais, esposas e crianças num coro infindável de dor. Tudo o que fazia ao ouvi-los era chorar em silêncio e rezar por todos.

Soltara Ganko há dois dias; não podia mais reunir o capim ressequido com que o alimentava e preferiu guiá-lo até os limites do bosque, deixando que desaparecesse e tivesse melhor sorte por si só em encontrar pastagem. Doera-lhe tanto quanto na tarde em que tivera de se separar de sua leitoa, Chika. O vendedor, tão emaciado quanto os poucos que via caminhar pelo mundo nas raras vez que avistava alguém, oferecera-lhe algum óleo para lamparina, ervas medicinais e uma pequena saca de grãos por Cho, o leitãozinho, contudo, ela se recusara.

Depois daquilo, prometera que quando as provisões acabassem, soltaria o resto de seus bichinhos para que tentassem sobreviver lá fora. Talvez tivessem melhor sorte que ela. Não os abateria; haviam-se tornado seus companheiros mais queridos e ela se recusava a pagar por sua amizade sacrificando-os para benefício próprio.

Tivera outra noite em claro. A comoção no fundo do vale atravessava as noites do final de julho; mais gritos de dor, choro de crianças cobrindo o silencio de outrora e motores de caminhões entrando e saindo da cidade. Ouviu roncos de aviões voando mais baixo cruzando os céus e o trovoar das baterias antiaéreas; fechou os olhos com força, rezando a seus deuses que não fosse um ataque aéreo. Mas era. Fogo lançado sobre sua sofrida terra.

Matracas e sirenes anunciavam que a população deveria buscar por abrigo. As brigadas de incêndio se punham em prontidão; contudo, os focos surgiam mais a leste da cidade. Sachiko foi até a janela e viu a vila de Nagayo, com suas pequenas fábricas e casebres em chamas.

Pensou em todos que conhecia e se estavam em segurança; vidas já exauridas e que agora ficariam ainda pior. Multidões começavam a subir pelos morros, mulheres com suas crianças em prantos, carregando consigo os poucos pertences que tiveram condições de salvar.

Misericordiosamente, os ataques pareciam não ter como alvo áreas populosas da cidade ou casinhas mais afastadas como a dela e de alguns lavradores nas colinas. Acreditou que se Shimizu estivesse em casa com Misaki e as crianças, estaria a salvo; Sachiko orava por isso, segurando o tomoeri do quimono com mãos trêmulas, lágrimas lhe cortavam as faces de pergaminho antigo.

Kato veio até ela e deitou-se em seus pés; Koneko, sempre independente, viera juntar-se aos dois, assustado pelos sons que o vento trazia.

Pela manhã, Shimizu arrastara-se até a casa de sua amiga; pensara muito nela à noite, disse-lhe, mas não havia como deixar Misaki e as crianças tão apavoradas. Ele tinha o rosto mais crispado que da última vez, uma expressão de más notícias. Trazia consigo outro folheto – nem tentara esconder este.

Não passava muito das sete da manhã de um início de agosto.

— Por que me mostra esse papel? — perguntou Sachiko.

Shimizu não conseguira ir até a cozinha da anciã. A caminhada até sua casa o deixara exausto. Tinha se sentado nos degraus da varanda.

— Encontrei um destes quando fui buscar água no poço mais cedo, Yamazaki-sama. Levei-o para minha irmã, ela ainda não havia saído para a fábrica. Pedi que me dissesse do que falava. Depois de ontem à noite, ver esta bomba... — mostrou à amiga o panfleto com uma enorme bomba despencando de um avião e escrito todo em kanjis vermelhos, urgentes. — É um aviso de que usarão um novo tipo de arma.

O coração de Sachiko falhou uma batida.

— Onde? Aí diz em que lugar?

Shimizu hesitou. A mulher agarrou seus ombros; não tinha força para dar-lhe um chacoalhão, mas conseguiu falar numa voz firme que há muito não usava.

— Onde?

— Hiroshima, vovó. Aqui diz que as pessoas deveriam deixar Hiroshima, pois o ataque aconteceria em três dias.

Watashi no yoi Budda!

— Estão por toda a parte, esses folhetos.

Sachiko precisava de ar; pareceu perder o equilíbrio, e o garoto, mesmo estando debilitado, a ajudou: ficou de pé, a segurou e a abanou com seu surrado quepe.

— O meu filho... As mulheres de meus netos e bisnetos... Tem certeza de que aí está escrito Hiroshima?

Hai okusama!

— Céus, oh céus...

— Yamazaki-sama — disse o menino num tom de pesar —, pode ser só ameaça, como já fizeram, lembra? Há outra cidades na lista e...

A idosa negava com a cabeça.

— Receio que o tempo dos avisos e ameaças acabaram, Shimizu-kun — disse; e também tinha a triste certeza de que não seria outra cidade senão Hiroshima o alvo da fúria cega do homem.

Shimizu amassava com raiva o papel em suas mãos.

— Eu sinto muito. — fez uma reverência movendo apenas a cabeça macilenta.

— Pode ir cuidar de sua família, meu menino. Agradeço muito por ter vindo me avisar. Preciso entrar agora, tenho que me sentar.

— Fico com a senhora. Posso pegar água.

A velha apenas recusou com um fraco gesto, só pedindo que a ajudasse a entrar e a alcançar sua poltrona.

— Pode deixar comigo esse papel?

— Sim, senhora.

Sozinha, Sachiko o segurava com relutância, não queria olhá-lo; aquele folheto podia significar a condenação de sua família – de milhares delas. Três dias. Quão longe Tadashi poderia chegar em tão pouco tempo? Talvez ele as esteja trazendo de volta até aqui, pensou com um fiozinho de esperança, e examinou o panfleto.

Em que dia estavam? A velha não fazia questão de contá-los mais; acreditava apenas ser agosto. A folha agourenta estava encardida e quase apagada, o que a fez imaginar quando Shimizu a encontrara. Seriam três dias a partir de hoje? Ou...

Sagrado Buda, não permita...

Seus pensamentos foram abalados por um tremor, primeiro o chão, como num leve terremoto, fazendo com que sua casa vibrasse e coisas caíssem das prateleiras, e nos segundos seguintes fora a vez de uma ventania varrer o ar, sacudindo os painéis shoji de tecido. Sachiko apertou com força os braços da velha poltrona.

O dia lá fora, visto pelos buracos do que restara da parede, ficara mais claro. A mulher caminhou vacilante até a entrada da casa. Muito longe, a noroeste dali, uma nuvem como nunca vira antes espalhava-se como numa pintura que vira um dia num templo e que representava o despertar do monte Fuji, séculos atrás.

O furor alaranjado que deixava o céu vermelho igual ao entardecer exibia uma coluna que afunilava para tornar-se um cogumelo cercado por anéis cinzentos. Tinha o tamanho de uma pessoa, mas Sachiko não se deixou enganar pela ilusão da distância; sabia que para conseguir vê-la onde acreditava estar, teria de ser algo pavorosamente gigantesco. Ela se afastou daquela visão inimaginável sem conseguir chorar ou pensar nada. Estupefação era tudo o que sentia. Cambaleou de volta à poltrona e se afundou nela com o coração partido.

Kato uivava de medo e Koneko havia desaparecido (no mínimo fora se esconder no buraco mais fundo que encontrara). Gritos vinham de todo lugar, dos que também presenciavam aquela maligna demonstração de horror.

Sachiko buscou por seu altar de orações. Viu o relógio dependurado na parede logo acima: eram oito e dezessete da manhã. Os quadros de seus entes falecidos sobre a toalhinha vermelha estavam tombados e a estatueta de Buda Hotei se havia caído e quebrado. O deus da benevolência tombara diante a maldade humana.

Ao ver aquilo, enfim os olhos cansados de Sachiko verteram lágrimas.

...

A nuvem distante permaneceu por horas no céu, um sinal inequívoco de que o homem dera um passo além em sua senda rumo à própria destruição. Seus anéis cinzentos se iam afinando com o passar do dia, ao passo que a multidão atônita lá no fundo do vale só fazia aumentar.

O êxodo para longe da grande Nagasaki também crescera, indo de uma pequena fila para uma multidão apressada e assustada, temerosa de que semelhante destino a atingisse a qualquer momento. Centenas de pessoas com trouxas de roupas, tachos e panelas pendurados na cintura e balaios com crianças amarrados às costas. Calhambeques e carroças cortavam por entre a infindável procissão; para eles, suas casas e vidas ali agora eram parte do passado. Que os deuses os acolhessem.

Sachiko esperou até de noite que alguém (geralmente o Sr. Hanafuna, filho do dono do hotel em que ela trabalhara, era quem mandava algum garoto – muitas vezes Shimizu – levar até ela recados telefônicos) surgisse em sua porta com notícias de seu filho e outros entes, mas ninguém apareceu. Queria crer que Tadashi e suas duonoras e abnoras estivessem pela estrada àquela hora, talvez nalguma estalagem, sem meios de qualquer contato... Sim, achou que poderia suportar àquilo.

Chegarão em breve. Meu Tadashi é inteligente, ele as tirou da cidade assim que pôs os olhos num daqueles panfletos horríveis. Com tal pensamento, esgotada, Sachiko conseguiu adormecer em sua velha poltrona.

Passou o dia seguinte, desde cedo, colocando a casa em ordem o melhor que pôde; deixou lavados seus últimos legumes para recebê-los com uma sopa e varreu a varanda toda imaginando como seria bom vê-los novamente! Se sentariam lá e teriam muitas histórias a contar, permeadas de tristezas, por certo, mas estariam vivos. Tudo o que importava era isso.

Forçou-se a tarde toda a não encarar o fio de fumaça escura que ainda pairava no céu distante, a migração cada vez mais desordenada que cortava sua estradinha ou os cortejos lamentosos que se misturavam à confusão de gente, veículos e animais. Não poderia deixar que ideias de morte se infiltrassem em sua mente.

Porém, quando a desgraça tem de vir, ela apenas vem, não é mesmo?

E assim chegou a Sachiko a notícia que drenaria de vez suas forças: sem meias palavras, sem rodeios. Viera através de um menino que não conhecia, alguém enviado pelo jovem Shigeru, que vira crescer e assumir o lugar do pai na gerência do pequeno hotel Hanafuda. O garoto, cansado e com pressa de voltar aos seus próprios assuntos, somente chamara por seu nome junto aos degraus da varanda, e quando ela por fim saiu para atendê-lo, disse:

— Perdão por incomodar a senhora! — sua reverência também carecia forças. — Tenho um recado para a Sra. Yamazaki. Hanafusa-san mandou que eu...

— Eu sou Sachiko Yamazaki — disse a anciã, tentando firmar-se em seu apoio, mas achando muito difícil. Sua maior certeza era de que, dependendo do que ouvisse a seguir, seus braços a trairiam.

— Hideo Yamazaki recebeu um telégrafo em seu navio e enviou um registro ao Sr. Hanafuda — disse o garoto, como se tivesse vindo decorando a mensagem pelo caminho. — Teve notícias de seus superiores sobre Hiroshima. Ninguém sobreviveu.

Tão logo terminou de falar, virou-se e correu para a cidade. Por que ficaria? Não era problema dele, afinal. Sabem os deuses quantos ele mesmo já não teria perdido.

Os galhinhos secos que eram os braços de Sachiko não faltaram com ela.

Aguente. Só o que pode fazer agora é aguentar.

Ela se obrigou a entrar, as pernas pesando toneladas; tinha o peso do mundo e de todos os seus mortos sobre suas costas encurvadas. Parou diante o altar e ficou por um tempo indefinível fitando as fotografias ao lado das estátuas. Novos porta-retratos se juntariam aos antigos, agora.

Sentiu vontade de destruir tudo, de atear fogo na casa, deitar-se em seu tablado e esperar pela morte. Ela e seus animaizinhos estariam melhores em outro mundo que não este tomado pela loucura. Ergueu seu nodoso cajado e... e então reparou em como um raio de sol penetrava na penumbra de sua sala, caindo exatamente sobre o disco solar que Amaterasu erguia acima de sua cabeça.

Será a última vez que verei sua luz, pensou horrorizada. Se não deixar que ela guie meu espírito segundo sua vontade, só me restará a escuridão. E algo ainda pior lhe ocorreu: E nunca mais encontrarei minha família.

Kato latiu para ela. Sachiko abaixou o cajado. Ajoelhou-se diante o altar, suas pernas sendo envoltas por espinhos, e apenas chorou. O cão se aproximou e lambeu seu rosto contraído de dor.

— Agora estamos sozinhos nesse mundo, Kato-inu.

O dia oito de agosto viera encontrá-la deitada ao pé do altar; ela deixara-se somente deslizar para o chão e lá mesmo adormecera entre soluços. O cão zelara por ela a noite toda, quieto; não se agitara nem quando o gato resolvera ser seguro sair do esconderijo onde havia passado o dia e viera juntar-se à dona.

Todo o corpo de Sachiko doía. Por um segundo, ao despertar naquele tatame, achou que teria sido levada durante seu sono por Amaterasu, mas quando a ardência de cada músculo a cortou da cabeça aos pés como uma lâmina, deu-se conta de que continuava aqui. Tentou mover os braços e não conseguiu, procurou respirar fundo, porém seu peito encovado latejou e a sufocou. De repente seu quimono era como um cobertor elétrico, fazendo-a suar como os contadores de histórias que corriam as vilas diziam suar os bravos escavadores de túneis para emboscar os inimigos nas ilhas do oceano Pacífico.

Estava fraca demais, precisava alcançar nem que fosse o pote de água: Noventa e cinco anos não eram 25 para se permitir tamanho descaso com a saúde. Ela chegou a pensar em, quando a situação se tornasse insustentável, deitar-se em seu tablado e descansar. Só permaneceria lá, aguardando pelo abraço de Amaterasu, por Kintaro e seus filhos e por um mundo de paz além deste.

Mas esperar por morrer sem fazer nada também seria uma forma de suicídio, o que para a deusa da luz pesaria tanto quanto se ela tirasse a própria vida. E tamanha seria a desonra que lançaria sobre a memória de todos os seus, atraindo para si um fim tão indigno. Achou que, se tudo o que encontrasse além da morte fosse um vazio de trevas, mereceria cada gota de seu castigo.

Não posso. Ainda não. Preciso me unir a eles.

Escorando-se no altar, pôs-se de pé com o esforço de um escalador. O ar vinha aos poucos, causando uma dor de cabeça nunca antes experimentada. Caminhar até a simplória cozinha fora tão extenuante quanto lembrava ser a subida para casa no final de uma tarde atarefada no hotel.

Apenas arrastou de lado a tampa do pote d’água, sem se preocupar se cairia ou não. Mergulhou o primeiro caneco que viu em seu interior gelado e bebeu tudo em três goladas. Foi acometida por uma crise de tosse e boa parte da água voltou. Outra vez o copo todo amassado foi ao fundo do pote e, desta feita, ela tentou sorver o líquido com mais calma. Ao terminar, a respiração pareceu melhorar um pouco.

Não se esqueceu de seus companheiros: cada um teve seu recipiente cheio até a borda e todos beberam quase ao mesmo tempo.

— Me desculpem — disse ao cachorro e a Koneko, que miava sem parar. Talvez não tenha conseguido caça – uma lagartixa que fosse – para saciar sua fome. Ambos estavam cada dia mais magros e fracos, iguais a ela. — Não sei o que dar de comer a vocês, meus amigos. Não temos mais nada.

Os legumes. Recordou-se do último alimento que separara para fazer uma sopa à sua família quando chegassem de Hiroshima, mas aquilo nunca aconteceria. A voz do garoto de recados ecoou em sua mente dizendo-lhe de forma sucinta, muito típica das crianças, que ninguém havia sobrevivido.

— Aqui — Sachiko picou com um faca as cenouras, nabos e tomates e os pôs para Kato e Koneko. — Perdoem-me, por favor, por ser tão pouco.

Nenhum deles se importou; comeram com avidez, certamente gratos a ela. Um restinho da comida, separou para o leitãozinho Cho. Levou-a até o galpão adjacente e ele também devorou a parca refeição. Vinha procurando por Miza e Ondori, que não estavam em canto algum da cozinha, e fora encontrar o galo ciscando no terreiro dos fundos. Haviam saído em algum momento (ela esquecera-se de fechar a porta da sala no dia anterior, quando se deixara tomar pela tristeza) e, se a galinha não estava junto de Ondori, era porque alguém a vira e a levara.

Sachiko pediu perdão ao seu velho amigo ranzinza. Agora ele também não teria mais uma companheira. Compadecia-se profundamente por Miza que, se não tivesse apenas se embrenhado no bosque, logo não cacarejaria novamente.

Quanto mais ela precisaria suportar?

Vamos todos morrer, pensou enquanto chamava por Ondori. E será da forma mais agoniante. Ninguém deveria morrer de fome.

Ela jamais vira Miza outra vez; no entanto, da mata ressurgiu um amigo o qual já sentia grande saudade: Ganko voltava para casa. O jumento balançava o rabo e as orelhas murchas, relinchando talvez de felicidade por tornar a vê-la. Sachiko deu-lhe um sorriso cansado. Aquele ali sempre fora um teimoso. Ela enlaçou seu pescoço e o afagou com carinho.

— Vovó! Yamazaki-sama! — A voz que ouvia era difícil de associar a quem ela achava pertencer. Deu a volta na casa, muito devagar, apoiada em seu cajado.

Shimizu. Viu-o parado na caminho que levava à casa, mas escaveirado que um morto. Pele muito amarela e ossos preenchiam os trapos imundos que usava. Arfava e se apoiava numa arvorezinha; seu sorriso fácil sumira daquele rosto sofrido.

Ela também não tinha forças para falar, apenas grunhia baixinho, acenando ao menino que esperasse.

— Jesus, vovó...

Sachiko gesticulou como costuma fazer, mas foi um abanar de mão quase tão imperceptível quanto sua voz. “Não se preocupe comigo”, dizia aquele aceno, contudo, as lágrimas do garoto lavavam seu rostinho encardido.

— Não... chore... Shimizu-kun — disse a velha muito baixinho.

Olhando para além dele, Sachiko viu a irmã do rapaz puxando uma carroça e também as crianças. Uma seguia ao lado de Misaki, carregando um fardo com roupas e a outra, mais nova, estava deitada sobre um punhado de feno ao lado de pertences ordinários. Não via nenhuma comida.

— Pedi a Misaki para descansarmos um minuto — disse Shimizu. — Estamos indo embora. — Na estrada, a fila do êxodo seguia lentamente, todos nela parecendo exauridos e cobertos por uma sombra de incertezas. Ninguém falava alto, nem o choro inconformado daquelas almas era ouvido mais. — Vim pedir... implorar que a senhora venha com a gente, vovó.

Sachiko novamente se recusou. Moveu a cabeça com dificuldade e chegou mais perto do pequeno amigo.

— Tudo que eu conseguiria seria atrasar vocês.

— Eu a carregarei na carroça — disse Shimizu com a voz embargada. — Posso fazer isso. Ainda consigo. Tem algum espaço, e a senhora pode ir contando histórias a Toshio para acalmá-lo. Ele está muito assustado...

— Eu sinto muito, meu menino. Não devem carregar mais este fardo.

— Vovó Yamazaki, pelo amor de Deus! — Shimizu fizera menção de se ajoelhar e Sachiko o impediu. — A senhora não entende... Uma nova lista foi lançada dos céus por aviões há dois dias, logo depois daquela... daquela coisa terrível.

— Entendo.

— Misaki disse que uma das cidades alvo de um novo ataque pode ser Kokura. E... talvez Nagasaki.

— Então vocês têm mais um motivo para não se deixarem atrasar.

— Por favor, vovó...

Mas Sachiko não permitiu que ele continuasse. Somente pediu ao garoto que esperasse um momento e voltou devagar até os fundos da casa. Minutos depois, vinha trazendo Ganko por um laço.

— Aqui. Leve-o com vocês — pediu ela. — É cabeça-dura feito um... bem, feito um jumento, mas poderá ajudá-los com a carroça. E eu não o quero por aqui quando a hora chegar.

— A hora não precisa chegar! — disse Shimizu, furioso.

— Shimizu-kun — interveio sua irmã, segurando a corda. — Precisa respeitar a vontade dela.

— Escute a Misaki, meu menino. Eu não posso mais me lançar por caminho algum. Aqui terá de ser meu lugar de descanso.

— Isso não é justo. Não é...

— É. Não é nem um pouco justo. Nada disso. Mas assim são as coisas.

— Não...

— Eu queria que levassem Kato e Koneko com vocês, mas não os encontrei. Os dois devem ter lido meu pensamento e se escondido.

Arrasado, Shimizu Fujiwara, o garoto que encontrara uma amiga improvável em uma senhora de quase cem anos, precisou que a irmã o gritasse para que largasse sua Yamazaki-sama e não fossem atropelados pela nova onda de migrantes que vinha em comboios de caminhões abertos.

— Vá com sua família, Shimizu-kun.

Na cidade, sirenes haviam disparado e uma voz gritava em alto-falantes que o inimigo se aproximava.

— Vovó!

— Não será aqui o ataque. Eu vou ficar bem.

E era claro que não iria.

— Eu vou voltar para buscar a senhora! — Shimizu quase era engolido. — Não vou te deixar pra trás!

Misaki o puxava; alguém tentara lhe tomar a corda das mãos e foi isso que fez com que ele enfim se rendesse. Ajudou a irmã a amarrar o jumento ao canzil, o tempo todo empurrados pela multidão. As crianças, agora sentadas na carroça, choravam e pediam que Deus e o Senhor Jesus lhes dessem sua mãe. Quando Shimizu conseguiu olhar de novo para onde deixara a amiga, ela já se havia sumido.

...

Agora era esperar.

Com o anoitecer, a movimentação diminuiu, mas as pessoas ainda passavam às dezenas por sua estradinha. Algumas boas almas cuidavam de infelizes que foram pisoteados durante a confusão da tarde e a luz de uma tocha ardia numa casa a uns 200 metros. Sachiko sabia não ser o Sr. Miamoto e sua esposa, pois eles haviam ido embora há três dias, quando o fogo ofendeu ao céu.

Pedia em silêncio que seu fim não fosse ser espancada por algum saqueador. A morte viria, de um modo ou de outro, mas que não se desse pelas mãos de sua própria gente. Vulto corriam pelo tecido das paredes. Sachiko mantinha sua última vela acesa para que soubessem que ali não estava abandonado, e Kato, instintivamente, montara guarda na varanda. Velho ou não, seu tamanho ainda mantinha a maioria afastada.

Ele e o gato tinham voltado, trôpegos, ao cair da noite. Dois malandrinhos que não iriam deixá-la tão facilmente.

— Koneko — disse, deixando os dedos tocarem as costas do gato que ficara por perto dela — Acha que Shimizu e sua família estão bem?

O gato rajado, é claro, apenas ronronou um miado sem convicção.

— Os aviões não vieram. Onde acha que estão destruindo agora?

— Miau.

A velha concordou com ele.

— Sim... Ainda temos mais algum tempo. Mas está no fim. Eu não vou achar você e Kato mal-agradecidos se quiserem ir embora. Não posso levar vocês; perderam a chance de ir embora à tarde numa carroça. Espero que estejam satisfeitos.

— Maaau...

Sim, talvez estivessem.

Amaterasu ainda a consideraria suicida por ter-se negado a partir?

Não haveria uma última refeição. Todos encheram suas barrigas com água (que também acabava) e se resignaram em aguardar o que viria em seguida.

Pela primeira vez em 50 anos, Sachiko não acordou durante a madrugada. Fora abrir os olhos só quando uma nesga de sol aquecera seu rosto, mais ou menos às dez da manhã.

Ondori não cantou, pensou enquanto se arrastava até a cozinha. Ele não estava lá; tampouco nos fundos. Que tivesse sido um pouco mais esperto e ido para a mata. As chances eram mínimas, porém ela queria acreditar que ao menos um deles ficaria bem. O galo poderia viver muito tempo ainda, ciscando pelo bosque. Não seria tão fácil quanto receber quirera de mão beijada, mas...

No galpão, compreendeu que desejos são destruídos com a rapidez de um raio. Cho também havia desaparecido.

Posso esperar que ele também tenha fugido, querido Buda?

Longe, as sirenes de Nagasaki recomeçaram a soar.

Talvez seja hoje.

Quando o distante som de aviões chegou à cidade e todos entraram em pânico, Sachiko fez o inverso. Não gostaria de partir daquela forma, não desejava dar o gosto ao inimigo, mesmo que sequer soubessem de sua existência, escondidos entre nuvens, longe demais para encará-la ou a qualquer um nos olhos.

É mais fácil para eles que não nos vejam.

Sachiko abriu a porta para a varanda e sentou-se numa das quatro cadeiras de balanço que dispusera numa tarde, mil anos antes, na esperança de ver sua família sentada nelas outra vez. Tadashi as havia feito, trançando palha nas tardes depois de voltar da pesca; o mar ainda não começara a tomar-lhe todos que amava.

Contara histórias para seus netos e bisnetos naquelas cadeiras, vira o sorriso em seus rostos e os imaginara em qualquer lugar, menos perdidos para uma guerra.

— Mas assim são as coisas — resmungou, olhando para o céu.

Como sabia que seria, viu quando Kato e Koneko deitaram-se ao seu lado, em rara harmonia, silenciosos. Estavam lá, nada precisaria ser dito.

Passavam dois minutos das onze da manhã do dia nove de agosto e em algum lugar acima dela, o homem dava outro passo para dentro da escuridão.

Mas não foi isso o que viu Sachiko. Ela preferiu crer que o clarão de mil sóis a cegá-la fosse Amaterasu vindo buscá-la.

E, para quem ficasse, que aquele fosse o sol de seu adeus.

3 de Abril de 2022 às 03:32 15 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Wesley Deniel Meu nome é Wesley Deniel, e tenho uma mente cheia de fantasmas. Pelos últimos 20 anos eu tenho vagado pelos recônditos mais escuros deste e de infinitos outros mundos e trazido desses lugares de insondáveis terrores os pesadelos que compõe minhas obras. Embora escreva todos os gêneros e esteja aberto a qualquer desafio, é no horror e no terror que permito que alguns desses fantasmas ganhem força o bastante para atravessar para o nosso mundo.

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Francisco de Assis Francisco de Assis
Que coisa linda, cara. Tão pobrezinha, envolta por tristezas, perdas e dificuldades, e sinda tão iluminada. Ela, seus bichinhos... Não tem como não chorar. Obrigado por essa lição, Wesley.
Aparecida Boaventura Aparecida Boaventura
Que conto lindo, Wesley! E que título forte! São tantas as emoções que você me causou com ele que só posso agradecer! Muito sucesso! 🥰

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Muito obrigado, minha amiga. Sou eu quem deve agradecer ! Fico honrado por sua presença e pela gentileza de deixar suas impressões tão importantes para que eu saiba estar seguindo o caminho certo. É sempre bem-vinda ! Esteja em paz ! 🙏🏻 1 week ago
Juan DeMarco Juan DeMarco
Que conto encantador, colega! Eu sou um apaixonado, literalmente, pode ver meu nick kkkkkk , apaixonado principalmente pela vida e então essa história me tocou muito, me entristeceu, me aqueceu o coração e me fez sentir a esperança nas pessoas renovada. Muito bem escrita, muito detalhada e cheia de significados. Parabéns! E obrigado!

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Ah, o Don Juan ! É uma honra saber que toquei tal coração ! Amo esta história, me emocionei muito escrevendo e não vejo a hora de dar seguimento às outras que farão parte dessa coletânea sobre as guerras. Espero tê-lo sempre por aqui, amigo ! Obrigado pela gentileza ! 1 week ago
Ellie Abigail Ellie Abigail
Nossa Wesley, tem histórias que nos pegam e nos destroem ou nos alavancam com toda a força, deixando a mente inquieta por muito tempo depois de terminadas. Essa é uma que fez isso comigo. Chorei igual quando era pequena e assisti "Meu primeiro amor". Nossa, acho que foi daquele jeito! Parabéns de verdade, você tem tudo para chegar no topo com esse talento pra todo tipo de histórias e eu desejo que chegue! Apaixonante!!!

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Oi Ellie ! 😊 Nossa, cada um de vocês me honra muito ao deixarem tamanho apreço ! Eu fico emocionado com cada mensagem, com o apoio de vocês e suas palavras. Fico mais ainda quando vejo uma nova leitora ou leitor que já vem de alguma indicação. Para mim é um sinal de estar no caminho certo, e prometo sempre fazer meu melhor para encantar a todos. 🥰 Sobre chorar e sentir fortes emoções, eu também sou completamente apaixonado por histórias que me fazem sentir assim (mesmo se tiverem terror) e as minhas – a título de curiosidade hehehe – são "À espera de um milagre" e "A corrente do bem". Deus do céu, o que já chorei com esses filmes ! Com os livros também. Aliás, quase toda história de King que segue mais para o foco nas relações humanas me fazem chorar. Fico muito feliz que tenha gostado, que esta minha humilde história tenha te tocado. É para isso que sigo o sonho ! Esteja em paz. 🙏🏻 3 weeks ago
Gael Neeson Gael Neeson
Que história linda, cara! Eu estou emocionado até agora. Demorei um pouco lendo toda ela porque estou acompanhando mais histórias suas e do pessoal aqui e não é sempre que dá pra entrar mas valeu cada segundo lendo esta aqui. Eu ja era fan do seu terror, sempre bem escrito, com um estilo incrível e agora vejo que você tem o dom pra qualquer gênero!!! Que que é isso, mano. É de dar um nó na garganta e deixar a tristeza misturada com a raiva do que a humanidade ja fez e também com a paz de se encontrar ao lado do bem. Eu não sei como não vejo você por toda a internet ja, cara. Não é possível que um escritor assim não exploda! Tem que mostrar isso em todos os lugares amigo. Eu estou falando pra todo mundo sobre as tuas histórias porque eu faço idéia de como deve ser dificil criar algo assim. Desejo muito sucesso pra vc. Vou deixar minha recomendação, pode ter certeza!
November 03, 2022, 08:31

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Oh meu amigo, que bom que está gostando do que lê, e muito obrigado por reservar um tempinho para conversar um pouco ! Estou sempre aqui para todos, fico muito feliz em falar com vocês, que tanto me honram ao lerem e com suas palavras gentis. Esse conto me emocionou muito também. Eu o terminei chorando (acontece de vez em quando com certas histórias) e fico feliz por ter causado tantas emoções em meus leitores e leitoras. Nem só de horror vive este escritor hehehe Grande abraço, querido ! 🙏🏻 November 04, 2022, 01:01
Tom Jaqen Tom Jaqen
Formidável, Wesley ! Simplesmente uma das histórias mais cativantes, lindas e tristes que já li. Como nossa amiga de leituras disse em outro comentário, você se sobressai em qualquer tipo de escrita. É de um talento que não consigo entender como ainda esplodiu! Vc precisa ser lido, pq não publica em mais plataformas? Espalhe suas histórias encantadoras [e às veses assustadoramente horrendas] para os quatro ventos! Precisa ser descoberto!!!!! Assim como no horror você nos causa medo e angustia, em outros gêneros consegue causar lágrimas ou esperanças. Essa aqui mesmo, eu parei umas tres veses pra me recompor. Choro muito com coisas assim e essa história da senhora Sachiko é imensamente linda, triste e tocante. Vc falou que ela fará parte de uma coletânea de contos só nesse tema..... Mau posso esperar pra ler o resto. Se for metade dessa, tenho certeza que serão fantásticos!!! Que vc tenha muito sucesso. É um escritor que tem tudo pra estar entre os grandes de nossa literatura atual. De verdade.
October 07, 2022, 21:51

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    E desculpe alguns errinhos. O teclado do meu celular conspira contra mim. 😄 Abraço ! October 20, 2022, 08:27
  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Muito obrigado por sua mensagem, meu amigo. E que seus votos sigam direto para os ouvidos de Deus. Escrever é minha grande paixão e, ultimamente, tenho desejado me desafiar em outros gêneros. Gosto do humor, principalmente em histórias de gângsteres com Destino: Inferno, por exemplo (que logo ganhará uma pré-sequência chamada Ratos Dourados), ou então o drama. E esta história veio da necessidade de tentar mostrar o lado das vítimas dos grandes conflitos ao longo da caminhada humana. Se Deus quiser, a coletânea da qual esta história fará parte, não demorará sair. Esta foi escrita mais ou menos na época em que logo completariam 77 anos da tragédia de Hiroshima e Nagasaki, um passo em direção à escuridão que jamais poderemos retroceder. Eu estava (ainda estou) com meu coração na guerra da Ucrânia também, e inclusive haverá uma história passado durante esse conflito na coletânea. Então pode fazer ideia como foi triste escrevê-la. Fico tocado por cada um de vocês que também se emocionaram. Este é o meu dever: além de divertir meus leitores, também fazê-los refletir, sentir o mundo e cada alma nele. Grande abraço, meu amigo ! Fique com Deus. 🙏🏻 October 20, 2022, 08:25
Liura Sanchez Lauri Liura Sanchez Lauri
*chorando* parabéns, escritor de mão cheia! Que gentilezas, que descrições. Conseguindo tirar tantos momentos lindos de uma das maiores atrocidades humanas. Não consigo ler terror e horror, mas este seu conto, apesar de mostrar um momento de horror da humanidade me fez encontrar a capacidade desta mesma humanidade em ser boa e fazer o bem. Tudo que eu insistir em escrever vai ser desnecessário frente a sua obra, então, congratulações!!
October 07, 2022, 18:27

  • Liura Sanchez Lauri Liura Sanchez Lauri
    Puxa, temática mais atual não existe! Ficarei esperando ansiosa pelas histórias! Abraços, Liura. October 08, 2022, 11:58
  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Olá, Liura ! Fiquei emocionado com seu comentário. É por isso que sigo adiante. Muito me honra saber que posso tocar os corações das pessoas de diferentes formas, com a emoção, com o terror ou até o choque de realidade de contos como "Aquele Jantar", "O Homem do Saco", "Kanda", "Toxinas da alma" e este aqui, que - confesso - também chorei enquanto o terminava. Não se preocupe, minha esposa também não lê minhas histórias de horror. 😄😄😄 Eu entendo. Tanto que tenho procurado revezar minha escrita entre meus gêneros principais (horror, terror e suspense), com dramas, contos com humor e histórias da vida, como esta. Esta aqui fará parte de uma coletânea chamada "Nós não pedimos por suas guerras", e trará exatamente isso: inocentes em meio à devastação de conflitos mundiais nas mais diversas épocas da história humana. Acho que gostará. 😊 Muito obrigado por sua gentileza ! Ah ! Essas histórias que citei, pode ler de boa, pois, apesar de terem pitadas de suspense, são bem mais leves. October 07, 2022, 21:21
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