johnathan-silva-oliveira Johnathan Silva Oliveira

O primeiro capítulo desta coletânea de contos é sobre Dimitri e o Domo_ um refúgio escondido no bosque das proximidades de sua casa. Vários acontecimentos misteriosos deixam Dimitri curioso. Ao visitar sua vó, do outro lado do vilarejo de Haujan, ela lhe revela que esse é apenas um dos mistérios que cercam uma história mais profunda e antiga: a lenda da Noz Dourada. Esse e os demais contos aqui contidos, são os relatos isolados que derivaram desse drama maior. Para aprofundar-se nas raízes dessa história, do tamanho da Via-Láctea, leia também 'A Noz Dourada', que consta das origens desses fatos.


Fantasia Épico Todo o público.

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Dimitri e o Domo secreto


Tinha épocas que apresentavam invernos mais rigorosos no pequeno vale de Haujan. Mas este não foi um desses anos. Dorvalina espia pela janela, enquanto mexe o mingau à beira do forno à lenha. Tendo a atenção afiada que toda mãe possui, ela suspende a saída de fininho do menino Dimitri:

_ Epa, mocinho. Espere aí! Leva esta cesta, por favor, e vê se consegue encontrar algumas frutas silvestres que dê para fazer uma torta. Podemos fazer a receita da vovó. Que achas?
_ Hum! Tô indo. Já sinto o gostinho...
_ Leve o casaco. Não demore!


Mas foi exatamente isso que ocorreu. Pois enquanto mordiscava algumas frutas que colhera, aproveitou para ler um pouco e terminou se distraindo.
Um esquilo pareceu demonstrar que estava gostando. O bichinho se aproxima e senta-se, como se estivesse esperando o menino continuar a leitura.Dimitri não se assustou, mas fixou o seu olhar em uma mecha de pêlo que erguia-se da cabeça do roedor, de onde a voz parecia sair. Mas ignorou e prosseguir a ler.

Assim ficaram quase uma hora inteira, quando por fim ele estagnou a leitura na parte que mencionava uma 'torta'.

_Nossa! Esqueci-me completamente das frutas da mamãe. Desculpa amiguinho. Preciso colher as frutas para ela fazer uma torta.

_ Posso ajudar você a encher essa cesta. _ voluntariou-se o ágil esquilinho marrom.

Encheram rapidamente a cesta. Dimitri ficou muito grato ao esquilo, e perguntou o seu nome:

_ Como posso lhe chamar?

_ Eu me chamo Town.

_ Obrigado Town. Agora devo ir, se não mamãe fica preocupada. Preciso ajudá-la com minha irmãzinha caçula.
_ Você pode vir mais vezes e ler os seus contos pra mim? Posso lhe mostrar um lugar secreto cheio de amoras.
E assim se deu.

No dia seguinte, lá estava Dimitri com seus livros, presos por uma alça de couro em uma das mãos, na outra uma rede para pôr as frutas que conseguisse coletar. Town cumpriu o que havia prometido. Depois de ter encontrado com o garoto no mesmo lugar do dia anterior, seguiram rumo ao 'esconderijo das frutas', como Dimitri passou a chamar o próspero refúgio das árvores que sempre frutificavam. E a descrição que o esquilo deu a Dimitri não mostrou-se nem um pouco exagerada. Quando viu as árvores arreadas de pomos de várias cores e infestadas de abelhas, borboletas e outros animaizinhos que se banqueteavam naquela doce fartura, sim, após ver tudo isso, Dimitri disse:

_ Tua descrição passou longe da realidade. Como pode ser isso? Aqui tem árvores, frutas e flores que nunca vi aqui no vale, nem na aldeia grande, nem nas planícies do outro lado do condado onde vovó mora. Qual o nome dessa? Olha como é vermelha! E essa roxa, aqui?... Como se chama essa cheia de cachos amarelos? E aquela ali, comprida e com uma amêndoa na ponta?...


_ Vejo que você, assim como todos os que já vieram aqui, está realmente encantado com o Domo._ disse o esquilo Town.

_ Você disse Domo? É assim que vocês chamam?

_ Sim. Mas não costumamos colocar nomes nas frutas. Colocamos nome no lugar porque é útil quando temos alguma reunião para fazer, ou apenas queremos comer juntos com os amigos. Então dizemos: 'vamos ao Domo'. Quase sempre é aqui que fazemos tudo. É aqui que boa parte dos animais fazem seus ninhos e têm seus filhotes, visto que se sentem seguros e protegidos.

O menino ouvia atento, mas sem tirar os olhos das árvores. Ele olhava admirado para cada uma, assimilando suas aparências. Uma chamou-lhe atenção especial.

_ E aquela pendurada no alto do rochedo? Algum de vocês chega até lá?

_ Acho que os pássaros sim. Mas tem tantas em toda a volta, que eu não tinha notado ela. Afinal é só um pequeno arbusto.

Era de fato apenas uma arvorezinha solitária no paredão do Domo. Porém, seus frutinhos possuiam um azul cobalto brilhante de encher os olhos. Dimitri deixou-se distrair pelas criaturinhas que iam e vinham, entre os ramos pendentes de frutinhas douradas, ou entre as raízes que saltavam da grama densa e relvosa, salpicada por diminutas flores delicadas, com suas abelhas zelosas.

-Acho melhor começarmos, não acha? Eu disse à mamãe que hoje eu iria levar muitas frutas para ela fazer outra torta. Nós comemos aquela toda, ontem, pois levei alguns pedaços para a professora e meus amigos de classe.

Esses momentos repetiram-se igualmente por um mês inteiro, até a neve começar a derreter. Dimitri imaginava que o Domo fosse estar mais florido e cheio de fartura. Mas ele estava exatamente igual: caiam frutas, nasciam frutas, murchavam e refloresciam os botões de flores, os brotos rebentavam do chão e alguns eram roídos por camundongos, chinchilas e outros pequenos animais. Nunca mudava. Naquele dia, porém, Dimitri notou uma minúscula diferença. O arbusto de frutinhas azuis do alto do rochedo havia produzido miúdas florezinhas brancas, que de tão delicadas pareciam efemérides. Como elas não se mechiam, Dimitri concluiu que eram flores de fato. Um detalhe curioso, mas ele decidiu deixar pra lá. Não devia ter nada ali que os costumeiros habitantes não soubessem.

Meses se passaram. Dimitri continuava levando livros que pegava na biblioteca da escola, para ler junto com seu amigo esquilo. Certa vez, ele remexia alguns livros em uma das prateleiras empoeiradas, e achou atrás deles um livrinho fino e que quase cabia inteiro em suas duas pequeninas mãos. A capa estava gasta, mas ainda dava pra ver que era azul. O título já estava muito desbotado, porém ele identificou a gravura no centro. Era a reprodução de um frutinho azul e uma flor branca pequena. Completamente intrigado ele mostra para a professora.


_ Acho que hoje vou levar só esse, professora Mirtys.

— Tudo bem, meu querido. Posso ver o título?

O menino entrega-o a ela, mas a professora não demonstrou familiaridade com o exemplar. Franzindo a testa, ela comenta baixinho, quase para si mesma:

— Estranho. Eu nunca tinha visto esse livrinho aqui. Não tem título também... Ah, desculpe querido. Pode levá-lo. Vou só escrever algo na capa para poder identificá-lo.

Quando Dimitri o recebeu, viu que estava escrito 'o livro azul'.

Ajudou a mãe com a irmãzinha caçula, e já ia saindo com a cesta e a mochila a tiracolo. A mãe chama-o e lhe adverte:

— Sabes que já é época dos ursos saírem de hibernação...

— Sim, mamãe. Não irei para a Floresta Funda. Já disse à senhora que só vou até o Riacho do Texugo.

— Sei. Eu me esqueço, Dimitri. Só fico preocupada com esses ursos. Mesmo que eles nunca tenham vindo até o riacho. Mas no dia que teu pai desapareceu havia ursos andando por essas bandas.

— Como a senhora soube disso?

— Ah, eu não te contei, não? Claro. Verdade... Tu ainda era muito pequerrucho. Achava que não ia entender. Mas os pastores disseram que tinham topado com alguns ursos jovens. O compadre Hugo até contou uma história estranha sobre um urso com a cara toda azul...

— Azul?— pergunta o menino quase exaltado.

— Sim, azul. Mas porque você ficou assim?

— Nadinha mãe. É que não existem frutas azuis em todo condado. Achei estranho.

— Nem me diga. Foi o que todo mundo falou naquela época. Começaram a dizer que compadre Hugo estava caducando, ou que a morte de teu pai havia causado um efeito muito negativo nele. Teve gente até que andou dizendo que tinha ficado maluco. Mas é pura bobagem. Compadre Hugo é muito é esperto, isso sim. Mas podes ir. Não vou te encher mais com essas histórias.

Foi-se, portanto, o jovem Dimitri, remoendo a história do urso junto com a do livro azul. Ao chegar, expressou a preocupação de sua mãe pelos ursos.

— Town, os ursos costumam vir até o Domo?

— Sim. Todos os animais vem ao Domo...

— Você me diz isso só agora? Eu estou correndo perigo se ficar aqui. Não há saída. E se um urso aparecer?

— Os ursos e os outros animais carnívoros que vêm ao Domo, não fazem mal a nenhuma das criaturas que entram aqui.

— Existe uma magia neste lugar?

— Não existe magia nenhuma. É uma lei que nós mesmos criamos. A única lei do Domo é não molestar de qualquer maneira algum dos seres que aqui adentram.

— E quem me garante que eles vão obecedecer?

— É apenas a palavra deles...

Enquanto ainda falava, Dimitri soltou um grunhido e começou a recuar, sem tirar o olhos dos dois ursos que acabavam de entrar no Domo. O garoto não percebera antes, mas abaixo do arbusto de frutos azuis ele encontrou algo que lembrava uma escada tosca esculpida na parede de terra. Rapidamente subiu por ela, até chegar ao arbusto. Ficou lá quietinho, olhando e ouvindo a conversa de Town com os ursos.

— Sejam bem-vindos, meus senhores ursos. Vocês sabem de alguma novidade da floresta?

— Nada, meu pequenino amigo. Tudo na santa paz e perfeitamente normal. — respondeu o urso Buggo.

— Como nada? E as árvores cada vez maiores e mais densas? Isso muda muita coisa. A quantidade de luz no centro da floresta está cada vez menor, e isso torna o alimento escasso. Só conseguimos comer algumas nozes e cogumelos. Por isso tivemos que vir aqui. — o urso Huff tinha mais experiência, pois era um urso mais velho, com os pêlos começando a ficar acinzentados.


— Por que seu amiguinho humano fugiu e se escondeu lá em cima? Ele não está com medo de nós, está?

— Você acertou senhor Buggo. Ele ficou com medo. Afinal, não é comum humanos virem ao Domo.

— Amiguinho, pode descer. Só viemos comer algumas frutas e mel. Hum... Sinta esse cheiro, Hugg! Os favos devem estar pingando.

— Estão mesmo, como sempre. Em nenhum outro lugar encontra-se mel de boa qualidade e o tempo todo. Só aqui no Domo. — completou Hugg.

Enquanto os três animais conversavam, só então ele notou que os dois ursos tinham o mesmo tufo de pêlos no alto da cabeça que Town tinha. Inicialmente, quando se conheceram, ele não havia indagado por achar que fosse um acaso. Mas agora, vendo que o tufinho dos ursos era igual, fica extremamente curioso. No entanto, ele adia a indagação, por querer acreditar que eram apenas coincidências, resolvendo sedistrair com as características daquela plantinha única. Ele carregara o livro azul dentro do bolso. Aproveitou, entãoEnquanto os três animais conversavam, só então ele notou que os dois ursos tinham o mesmo tufo de pêlos no alto da cabeça que Town tinha. Inicialmente, quando se conheceram, ele não havia indagado por achar que fosse um acaso. Mas agora, vendo que o tufinho dos ursos era igual, fica extremamente curioso. No entanto, ele adia a indagação, por querer acreditar que eram apenas coincidências, para comparar as ilustrações com as flores e frutas da erva. Coincidentemente, era a mesma espécie de planta. Dimitri começou a ler uma nota abaixo da gravura do fruto. Uma expressão de surpresa estava se formando em seu rosto. De boca aberta e prestes a chamar o esquilo Town, é interrompido por Buggo.


— Garotinho, qual o seu nome?

— Dimitri. Eh... Town, você pode vir até aqui?

— O que aconteceu? Está tudo bem?

— Sim. Sem problemas...

— Você pode aproveitar então que está aí em cima, e nos jogar algumas frutinhas azuis? Elas são uma delícia. Nada se compara...— pediu o urso Buggo.

— Seria bom você não comer. Aqui no meu livro diz que essa fruta possui propriedades transmutativas.

—Trans... o quê?— indagou Buggo.

— Nós sempre viemos aqui, e sempre comemos de todos os frutos. Embora só tenhamos comido dessa apenas uma vez, não é Buggo? Aquela vez que o humano estava pendurado e com medo de nós, assim como você, menininho. Mas nós comemos a frutinha azul e não aconteceu nadinha conosco.— explica Hugg.

— Tudo bem, então. Mas eu avisei... Ei, mas como vocês conseguiram pegar, se elas estão nessa altura? Essa escada é estreita demais para vocês, ursos pesadões.

— Ele está nos chamando de gordos, Buggo. —disse Hugg

— Desculpa. Não é isso.

— Bem, nós pedimos ao humano pra ele jogar algumas frutas, do mesmo jeito que pedimos a você.

— E ele conseguiu entender vocês?

— Acho que sim. Porque jogou várias. — dessa vez foi Buggo quem falou.

Encheu, portanto, os seus bolsos e levou aos ursos.

— Você perdeu o medo?— perguntou Town, com um sorrisinho no rosto.

— Ora, eu não poderia ficar lá em cima o resto do dia. Além do mais, já está na hora de voltar. Vou só colher as frutas para a torta que iremos fazer pra vovó. Vamos visitá-la.

Ele falava essas coisas sem desgrudar os olhos de Hugg e Buggo. Não mais por medo, mas por curiosidade. Ele queria ver de perto o que aconteceria aos ursos depois de comerem o frutinho.


— Não aconteceu nada. Acho que o livro estava errado. Bem, de todo modo, preciso ir. Ah, quase ia me esquecendo, Town. Amanhã e depois eu não poderei vir, pois estarei na casa de minha avó. Mas no início da semana, eu venho sem falta.

— Tudo bem, Dimitri. Obrigado por me avisar. — respondeu o esquilinho.

— Até mais, amigos.

— 'Até mais Dimitri',— todos disseram juntos.

Sua mãe reclamou um pouco da demora. Contudo, como ainda estava concentrada em preparar a bagagem para o passeio, deixou a bronca para quando estivessem a caminho da aldeia.

— Pronto. Acho que não esqueci nada. Agora vamos ver as frutas que você trouxe hoje?

Ela descascou algumas das maçãs e prepararam o recheio juntos. Depois puseram na massa que já estava pronta, esperando para assar.

— Você devia ter vindo mais cedo. Fiquei lhe esperando para coletar os feixes de lenha. Tive que procurá-los sozinha. Porque demorou tanto?

— Desculpa, mãezinha. Eu fiz novos amigos, por isso me distraí.— Tudo bem. Mas deves parar de conversar tanto os bichos. Algum dia desses alguém pode ver e vão pensar que tu estás biruta.

A mãe dei um beijo na testa do filho, e assalhou seus cabelos dourados. Dimitri não entendeu muito quando ela disse que as pessoas achariam estranho se vissem ele falando com um bicho. Afinal, os bichos também falavam com ele. Mas ele não ligou pra isso.

Terminada a torta, eles foram até a carroça, puxada por um robusto cavalo. Os três, enfim, seguiram pela estrada, enquanto cantarolavam as canções tradicionais de Haujan.


A avó de Dimitri chamava-se Elizirna. Ela era mãe de seu pai. Costumava visitar o filho e o neto mais vezes. Todavia, com a idade avançada as visitas tornaram-se menos frequentes. Além do mais, ir a Haujan a entristecia pois sempre a fazia lembrar-se de seu filho. A chegada do neto foi uma alegria para ela. Dimitri, não esperou nem a mãe estacionar direito a carroça. Correu ao encontro da vó, que estava mexendo em sua horta.


— Vovó! Eu estava morrendo de saudade da senhora. Achei até que eu ia espocar de tanta saudade.

— Espocar? Mas isso não pode, hein. Que vovó malvada, essa sua.— falou Elizirna dando uma piscadela e apertando carinhosamente a bochecha corada do neto.

— Você está tão fofo e corado que parece um desses rabanetes.

Quando a avó falou isso, Dimitri ficou mesmo quase tão vermelho quanto um rabanete.

— Vovó, tenho uma coisa importante pra lhe mostrar e outra coisa mais curiosa ainda para lhe dizer.

— Nossa! Agora eu que vou espocar de tanta curiosidade.

Ambos caíram na gargalhada. A mulher idosa olhava o netinho com uma expressão tão terna e cheia de satisfação, que o sol que estava se pondo detrás das montanhas, parecia que acabara de nascer nos seus olhos. Ela rejuvenesceu dez anos, contemplando a alegria no rosto infantil.


— Vamos, meu amor! Ainda não falei com tua mãe. Mas fiquei ansiosa pelas coisas interessantes que você tem pra me contar.

Estavam todos à mesa, durante o jantar, quando Dona Rosalinda mostrou a torta que haviam feito mais cedo.

— Deixe-me provar dessa torta. Hum, o cheiro está maravilhoso. Eonde voçês conseguem maçãs tão cedo? O inverno acabou agora. Nossa! Que delícia de torta, Dorvalina! Tua mãe tá conseguindo fazer tortas tão boas quanto as minhas. Já já não vai precisar mais que eu as faça._ disse isso com um sorriso provocativo de canto de boca, enquanto olhava de esguelha para o netinho.

_ Ah, não vovó. Não é justo. Sua torta vem com uma pitadinha do seu tempero especial. A torta da mamãe tem o tempero especial dela.

_ E que tempero especial é esse?

_ Ora, o amor. Cada uma tem um amor diferente.

A vó não aguenta e derrete-se toda. Depois do jantar, Dorvalina foi pôr a pequena Jude para dormir. Então, vó e neto aproveitam para pôr as conversas em dia.

_ Vamos lá! Me conte aquilo que você tinha de tão especial pra mim. Não parei de pensar. Não tem algo a ver com essas maçãs fora de época, tem? Lembro-me de ter comido frutas temporãs tão gostosas só uma época da minha vida: quando meu tio-avô era vivo.

_ Vovó, tenho uma coisa pra lhe mostrar..._ falou enquanto tirava o livro do bolso e mostrava à avó.

_ Por Deus! Onde conseguiu isso, minha criança?

_ Na biblioteca da escola

_ A biblioteca de Haujan?

_ Sim. A senhora está chorando vovó?

_ Não é de tristeza querido. É uma lembrança muito feliz e antiga.

_ Quem foi o seu tio-avô?

_ Ah! Essa é uma história longa. E tem tudo a ver com as maçãs…

Os dois puderam passar a noite conversando, já que Dorvalina acabou adormecendo junto com a filhinha Jude. A anciã levou Dimitri a um passado esquecido cheio de acontecimentos remotos. Por fim, chegaram ao assunto do Domo. Dimitri relatou-lhe sobre todas as suas idas ao recanto secreto que o amiguinho esquilo lhe havia mostrado. Nessa parte, Elizirna já não consegue mais se conter e se desmonta em lágrimas.



_ Vovó, não chore, não. O que eu disse? Me perdoe! Eu não quis fazer nada por mal…

_ Não querido, não se preocupe. Não estou triste. Vou lhe explicar tudo…

Então, ela contou de um modo que ele pudesse entender. Enquanto ela narrava os fatos, Dimitri foi juntando as peças até tudo parecer perfeitamente lógico, o Domo, a plantinha azul, o livro, o urso com a cara azul e o adeus precoce de seu saudoso pai. Embora, já fosse quase meia-noite, Dimitri estava mais acordado do que se esperava. Até o menininho fez carinha de choro quando percebeu a expectativa que se apresentava.

_ Mas não diga nada à sua mãe, tá bom. Pelo menos até confirmarmos nossas suspeitas. Acho que é bom irmos deitar.

_ Obrigado vovó, por ainda estar comigo.

A vó lhe dá um beijo, ainda úmido pelas lágrimas. Em seguida, recolhem-se ao interior quentinho da cabana. Dorvalina já roncava a sono alto.

No inicio do dia, uma neblina tênue resumia bem aquela manhã fria. No entanto, o sol apressou-se em tingir de dourado a paisagem que ainda espriguiçava-se. Dorvalina foi a primeira a se levantar, preparou o café e fez panquecas com algumas frutas do domo e um pouco de mel. Passava das nove horas, quando Dimitri apareceu ainda sonolento e bocejando. Sua avó despertou antes, já habituada com a rotineira labuta.


— Que horas vocês foram dormir ontem? Acho que acabei pegando no sono, mas não lembro de nada.— perginta Dorvalina.— —Esse que o sono bom. Nós conversamos um pouco depois que você foi colocar Jude pra dormir. Acho que eram... quanto mesmo, Dimitri? Umas 10:20?— responde Elizirna, reduzindo um pouco o horário.

— Sei lá vovó. Opa, desculpa mamãe! É que essa panqueca está boa demais. — comenta Dimitri, limpando o pedaço que caiu-lhe da boca.

— Eu fiz com o resto daquelas frutas que você me trouxe.

No mesmo instante, o menino põe a mão no bolso, à procura das frutinhas que ele sabia que deviam estar ali. Tentou disfarçar o alívio, mas sua mãe notou o suficiente para formular na cabeça uma pergunta que já devia ter feito.


— Dimitri, onde é mesmo que você consegue tanta fruta?

— Ora, deixe disse comadre. O pobrezinho não iria entrar no quintal de ninguém. Acho que puxou ao juízo da mãe. Porque o pai tinha o jeito selvagem e travesso da mãe dele.

Elizirna sabia que o devido elogio e a menção do marido fariam Dorvalina desviar a atenção.

— Bem, comadre, não me acho tão ajuizada assim. E a comadre não é nada selvagem. Quanto as travessuras do Tino... ah, sei lá, acho que era isso que eu tanto gostava nele. Dimitri é mesmo um pouco diferente dele nesse ponto.

Elizirna conseguiu mudar eficazmente o rumo da conversa. As duas já estavam trocando dicas de costura e bordado, quando Dimitri saiu para a horta. Depois do almoço, começaram a aprontar a partida. Elizirna, então anunciou que também iria com eles, pegando Dorvalina de surpresa.

— Nossa! Que notícia repentina. Faz quanto tempo que a comadre não vai a Haujan?

— Não posso ficar fugindo da realidade. Quanto mais cedo aceitar, melhor. Além do mais, faz tempo que não vejo minhas velhas amigas.

Velhas mesmo. As amigas de Elizirna, ou eram mesmo de mais idade ou a constante labuta diária de dona de casa as desgastou mais depressa. Mas não eram velhas tagarelas ou bisbilhoteiras como Dona Carlota, a esposa do leiteiro.

Na volta, estavam os quatro passageiros, contando com Dorvalina que conduzia, cantando alto e alegramente. Quando estavam quase chegando, fazendo a curva para a entrada do sítio onde moravam, Hugo aparece junto de algumas que apascentava.

— Ora, ora, vejam só, se não é a comadre Elizirna... Venha cá, deixe-me dar um abraço. Quanto tempo, hein? Tua amiga vai ficar feliz em saber, quando eu chegar em casa. Eu até quase ia esquecendo o que vim falar... Ah, sim, lembrei. As comadres lembram daquela história do urso da cara azul? Pois é, acabei de ver ele vindo lá das bandas das Matas Altas.

A expressão que Dorvalina fez só não se comparava à cara petrificada que Elizirna estampou. Dimitri desceu de um salto a carroça e saiu disparado rumo ao lugar que Hugo indicou.


— Menino, aonde tu vai? Meu Deus! O que foi isso tido mesmo? Algo está acontecendo que eu não sei? Comadre, você está bem? Tua mão está gelada. Compadre, me ajude aqui, por favor! Aonde esse menino foi se meter desse jeito?

— Ele foi ao Domo, Dorva. — pronunciou-se, enfim, Elizirna.

— 'Domo'?— disseram os outros dois.

— Sim. É onde Dimitri colhe as frutas.

— Você sabia disso tudo? E esse urso da cara azul? Eu não estou entendendo nada comadre. E meu filho está indo pra onde esse urso está?

Dorvalina fez a última pergunta já com a voz embargada e se agarrando à carroça para não cair. Mas Elizirna, entre lágrimas que já rolavam pela face, explicou-lhes enquanto se dirigiam ao lugar. Compadre Hugo foi junto, montado em seu cavalo e tendo emprestado outro para as duas mulheres. A pequena Jude ficou com sua esposa. Depois de meia hora de caminhada no meio da mata, e sempre subindo, todos chegam em um regato estreito cercado de espinheiros e velhos olmos. O grupo desce das montarias e seguem a pé através do leito do riacho. Era um leito fundo, embora tivesse apenas um filete d'água correndo por ele.

— Eu não lembro desse riacho.— admitiu compadre Hugo.

Chegaram em um ponto que era quase impossível passar de pé, mesmo arqueados. Dobraram em uma valeta que bifurcava do riacho, até chegarem em um fosso fundo que descia por debaixo de um enorme barranco. Todos foram engatinhando, mas não se sujaram, pois o chão era coberto de turfa macia e folhas secas.


— Quem fez isso? Isso não pode ser coisa de um animal...— Dorvalina ainda estava falando quando viu Dimitri à sua frente. O menino estava chorando, mas irradiava uma euforia tão grande que assustou a todos. Nada do que ele estava dizendo fez sentido a Hugo e Dorvalina. Só a atitude Elizirna estava compatível com a excitação do garoto. Ela soluçava à medida que avançavam no túnel. Dorvalina repetia direto que estava apavorada de encontrar com um urso.

— O que tu irás encontrar, te deixará mais estarrecida que um urso. — conseguir dizer Elizirna, em meio ao choro.

Ela terminou de dizer isso, quando a luz evidenciava o fim do túnel. Estavam em um círculo espaçoso e abobadado, repleto de ervas, flores e plantas frutíferas. Dorvalina mal recuperou-se do aviso que a outra acabara de dar, e ali na sua frente, recortado por ramagens, estava seu marido, com o pequeno Dimitri nos braços. Foi a última coisa de que se lembra antes do desmaio. Quando acordou, estava prestes a desmair novamente, quando viu dois ursos à sua frente, um deles com a cara toda azul.

— Vamos querida, não precisa ter medo! Hugg e Buggo são amigos.— confortou-lhe o marido. Elizirna não parava de chorramingar, agarrada ao braço do filho como se fosse uma criança de cinco anos. O pequeno Dimitri estava escanchado nos ombros do pai. O pobre Hugo já estava com as emoções normalizadas, mas não parava de olhar para os ursos.


— Como? O que foi que aconteceu Tino? E esses ursos? Misericórdia! Ai, meu Deus, minha cabeça está rodando. Dimitri, sai de cima desse urso, meu filho...

Albertino, explanou tudo, calma e detalhadamente. A fruta azul havia sido trazida de outro planeta, em épocas remotas, pelo tio-avô de Elizirna, que também foi um dos fundadores de Haujan. A fruta tinha propriedades de alterar a forma de seres humanos, mas não tinha esse mesmo efeito nos animais, mas alterava apenas a cor de algumas partes do corpo, como pêlos, chifres ou olhos, podendo variar dependendo da espécie. Albertino comeu da fruta e encolheu de tamanho, ficando reduzido a medidas microscópicas. Desse tamanho, ele acabou ficando preso na fenda que havia no alto da ribanceira. Mas disso antes os ursos apareceram, ele ficou com medo e tentou afugentá-los com as frutas, tingindo suas caras de azul. Entretanto a cor da pelagem não devia-se apenas ao sumo da fruto, ele de fato teve os pêlos da cabeça modificados para azul. Esse efeito, no entanto, como dizia o livro, só durava alguns dias em bichos, variando no caso de humanos. A erva não produzia flores com frequência. Mas eram elas que produziam o efeito inverso, trazendo a pessoa ao seu tamanho normal.

— E o que tudo tem a ver com esse tal livro?— perguntou Dorvalina, já conformada.

— O livro fui eu que escrevi, depois de estudas as propriedades da planta e seus efeitos.— responde Elizirna, que parara de chorar, mas ainda apertava e alisava o filho com carinho.

— Acho bom todos irmos de volta pra casa tomar um bom café. Vou enviar Timóteo à vila, pra dar a notícia a todos e convidá-los pra virem ver o compadre Tino.— sugeriu Hugo.

O dia, por fim, encerrou desse jeito, com os amigos de Tino e as amigas de Elizirna reunidos em volta do homem que todos julgavam morto. Havia muitos bolos e tortas, feitos obviamente pelos frutos do Domo, menos a fruta azul, é claro. Dimitri estava sentado na janela, com o esquilo Town em seu colo, recebendo algumas migalhas de bolo que o menino lhe dava.

— Dimitri, posso mudar meu nome para Dimi?— pergunta o esquilinho.


— Por que você quer mudar de nome? E por que esse?

— Minha dona chamava-se Townessi. É um costume antigo de onde eu vim. Quando adotados, os bichinhos de estimação passam a ser como almas gêmeas, e por isso costumam receber as iniciais do humano que nos adota.

— Nossa! Isso é tão diferente. Mas eu gostei. Você será minha alma irmã, então, Dimi.

O garoto então vira-se para o pai e pergunta:

— Papai, e onde o senhor esteve e o que fez durante esse tempo em que estava preso na fenda?

Mas isso é tema pra uma outra história...






28 de Janeiro de 2022 às 20:05 0 Denunciar Insira Seguir história
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