lucasdepaula Lucas de Paula

"Qualquer coisa que se mova é um alvo".


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#drama #conto #exército #guerra
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ALVOS

"Qualquer coisa que se mova, é um alvo". Assim que fui criado. Meu pai foi militar, general, lutou em guerras, ganhou medalhas. Sempre me ensinou sobre honra e lealdade, sempre ouvi tudo que ele tinha a dizer. E ele tinha muito a dizer, sobre tudo. Desde minha infância, eu já odiava mais coisas do que eu amava, mesmo sem entender direito.

No meu aniversário de 18 anos, meu presente de aniversário foi me alistar no exército. Eu estava orgulhoso de mim, entedia que esse era o meu destino e que eu estava preparado. E meu pai estava ao meu lado, com orgulho de seu filho e orgulho de si mesmo, pois sabia que tinha criado um homem “íntegro e honrado”, como ele mesmo dizia.

Entrei no exército e logo meus superiores se impressionaram com minhas habilidades. Eu já sabia que me daria bem, afinal, fui criado dentro de um “exército particular”. Fui criado não como filho, mas sim como soldado. Sempre amei e sempre vou amar meu pai, mas hoje vejo onde ele pecou comigo. Ninguém é perfeito e essa era a única vida que ele conhecera, mas com o passar dos anos, você começa a enxergar certas coisas com outros olhos.

Fui subindo de patente e, em pouco tempo, me tornei capitão. Eu tinha o respeito de todos ali dentro, dos soldados aos generais. “General Floyd te ensinou muito bem, garoto”, é o que sempre diziam quando eu fazia algo certo, o que não era algo incomum.

Pouco tempo após me tornar capitão, iniciou-se uma guerra. No exército, você passa todo santo dia se preparando para uma possível guerra, mas quando ela chega, suas pernas tremem. Não existe pílula mágica para não ficar nervoso quando você sabe que vai entrar em batalha. Mas eu sabia o que devia fazer, era o meu serviço e eu me sentia preparado; a vida de meus companheiros e dos cidadãos de meu país dependiam disso.

Chegamos em terras estrangeiras com sangue nos olhos. Não existe beleza na guerra, tudo é horrível. E se você parar demais para observar ao seu redor, você congela. Não existe honra e integridade, apenas armas e mortes. Se o uniforme não é o mesmo que o seu, você atira. Simples assim.

Todo dia eram batalhas diferentes, em ruas diferentes, com ordens diferentes; mas minhas vítimas eram iguais. Ao menos para mim. Na minha cabeça, eu não estava matando humanos, eu estava matando monstros. Do lado de lá, quem tinha uma arma na mão, não tinha família e amigos, apenas um corpo com um alvo, do qual minha cabeça o desenhava automaticamente.

Porém, aos poucos, meu pensamento foi mudando. O motivo da guerra já não fazia mais sentido, não era plausível. Se é que existe motivo plausível para iniciar uma guerra. Mas lá dentro com meus companheiros, não existiam questionamentos, apenas ordens. E muitas dessas ordens não partiam de meus comandantes, mas sim de políticos que estavam há milhares de km de distância da zona de guerra. Eles não tinham noção alguma da situação, apenas nos comandavam com base no seu ódio gratuito. E nós tínhamos de obedecê-los. Obedecer a homens covardes e sem índole, homens que inventaram uma guerra para lucrar em cima de outros povos. Lucrar com mentiras em cima dos valores dos quais eu fora ensinado desde criança.

Minha cabeça girava e eu não conseguia aceitar mais nada do que estava acontecendo. Pela primeira vez na minha vida, eu estava pensando por mim e eu não sabia como agir diante disso. A indignação e as dúvidas que eu tinha me comiam por dentro, pouco a pouco. E, no dia em que perdemos quase metade de nosso batalhão, recebi a notícia da morte de meu pai.

Enlouqueci. Entrei território inimigo a dentro, atirando em qualquer coisa que se mexia, sem pensar duas vezes e sem nem olhar direito para onde o cano de minha arma estava apontando. Cinco homens, duas mulheres e uma criança. Esses foram os alvos que se moveram em minha frente enquanto o trem desgovernado de nome Capitão Floyd atirava sem parar. Quando me dei conta do que havia feito, já era tarde demais. Minha metralhadora já não tinha mais munição e minha pistola só tinha mais uma bala. E antes que meus companheiros de guerra pudessem fazer alguma coisa, a bala encontrou meu crânio e meu corpo encontrou o chão. E eu apenas encontrei o ácido arrependimento de ter vivido minha vida suprindo às expectativas dos outros. Nunca foi me dada a chance de pensar por mim, apenas me deram ordens e, como um bom soldado, eu as obedeci. No final, meu último alvo, fui eu.

14 de Fevereiro de 2022 às 00:00 8 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lucas de Paula Procrastinador profissional. Músico de quarto que, talvez um dia, chegue ao menos até a cozinha.

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SJ Sandro Jarbas Malheiros
Cara, que história. Muito boa. Valeu
May 16, 2022, 14:21

Giovanni Turim Giovanni Turim
Ótima história.
March 16, 2022, 22:38

Bruna Dondé Bruna Dondé
Vou repetir, aguente. Você é incrível em tudo que faz, é ótimo com as palavras e escreve extremamente bem. Continue escrevendo, vou continuar acompanhando tuas histórias e te incentivando da mesma forma que tu me incentiva. ❤
February 14, 2022, 01:07

  • Lucas de Paula Lucas de Paula
    Muito obrigado, meu bem. Teu incentivo realmente me faz querer fazer mais. Obrigado por estar do meu lado 🖤 February 14, 2022, 01:10
~