wernicky Wernicky Hakkinen

" Aqueles que vinham do mar " Fala não só sobre a escravidão, mas também aborda temas como romance, e o amor de um pai em busca do filho. A história de Nabu, um indígena africano que tem a tribo incendiada e o filho sequestrado por escravistas, mostra a visão de um pai viúvo ao viajar por anos em busca de seu filho, e acaba se envolvendo numa guerra, lutando contra o preconceito, escravidão e genocídio do seu povo, ao mesmo tempo que encara a complexidade de se apaixonar pela jovem esposa de um dos mais poderosos fazendeiros da região, numa dura dualidade de amor e dever. W.H


#27 em Romance #11 em Romance adulto jovem Todo o público.

#surpreendente #emocionante #empolgante #Romance #inkspiredstory #poesia #fanfic #guerra #aventura
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A predestinação ao acaso

Talvez não tínhamos a perfeição em nossa ilha, mas o que tínhamos se assemelhava.

Assim como os rios, tudo fluia e corria exatamente como deveria, os caçadores caçavam, os pescadores pescavam, as esposas cozinhavam e eu a admirava, Zimbábue, a mulher mais linda de toda a tribo esperava um filho meu, nunca almejei um grande futuro para mim, mas ter um filho com ela, e o ensinar a caçar é o mais próximo que tive disso.

Vivíamos em harmonia com as outras tribos, desconhecendo guerra ou fome, todos tinham o suficiente e o suficiente bastava a todos, até que eles chegaram...

Ouvimos gritos e vimos fogo durante toda a noite, gritos arrepiantes de desespero ecoavam mata a dentro, estrondos como se desabasem os céus, o pajé juntou os melhores caçadores ao amanhecer e marcharam em direção a tribo vizinha, de onde restava apenas cinzas e corpos, a tribo havia sido destruída.

Mexendo nos corpos em busca de sobreviventes, os guerreiros da tribo veêm um jovem índio de joelhos, virado para o mar apontando o dedo para enormes monstros flutuantes de madeira, e dizia com uma voz rouca porém ensurdecedora:

Veja, pajé!

Os demônios que flutuam sob nossas águas estão famintos.

Ouça o rugido de fúria daqueles que já selaram nosso destino

Os demônios têm fome, pajé!

Consumiram nossa terra e queimaram nossas aldeias, e ainda assim, não saciaram sua fome.

Caçaram nossos filhos e os filhos dos nossos filhos, acorrentaram seus corpos e aprisionaram suas mentes, e ainda assim, não saciaram sua fome.

Os demônios que violaram nossos mares devoraram nossas árvores pela lâmina dos seus machados, e nossa família pelo fogo de suas armas, e ainda assim, não saciaram sua fome. E o que poderia eu fazer se não apenas presenciar nosso declínio? meus irmãos caíram e os que não pereceram, foram subjugados sob o chicote do algoz. Correntes castigam meus braços enquanto rastejo no que sobrou da terra que engoliu meus filhos, Diga-me pajé, por qual crime pagamos?

Ao ver os demônios em suas carruagens voando sob as marés, o medo acorrentou a todos, e mesmo livres, viramos escravos.

As pernas não se movimentavam, os olhos nem sequer piscavam, o ar seco e frio que iam até os pulmões se perdiam no caminho, o medo era tão predominante que por um momento esquecemos dos que foram levados pelos demônios, e apenas o sentimento de insegurança era notório.

O que era aquilo que nos caçava? era tão assustador o que se passava naquelas coisas que flutuavam, que vimos nossos irmãos preferirem ser engolidos pela escuridão do mar que permanecer ali dentro, ao estalar dos chicotes um a um eles sangravam e gritavam, afunilando-se para saltar, eu não sabia ainda, mas a morte tão prematura era a misericórdia divina sob eles.

Passamos horas ali os vendo partir e juntando o que sobrou do nosso psicológico, mas mal conseguíamos nos mexer, uma decisão lógica era um sonho distante, ao menos aquele momento.

Aquela cena atordoante nos roubou a atenção e o mundo por um momento parou, não o mundo em si, mas o nosso mundo.

Nossos irmãos e irmãs foram levados e acorrentados, e com eles foi a nossa inocência. Corpos sem vida mancharam nossa floresta e nossas mentes, olhei em volta e vi homens corajosos sentirem medo pela primeira vez, não por eles, mas por sua família, amigos e irmãos.

Nos olhos daqueles que chicoteavam havia um ódio o qual não conhecíamos, como se tivessem nascido dele, como pudera a natureza criar um ser tão obscuro, capaz de matar sem ao menos pestanejar.

Um estrondo forte mata a dentro invadiu até meus pensamentos, senti dentro de mim que algo estava errado, meu coração disparou e as mãos congelaram, havia acontecido algo.

Minhas pernas dispararam em direção ao barulho, como se o estrondo houvesse chamado por mim, como se eu sentisse de onde vinha. A cada árvore que eu passava o coração acelerava ainda mais, mal percebi que eu estava muito a frente dos outros que corriam comigo, eu corria como se tivesse sendo caçado, como um desesperado, eu sentia meu coração bater na boca e quanto mais perto do local, mais tremiam as minhas pernas, meu Deus...

Por que Zimbábue não sai da minha mente? eu estou cansado mas ainda assim eu não conseguiria parar de correr.

Até que percebi que corria em direção a aldeia, vi mulheres e crianças correndo em minha direção com um semblante de medo e pena, meus olhos lacrimejaram como se já soubessem o que tinha acontecido, e a única palavra que minha boca pronunciava era "não" de forma repetitiva e desesperada, continuei correndo e vi uma moça grávida de cabelos negros ao chão, finalmente eu parei de correr, como se minhas pernas novamente travassem, minha força sumiu e debruçado ao chão amaldiçoei até a terra que um dia pisei.

- Que esse maldito dia seja o início do declínio dos demônios, que os céus caiam sob suas cabeças assim como caiu sob a minha, plantaram ódio em nossa terra, e regaram com sangue, colherão seus frutos.

Meus olhos queriam ver Zimbábue ao menos uma última vez, porém minhas pernas não se moviam, acho que meu coração não queria essa memória como a última dela ou simplesmente estava em negação, só temos a certeza de que alguém está morto quando tocamos a pele fria e vemos o olhar sem alma, eu não queria essa certeza, pois sabia que se ela morresse, uma parte de mim morreria com ela.

A parte que eu mais amava em mim foi a parte que ela me deu, e agora apodrecerá com seu corpo, e eu apodrecerei junto, porém vivo...

A curandeira com os olhos lacrimejados e um aspecto sofrido, veio em minha direção com os braços ensanguentados, neles havia um pano em uma mistura agoniante de terra e sangue, cheguei perto e olhei o pano enrolado em seus braços, era meu filho prematuro, uma criança viva, porém calada, como se soubesse tudo o que acontecia em sua volta, peguei meu filho e gritei como nunca havia gritado, um rugido que assustava até mesmo o predador mais feroz daquela selva, naquele momento que eu o senti em meus braços, eu sabia que morreria por ele sem hesitar.

- Me perdoe filho, eu deixei sua mãe partir, não pude fazer nada

me ajoelhei com ele nos braços enquanto prometia que o protegeria de qualquer coisa, ainda que meu coração soubesse que era mentira, eu não conseguia parar de fazer promessas das quais eu não poderia cumprir.

- Vou chama - lo de ayo, porque significa " felicidade "

Meu filho é tudo o que restou de quem eu fui um dia, e eu vou deixar que ele viva dessa forma, a sombra do medo de homens indefesos.

Não podíamos viver com medo de outro ataque, isso não é viver, e se trocássemos o "viver" por apenas "sobreviver" significaria a vitória deles, e não só fisicamente, mas também em nosso psicológico.

Levantei lentamente da terra, erguendo a cabeça, como se o lobo que houvesse em mim estivesse despertado de um longo inverno hibernando, e ele estava faminto.

O homem que matou Zimbábue ainda estava na floresta, e já estava na hora de alguém revidar.

Não deixarei meu filho crescer em meio ao medo, somos caçadores, guerreiros que sobrevivem a mais fria e densa noite na selva, e ao dia mais seco no calor da floresta.

Quando dei por mim, já estava de pé novamente, os olhos ainda lacrimejados porém a expressão havia mudado, não estava presente o aspecto de medo, mas os olhos refletiam um animal que acabou de acordar faminto de um longo sono, estava na hora.

Olhei nos olhos do meu filho, e tive a certeza do que precisava fazer, o beijei na testa mesmo ele em uma camada espeça de sangue e barro, passei a mão em seu rosto e sussurrei em seu ouvido:

- Me perdoe por você ter nascido sem escolhas, ser forte não é mais uma opção, é a única opção.

O entreguei nas mãos da curandeira, e ela me olhou nos olhos, sabendo que eu não voltaria, eu não precisei pedir para que ela cuidasse do meu filho, apenas balancei levemente a cabeça para cima e para baixo, e ela entendeu naquele momento pra onde eu iria.

Dei dois passos em direção a floresta e senti uma mão segurar meu braço, era o pajé, me olhando e suspirando, como se tivesse cansado.

Ele olhou para o corpo de Zimbábue ao chão e Novamente focou a visão em meus olhos falando:

- Filho, aquele que sai montado em fúria em busca de vingança, colherá mortes.

E já não houveram o suficiente? Deixe que os Deuses da floresta façam justiça, não sobreviverão a justiça divina.

Nabu puxou seu braço e demonstrando desprezo respondeu ao Pajé:

- Deuses? Onde estavam seus deuses quando meus irmãos eram queimados e mortos? Onde estavam seus deuses quando foram levados? Seus deuses dormiram enquanto minha esposa era ferida e morta sem motivo algum.

Os únicos deuses que quero comigo é a ponta da minha flecha e a lâmina da minha faca.

Eu precisava mostrar aos meus irmãos que eles também sangravam, que podiam ser mortos, que eles tinham mais motivos para nos temer do que nós tínhamos de teme-los, eles estavam na nossa terra, eu ia mostrar o quanto ela poderia ser cruel.

Fui para floresta para rastrea-los, preparei cada flecha como se todas fossem perfurar corações, amolei minha faca como se eu fosse matar leões.

Pajé, não ore aos deuses por mim, ore por eles, implore por piedade, peça para que suas mortes sejam rápidas e indolores e eu o mostrarei que seus deuses são surdos.

Assim como fizeram conosco, eu irei caça-los, sem piedade alguma. Minhas mãos já não tremiam mais, e as pernas estavam firmes ao chão como nunca senti antes, havia trocado medo por ódio, era um péssimo dia para ser branco em minha ilha.

















14 de Março de 2022 às 17:57 8 Denunciar Insira Seguir história
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Leia o próximo capítulo fúria dos indefesos

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Alessandra Katleen Alessandra Katleen
Muito bom mesmo 😊
March 28, 2022, 03:31

Kaue Espindola Kaue Espindola
Legal o jeito que aborda uma visão diferente do normal.
March 18, 2022, 13:06

  • Wernicky Hakkinen Wernicky Hakkinen
    Agradeço dms, vou tentar continuar melhorando, obgd pelo carinho March 18, 2022, 13:27
TK Thalia Karoline
História promete envolver os leitores.. aborda temas que prometem fazer você pensar e repensar 👏 Ansiosa pelo próximo capítulo . Aguardando o que mais pode acontecer com um povo tão....
March 16, 2022, 02:44

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